Encontro Regional da ABEM/2008 - UNB/MUS
Mesa de Discussões - Música Popular e Educação Musical
Prof.ª Dr.ª
Mércia Pinto
Começo
minha apresentação com palavras de Philip Tagg, na 2ª Conferência da IASPM, em
1983, na Itália.
Eu não espero que todos concordem comigo com a
delimitação do termo que tenho afirmado em outras ocasiões. Entretanto,
deixem-me considerar Música Popular como sendo toda aquela música
tradicionalmente excluída dos conservatórios, escolas de músicas, departamentos
de musicologia. E mais; excluída dos reinos da educação e do financiamento
público do mundo capitalista. Este estado de coisas é a razão para a criação da
IASPM. De certo modo, “popular” é um caminho curto de dizer “tradicionalmente
excluída”[1].
Como vemos,
as barreiras que impediram o estudo das músicas populares em escolas e
academias são antigas e criadas por concepções de consenso universal. Pela sua
simplicidade frente à música de concerto é considerada inferior e vista como
produto degradado pela produção e circulação em larga escala. É também acusada
de ser musicalmente redundante e homogeneizada para conseguir sucesso imediato.
De menor importância, por ser manipulada pelas mídias. Tentando explicar melhor
as razões dessa exclusão de que fala Tagg, faço um ligeiro retrocesso aos
séculos XVIII e XIX, quando a visão iluminista promovida por uma elite cultural
tentou reformar as artes criando imagens para uma sociedade melhor e mais
humana, que emergia com o progresso das ciências e da tecnologia. Adotando
ideias que se tornaram fundamentais para o pensamento ocidental, no campo das
artes elas tendem a explicar padrões de bom gosto e critérios de excelência
artística. Nesta visão, as pessoas deveriam ser educadas para apreciar a
contribuição dessa elite à sociedade (da qual os artistas fazem parte). Nesse
sentido, só alguns objetos poderiam reivindicar serem obras de arte e apenas
algumas pessoas com habilidades específicas eram autorizadas a serem chamadas
de artistas, orientação que teve como consequência o isolamento das artes do
resto da sociedade, transformando-as num projeto elitista que privilegiava a
apreciação de coisas exclusivas. No campo da música estabelece-se aos poucos a
ideia de que o fazer musical era do domínio de especialistas apropriadamente
qualificados em instituições de ensino formal e que dominavam os códigos de sua
escrita específica. Em seu artigo sobre
a cantoria nordestina, a Dr.ª Elba Ramalho (2003) discute muito bem essa
ligação da música com a literatura, mostrando aspectos como o uso das letras do
alfabeto grego ou as primeiras sílabas latinas dos versos do hino a São João
para fixar, no século XI, o nome das notas. Os acentos da gramática latina;
agudo, grave e circunflexo para indicar a consolidação do movimento melódico
são sinais que ligam a teoria da música
à literatura. Temos também o ritmo musical que toma empréstimo do sistema de
pés métricos da poesia grega ou regras de acentuação prosódica da poesia latina
para representar espacialmente as relações métricas do movimento melódico e a
rima poética que é introduzida no canto gregoriano, dando nascimento às
primeiras formas musicais (os tropos e as sequências). Ramalho lembra também
que no século XVII a doutrina dos afetos é fundamentada na retórica que revive
na ópera a antiga tradição de falar cantando. Mas no fim do século XIX, a
corrosão dos mecanismos de explicação do conhecimento e as delimitações
clássicas dos campos científicos entram em crise, desordenam-se, e as ciências
sociais se propõem a expor os pressupostos objetivos que nos permitem falar de
uma transformação radical na maneira como o saber é produzido, distribuído e –
principalmente – legitimado. O simulacro da utopia que
imaginava um desenvolvimento ascendente e coeso para a humanidade é rompido.
