I
Quando a campainha tocou, eu começava a arrumar a sala.
Pensei em não atender, mas um aluno poderia ter esquecido algo... Olhei pelo
olho mágico da porta mas a luz avermelhada do poente entrava pelas frestas dos
combogós das escadarias do prédio e só me deixava avistar uma silhueta inquieta, no vestíbulo de espera do apartamento. Abri a porta e a luz da sala iluminou a
figura que esfregava incessantemente as mãos uma contra a outra. Não quis
entrar. Olhava em várias direções, menos pra mim. Ensaiou palavras que não
expressavam os motivos da visita. Depois, de sua fisionomia rígida veio algo que
fazia sentido.
– Olha, quero te dizer que estou indo embora amanhã para o
Rio de Janeiro.
Que bom! O que vai fazer lá? Quando volta, disse-lhe tentando disfarçar minha surpresa. Queria saber se era a passeio ou se era apenas uma
temporada pra conhecer melhor o ambiente artístico e mostrar suas músicas! Ele
respondia com monossílabos, de modo incompreensível, como se eu estivesse lhe
incomodando. Entendi ser a decisão, um assunto que não queria partilhar. Na
tentativa de descontraí-lo, joguei minhas palavras para o campo da brincadeira, juntando trechos de canções de amigos e comecei a cantarolar.
Amanhã, se der o carneiro, você vai embora pro Rio de
Janeiro. Vai sair do oco do mundo! Vai abrir porteiras, varar cancelas. Olha
lá! Será que esse caminho é certo? Sem perigo fatal?
Petrúcio permanecia reticente, esfregando as mãos,
trincando as mandíbulas, repuxando os músculos do pescoço. Depois de várias
frases soltas, entendi que arrumara uma licença do emprego do INPS, que sua
partida seria definitiva e que tentaria viver de música na metrópole. Colocando otimismo na
minha incredulidade quanto a seus intentos, pensei: quem sabe o ambiente
musical de lá será melhor pra ele?
Na confusão que tomava conta de mim, uma sensação se
destacava: a de ter sido enganada. Afinal, ele frequentava minha casa,
dividíamos conversas, parte de nossas vidas tinham-se passado no mesmo
ambiente. Tínhamos sido igualmente atingidos pelos fatos que tinham abalado o país desde a década de 60. Não
imaginava que tivesse preparado coisa tão definitiva assim, deixando para me
comunicar no fim da tarde, à véspera da viagem. Contive-me, pois diante do que
estava presenciando só deveria dizer que esperava que tudo desse certo.
Comentei levemente que de nossa geração ele seria o último do grupo dos músicos
cearenses a migrar para o Centro-sul, onde como dizia a canção, as coisas aconteciam.
Mais uma vez eu tentei mudar a atmosfera do nosso diálogo, porque o via tenso, pouco à vontade.
Ficamos calados olhando um para o outro, até que ele se aproximou mais e com
voz suave, quase sussurrando, perguntou:
– E agora, o
que é que tu vais fazer da tua vida?
Quase pulei pra trás, porque na nossa intensa
convivência nunca se aproximara tanto assim de mim, principalmente com aquele
tom de voz. Será que ouvi certo, perguntei-me assustada. Incapaz de reagir,
pensei: sento-me ou fico como estou? Engulo a seco ou tusso? Nunca
interferíamos nas decisões do outro, nossas palavras eram sempre claras e
sinceras. No momento, porém, tive impulso de dizer que minha vida não dependia
em nada da dele, para desmoronar assim com sua saída. Não, isso seria uma resposta
grosseira, e Petrúcio merecia uma reação mais educada. Responderia com um “não
entendo” ou “você se enganou”? Também não! Soaria como novela de rádio! Procurei
um procedimento mais adequado. A reação mais civilizada e cordial seria responder
com uma pergunta: “
"Como assim?” Ou então usaria a clássica assertiva de quando
somos flagrados em situação embaraçosa: “Não é nada disso que você está
pensando!”.
Qualquer das respostas que me ocorriam eu analisava e
desistia. Parecia hipócrita, descarada ou sentimental. Apesar de engraçada e
espontânea, sua abordagem era vaga e estava sujeita a muitas interpretações. Poderia
me precipitar e feri-lo. É claro, ele estava genuinamente preocupado comigo,
que morava sozinha, enfrentava dificuldades. Visitava-me frequentemente e sabia de tudo. Por fim, para que seu gesto não caísse no vazio, engendrei com minha boca
trêmula, palavras sem graça: _Ora, a vida segue, tenho minhas tarefas, minhas
preocupações.
A despedida foi ali mesmo na entrada do apartamento.
Ele de cabeça baixa, corpo encurvado, eu me apoiando no prumo da porta que me
dividia em dois lados: um dentro de casa e o outro à vista, até que ele
desapareceu escada abaixo.
II
A luminosidade natural do dia se apagava. Depois do trabalho
exaustivo, meu cansaço era tanto que o único desejo era desabar na cama. O encontro do fim da tarde não saia de meus pensamentos. Ah! não devo dar total crédito à decisão do meu amigo. Depois de
tantos anos de convívio, não acreditava que fosse passar muito tempo no Rio. Do
pouco que sabia, sua vida tinha sido resolvida sempre entre seus familiares. Era filho
temporão, as irmãs mais velhas sempre deram um jeito de apoiá-lo, protegê-lo,
mimá-lo. Não aguentaria perder seu reino, a cidade onde nascera e crescera, o
meio cultural que o reconhecia. Família por perto, roupa lavada e passada,
comida a tempo e a hora, além da proteção e do carinho dos colegas. Em mim
havia a certeza de que ele não teria condições de enfrentar tal aventura.
Relembrava que seus frequentes e inexplicáveis acessos de raiva nunca foram
suficientes para cometer atos tresloucados, e aquele não seria o primeiro. Não conseguia entender como se
abandonava emprego fixo, direitos adquiridos e ia-se rumo ao desconhecido sem
projeto, nem planejamento. Será que sentira receio de censura de minha parte?
De questioná-lo e desencantá-lo do intento? Sabia de minhas críticas a projetos
de amigos em comum. Exorcizávamos juntos, muitos dos males de nossa geração. Me perguntava quem estaria lhe apoiando nessa mudança.
Apesar de nunca ter me dito, percebia não
estar mais em tratamento, pois seu terapeuta tinha se mudado para o Rio Grande
do Sul. Algum músico lhe dera força? E como enfrentou os desgastantes
preparativos para a mudança, se recentemente eu tinha até lhe ajudado a montar
um apartamento próprio? E se tudo isso fosse de menor importância pra ele, quem
o acolheria na nova cidade nos primeiros dias? Com certeza não estava levando em
consideração seus hábitos noturnos, seus inúmeros rituais que poderiam criar
problemas de convivência. Não, não, não! A decisão não fora elaborada. Por que,
então, apesar de nossas longas conversas sobre música, ele nunca tinha manifestado o desejo de abandonar o emprego de sociólogo e profissionalizar-se como músico, migrando para o Rio de Janeiro? E se pensava, por que só tomara a decisão depois de
toda a onda migratória de músicos da cidade, sabendo que muitos até já tinham
voltado? Teria pelo menos conversado com eles para saber de suas experiências e
poder tomar melhores decisões? Ora, já era adulto e deveria saber que o
investimento numa carreira em busca da sobrevivência no campo da música popular
não era fácil. Exigia, na maioria das vezes, longos períodos de penúrias pessoais. Talvez estivesse superestimando seus talentos, suas possibilidades
como compositor e pianista e esquecendo outras tantas habilidades exigidas para
se impor como profissional da música popular, principalmente a maleabilidade de
produção com relação às demandas do mercado. E sobre suas composições? Qual o
significado delas para si e para o público? Que valor estético teriam para
entrar assim de peito aberto no mercado mais exigente e competitivo do Sul? Que
ideia fazia de si como compositor e instrumentista? Todas essas questões
deveriam estar respondidas para ele, antes de qualquer decisão, pensava. Além disso,
estaria desprezando habilidades que muitas vezes são até mais importantes do
que o talento musical: lidar com público, com agentes, saber administrar os
ganhos, ver que o sucesso pode ser efêmero. Eu me perguntava também se era
genuíno seu interesse em ser compositor, viver de música, ou estaria sendo
influenciado pelos colegas de geração. E se esse interesse fosse realmente
verdadeiro, de que forma tinha realmente investido, estudado, experimentado,
trabalhado esse projeto? Será que havia pensado nessas questões quando decidira
deixar Fortaleza? E por que nada disso "vazara" em nossas conversas? Um pouco de raiva por
me sentir traída, transformava-se agora num leve sentimento de culpa, pois eu
poderia ter levado adiante aquela conversa ali na porta para poder fazer uma
análise mais segura dos fatos e quem sabe evitar uma catástrofe na sua vida.
Olhei pela janela do meu quarto e vi que as luzes das
casas se apagavam uma a uma, sinal de que as pessoas se recolhiam. A noite se
instalava, eu precisava deixar um pouco a austeridade e a aspereza de meus
pensamentos. Necessitava de alguma leveza para desencadear o sono. Atraída pela
luz da lâmpada do quarto, uma pequena mariposa noturna pousou na cabeceira da
cama. Depois levantou vôo repentinamente, vindo pousar quase no meu peito.
Observando seu corpinho frágil, suas pequenas asas translúcidas que se abriam e
se fechavam vagarosamente, flutuei com a memória, que me acabou levando à
nostalgia de meus primeiros deslumbramentos, ao tempo da adolescência, quando o
conheci. Aparecia, interrompia meu estudo, conversava, mostrava suas
improvisações, pedaços de composições, e desaparecia.
III
Localizado nas vizinhanças do bairro onde eu morava,
passava boa parte do meu tempo no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Além das aulas de piano, de
teoria musical e de história da música, eu também cantava no grande coral que
ensaiava nas tardes de sábados. Entusiasmada com a riqueza de conhecimentos que
estavam à minha disposição, com a sociabilidade que as aulas coletivas e o
coral me proporcionavam, estava sempre presente a tudo que acontecia. Até aos
seminários dos professores eu costumava assistir. Me postava numa das janelas da
sala e dali podia ouvir comentários e pedaços de peças que eram analisadas
nas reuniões. Tudo aquilo me enriquecia. Quando minhas aulas no colégio
coincidiam com os horários das aulas de Teoria Musical, eu fugia a pé e atravessava
todo o centro da cidade para tomar o ônibus grafite que me levaria ao conservatório.
A angústia para controlar o tempo e não perder conteúdos nas duas escolas me
deixava cansada, especialmente quando tinha que voltar às pressas ao colégio
por causa de alguma tarefa importante no fim de alguma aula.