Trazendo nosso raciocínio para o campo das escolas de música pode-se afirmar
que ensino formal é cada vez mais confinado pela experiência musical dos
alunos, que é calcada na variedade estilística disponível através dos meios
eletrônicos. Fomentadas pela cultura de massas e fora dos muros de escolas e
academias outras músicas se desenvolvem num universo não letrado, entre grupos
imersos na oralidade. Trata-se de um setor cada vez mais disseminado de
criação, difusão e percepção da realidade, que se realiza de modo virtual e
cosmopolita. Cruzando-se culturalmente com a indústria de massa, tem
incorporado novos processos de significação. Observe-se como hoje um grande
número de pessoas está desenvolvendo sua inteligência e moldando seu imaginário
por meio de uma cultura de imagens e de sons, não pelo texto escrito. Não
podemos negar que os principais meios de acesso a bens culturais estão ligados
à eletrônica. A grande quantidade de televisores nos lares, bares,
consultórios, escolas e ônibus é maior que o número de cidadãos alfabetizados.
Isso sem contar com a crescente popularidade dos jogos eletrônicos, da TV a
cabo e da internet. São esses meios que têm organizado nossos hábitos culturais
e transformado nossa sensibilidade. Trata-se de uma forma de sentir, entender e
agir no mundo, podendo-se mesmo falar de um novo tipo de oralidade estruturada
pela televisão, pelo cinema e pelos computadores, a configurar parte da
sociedade pós-moderna. São pessoas que têm no ouvir e no olhar exterior a fonte
única de informação, formação de valores conhecimentos e comportamento a serem
imitados. Para o homem urbano, que lê pouco, ouve, vê e fala muito, são os sons
das falas e das imagens que se fundem na construção de sua subjetividade.
Mergulhado no universo das mídias eletrônicas, analfabeto, semianalfabeto ou
mesmo alfabetizado, ele não tem em sua história a marca da escrita e da
leitura. Elas são apenas ferramentas operativas e funcionais sem o objetivo de
reflexão ou criação, servindo apenas para a instrução e o conhecimento de
diretrizes, para ler avisos, indicações urbanas ou burocráticas. Estamos frente
ao posicionamento definitivo de que o som gravado como veículo de comunicação
também tem redefinido a tradição musical. A gravação em diferentes pistas
permite armar e desarmar o tecido da música e com isso as implicações
analíticas e performáticas desse fazer. Deste modo, a midiatização da música
junto a constituir-se um substituto da escrita como comunicação e preservação
da obra o tem feito enquanto estratégia analítica e prática compositiva, permitindo
às músicas populares grande parte do seu desenvolvimento. Hoje, são os estúdios
de gravação o espaço criativo da música, portanto, está ameaçada a visão
ideológica de que o fazer musical confina a formação musical ao domínio
exclusivo de um determinado tipo de espaço e de expressão musical. Provocada
pelo impacto das transformações tecnológicas, a tese das narrativas desse
apregoado progresso iluminista começa a se desgastar e somos obrigados a
admitir que a orientação da Era Moderna
não teve sucesso em construir uma visão da realidade que tivesse significado
para um grande número de pessoas. Sua estética fracassa também ao captar um
mundo cada vez mais confuso e um indivíduo cada vez mais fragmentado, deixando
um fosso entre a arte e a realidade. Apesar de todas essas mudanças na vida
musical, a academia tem tardado mais que desejado fazer-se presente neste novo
estado de coisas.
A formação
do educador musical, na sua maioria, ainda se mantém à margem dos fatos
musicais, assim como do meio social em suas manifestações musicais. Seu campo
de ação se basta e se move dentro dos
estreitos limites da música culta europeia ou ocidental, compreendida entre os
séculos XVII e XIX. Enquanto isso, o mercado de trabalho para músicos,
especialmente no Brasil, tem suscitado nas universidades o aprendizado das
convenções musicais e tecnológicas de produção da Música Popular, jingles,
trilhas sonoras etc. Tudo aponta para a inadequação dos currículos e exige
formação docente para atender tais expectativas.
Convido-os
agora a valorizar alguns momentos que marcaram as preocupações de professores e
pesquisadores com relação aos estudos de Música Popular nos últimos 40 anos. A
primeira tentativa de introduzir o estudo de uma expressão musical urbana na
academia se deu nos EEUU em 1966, quando Charles Keil defendeu uma tese sobre
os blues dos guetos de Chicago. Alguns anos mais tarde, em 1973, a
revista Ethnomusicology acolhe o
artigo de Gérard Béhague “Bossa & Bossas: recentes mudanças na música
popular brasileira urbana”[2].
Era o sinal de que o campo da musicologia, especialmente o da etnomusicologia,
começava a ser redefinido por novos interesses. O número de pesquisas devotadas
ao assunto cresceu e inspirou em 1981 a criação na Inglaterra do periódico Popular Music (editado pela Cambridge
University Press), tornando-se até hoje referência na área.
No mesmo
ano, musicólogos e educadores preocupados com a distância que marcava os
interesses musicais de estudantes e a preparação e a ideologia dos professores
criava a Associação Internacional para o
Estudo da Música Popular (International Association for the Study of
Popular Music (IASPM)), com o objetivo de introduzir o estudo da Música Popular
no currículo acadêmico dos cursos de música.
Daí para
cá, congressos e encontros em diferentes países (Holanda,Itália, Canadá, Gana,
França, Alemanha, Escócia) marcam a agenda da IASPM e chamam a atenção de
especialistas para o enorme campo que se abre em torno do estudo das músicas
populares. Em 1995 foi criada a IASPM Latino-americana, com encontros em
Santiago (1997), Bogotá (2000) México (2002), Rio de Janeiro (2204) e novamente
no México (2006) etc.
O
reconhecimento de que, nesse continente, estudar Música Popular significa
aceitar o desafio de que ela aparece imbricada pelas músicas locais
tradicionais é debate constante nos encontros. O avanço da cibernética também
nos obriga a entender que esse campo de estudos está sendo continuamente
redefinido pelas diferentes práticas de representação que o habitam, o
administram e o usam. Aprendemos que interesses comerciais, políticos e
acadêmicos se disputam num campo em permanente mobilidade, produzindo uma
confluência de interfaces disciplinares maior que qualquer outra área de
estudo. Usando as palavras de Juan Pablo, então presidente da entidade
latino-americana, pode-se dizer que a Música Popular como área de estudo
aprendeu a conviver com a interdisciplinaridade, gerando modelos analíticos com
inspiração no marxismo e nos estudos culturais (Shepherd: 1982), na sociologia
musical, na semiótica (Tagg: 1982 e Tatit: 1986) ou integradoras (Middleton:
1990), entre várias teorias. Em todos, as Músicas Populares têm sido pensadas
como campo de negociação de múltiplos significados étnicos, de gênero, geração,
classe social, identidades (Gonzalez:2001).
Dirigindo
nossa atenção para a realidade brasileira, em 1980 o próprio Gerard Béhague, em
seu artigo “Música Popular Urbana: da Bossa Nova à tropicália” (Journal of
Popular Culture) apontava a falha dos musicólogos brasileiros em ignorar a pesquisa
nesse campo. Até então, a bibliografia sobre o assunto limitava-se a estudos
empíricos, narrativas biográficas e factuais, histórias sínteses de períodos,
gêneros, movimentos etc. Anotamos aqui os brilhantes estudos monográficos sobre
vidas de compositores, História da Música Popular, ou focados em um período,
efetuados por Ary Vasconcelos, José Ramos Tinhorão, Hermínio Bello de Carvalho,
Sérgio Cabral, entre outros. Isso para não falar dos inúmeros livros sobre
música popular local que circulam como raridades nos sebos do Brasil ou nas
cidades de origem. Nessa época, as pesquisas associadas a dissertações e teses
de pós-graduação ainda eram frutos de cursos de literatura, sociologia,
antropologia, comunicação, história e linguística. Mesmo carecendo de uma
abordagem propriamente musical, o material produzido apontava para os
musicólogos a complexidade estética. ideológica e cultural do assunto.
Hoje, em
muitos departamentos de músicas existem programas de pós-graduação com
significativa produção voltada para o estudo da Música Popular. Martha Ulhoa,
foi uma das primeiras a se doutorar com tese sobre o assunto. Fixou-se na
UNIRIO, onde mantém intensa atividade de ensino e pesquisa do assunto.
Elizabeth Lucas (1992), professora na UFRGS, afirma que parte desse fenômeno se
deve aos estudos das primeiras gerações de musicólogos como Mário de Andrade e
Renato de Almeida, que amparados pela ideologia do nacionalismo e sua vertente
romântico-folclorista dirigiram seus olhares para a música folclórica por considerá-la
portadora de valores culturais autênticos, logo, merecedora de atenção. Houve,
pois, uma espécie de migração dos interesses em estudar o tema, transferindo-o
para as ciências sociais e para a literatura.