Jacarecanga, riacho que fluía na região, dava nome ao bairro
que se desenvolvera a partir do início do século XX, abrigando em seus sobrados
parte da elite local. Velho e mal cuidado, o prédio da Praça Fernandes Vieira onde funcionava o Conservatório de Música Alberto Nepomuceno pertencera a Núbia Bayma,
que o teria herdado de seus pais. Casada com o médico Pedro Sampaio, o casal residia
ali vizinho, em outra mansão. Ecos da arquitetura eclética que caracterizou
muitas das fachadas das construções dos arredores, o casarão lembrava também o
estilo Art Nouveau. As grades de
ferro que compunham a murada, mostravam a área reservada aos jardins, com seus
bancos de cimento e algumas árvores. Avistava-se também o alpendre da frente da
casa que poderia ser alcançado por uma escadaria de ferro com um corrimão
rendado. Quem passava na rua não deixava de experimentar um pouco do vento
fresco que corria entre aqueles inúmeros gradeados que recortavam a brisa das tardes de verão. Mas o casarão se tornava ainda mais característico
quando levantávamos a vista e descobríamos que do seu telhado se debruçava uma
espécie de cortina, como se fosse uma filigrana formando arcos rendados que
repetiam o desenho da escadaria, dando unidade ao conjunto. Na parte interna, os
espaços dos amplos salões assoalhados sempre despertaram minha imaginação. As
diferentes luminosidades de cada vão me inspiravam a ouvir ruídos, pedaços de
conversas, chamados distantes, sussurros familiares e o tilintar de talheres e
louças. Passos apressados no piso assoalhado do andar superior, restos de
melodias antigas que alguém cantarolava mas não chegavam a fazer muito sentido.
Passeando levemente em meus devaneios, aparecia a imagem de uma senhora com um vestido
estampado que, sentada a uma mesa enfeitada com um jarro de flores, escrevia
silenciosamente. Eram fragmentos de um passado que não tinha desaparecido. Duas
vezes por semana ecoavam no prédio os sons do madrigal que se ensaiava no fim
das tardes. Matizes sonoros, ressonâncias e timbres em meus ouvidos, soavam como
instantes imortalizados pela escrita e pelas vozes dos cantantes.
Mais para o fim da construção, as áreas de serviço
ladrilhadas e naturalmente ventiladas faziam do todo da construção um dos
cartões-postais do bairro. O quintal era enorme. Atravessava toda a quadra, só
terminando do outro lado, já no fim da Rua São Paulo, no oitão do cemitério São João Batista. Recostada na grade de madeira
que separava a cozinha, dos aposentos da criadagem, me surpreendi muitas vezes
apreciando as árvores sobreviventes, imaginando um pomar com uma horta e um
jardim que outrora suprira a casa de frutos e flores. Via a luz do sol brilhando
nos delicados alinhavos dos pingos d’água que saiam de um grande regador nas mãos
ásperas de um jardineiro usando imenso chapéu de palha, circulando entre "Sorrisos
de Maria e Pedacinhos do Céu". Folhas e flores tremulavam de alegria com a água
que caía. Quando o sol desaparecia, o perfume de um jasmim que crescia na
entrada dos aposentos da criadagem, fazia a diferença entre o dia e a noite.
Quando o conservatório passou a funcionar naquele
sobrado, seu diretor, o maestro Orlando Leite, tinha como objetivos, dar o máximo de si
ao trabalho de transformar a escola numa instituição de excelência no ensino da
música mas também ficar perto de sua família que moraria na parte de cima do imóvel. Lembro que para alcançar suas metas, até mesmo sua intimidade era
sacrificada, pois quando sentíamos o cheiro de comida vindo da cozinha da casa
já sabíamos que naquele dia, em algum momento da tarde, sons e perfumes se
confundiriam, invertendo as funções da escola: o que era Conservatório viraria “conversatório”.
Mesmo sendo aluna, ganhava sempre o bônus de ouvir as conversas entre os
professores e uma provinha daquilo que ainda hoje meus sentidos nunca
esqueceram: os quitutes de Dona Francina, esposa do diretor.
Incansável, Orlando trabalhava dia e noite tentando
introduzir novas atividades e renovar conteúdos na grade de disciplinas do
currículo da escola. Tentava mudar mentalidades, acolhendo a todos que
desejavam contribuir e usufruir da arte dos sons. Era um ambiente sedutor.
Grupos de estudantes das redondezas, especialmente do Liceu, que ficava do
outro lado da praça, aproveitavam os intervalos das aulas para conhecer a
escola. Entravam e saíam livremente do casarão. A personalidade envolvente do
diretor atraía-os para conhecer a casa. Muitos deles, seus alunos nos vários
colégios onde ensinava. Depois de vivenciarem seu cotidiano, de ouvirem ensaios
e audições, eram “fisgados” pela música e no mínimo passavam a
cantar no coral da escola.
Foi nessa atmosfera de acolher quem quisesse conhecer
música, experimentar os instrumentos ou cantar no coral, que eu e Petrúcio
fizemos os primeiros contatos. Não lembro exatamente quando. Sei que um dia,
enquanto estudava, fui surpreendida por alguém que da janela me enviava um leve
sorriso. A princípio não dei importância. Pensei ser mais uma daquelas pessoas
que costumeiramente entravam na casa e se postavam nas janelas observando os
alunos enquanto estudavam. Quando nos apercebíamos, elas se escondiam ou desapareciam
sorrateiramente atrás das paredes, sem que pudéssemos nos dar a conhecê-las.
Mas com ele foi diferente. Um dia sua presença singela começou a soar. Quando
eu menos esperava, me desviando dos meus intermináveis treinos, meus ouvidos
eram "seduzidos" por sons diferentes daqueles que eu escutava no cotidiano da casa. Era ele numa
outra sala improvisando alguma melodia.
Do sorriso breve à presença soante, foi um passo para
eu convidá-lo a entrar e sentar. A verdade é que a frequência de sua presença e
seu sorriso fugidio já passava a me desconcentrar dos estudos.
Que música é essa, perguntou. Não é nada, respondi. É
só um exercício. Estou tentando ouvir a ressonância dos acordes pelo efeito dos
pedais. E continuava treinando os acordes nos velhos e desafinados pianos da
casa, acreditando que um dia conseguiria liberar sonoridades e perceber
contrastes numa peça musical antes mesmo de executá-la.
– Como isso funciona?, perguntava ele, parecendo
fascinado quando eu lhe explicava para que serviam os pedais. De certa forma melhoram a brevidade do som
característico do piano”, expliquei. O som do piano é muito diferente daquele que é emitido por instrumentos de sopro, que soam até que você deixe de alimentar a
corrente de ar. No piano, depois que você pressiona a tecla, o som não pode ser modificado. E eu tocava alguns acordes, imaginando que ele era um dos muitos
jovens interessados em música. Assim, os pedais são um recurso para tornar seu timbre
mais rico e com mais possibilidades, esclarecia. Mostrando curiosidade, ele
dava um breve sorriso, e eu me sentia incentivada a continuar. Esse pedal à
direita, por exemplo, pode ser usado tanto ao mesmo tempo como depois que
tocamos as notas. Pode também unir o som de muitas notas que se sucedem. Como
se fosse o fio que une as contas de um colar, certo?
O mormaço das primeiras horas da tarde esquentava de
tal forma a areia cinzenta que circundava o jardim da instituição que não permitia a ninguém, ficar do lado de fora das salas. Nas saletas do porão, destinadas ao estudo, a
temperatura também não era das melhores. O calor era tão sufocante que os sons
emitidos pelos instrumentos já chegavam trêmulos aos nossos ouvidos. As
cadeiras das salas pareciam recém-saídas de uma fogueira. Precisávamos forrá-las
com livros e cadernos para podermos sentar com mais comodidade. Mas nada
disso parecia atingir Petrúcio. Ele ficava ali na sala quieto, calado. Para preencher o
silêncio da espera por uma reação àquilo que lhe explicava, eu dava outra
informação: mas para que tudo isso funcione, é essencial que você conheça não
só a música que vai executar, mas as possibilidades do seu instrumento. E
divagava: saiba que o pianista tem que conhecer melhor do que ninguém, o jeito
de fazer ressoar, brilhar ou mesmo mascarar as qualidades ou defeitos do
instrumento que está usando. Só assim vai poder escolher como usar os pedais
para não misturar as harmonias, prejudicando assim sua execução. Abria a tampa
do piano e lhe explicava: veja aqui dentro o que acontece com as cordas quando
um dos pedais é acionado. O da esquerda, também chamado de segundo pedal,
simplesmente aproxima um pouco os martelos das cordas do instrumento quando este é
acionado. Vou acioná-lo e tocar alguns acordes e você vai olhar o que acontece
aqui dentro. Como um menino bem comportado, ele seguia minhas instruções,
levantava e ficava olhando para dentro do piano. Agora sente e escute, pedia. O som
fica mais suave, não? Uma fresta de sol passava entre as folhas de um velho
abacateiro, iluminando bem de frente aquela figura ruiva de cabelos
encaracolados. Este pedal do meio, que podemos deixar travado aqui neste
espaço, serve para tocarmos em surdina, com o som mais "velado". Quando é
acionado, esta parte de feltro desce e os martelos se aproximam mais das cordas
do instrumento. Assim o som fica mais abafado. Este pedal da direita é mais
conhecido por aumentar o som. Tem um dispositivo dentro da máquina do
instrumento que libera um pouco as cordas para que vibrem mais livremente. A
verdade é que existe uma gama infinita de nuances entre o tocar forte e leve, e
os pedais desempenham papel importante neste processo. Mobilizam-nos para outras
práticas, nos treinam para ouvir coisas que estão além do discurso musical
escrito na partitura. Ele desviava um pouco o olhar como se estivesse ausente,
indiferente, mas depois de alguns segundos já parecia me escutar novamente. Então,
esses exercícios de acordes com pedais são como uma espécie de meditação. Sondam dentro de nós as fronteiras entre o som e o silêncio. Para que não
tomasse aquilo como a última palavra, lhe explicava que para tocar bem,
teríamos que nos valer antes de tudo do tato, sentindo a resistência da tecla
nos dedos e mantendo sempre o contato com ela.
– Era isso que você estava treinando, não era?
Sim, respondi. Apesar de parecer curioso, de ouvir o
que eu lhe falava, ele me passava também a estranha sensação de que se ausentava
de vez em quando. Eu então falava sozinha. Talvez não me desse conta
de que naquele momento, mesmo sem ser sua professora, estava sendo um pouco
pedagógica, exemplificando aspectos do piano típicos dos meus pensamentos, das
minhas preocupações naquele momento dos estudos. Ao contrário de querer saber
um pouco sobre ele, eu queria que assimilasse tudo o que eu falava. Diante
do que eu sentia, só tinha uma explicação: talvez minhas informações não lhe
interessassem. Estava perdendo meu tempo, dizendo-lhe bobagens, coisas que
ele já sabia ou não queria saber.
IV
Entre os professores da casa, o esforço para comemorar
o centenário de nascimento de Debussy (1862-1918) foi enorme. Durante todo o
ano vivemos a atmosfera do impressionismo. Das aulas de história da música ao
repertório a ser executado no coral, do madrigal aos recitais de piano, todos
transpiravam a música francesa do fim do século XIX. Frequentei assiduamente as
palestras sobre impressionismo proferidas pelo artista plástico Zenon Barreto,
as audições de poesias de Malarmée, Maeterlink, Rimbaud, promovidas pela Alliance Française. Recordo o som
fanhoso da voz de uma senhora francesa que com um vestido branco esvoaçante
declamava a Chanson d’Automne de Paul
Verlaine. Vovó Sílfide, como foi logo apelidada pela plateia, estava em tournée
pelo país e mostrava com graça a fluidez e o ritmo dos versos do poeta que
queria que tudo fosse música e se dissolvesse no ar. Aqui, acolá, falava de
como o artista simbolista construíra seus poemas de forma que cada palavra
soasse como se estivesse sendo emitida pelas cordas de um violão.
Les
sanglots longs
Des
violons
De
l’automne
Blessent
mon coeur
D’une langueur
Monotone.
No fim de uma tarde de sábado, naquelas horas mortas
em que não sabemos bem o que fazer a não ser ouvir violões suaves num langor de
calma. À toa, pela vida! Folha caída e morta!
Tout
suffocant
Et blême,
quand
Sonne
l’heure,
Je me
souviens
Des jours
anciens
Et je pleure.
Os ecos da cultura francesa nos meios intelectuais da
cidade foram sempre bem audíveis. O afrancesamento de hábitos e costumes
tomaram diferentes formas no início do século. Mas foram reavivados em 1960,
quando Jean-Paul Sartre, em visita ao Brasil, fora a Fortaleza para receber da
Universidade Federal o título de "Doutor Honoris Causa". O grande coral idealizado
por Orlando Leite recebeu o intelectual e sua esposa Simone de Beauvoir na
Concha Acústica da UFC com as canções de Boas-Vindas, de Villa-Lobos, e o
Halleluiah do Messias, de Haendel. À noite, por ocasião da outorga do título, o
madrigal executou no Salão Nobre da Reitoria um programa inteiro com música
francesa e canções brasileiras. A importância da visita dos dois intelectuais
foi enorme. Despertou interesses, desencadeou debates e discussões na recém-criada
universidade. Assim, em 1962, o campo estava fértil para esse novo contato com
a cultura francesa. No conservatório só se falava no “fin du siècle” na França
e do legado musical de Debussy. Professores e alunos estudavam e executavam o
repertório impressionista.
Não satisfeita com tudo o que aprendia, juntei-me a
alguns colegas que organizaram um grupo, o Colegium
Musicum, para solfejar e conhecer a música francesa para côro. A verdade é
que à época, a música da França, especialmente a de Debussy, tão sofisticada e
tão pouco juvenil, me envolveu inteiramente. A complexidade de suas
justificativas estéticas, sua procura por um ideal transcendental que convidava
o pianista a se concentrar na evocação do prazer instantâneo e a pura
contemplação da beleza, me atraíram tão intensamente como jamais pude
experimentar novamente. Traduzir para a linguagem musical aquilo que nos toca, me parece hoje muito distante do que eu pensava naquele momento. Imaginar que
para um músico as teorias não existiam, que a única lei deveria ser a fantasia,
soa hoje inimaginável para mim. “Ser músico é ouvir”, dizia Debussy! “Ver o dia
nascer é melhor que ouvir a Sinfonia Pastoral de Beethoven. Os músicos só
escutam música feita por mãos hábeis, nunca a que está inscrita na natureza”.
Esses aforismos deveriam me encher de dúvidas. “Não
siga os conselhos de ninguém, exceto do vento que passa e nos conta a história
do mundo”, escreveu sob o pseudônimo de Monsieur
Croche em um de seus artigos. Tudo isto só foi relativizado depois de
alguns anos, na medida em que minha vida foi se ligando cada vez mais à minha
prática profissional, às minhas necessidades de sobrevivência. Naquela época, eu estava em
treinamento auditivo, reconhecendo pontes, transições e momentos de instabilidade
numa peça musical. Acurava o ouvido para encontrar afirmações de temas muitas
vezes escondidos e que apoiavam o arcabouço harmônico do tecido musical. Numa
composição, qualquer pequeno fragmento que tivesse valor ou força para abrir
portas, servir como elo com outro momento da peça, me desafiava. Gostava quando
chegava a “Semana do Solfejo”. A escola abria suas portas para 12 horas diárias
de solfejo. Quem quisesse entrava e saía das salas onde se cantava o dia
inteiro. Meu dia a dia deveria me levar a acreditar que tudo o que o músico
francês pregava deveria ser tomado somente como retórica contra a racionalidade
de toda a espécie de prática, de treinamento, de disciplina. Suas ideias eram
avançadas demais para uma adolescente deslumbrada. Mas não foi só isso que
aconteceu comigo, pois me apaixonei pelo tema. Queria saber, entender, usufruir
e passar para alguém toda a beleza daquilo que estava no ar. Uma espécie de
intimidade solitária me alimentava e me permitia amar e sonhar em música, e a
obra de Debussy me fazia entrar em contato com um mundo inexplorado que se
estendia além daquele que eu tinha vivenciado. Até o teclado do piano, tão
familiar desde muito cedo, me aproximou de verdades singulares e transformou-se
num corpo vivo com o qual eu entrava em relação, onde eu poderia expressar delicadezas
e finuras imperceptíveis aos demais, quase me libertando da minha forma
exterior. Tudo oscilava entre o fetichismo e a companhia sentimental dos sons
de sua música. Assim, quando eu avistava aquele jovem na janela, já estava
cheia de coisas para contar-lhe. Conversávamos. Não, não era isso! Eu "despejava" tudo o que aprendia direto por cima dele. Não tocava Debussy, tocava o que eu imaginava
ser sua música, porque me sentia capaz de experimentar sua beleza e julgava
minha capacidade um fim. O mundo novo que se abria na minha sensibilidade me
instigava a mostrá-lo a alguém, e Petrúcio parecia fascinado, saboreando
aquelas informações de que talvez nunca tivesse ouvido falar. Minhas
explicações condensavam afetos muito mais do que argumentos racionais, eu sei.
Explicava-lhe tudo o que aprendia como se tivesse certeza de que compreendia
meus devaneios. Na produção pianística, de Debussy, os contrastes sonoros que o
uso adequado dos pedais pode proporcionar não se encontram em nenhum de seus
antecessores, falava. Só com um treinamento é possível obter-se o domínio exato e
sensível de todos os matizes que o instrumento é capaz de executar, dizia-lhe
eu como se tivesse certeza de tudo. Só mudava um pouco o tom de minha
explanação quando falava que só não gostava mais do músico porque me parecia irônico
e arrogante ao dizer que os pedais não eram para os pés do intérprete, mas para
seus ouvidos. Meu amigo soltava um sorriso leve, meio de lado e dizia:
– Não é arrogância, ele é inteligente, tem senso de
humor!
Eu lhe explicava: é inacreditável, mas penso que, na sua música, o
pedal é quase tudo! Tanto que ele pôs nas partituras indicações precisas de
onde colocar ou não cada pedal. Com isso pretendia aproveitar ressonâncias,
explorar timbres e sustentar bordões no instrumento. Parecendo estar atento ao
que eu lhe falava, me perguntava:
Mas de onde vem esta preocupação tão exagerada com
os pedais? Porque da maneira como você fala, ele queria um piano sem martelos,
não?
Ora, explicava: era exatamente isso o que ele dizia. Que era preciso
esquecer que o piano tem martelos. Sua música procura evocar
estados de espírito e impressões sensoriais, principalmente através das
harmonias e do colorido sonoro. Entenda, ela não procura exprimir emoções nem
contar histórias como fazia a música programática romântica. Apenas evoca esses
estados de espírito através de atmosferas sonoras indefinidas. Ouvimos, ou
pensamos ouvir, reminiscências de sons naturais, breves ritmos de danças,
passagens melódicas características, mas nossos ouvidos só captam a sensação de
algo vago, como se aquilo que ouvimos estivesse envolto numa bruma. Percebemos
essas sensações, mas de repente fogem de nossos ouvidos sem que consigamos retê-las.
É uma volta a um tema, é sua expansão, uma nota pedal que ecoa durante toda a
peça, tudo é dito sem ser dito. Sinistro, não? Ele ficava impassível! Ou não
compreendia, ou não estava a fim de responder. No entanto, eu continuava a
dar-lhe mais informações. Nesse sentido, a música para piano sofre em Debussy uma
revisão radical e, para executá-la, o uso consciente dos pedais é fundamental. Ele olhava para mim mas eu desconfiava de que não estava ali, não escutara o
que eu dissera. De repente saía com uma pergunta estranha:
– Mas ele não é romântico?
Apesar da pergunta meio fora de foco, eu lhe respondia
achando que queria retomar a ideia da música programática e a evocação de
emoções. Sim, ele foi um dos últimos grandes compositores educados dentro dos
ideais do romantismo. Uma parte de sua produção ainda segue os princípios
estéticos dessa época. Como Chopin, ele escreveu danças típicas, valsas,
prelúdios, baladas, mazurcas e até noturnos. Escreveu também duas arabesques e
com certeza conhecia as Arabesques de Schumann. Como os grandes românticos,
escreveu também estudos para piano. Mas por outro lado, com o desejo expresso
de recuperar a tradição da antiga música francesa, também escreveu peças
homenageando Rameau e Couperin. Sua produção resgata valores de culturas passadas,
mas ao mesmo tempo se projeta para o futuro, abrindo caminho para Ravel, Max
Reger, Skriabin e Rachmaninoff. Ele então me pergunta:
Quando e como começou a mudança na sua forma de se
expressar? Esse distanciamento do romantismo foi acontecendo por
volta de 1892, quando começou a entrar em contato com círculos literários,
poetas simbolistas, frequentando circos, cafés-concertos, teatros. – Quando
ele caiu na boemia, não é, respondi em tom de brincadeira.
Sim, claro. Antes disso ele ainda estava preso à
disciplina da formação nos conservatórios, falou. Sim, depois disso ele exerceu funções típicas de um
pianista e professor. Andou pela Rússia em tournée com um trio instrumental,
deu aulas para pessoas de posses. Para mim, foi o contato com artistas de
outras áreas que ampliou sua sensibilidade, levando-o a expressar uma nova
maneira de ouvir e executar a música. É sabido que ele passa até a se sentir
melhor entre os intelectuais do que entre os músicos. Esse encontro
com uma nova maneira de ver e sentir a música tem a ver com o clima
intelectual e artístico do período, mas a crença no progresso material e de que
os “males sociais” seriam sanados pelas novas tecnologias foi algo que
alimentou a mentalidade do fim do século. Claro, esse tempo foi marcado pelo surgimento de
novos valores na esfera estética e nos modos de pensar, acrescentava. Como um
menino estudioso que presta contas do que aprendeu, ele foi nomeando baixinho:
– É, talvez ele tenha vivenciado o aparecimento e a
popularização do telefone, do telégrafo, da eletricidade, da bicicleta, dos carros
e dos aviões. Também a fotografia e o cinema apareceram nessa época, confirmava
com a cabeça baixa como se estivesse falando sozinho.
Adiantando e acrescentando mais detalhes à conversa eu
falava: “Você já pensou como as tecnologias e os meios de comunicação
fomentaram o crescimento das cidades e com isso o aparecimento de novos espaços
para as artes: cabarés, teatros, cinemas! Dizem que Paris era cheia de
exposições, antiquários, salões onde as pessoas se reuniam para discutir sobre
arte e cultura ou mesmo realizar concertos. Imagino uma Europa em efervescência.