Talvez seja
interessante ver, nesse ponto, como Philip Tagg interpreta alguns estudiosos
que entendiam a música de tradição rural como mais autêntica. Em 1985, no mesmo
congresso da IASPM na Itália, ele afirmou:
Na época da Segunda Guerra Mundial, as instituições
públicas burguesas da maioria dos países capitalistas tinham incorporado o iluminismo e seus paradigmas
de individualismo: o grande compositor e artista, certificando o mesmo do seu
alto grau de honorabilidade, legitima através de subvenções públicas e privadas
o estudo de sua produção. Com as diversas fases da industrialização, as
comunidades rurais se desintegram, transformando-se em proletariado urbano.
Nesse contexto, a música folclórica podia seguramente ser legitimada como campo
de estudo nas academias, visto que sua realidade musical estava portanto
moribunda ou realmente extinta. A música do povo poderia estar ali presente até
o ponto em que sua dinâmica sociocultural não significava mais uma ameaça. Este
processo é particularmente claro no caso das manifestações do jazz, que caiu nas
mãos dos mais inteligentes oportunistas da cultura, vultos de conservatórios e
colégios de música, tão logo suas raízes e em particular sua base proletária já
estava moribunda ou morta[3].
Mas no
Brasil, para nosso bem, as áreas que acolheram os estudos de música
popular trouxeram para os musicólogos a
problemática da superação das dicotomias musica/sociedade, música/poesia,
música/cultura, pois hoje aparecem como preocupação constante junto aos autores
que procuraram desenvolver um enfoque interdisciplinar, resgatando a reflexão
teórica e o conhecimento gerado por especialistas de outras disciplinas,
articulando-as como modelos troncos àquelas inerentes às Músicas Populares.
Todos nós sabemos que as políticas culturais que até pouco tempo eram
concebidas como conservação e administração de patrimônio histórico, definidas
pelo Estado, enfrentam hoje sua dissolução e o reposicionamento diante dos
avanços dos meios de comunicação. Os cruzamentos culturais e a indústria do
simbólico têm abarcado processos de significação em que o social é narrado de
maneira diversa daquelas centradas na preservação de patrimônios monumentais ou
folclóricos.
Fica ainda
pendente uma questão: não são essas dicotomias, nem sua estética, nem as
escalas de valores entre o popular e o erudito, mas sim a existência de uma
enormidade de músicas populares que instigam os pesquisadores a criar modelos
analíticos que possam
dar conta
de suas especificidades como código musical culturalmente construído.
Voltando ao
início da apresentação, lembro agora um detalhe importante: a criação da IASPM
foi feita por educadores (Philipp Tagg, Peter Wicke, Franco Fabri, Paolo Prato
entre outros) preocupados com o aprendizado de seus alunos. Na sua lógica
muitas vezes surpreendente, Philip Tagg, um de seus fundadores, se encarregava
de justificar o estudo acadêmico dessa manifestação pelo seu simples
imbricamento com a economia, com a quantidade de tempo e de dinheiro investido
nela pela indústria do entretenimento. Evidenciava seu papel formador das identidades
juvenis. E foi mais além, colocando a massificação e a mediatização das músicas
de tradição rural, atacando assim as ilusões narcísicas de intelectuais que
teimavam em salvaguardar as músicas de tradição rural, separando-as do ambiente
infectado das sociedades urbanas. Acrescentava também razões para a união de
professores e pesquisadores abraçarem o novo campo: as novas funções musicais
aparecidas em contato com meios audiovisuais, a universalização da música
popular afro-americana, a ausência da produção de música de concerto em geral e
a aparição dos acadêmicos fanáticos que, motivados pela vivência com a música
popular quando jovens, faziam dela seu foco de interesse acadêmico. Afirmo,
aqui, que Tagg fala em causa própria, porque era (e ainda é) um deles.