Já pensou? Paris era o centro dessa nova maneira de viver e instalou a cultura
do divertimento em todo o continente. É natural que, nesse clima de
ebulição, a poesia, as artes plásticas, o teatro e a música sofressem uma nova
síntese. E foi vivendo intensamente esse tempo que Debussy começou a construir
seu estilo, musicando poemas, compondo para teatro e ballet, criando novos
espaços para a prática da música. Quando penso no nome que dava às suas composições,
percebo um parentesco muito grande com as correntes estéticas da época, o
impressionismo e o simbolismo: Clair de
Lune, L’après-midi d’une Faune, Soirées dans Grenade, Brouillards, Feuilles
Mortes, Feux d’artifice são alguns dos nomes que deu às suas composições. O
que você acha deles?”
– É, me sugerem cenas, como se fossem quadros, postais
ou instantes captados por uma foto.
Exatamente, confirmo.
Ele fica em silêncio e em
seguida me pergunta quais seriam os valores estéticos. Vejo que mais uma vez
retoma um comentário anterior e tento responder: “Uma das principais
características de sua música é a libertação do sistema de tonalidades entre
maior e menor, que desde o século XVII vinha dando coerência a quase toda a
música do Ocidente”.
– Então a música dele é atonal, pergunta-me vivamente
interessado.
Não, eu não sinto assim. Pelo que li e ouvi até
agora, ela apenas mostra que as relações harmônicas entre o modo maior ou menor
não são mais imperativas. A dualidade maior/menor agora é apenas uma
possibilidade, não a mais importante nem a determinante nas suas composições, respondi.
Ah! Ele foi então uma espécie de profeta da nova
era, certo? Ele responde esfregando as mãos fortemente uma na outra. Não sei. sei que era inimigo de categorizações e
talvez não gostasse desta qualificação. Mas mesmo assim, depois de algum tempo
aceitou, ou melhor, tornou-se indiferente a que chamassem sua música de
impressionista. De tudo o que lhe disse, eu acho que ele sem dúvidas abriu um
universo sonoro novo onde a sugestão ocupa o lugar da construção temática
definida, tão característica da música romântica. Sem romper totalmente com o
passado, ele criou novas perspectivas
para a criação musical, incluindo o uso de acordes alterados, a reutilização
dos modos medievais e escalas de tons inteiros. Isso tudo sem esquecer a
ampliação e o enriquecimento das combinações entre os instrumentos da
orquestra.
– Como assim, me pergunta.
Bom, eu não conheço sua música para orquestra. O que
estou lhe dizendo foi aprendido nos livros e na observação de suas peças para
piano. Embora não conhecendo quase nada da música do século XX, já li que a diversidade
de timbres da música de Messien e a economia de meios da de Varèse têm
reconhecida influência de Debussy. É como se aos poucos ele tivesse iniciado a
fragmentação do discurso musical, esgarçando o tecido sonoro pelo uso de motivos
curtos e que depois foram explorados por muitos compositores do sec. XX. Me
calei um pouco esperando alguma reação de sua parte, mas ele ficava ali encolhido, esfregando as mãos.
Uma outra coisa que identifica
bem sua música é uma espécie de oposição aos exageros enérgicos e profundos do
romantismo. Como assim, me pergunta parecendo interessado. Eu lhe respondi que ela se apoia sobretudo
na expressão moderada dos sentimentos. Suas imagens evocativas sugerem mais a
atmosfera dos sonhos, da imaginação livre. Penso que ela é muito particular,
porque procura um som que não apela para a emoção e sim para a evocação
de ambientes sonoros, de impressões distintas, e nisso ele também se distingue
dos românticos. Já li que ele tinha aversão às manifestações de grandiloquência, ao
exibicionismo musical ou a expor em música alguma ideia filosófica, que é outra
coisa que os estudiosos atribuem ao romantismo. Para se distanciar desse
movimento, o romantismo até se constituiu em motivo para seus sarcasmos, ao que
ele chamava de ‘muros de conveniência’, por acreditar que aceitando esta
influencia, sua fantasia e sua liberdade poderiam fenecer. Outra coisa
interessante é que enquanto no romantismo o ouvinte ainda era levado pelas
expectativas do desejado, da completude, do relax depois de uma tensão no
discurso musical, Debussy nos leva com sua música para o terreno das incertezas,
do sobressalto, de suspenses e surpresas.
O tempo passava e, no meu entusiasmo, eu até esquecia de
lhe fazer perguntas que talvez fossem relevantes naquele momento. “Quem era Petrúcio?
Como tinha vindo parar ali? Onde estudava? Quais seus interesses? Por que se
aproximara de mim?”.
v
A frequência de sua presença despertou brincadeiras das
colegas. Passavam na saleta, nos viam conversando, e ouvíamos os
característicos risinhos. À minha vista faziam comentários irônicos e me
avisavam de sua chegada, sugerindo ligação amorosa entre eu e meu amigo. Depois percebi
que algumas até já o conheciam, por morarem no mesmo bairro. Mesmo assim, as
poucas informações que me passavam não davam para formar um perfil nítido da
figura. Estudava no Colégio São João, frequentava as matinés do Clube dos
Diários, muito populares entre os jovens de classe média alta da cidade. Assim,
continuávamos a conversar sobre Debussy, sobre as palestras que eu vinha
assistindo. Mostrava-lhe livros de pinturas, tocava partes de peças para ele
ouvir.
Abria um dos livros que emprestara e lhe mostrava algumas figuras. Veja aqui estes quadros de J. Turner. Mostram uma
misteriosa luminescência, não acha? Os objetos não aparecem com contornos definidos.
Apenas sugerem, dão só a impressão, comentava.
Você sabe, para os impressionistas, as figuras não
deveriam ter contornos nítidos. Diziam que a linha era uma abstração humana
para representar imagens e que as sombras deveriam ser luminosas e coloridas
tal como é a impressão visual que nos causam, e não escuras como os pintores
costumavam representar no passado, você entende? Para eles a pintura deveria
registrar as tonalidades que os objetos adquirem ao refletir a luz solar num
determinado momento, pois as cores da natureza se modificavam constantemente
pela incidência dessa luz. No início foi difícil compreender esta
característica do estilo. Tenho pensado sobre isso e vejo que aqui em nossa
terra só existem duas luminosidades: a sombra e a luz intensa. Talvez aí esteja
minha dificuldade em entender essas sutilezas.
Ele parou um pouco e não aceitou minha
insensibilidade.
– Não, não é bem assim. É que esses dois extremos são
mais visíveis, tomam a maior parte do tempo do dia, que aqui é muito longo. Mas
temos muitas nuances: os raros dias chuvosos, o breve fim da tarde, a pequena
madrugada.
Ria parecendo estar gostando de suas próprias
palavras.
Todas as nuances são raras, breves, pequenas, tênues
e sutis. Rimos juntos e parecendo falarmos também juntos, dissemos: não dá
tempo de pensarmos, de apreciarmos, de criarmos belezas num tempo tão curto.
Rimos mais ainda até ele interromper com outra observação.
Aqui o sol sobe e desce mais rápido e fica em plena
luz muito mais tempo. Aquele foi um momento em que estivemos juntos, na mesma vibração, no humor. Parece que ali fora selado uma pacto entre nós!
Passando as páginas do livro, eu encontrava uma figura mais sugestiva e lhe mostrava. Olha aqui
o Monet pintando o rio Tâmisa de um mesmo local, em momentos diferentes do dia.
Registrando as impressões do rio ao nascer e ao pôr-do-sol, em tempo nublado,
na chuva e na névoa. Olha quantas vezes ele pintou o mesmo ambiente. Que acha? Penso
que eles eram malucos! Pra que isso tudo, me responde rindo enquanto eu continuei
falando.
Pois é! Parece que ele queria a invocação livre e
lírica da cena, ao invés de uma mera descrição, não é?
Como se as cores fossem belas por si sós, acrescentou.
Acho que agora podemos fazer um paralelo disso tudo
com a música de Debussy, que passa também por essas procuras. Ele também ‘borra’
os contornos das melodias nos surpreendendo quando altera uma das notas de um
acorde, quando mina de alguma forma a hierarquia desses acordes,
desestabilizando os cânones tradicionais das repetições e cadências nas formulações
de suas ideias musicais. Por isso elas sugerem uma atmosfera onírica. E reforça isso quando nega ou fragiliza de certo modo a quadratura das
frases. Assim ele vai se livrando das regras da música romântica, sugerindo
novos caminhos para fazer e escutar a música. Com relação às suas harmonias, é como
se ele visse os acordes como entidades belas em si, que poderiam ser saboreados
exatamente como as cores para os impressionistas.
Petrúcio dava um sorriso pouco, um olhar vazio, virava-se
e sem dizer nada saia rapidamente rodando pelos corredores e salas da casa
mostrando suas mãos inquietas e seus sapatos murchos. Talvez voltasse, talvez
não! Me pergunto hoje quantas vezes deixei realmente de estudar para
explicar-lhe coisas e de repente olhava ao lado e via que falava sozinha. Em
outros momentos notava que não conseguia diferenciar uma música da outra, sinal
de que não escutara ou não entendera o que eu lhe havia explicado. Eu insistia
em falar de minhas práticas para que ele pudesse descobrir a riqueza da música
do compositor francês, mesmo sabendo da dificuldade de medir com palavras o que
eu experimentava. Quem sabe, eu mesma não alcançava que o mundo do piano estava
além de analogias ou metáforas. Naquela época, a música se tornara cada vez
mais uma via necessária, onde até meu corpo, que era mudo mas pensante, se
transformava. Creio que nos meus tenros anos devo ter falado muita bobagem, mas
acima de tudo eu continuava ali treinando e carregando aquela figura estranha e
enigmática até a hora de voltar pra casa.
VI
Deixar a saleta onde eu estudava, era como me arrancar
de um mundo cheio de ecos de um passado luminoso, rico em cores e
transparências. Na prática regular do piano eu descobria uma vida carregada de
afetos que se prolongava nas minhas atividades sociais e intelectuais. Me deparar
com o abandono do jardim da escola, com seus dois bancos de cimentos trincados,
olhar para os poucos arbustos que permaneciam verdes, era como abandonar a
beleza das ninfeias de Giverny com as quais eu sonhava enquanto folheava os
livros de pintura. Os portões enferrujados do casarão, sempre entreabertos, cavavam
ainda mais o sulco circular no cimento da calçada deteriorada pelo tempo.
Atravessava a praça cinzenta iluminada pelo sol ardente, procurando semelhanças
com chafarizes e canteiros floridos dos jardins de Vétheuil pintados por Monet.
Apesar da tarde que findava, o calor acumulado do dia tinha força para ferver
cada grão de areia, cada pedaço de cimento que compunha seus passeios. Meus pés
chegavam em casa inchados da caminhada. Faltava sombra para descansar, para contrastar
com tanta luz. Já crescida, passar pelo local diariamente, olhar para a praça e
vê-la abandonada me enchia de questões. Por que estava quase sempre deserta e
descuidada? Por que mantinham espaços para canteiros, quiosques, bancos, se neles só sobrava areia? Num espaço tão imenso não se podia desfrutar, abstrair-se do
mundo a não ser com a própria sombra, esticada no chão pela manhã, nos
surpreendendo a caminhar do nosso lado, imitando nossos movimentos, fazendo-nos
rir baixinho. Ao meio-dia, escondendo-se debaixo de nós e naquela hora da tarde
desafiando-nos a vê-la nos seguindo pelas costas. O Liceu era o edifício mais
imponente. Olhar sua fachada angulosa e os altos degraus de suas escadarias me
lembrava os passeios de minha infância, quando eu ainda de pernas curtas, fazia
o maior esforço para subi-los e gritar por meus pais que ficavam lá embaixo
conversando. O Grupo Escolar Fernandes Vieira, que dava nome à praça, já
terminara suas aulas. Vizinha, a Corporação dos Bombeiros testemunhava o silêncio
da tarde, só quebrado pelas sirenes de seus carros quando saíam para alguma
função, ou quando os soldados invadiam a praça em algum treinamento. Espalhavam
água, corriam entre seus canteiros de areia e bancos abandonados. De estética
mais nova do que a maioria dos sobrados do bairro, destacava-se por sua pintura
vermelha e pelas duas esculturas em forma de flamas douradas marcando-lhe a
entrada. Do outro lado, um muro alto e misterioso terminava num pequeno
santuário na esquina. Os vidros foscos pela poeira, pela luz do sol e pelo
acúmulo de cera das velas, nunca deixavam saber o que havia dentro daquele
pequeno marco religioso encaixado na parede. O Asilo Bom Pastor me colocava diante de inúmeras questões. Lembrava
minha condição de mulher. Sabia ser uma instituição destinada à educação e à disciplina
das moças que deveriam se arrepender de seus pecados. Unia o castigo aos comentários
que se ouviam, de como mulheres eram seres frágeis, presas fáceis das paixões e
sucumbiam sem resistência aos olhares insistentes, aos galanteios sedutores. Meus
pensamentos me deixavam mais abaixo de minha própria sombra ao meio-dia. Como
fugir a esta sina, se me vejo mulher? Como viver minha condição sem ser presa
fácil? A instituição sustentada pela prefeitura e administrada pelas senhoras
do bairro, representava bem o movimento de regeneração da cidade que fora
instalado no início do século, cujo objetivo era limpá-la de miasmas maléficos,
entre eles a prostituição.
Caminhando pela calçada do muro cego do Liceu se via outra
instituição. O Asilo de Mendicidade também
fazia parte dos projetos assistenciais implantados pelas reformas
governamentais do fim do século para a erradicação da mendicância. Construído
ainda no século XIX e diferente da casa das meninas perdidas, era um oásis na
minha caminhada. Apesar dos muros altos, pela parte da frente, suas grades de
ferro se abriam para a realidade com mais sinceridade. Metade dos galhos das
árvores do seu pátio me acolhiam, sombreando a calçada por onde eu passava,
amenizando o calor. Podia-se até avistar velhinhos sentados em bancos ou caminhando
sob frondosos cajueiros e mangueiras. Do outro lado da rua ouvia-se a algazarra
de crianças. Vinha do Colégio Nossa
Senhora de Lourdes, instituição religiosa que educava as meninas do bairro
abastado e que naquele momento também terminava as aulas. Minha caminhada era motivo para treinar os rallentandos
imperceptíveis que Debussy exigia para executar suas peças. Quantas vezes me
dei conta de minha mão tensa, com os dedos na posição de algum acorde mais
complicado que estudara. De cantar relembrando algum pedaço de melodia que
soava obsessivamente nos meus ouvidos. Com a música de Debussy eu descobria uma
doce amizade que nascia longe dos homens. Ela me dizia pelo coração o segredo
de seus baixos, a flexibilidade de suas melodias e o toque sobre os quais eu
depositava minha voz interior. Enquanto eu andava, cenas, sons, pedaços de
visões, termos e sinais de expressão em francês que aprendera nas partituras
dos prelúdios entrecortavam-se na minha mente. Tinha observado, num dos livros
que folheara na aula, uma velha fotografia do músico com a filha a quem chamava
Chouchou. Os dois sentados no tapete verde de um bosque. Ele de terno bege e
chapéu de palha. Ela com um vestido rendado de voile, sapato, meias brancas compridas e um imenso chapéu cujo tom
claro contrastava com seus longos cachos negros. Os dois bem arrumadinhos, sentados
no chão. As solas dos sapatos nem sequer estavam arranhadas.
Très apaisé et
très atténué jusqu’ à la fin, eu relembrava minha infância e os passeios com meu
pai. A essa altura já tinha ultrapassado mais quarteirões da Rua Padre Ibiapina, que eu seguia até
cruzar a Clarindo de Queiroz, onde eu morava. Me encontrava em frente ao local
onde aos domingos à tarde, ele nos levava a passear. O sol brilhava, e a brisa era tranquille et flottant. Não precisávamos
nos arrumar. Entregue ao prazer de estar com os filhos, ele passeava à vontade
com seu pijama listrado, arrastando os chinelos. Quando avistávamos os grossos
muros cinzentos do prédio do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial),
nossos corações pareciam bater mais fortemente. Laisser vibrer. A construção bem cuidada abrigava uma escola para
formação profissional de jovens onde ele, às vezes, prestava algum serviço. Já
sabíamos que colocaria cada um dos filhos em cima do muro e, segurando nossas
mãos, nos fazia andar por toda a sua extensão. Doux et soutenu. Olhe para frente e não para baixo! Escolha um
objeto lá longe para fixar o olhar. Eu sustento sua mão, mas é preciso levantar
os braços para manter o equilíbrio. Vamos! E lá ia eu, dividida entre o medo e
a confiança, até o fim da murada. Depois era hora de entrarmos no prédio e
corrermos en animant pelos imensos
alpendres vazios da escola. Em cima de uma goiabeira, os bem-te-vis cantavam
assustados parecendo avisar uns para os outros, da invasão da cavalaria dos
gentios em seu território. Nosso alvo era alcançar o fundo do terreno onde
existia um grande poço abandonado. Encostados nas suas bordas nos deliciávamos
quando avistávamos as silhuetas de nossas cabeças recortando aquele imenso e
límpido céu azul refletido na água. Começavam, então, outras brincadeiras:
jogar pedrinhas pra ver nossas figuras
trêmulas se quebrando no espelho d’água e ouvir o eco de nossos gritos dentro
do poço. Bumm, bumm, Uuuuuuu, Ôooooooooo, Tem, tem, tem, Ai, ai, ai. O som das
chinelas que se aproximavam pelos corredores em nossa direção se misturavam aos
ecos de nossos gritos. Uma composição perfeita: dois amores, dois humores. Cédez, cédez! Papai nos pegava pela
mão e nos arrastava de volta. Vamos, vamos, vamos, deixem de besteira!
Voltávamos para casa plenos. O tempo passado ali, très souple, valera a pena, e o que vinha estava cheio de força e
confiança. Comme une lointaine sonnerie de cors… até a luz do
sol se extinguir...
Eu só despertava de minhas lembranças quando avistava o
muro alto de uma misteriosa garagem cujo imenso portão de ferro permanecia
sempre fechado, exceto quando chegavam ou saíam aqueles veículos gigantes, os
ônibus que serviam às linhas de transporte do bairro.
À noite, no meu quarto, Debussy, numa de suas raras
entrevistas, me lembrava: “Só a música tem o poder de evocar livremente os
lugares inacreditáveis, o mundo indubitável e quimérico que vive secretamente
na misteriosa poesia da noite, nos milhares de ruídos anônimos que emanam das
flores acariciadas pelos raios da lua”.
VII
Petrúcio aparecia do nada! Entrava na sala sem sequer
me cumprimentar e queria continuar a conversa do lugar em que tínhamos
interrompido quando ele, também sem dizer nada, tinha desaparecido. Depois de
tantos dias eu já nem me lembrava mais onde tínhamos parado. No entanto, para
satisfazer seus interesses, o tempo era um moto-contínuo;
não tinha pausas. Tampouco lembrava que eu podia estar ocupada, que precisava
estudar.
– Deixa eu te mostrar uma música, dizia se
encaminhando para o piano, já sugerindo que eu deixasse o instrumento e o
escutasse. Improvisava alguns acordes, me perguntando o que eu achava. Eu ficava
escutando, esperando que utilizasse algo do que tanto eu havia comentado e
mostrado do estilo impressionista, mas apesar do meu esforço em identificar ou
de receber dele algum retorno, o que eu sentia era frustração. Ele só mostrava
desvios, improvisações, e elas em nada lembravam acordes paralelos, motivos sonoros curtos, uso
intencional de acordes alterados, a procura por uma criação mais plástica pela
anulação das barras de compasso e o uso de diferentes tipos de quiálteras que
caracterizavam a música de Debussy. Ao contrário, o rapaz continuava
“atochando” o pé no pedal da direita como se fosse a percussão do que tocava. E
eu me perguntava: O que ele fazia ali? Me escutava mesmo? Estava existindo
alguma interação entre nós, quando eu lhe explicava tudo o que sabia? Ou estava
ali para passar o tempo? Afinal, para onde iam aquelas conversas todas e o que
eu e a escola significávamos pra ele? Por que não trazia uma canção pronta e me
mostrava? O que eu poderia dizer de pedaços soltos, de improvisações que me
pareciam sem nexo, sem propósito? Ou queria só se mostrar para mim, como uma
criança que dá uma cambalhota para uma visita que chega à sua casa? Quem era
mesmo aquele jovem que sabia um pouco de música, que tocava acordes
interessantes, mas que não mostrava interesse em estudar teoria musical para
elaborar melhor o que me mostrava? Perguntava-lhe que projeto musical tinha ali
com aqueles acordes, se era uma canção, se tinha letra, mas ele não me
respondia. No meio do marasmo dos meus pensamentos, ele parava de tocar e saía
repentinamente. Dias depois reaparecia e se mostrava mais leve e descontraído.
– Sabe,
ouvi dizer que o impressionismo retrata o cotidiano das pessoas, suas
frustrações, preocupações, o curso da vida e o erotismo.
Ainda surpresa, sem entender bem sua repentina
aparição, respondi olhando uma partitura que estudava: “É, pelas figuras dos
livros os pintores da época retrataram muito as festas, os piqueniques no
campo, os passeios de barco, a vida urbana com seus teatros e bares.”
Ele disse: – Essas pinturas parecem fotos de momentos
felizes.
É verdade, eu gostaria muito de ter vivido nessa
época. Me parece que as pessoas eram realmente mais felizes.
Ele soltava um sorriso meio cínico, me deixando "despida" nas minhas emoções. Talvez estivesse fazendo troça de mim,
pensei.
Muito comum também era pintar a intimidade do lar, o
movimento da vida, me disse em seguida.
– Você já viu o quadro O Absinto, de Edgar Degas? Parece uma foto assim meio desfocada, lembra?
Sim.
– E aquela mulher? Parece bêbada, não?
Sim, é verdade.
– Mas será que a invenção da fotografia influenciou-os
quando desenvolveu o gosto por estas cenas fortuitas? Assim como aquela da
mulher bêbada? O absinto foi a bebida preferida durante a Belle Époque, sabia? Todos
os grandes escritores, poetas e músicos gostavam da ‘Fada Verde’, como era conhecida.