Uma outra
razão seria o fato de, no século XX, a música de concerto ter cedido
considerável espaço para as músicas populares. Esta música tem-se convertido em
objeto raro. Tão raro que não chegamos a estar informados acerca do que ocorre
no campo da criação musical do nosso próprio tempo, em ter uma visão comparada
verdadeira do que acontece nas atividades dos diferentes compositores do nosso
próprio país. Não podemos escutar facilmente boas versões da produção musical
de um compositor como Varèse que cabe inteira dentro de dois CDs. As de Webern
entram em 3 CDs. Não temos sequer gravações da maioria dos compositores jovens
brasileiros. Dessa maneira, a relevância social, o valor estético e a
necessidade de uma perspectiva crítica justificam plenamente o estudo da Música
Popular nas academias. A voz entre estudantes universitários é geral.
Analisando os cursos de música da UNIRIO, Elizabeth Travassos, aqui presente,
anota, entre outras queixas, a reivindicação de reconhecimento da Música
Popular formulada pelos alunos[4].
A matéria que circulou primeiramente como comunicação em congresso foi
publicada depois, em 1999, na revista “Horizontes Antropológicos” da UFRGS. A
relevância de uma música pela qual se constroem sentidos de realidade em
milhões de ouvintes de forma simultânea, o valor estético de um repertório no
qual a América Latina, e nesta o Brasil, tem realizado aportes fundamentais
para o patrimônio musical do Ocidente e a necessidade de construir uma
perspectiva informada e crítica frente à torrente sonora que nos rodeia são
razões mais que suficientes para que ela seja objeto de estudo nos cursos de
música. Ela é, no mínimo, testemunho, fonte diversificada da experiência de
criar, refletir e fazer música.
Da exclusão
à aceitação e à inclusão ou à implantação, vemos hoje uma onda de interesse no
estudo das Músicas Populares por parte dos educadores, não? Espero que não seja
como a onda do Método Orff, ou do Willems e depois do ensino da improvisação
que dominou o cenário da musicalização alguns anos atrás. Sem dúvida, a Música
Popular pode e deve ser usada na escola, mas isso depende da cada professor e
de cada situação. Empenhando-se em sensibilizar esteticamente o aluno e em
aumentar sua percepção, terá com certeza uma ajuda fundamental no seu repertório.
Sua vitalidade social, sua condição de expressão da sociedade e sua incidência
cultural, econômica e política podem solicitar a atenção do aluno para seu
cotidiano, para a sociedade em que vive, ajudando-o a enfrentar com inteligência
os aspectos perniciosos da comercialização da música. Pode influir e dirigir o
gosto do educando, impedindo-o de alienar-se do meio em que vive. Mas qual
seria o caminho para a incorporação das Músicas Populares em escolas e
academias? E para a educação musical em particular? O que queremos agora, já
que a música foi incluída como matéria obrigatória nas escolas? Educar
musicalmente usando material da Música Popular ou educar musicalmente para a
criação da Música Popular? Mapear manifestações já existentes como caminho para
melhorar a presente situação? Procurar recursos materiais para sustentar ações
e prover escolas e departamentos de música com material bibliográfico,
discográfico e filmográfico sobre o assunto? Querem implantar projetos de
pesquisa? Estudos de pós-graduação? Um curso de graduação em Música Popular?
Como, então, dominar tecnicamente a imensa variedade de músicas populares
existentes? Parece-me que, na visão de Tagg, não se justificaria o ensino da
Música Popular na academia quando limitado a um ou dois estilos. Todas essas
questões devem ser objetos de reflexão entre os que pensam em trabalhar com
Músicas Populares. Em minha opinião, talvez fosse mais razoável começar
incluindo a Música Brasileira e a Sul-americana de tradição rural e de tradição
urbana como matéria obrigatória nos cursos de graduação, incentivando projetos
de pesquisa que pelos resultados imponham o campo de estudos nos departamentos
de música.