Dando mais atenção ao que ele dizia, respondi:
Não, não sabia!
– Dizem até que muitas obras foram concebidas sob seu
efeito.
Intrigava-me o interesse no absinto e não na música
para a qual eu tentava atraí-lo. Pela forma como tinha se ausentado da última
vez, eu imaginava que não havia levado nada em conta. Mas a conversa foi se
desenrolando, me forçando a esquecer seu riso enigmático e acreditar novamente que
entre nós poderiam existir afinidades que poderiam se desenvolver pelas
relações mútuas com o piano. Não
importavam os caminhos que tomassem esses rascunhos.
É! Agora me vem à mente que esse quadro de Degas é
apenas um dentre os inúmeros que já vi e que retratam pessoas bêbadas pelo absinto.
Que interessante!
Para minimizar minha observação, ele soltou seu
sorriso raso de ironia:
– Ah, mas para mim esses impressionistas viviam sempre
em estado de sonho. Tudo pra eles era quimera, devaneio, fantasia! Você fala tanto
em impressão que até parece que para eles o reflexo da realidade era mais
importante do que a própria realidade. Naquele momento senti que ele tentava atingir-me no
meu gosto, nas minhas paixões. Sua observação ia além das palavras.
Não, não era só isso, reagi. Eles amavam o tempo em
que viviam. Gostavam das ruas, das pessoas que andavam despreocupadas, dos
homens, das mulheres de guarda-chuva, dos barcos, de tudo o que era fruto da
civilização da época.
De repente o silêncio tomou o espaço da sala. Ouvia-se
apenas o barulho dos ônibus que passavam na rua roncando, soltando baforadas
cinzentas de fuligem.
Ah! Me lembrei! Sabe que Debussy tem uma pequena peça
que se chama Rêverie? Vou lhe
mostrar!. Tomo um dos álbuns que estão em cima do piano e procuro a página em
que está a peça, enquanto ele esfrega nervosamente as mãos.
Escute aqui a simplicidade desta melodia inicial na mão esquerda: um motivo melódico de quatro notas e que se repete caminhando para
cima e para baixo no teclado. Me lembra o estado de vai e vem da memória,
quando invocamos uma lembrança. Muito bem bolado e sensível quando passa a
impressão de que as lembranças não contêm tensões, de que elas são filtradas
pelo tempo.
Ele pensa um pouco e diz:
– Queria saber mesmo se ele tinha essa intenção quando
compôs a peça e colocou esse nome.
Ah, taí uma coisa que não sei. A impressão que me dá
é que cada um de nós sente e percebe a música de maneira muito individual. Cada
um preenche aquele momento de escuta de maneira diferente, e isso depende muito
de fatores subjetivos como imaginação, capacidade de invocar imagens,
sentimentos, memórias e desejos. Como a música depende do tempo para sua
realização, a passagem desse tempo, o momento da escuta, é usufruído dependendo
também da concentração de cada ouvinte. Isso sem mencionar nossa visão de mundo e a do compositor, evidentemente. Talvez tudo o que lhe digo sejam
associações, e Debussy nunca tenha pensado nisso.
Petrúcio parecia não entender ou não se interessar
pelo que eu lhe dizia naquele momento. Ficava alguns segundos dentro de si,
forçando uma mão na outra.
Sinto que sugere esse estado de relembrar quando
escreve a expressão très douce et très
expressive antes do início da peça. Continuo executando momentos
interessantes da composição, tentando mostrar-lhe como o compositor nos
confunde quando nos faz imaginar que era realmente indiferente à ideia de
tensão harmônica ou de estrutura formal.
Mas você acha isto mesmo?, pergunta.
Não, não! Não acho isso, não. São apenas comentários
que leio sobre a música dele. Essa composição é de 1890. O que fazia sucesso
nas salas de concertos de Paris à época ainda eram as sinfonias Novo Mundo - de
Dvorak, a Patética - de Tchaikovsky, além da produção de compositores franceses
como Massenet, Saint Saëns ou Fauré. Músicas muito ligadas ao tonalismo e ao
romantismo. E ele frequentava esses concertos, tinha familiaridade com esse
tipo de repertório. Além disso, tinha tido uma formação musical tradicional. Não
acredito que seu ouvido fosse indiferente à tonalidade. Acho que era mais uma
questão de decisão, de escolha do material com o qual queria trabalhar”.
Meu amigo me perguntou: Você certa vez invocou Wagner,
não foi?
Sim, mas Wagner tinha 49 anos a mais que ele. Era de
outra geração. Acreditava exageradamente que a harmonia cromática seria a porta
de entrada para uma nova música. Como cromático, me perguntou. Sim, o termo
vem da pintura. Cromo significa cor. Na música significa passar por todas as
tonalidades.
Enquanto eu falava, ele acenava com a cabeça
acompanhando meu raciocínio, reagia com um breve sorriso e dizia:
– É, sua música tem outros referenciais, ele era
alemão, teve outras vivências, e como músico isso conta muito, não?
Não dá para comparar os dois. Wagner se dedicou mais
à música de cena, usando a mitologia germânica como material literário para
suas óperas. O caminho de Debussy foi outro. Ele foi permeável a músicas de
outros povos. Você não imagina o impacto para ele ao ver os balés russos que se
apresentavam em Paris sob a direção de Diaghilev. De como ficou fascinado pela
música balinesa quando ouviu na Exposição Mundial de Paris, em 1889, a apresentação
de um grupo de Gamelão. Enfim, foi receptivo até à onda de orientalismo que foi
moda em Paris na sua época. Por que colocou numa coleção de composições o nome
de Estampas (1894) e em outro Imagens (1903)? Algumas peças dessas
coleções se chamam Pagodes, La Soirée
dans Granade e Jardins sous La Pluie,entende?
– É, pelos nomes parecem realmente imagens de postais,
reage. Mas acho que me distanciei muito da peça que estava lhe mostrando.
Escute aqui esta passagem. Debussy ainda mostra uns breves pousos no
romantismo, como no fim desta primeira frase. Só um tempo, um lampejo, pois ninguém
é de ferro. (Risos!) E assim mesmo ele é borrado por esse intervalo pouco
usual.
Continuo tocando e lhe perguntando se dá para perceber
que escolhendo trabalhar com motivos musicais curtos é mais fácil de evitar, de
fugir das tensões e dos descansos característicos da música tonal. Se você
inventa uma melodia só com quatro ou cinco notas não dá nem pra saber em que
tom ela está, quer ver? Experimenta! Assim é
mais fácil apenas sugerir. Escute aqui este acorde. É o mais simples: primeira,
terceira e quinta nota da escala. No entanto, esta quinta está dilatada, como
se a gente tivesse estirado mais o dedo para tocá-la ou tivesse tocado a nota
errada. (Risos.) Alterar os acordes é uma das coisas mais características de
sua música. É daí que consegue fazer seus “borrões”, se assim podemos dizer. Nos
dá a sensação de ambiguidade, como se estivéssemos observando algo através de
folhas de papel celofane sobrepostas e de cores diferentes que se movem
enquanto observamos o objeto. Não podemos eleger a predominância desta ou
daquela cor, entende? – Sim, mas o jazz
também usa este tipo de harmonia, diz se encaminhando até o piano para
harmonizar uma pequena melodia de Duke Ellington.
Sim, o jazz
foi mais uma de suas escutas. Os americanos usavam o piano de forma muito
descontraída e divertida e com certeza ele ouviu os músicos americanos ambulantes
que se apresentavam em Paris na sua época. Sei que compôs um “Ragtime” bem
sincopadinho com efeitos que lembram um Banjo, sabe? Colocou-o na sua Suite
“Children’s Corner”. Na peça tem um momento mais calmo onde ele colou um
fragmento de "Tristão e Isolda de Wagner". Mistura estranha, não? Ele pareceu não
me ouvir e voltei ao que estava lhe explicando. Veja onde ele repete este
acorde duas vezes. Este sforzzando
grita aos nossos ouvidos. Nos dá um susto quando aparece, como se quisesse nos
tirar dos devaneios. No entanto, não permanece ali. Passa repentinamente para
um registro mais leve. Para mim, trata-se somente de uma breve eloquência.
– Banal, diz. E por que não? Continua.
Este último comentário veio recheado de humor, e isso
significa que é capaz de se concentrar, de perceber muitas coisas, pensei. Comento que
ela é fugaz, só sugestiva. Aliás, foi a única vez em que precisamos tocar forte,
pois a peça inteira circula entre o pianíssimo e o meio forte. Com uma olhada
geral na partitura, nesse outro momento dá pra entender bem o que falei sobre a
atitude de "antimonumentalidade" em oposição à retórica wagneriana. Ao invés de
fazer uma onda crescente na repetição dos acordes, ele interrompe repentinamente
seu curso e nos surpreende com um pianíssimo”.
– Que sadismo, disse sorrindo!
Você sabe que os poetas simbolistas fugiam também dos
exageros emocionais em suas poesias? Paul Verlaine costumava dizer: peguem a
eloquência e torçam-lhe o pescoço.
– Mas essa música me parece muito romântica, afirma.
Sim, mas você tem de considerar que esse é um de seus
primeiros trabalhos. Ele tinha 28 anos quando escreveu Rêverie. Você pode ouvi-la romântica, mas quando nos aproximamos da
maneira como organiza seu discurso musical ela já contraria em muito os
paradigmas do romantismo.
– Mas quanto a isto, Wagner também o fez.
Ah! Aí é que está a diferença. Em Wagner ela estava a
serviço da expressão, da eloquência, e em Debussy a serviço da impressão, da
sugestão. A música de Wagner se caracteriza pelo acúmulo de tensões sem que
permita ao ouvinte a distensão ou a resolução dessas tensões. Com isso cria,
antes de tudo, a sensação de algo flutuante, inconcluso.
A calma e a descontração do início de nossa conversa
desaparecem, pois olho para o lado e me descubro mais uma vez falando sozinha.
Ele sai apressado, todo encurvado, comprimindo os lábios, empurrando uma mão
contra a outra. Observo-o dando uma volta inteira nos jardins da escola,
voltando depois de algum tempo. Senta-se e começa a puxar ansiosamente os fios
do cabelo, arrancando-os um por um, jogando-os no chão.
Surpresa com sua atitude, volto-me para a partitura na
estante do piano, simulando não estar notando nada. Estava mesmo com medo,
porque nunca tinha visto alguém se machucar daquela maneira sem razão. Ficou
assim fora do mundo alguns minutos e voltou a querer me escutar novamente. Fiz
de conta que nada tinha notado e recomecei a conversa. “Veja aqui na partitura
este pequeno trecho. Um contraste absoluto entre a melodia que caminha numa
pauta limpa, sem acidentes, e de repente ele complica, muda para uma tonalidade
mais carregada, com quatro sustenidos se distancia muito do tom principal”.
É, mas a gente nem percebe isto.
Sim, mas quem está lendo na partitura se assusta. É
como se a passagem fosse uma mancha na música toda. Uma mancha divina, sem
dúvida, mas que nos deixa perplexos. Quando aprendemos teoria da música, este é
considerado um salto muito grande, porque passa para uma tonalidade muito
distante da principal.
É, que para ele cada acorde era uma entidade separada
e deveria ser usufruído como um som em si, que para fazer sentido não
precisaria de ligações com outros, não é? Mas é só um pequeno trecho. E ele não
parece assim tão sombrio apesar de tantos sustenidos, observa.
É, mais como uma iguaria carregada de temperos que
deveria ser saboreada com "zelo”, completo sua frase. Ouça aqui como Debussy
volta à melodia inicial, entrelaçando-a, dividindo-a entre as duas mãos.
Um
riso pouco da parte dele demonstra achar o procedimento interessante, e comento
sobre a dificuldade de executá-la.
Apesar de a peça não ser tão complicada, a procura
das sonoridades, a torna difícil de executá-la.
Sua voz já não era mais a de uma criança, quando me
disse: (– é, mas você toca!...). Era como a voz de um velho. De todo modo, não
sei tocar sem os conselhos de minha professora, tenho muitas inseguranças e
quero sempre que ela me assegure das coisas, respondi.
Olhando para seu semblante, eu não via sinal de vida.
Apenas um olhar vazio, a boca funda e o sorriso deslocado, como se estivesse
rindo de outra coisa. Que sensação estranha! Será que eu era mesmo maluca, boba,
ridícula? Afastava um pouco essas ideias, concebendo que tudo
aquilo era demais para um jovem loiro e bem cuidado, que chegava trazido por um
motorista numa caminhonete. Que não falava de si nem perguntava nada de alguém.
Que eu não sabia se escutava o que eu falava. Claro, qualquer um ficaria
sufocado com meu excesso de informações, eu concluía. Mas depois que ele saía eu
tinha de estudar e continuar ali remoendo meu mal-estar.
VIII
O livro de treinamento de Paul Hindemith ocupava a
maioria do tempo de nossas aulas de teoria. Os ritmos desencontrados com que
batíamos os pés no chão e percutíamos com o lápis nas carteiras simultaneamente
cantando uma melodia, desafiava-me por inteira. Saía da aula leve como uma folha
seca caindo das árvores. Naquele dia, uma de minhas colegas aproveitou o final
da aula e com um sorrisinho maldoso me disse que “meu amigo” estava chegando. Olho para o pátio da escola e, ainda confusa com a ironia da colega, avisto sua figura
tensa, de cabeça baixa, subindo apressadamente as escadas. Quando me avista e vê que ainda estou em aula, passa timidamente pela
porta da sala e desce. Desaparece e só retorna quando já estou instalada na
pequena sala de estudo.
Anda, fala! O que é que tu estás estudando?
É esta peça – e lhe mostro a partitura – se chama
La Cathédrale Engloutie. Faz parte
de um ciclo de dois volumes de Prelúdios que Debussy compôs entre 1910 e 1913.
São das suas últimas obras. Esta aqui, por exemplo, é inspirada numa legenda bretã
da vila de Ys, que teria sido
invadida pelo mar e com ela sua catedral. Acredita-se que uma só vez por ano o
templo aflora à superfície da água para relembrar sua glória”.
Ele senta na cadeira ao lado do piano e me escuta.
É interessante como ele concebeu a peça usando todo o
teclado do piano, como se sugerisse a abrangência de tal catástrofe aquática.
Leia aqui: Dans une
brume doucement sonore et profondement calme. Você lembra o
que Debussy aconselhava? Antes mesmo de começar a tocar, temos de nos colocar
dentro da atmosfera da peça, lembra? Pois ouça estes acordes do início. Aparecem
como se fossem ressonâncias serenas e nos mostram características fundamentais
de sua música: sequências de acordes paralelos e que tenho sempre lhe chamado a
atenção. Além disso, usa também intervalos que não definem bem os pontos de
tensão típicos da tonalidade. O resultado é que ouvimos uma certa ambiguidade, uma sensação de algo vago, meio enganoso. Como se nem a melodia nem as tonalidades
fossem nítidas, reconhecíveis. Dá pra você perceber o quanto sua música é
diferente da de Wagner?
Petrúcio não dizia sim nem não, e eu continuava em dúvida
se acompanhava a explicação ou se pensava noutra coisa. Olhe: Doux et fluide, como ele mesmo sugeriu,
entende? Não sabemos se estamos lidando com tons ou modos. Esses são mais
alguns indícios de como ele abriu um novo universo sonoro em que a sugestão
ocupa o lugar da construção temática e definida dos românticos.”
Toco para ele os primeiros compassos da peça e lhe
explico: com relação ao pedal, temos de fazer soar este primeiro acorde, sem
que suas notas se misturem com as dos outros acordes que se seguem. Aprendi a
executá-los sem mexer muito os dedos, tentando imaginar que os sons estão
guardados dentro da palma da minha mão, que deve se conservar tranquila. Aliás,
Debussy aconselhava manter os dedos quase planos para que o pianista pudesse
sentir melhor a superfície das teclas e tocá-las com mais precisão.
Assim...veja! Gostaria de conseguir, na primeira parte da peça, executar uma
massa sonora lisa e uniforme sem perder essa transparência, como lhe falei. Mas
não ouço assim quando toco, sabe? Não é fácil. Às vezes tenho raiva da peça, da
professora que está sempre me fazendo uma ou outra observação, acrescentando
demandas ao meu estudo. Eu acho que esta exigência de tantos detalhes chega a
um ponto em que perco minha espontaneidade. Em vez de me soltar, fico presa,
tensa. Além disso, a natureza volátil desse tipo de música dificulta muito a
memorização, mesmo quando encontramos alguns pontos de apoio para nossa
concentração. Identificar, reter todos os diminuendos,
tudo o que é derivado, fundido ou sobreposto na composição, nos impõe um outro
tipo de atenção, diferente da atenção de quando estudamos uma música do século
XVII, por exemplo. Para quem analisa, e para quem ouve, a situação é até mais
cômoda, sabe?
Ele interrompe minha fala como se não quisesse saber
de minhas dores e pede para que eu toque novamente o trecho. Talvez para ver se
minhas mãos estão planas e calmas, penso. No entanto, enquanto toco, ele dá
duas voltas em torno de si mesmo e parece não ouvir o que faço.
Veja aqui este trecho, como lembra sutilmente o som de
sinos, sugere algo religioso, tranquilo, sem arroubos emotivos. Agora vou tocar
o mesmo trecho usando os pedais, tentando seguir as instruções contidas na
partitura. Que acha? Mudou alguma coisa? O pedal contribuiu para a construção
da atmosfera sugerida na peça?”
Não ouço resposta. Ele continua envolvido com seus mungangos:
pulinhos, mãos que se empurram ou a cabeça contra a parede. De repente sua voz
me diz:
Parece música de Igreja! E se cala, como se essa
expressão fosse só uma bolha de ar que emergia do fundo do mar de sua mente.
Você não acha interessante a ideia do som do piano
evocar sinos com intervalos graves? Como se os da catedral soassem enquanto ela
estava sendo invadida pela água? Mesmo assim ele não se estende, não para, não
explora essa sensação, pois já passa a evocar outra coisa. Veja aqui: peu a peu sortant de la brume. A
própria ideia de bruma já sugere algo impreciso, sem limites definidos. É mais
ou menos aquilo que lhe falei da pintura impressionista, lembra? Nessa outra página,
os acordes estão mais carregados de notas, enquanto a mão esquerda sugere uma grande
onda. Tudo em pianíssimo, muito calmo, como está escrito na partitura! Ela só
soa forte nestes dois acordes, aqui onde está escrito para aumentar
progressivamente o andamento.
Ele me interrompe e diz: – Essa música é muito
sofisticada!
Eu também acho. Tudo é muito pensado e caprichoso.
É, mas o resultado é que não deixa liberdade ao
intérprete, me diz.
É verdade, a crítica é pertinente. Por isso acho tão
difícil executá-lo. Até os rubatos, aconselhava que fossem executados com a maior finura e o mais imperceptivelmente
possível.
Essa sofisticação se justifica em parte pela
convivência que teve com os poetas simbolistas e pintores impressionistas. Parece
que eram muito requintados. Sim, ele musicou versos de Verlaine, Mallarmé, fez
ópera com texto de Maeterlink, inspirou-se em quadros de pintores da época. Foi
a maneira que encontrou para traduzir com música as novas percepções e a
sensibilidade de seu tempo. Vamos ver mais dessa música. Mais adiante vão
aparecer outros acordes interessantes. São blocos sonoros simples, sem tensão e
em movimento paralelo. Lembram um pouco a música medieval, sem grandes contrastes
ou insinuações, buscando a paz e a tranquilidade. Essa peça é muito sugestiva
como música impressionista, lhe expliquei.
Do lado de fora, o calor do fim do ano tinha
transformado em garranchos o único pé de abacate que restava vivo como
lembrança do pomar do velho casarão. Suas folhas caídas secavam no chão feito
lixo. O sol dava diretamente dentro da sala, aumentando ainda mais o mormaço. De
seus cabelos e rosto pingava suor. O líquido deixava também duas enormes
manchas úmidas debaixo das mangas de minha blusa, me deixando envergonhada. O restante
vai se apresentar sempre dentro das sonoridades meio brumosas, embaçadas,
explico. Depois chamo sua atenção para uma passagem no meio da peça, que lembra um
coral. Como se a água já tivesse baixado e pudéssemos ouvir o grupo cantante
vindo de dentro da catedral que começava a aflorar à superfície.
Olhei para o lado, esperando dele alguma reação, e não
havia ninguém na sala. Saíra sem dizer uma palavra, me deixando falando no
vazio. Eu voltava ao estudo com uma certo desconforto no estômago, carregando aquela figura enigmática. Me perguntando o que teria causado seu repentino gesto?
IX
A presença dos alunos e o barulho das aulas de música estavam
sedimentadas tão intensamente dentro da casa que, mesmo depois de encerradas as
aulas, sons e imagens ainda permaneciam como eco em meus sentidos.
Para apagar os detritos, abria todas as portas e
janelas para que o vento levasse tudo aquilo que era desnecessário e eu pudesse
descansar. Armava a rede no único lugar sem as inscrições sonoras e visuais do
meu dia a dia: a pequena varanda do apartamento em que eu morava. Ali do alto
observava os telhados das poucas casas que se escondiam no meio dos espigões de
apartamentos e me deliciava com a nesga de céu escuro a que ainda tinha
direito. A imagem da Torre da TV Verdes Mares estava coberta de luzinhas de
todas as cores que piscavam se confundindo com as estrelas que anunciavam o Natal.
Aos poucos o silêncio esvaziava e limpava meus ouvidos.
Como um mantra, eu passava a outra esfera das escutas: a das lembranças. Elas
me levavam mais uma vez ao velho casarão, tempo em que a luz e a cor
desempenhavam papel dominante como reveladoras dos fatos e conferiam à vida uma
atmosfera de otimismo e fé na beleza e no encanto da existência.
No balanço da rede fito meu olhar numa estante onde
vejo livros que se destacam pelo tamanho e recordo Petrúcio chegando após ziguezaguear
pelas salas do Conservatório, entrando apressado no cubículo do porão onde eu
estudava. Posta-se na parede interna como se estivesse se escondendo. O cabelo,
ainda úmido, espalha na sala perfume de sabonete. Continua de cabeça baixa, ora
roendo as unhas, ora empurrando as mãos uma contra a outra.