A questão
que parece fundamental para o professor de música é a convicção de que a
experiência musical é importante e valiosa para o ser humano, de que ela
acontece quando indivíduos fazem e tomam a música como significativa e
relevante para eles. É a certeza de que a sensibilização do espírito deve ser o
alvo de toda formação, e que a música é apenas um dos orifícios por onde
podemos ver, ouvir e sentir o mundo. Em seguida, a certeza de não haver
confusão sobre o que nós entendemos como música. Não existe segmentação nem
eleição de valores entre música para crianças, para jovens, para adultos, de
concerto, popular, ambiente, rural ou urbana: o que existe é música com
significado. O problema do uso da Música Popular na Educação Musical está no
filtro que a escola, por seus professores, submete à sociedade e especialmente
a seus alunos. Por não saberem lidar com o assunto, eles afetam sua
originalidade e seu valor tomando como base de aprendizagem somente alguns de
seus aspectos. Nem só de letra e melodia a música vive. Tempo, harmonia,
arranjo, instrumental, emissão vocal, timbres, são parte de um todo. Isso sem falar no contexto em que ela foi
produzida. Usar Música Popular na sala de aula não é só fazer ou interpretar
arranjos de músicas famosas, transferindo linhas instrumentais para vocais e
vice-versa, anexando solos à maneira gospel, uníssonos para uma grande massa de
executantes ou sofisticados arranjos para piano, respaldando a composição com
vocalizes em contracanto. Isso Ray Coniff já o fez brilhantemente há algumas
décadas, “eruditizando” o repertório popular e popularizando o de concerto em
performances magníficas. Continuando, não basta usar exemplos de peças do
repertório popular como exercícios de percepção ou de análise harmônica, no
lugar dos exercícios dos tratados de Hindemith, Piston ou Korsakov. Não é aqui
e acolá incluir, ou melhor, permitir nos recitais, exemplos de chorinhos,
mostrando uma falsa sensibilidade para manifestações fora dos meios ditos
“eruditos”. A solução, me parece, está numa mudança de mentalidade dos docentes
e futuros profissionais. Não basta que se tenha vontade e iniciativa para
trabalhar com o repertório da música popular . É necessário que se veja essa
música e suas formas de compor e interpretar com olhos próprios, não com olhos
de outras músicas, porque elas veiculam naturezas e significados diferentes. Há
exigência de formação para tal, e isso só se consegue com atualização
permanente dos docentes, pois aprender e ensinar é um processo único de
construção conjunta, ação mútua, desejo pessoal de conhecer o desconhecido. E mais, como explica Rancière (2002. p 84), é preciso ter vontade, atenção
e reflexão para produzir um ato intelectual ou aprender algo. É tarefa que exige constante procura, tentativas, repetições, imitações, traduções. decomposições, recomposições e relacionar as coisas umas com as outras.
e reflexão para produzir um ato intelectual ou aprender algo. É tarefa que exige constante procura, tentativas, repetições, imitações, traduções. decomposições, recomposições e relacionar as coisas umas com as outras.
Agradeço-lhes a atenção que me dedicaram. Espero que, se nada falei de novo, que tenha
pelo menos reafirmado e fixado em vossas mentes o que já foi pensado por outros.
Referências
Aharonian, Coriún. Educatión, Arte, Musica. Uruguay:
Editora Tacuabé. 2004.
González, Juan Pablo. “Musicologia Popular em
América latina: síntesis de sus logros, problemas y desafios” Revista Musical
Chilena. Jenero-junio. (2001): 38-64.
Lucas, Elizabeth. “Música popular à porta ou
aporta na academia?” Em Pauta-Revista do Curso de Pós-graduação da UFRGSul, (1992): 4 a 11.
Pinto, Mércia “Rap: gênero popular da
pós-modernidade”. O Público e o Privado- Revista do Curso de Pós-graduação em Políticas Públicas da
UECE. Ano 1, nº 2 julho/dezembro. (2003):117-128.
Ramalho, Elba. “Música: uma aventura
entre o oral e o escrito”. O Público e o Privado. Revista do curso de
Pós-graduação em Políticas Públicas da UECE. Ano
1 nº 2 julho-dezembro. (2003): 21 a 28.
Rancière, Jacques. "O Mestre Ignorante - Cinco lições sobre a emancipação intelectual". Editora Autêntica. 2002.
Rancière, Jacques. "O Mestre Ignorante - Cinco lições sobre a emancipação intelectual". Editora Autêntica. 2002.
Tagg, Philip. “Why IASPM? Which Tasks?” Popular Music
perspectives 2. Papers from the second International Conference on Popular
Music Studies. (1985) : 505-507.
Travassos, Elizabeth. “Redesenhando
as fronteiras do gosto: estudantes de música e diversidade musical”, Horizontes
Antropológicos. Porto Alegre, ano 5, nº 11, outubro de. p. 119-144. 1999.
Nenhum comentário:
Postar um comentário