Naquela época, reflito eu, adquirir livros de
partituras era um verdadeiro sacrifício. As edições francesas eram quase
impossíveis, pois saíam caríssimas para alunos e professores. Encomendávamos no
Rio de Janeiro, ao importador Oscar Arani, e levavam até meses para chegar às
nossas mãos. Pelas dificuldades em adquiri-los, copiávamos muitas vezes à mão
uma peça inteira. Naquele ano, nós, alunas, fizemos uma cota e encomendamos algumas
partituras: as Suítes para Piano, os
dois volumes de Prelúdios, as Estampas e as Imagens de Debussy.
Quando Petrúcio se aproximava do piano, lá estou eu
apreciando como se fossem preciosidades, os enormes livros verdes das Edições
Durand que mandara buscar na França. Agora eu tinha em mãos uma edição original
dos dois volumes dos Prelúdios e poderia explicar-lhe muito mais coisas. Sem
levar muito a sério sua ansiedade, abri o primeiro volume para mostrar-lhe a
proposta inusitada do músico francês em escrever o nome das peças só no final
de cada uma.
Não entendo! Por que isso, pergunta.
É que ele primeiro queria criar imagens ou
associações sensoriais para o ouvinte sem impor um nome e só no fim dizer do
que se tratava. Aliás, isso é impressionismo. Mallarmé, contemporâneo, dizia
que nomear um poema significava tirar ¾ de seu prazer, que é feito de "sacações",
insights que surgem pouco a pouco.
Escrevendo um título no início, o poeta estaria logo mostrando o sonho, fato
muito verdadeiro, sabe?”
E essa foi a ideia de Debussy quando pensou seus Prelúdios? A ideia é interessante, respondeu. Evocar atmosferas sonoras não era
bobagem para eles, era uma atitude independente de construir peças fora das
normas tradicionais da época.”
Como se não acreditasse ou não tivesse entendido,
pergunta: o que são mesmo esses prelúdios?
Olha, eu os vejo
como uma coleção de ambiências, de cenários sonoros desse mundo fluido e
nebuloso que queria evocar. Às vezes antiquíssimo, inexplicável e encantado. São
peças pequenas, conversações breves entre alguém e o piano (1910-1913). Você
vai ver que elas apresentam ambiências variadas. Uma tem inspiração italiana, a
outra espanhola, outra lembra um conto de fadas e muitas são apenas lembranças
advindas de estampas, postais que ele via em algum lugar.
Olho para o meu amigo e me apercebo de que seus
cabelos dourados tinham secado e o perfume do banho tinha evaporado. No calor
da tarde, ele liberava muito mais o suor característico dos meninos
adolescentes.
Mas o que é mesmo um prelúdio, me perguntava mais
enfaticamente. Ah! Você quer saber da palavra? Bom, pela primeira
sílaba você pode imaginar que seja peça para ser executada precedendo algo, uma outra peça. Uma maneira de nos colocar no tempo musical. Assim como Postlúdio vem a ser tocado depois de algo
e Interlúdio ou Intermezzo no meio de algo. São todas peças que precedem,
intermedeiam ou encerram algo. É que ouvir música é mesmo cansativo, não é?
Nossos ouvidos precisam de mudanças de andamentos, de intercalar grandes e
pequenas formas, digo em tom de brincadeira.
Mas se você fala de antecedente, consequente, os
prelúdios de Debussy antecediam a quê?
Aí sua pergunta me deixou meio engasgada, em silêncio,
procurando como explicar-lhe, levando em conta a relação de dependência da música
com o tempo.
Não sei como lhe dizer, mas tem a ver com o fato de
que até o século XVIII os eventos musicais se relacionavam uns com os outros.
Uma Abertura para uma ópera. Entre os atos, um Intermezzo musical ou uma cena
teatral mais cômica contrastando com a dramaticidade do enredo. Uma dança mais
lenta contrastando com outra mais leve e rapidinha. Nas sonatas, um movimento
rápido contrastando com um grave etc. Mas a partir do século XIX essas formas
foram sendo compostas como peças isoladas sem compromisso com o que viria antes
ou depois de sua execução. Deu pra entender?
Ele não diz nada e seu olhar é raso! Eu continuo. Os
Prelúdios de Debussy, por exemplo, são divididos em dois volumes. Diferentes
dos prelúdios de Bach ou dos de Chopin, que seguem o ciclo das tonalidades, não
se pode afirmar que Debussy tenha tido algum propósito desse tipo. Como falei
de ambiências, talvez possamos pensar que é uma coleção delas. Você vai
percebê-las pelos nomes das peças.
– Como assim?
Imagino que é porque vão desde a calma do primeiro (Danseuses de Delphes) ou do décimo (Cathédrale engloutie) até o tumultuado Ce qu’a vu le vent d’Ouest do segundo
volume. Do misterioso Brouillards,
também no segundo volume, ao explosivo Feux
d’artifice. E reforçou a ideia quando deu nomes ao que antigamente se dava
apenas o número e no máximo a tonalidade. Sabe, apesar de não tocar todos eles,
já li que podemos reconhecer na coleção todas as características de sua música
e que elas são um resumo de suas preocupações técnicas com relação ao piano. Gosto
muito delas, pois são mais intimistas, para serem tocadas para quatro olhos e
ouvidos, como ele mesmo dizia.
Ele dá uma risada mais solta e resume baixinho: – Dois
do pianista e dois de quem ouve.
X
Aos poucos caíram as máscaras de nossos contatos iniciais
e as conversas ficaram menos
formais. De brincadeira sugeri que imaginasse uma ligação entre as vestes de estátuas
gregas dos livros de História da Arte e os primeiros acordes do primeiro
prelúdio de Debussy, que dizem ter sido inspirado numa pequena gravura de três
dançarinas bacantes que ele viu no Museu do Louvre. Petrúcio ria do que eu falava. Olhe
como são esculpidas suas vestes, dando a sensação de que estão molhadas, pregadas
ao corpo. Lembra-se dos acordes que eu treinava quando você entrou aqui pela
primeira vez? São parte desta peça. Você não acha que eles são assim meio molhados?
(-Risos) Apesar de sugerirem algo processional, você não os acha bonitos, sensuais?
Ele dava um sorriso de descrédito: – Como assim?
Sensual em música? Você é mesmo maluca!
Eu seguia executando os acordes da peça insistindo nas
minhas interpretações. Ouça como constrói o primeiro compasso: três acordes,
somente. No entanto, escondido entre suas notas aparece um pequeno motivo
cromático: Si bemol, Si natural, Dó, Dó sustenido. Preste atenção a essas
oitavas do baixo, pois vão aparecer como efeito expressivo em toda a peça. Esse
mesmo motivo curtinho é repetido aqui no segundo compasso, ouviu?
Hum, hum, confirma.
E o que acha dessa nova ideia, pergunto enquanto
toco. Não se enquadra bem na quadratura do compasso que ele propõe. Só termina
no início do outro compasso. Dá pra entender bem? Confira a outra saída dada
para o pequeno motivo cromático do início, que deve ser ouvido agora lá nas
oitavas do baixo. Muito genial, não é?
Faço de conta que não noto que não está escutando
minhas explicações e continuo.
Vem em seguida uma série de acordes paralelos que
contrastam com o movimento contrário dos acordes iniciais. Fico fascinada
quando consigo identificar numa partitura uma racionalidade, um propósito do
compositor, por mais simples que seja. Esses acordes paralelos me lembram o
vento modelando as dobras dos véus no corpo das três bacantes.
Ele então dá sinal de vida e ri: – Entendi.
Quando a gente expressa com palavras uma imagem que
vem à mente ao escutarmos uma música, elas se tornam engraçadas. Minhas amigas
abrem sempre um sorriso no olhar, mas deixam os lábios fechados como se se negassem
a aceitar minhas palavras. Parece que procuram um lugar pra encaixá-las, mas o
certo é que não sei explicar a música só analisando os livros. Tenho de me
valer de imagens.
Peço-lhe que observe como o compositor é astucioso
quando mostra nitidamente decupada, aquela melodia intermediária do início, enquanto
os acordes, em contratempo, completam a harmonia na parte aguda do instrumento.
Como se fossem aqui na partitura. É preciso que o ouvido faça a ligação.
Soa muito bonito, me diz. Morde um pouco os lábios e se
cala. Parece que sua preocupação eram só as manchas sonoras que sugeria com esses
acordes meio repuxados, fora do convencional, não? Estes cinco compassos são
constituídos exatamente com o mesmo material sonoro do início e que ele
expandiu, remodelou. Toco o trecho e mostro na partitura, explicando como se
constroi uma composição musical.
Ele então acrescenta: – Bach fazia assim, não?
Bom, eu não vou cansar seus ouvidos nem sua
capacidade de ver e ouvir, falando de escalas dóricas ou pentatônicas que ele ‘dragava’
lá de músicas medievais ou de outras culturas para usar em suas composições,
mas queria lembrar os acordes alterados e os jogos de intensidade que ele teve
tanto cuidado em escrever como queria que fossem executados. Sei que este piano
é ruim e meus dedos não estão prontos neste prelúdio, mas dá para perceber como
a peça é riquíssima de efeitos timbrísticos e o mais interessante é que quase
tudo dentro de sonoridades muito delicadas, como uma aquarela ou desenhos encontrados
em ruínas, que só o trabalho de arqueólogos consegue evidenciar. Como a solução
de um quebra-cabeças lhe mostrava o nome Danseuses
de Delphes impresso em letras miúdas no finzinho do papel.
(Rimos juntos!)
Sabe, acho os títulos de suas composições muito
poéticos! Escuta: Jardins sous la
pluie, Reflects dans l’eau, Et la lune descend
sur le temple qui fut etc. É, mas são bonitos e musicais se
ditos em francês (Risos!). Continuei: que tal Lindaraja?”
Parece nome de
princesa oriental, me diz rindo.
E este: En
Blanc et Noir?
Esse aí parece
o hino do time de futebol do Ceará.
XI
Entusiasmada com a leitura do segundo Prelúdio do
livro, nem dei por sua entrada na saleta. Só me apercebi dele quando o ruído da
cadeira em que sentara me trouxe ao mundo dos falantes. Antes que perguntasse o
que eu estava estudando, inquiri se desejava conhecer o segundo Prelúdio. Sem
dizer nada ele crispou o pescoço para o lado direito, empurrando na altura da
cintura uma mão contra a outra.
Vamos fazer uma experiência, vamos inverter as
coisas. Pelo que você já viu, já sabe, já percebe, o que pode dizer desta música? Ele permanece calado, como se não estivesse ouvindo. Tento encorajá-lo.
Vamos, olhe a partitura e diga alguma coisa! Mesmo
quem não sabe música pode dizer muito sobre uma composição, desde que observe e
tenha tido iniciação sobre a confecção do tecido musical, e isso você sabe
muito bem. Quando você não conhece um livro procura saber quem o escreveu, em
que época foi escrito, onde foi ambientado, quem é o autor, sobre o que escreve;
lê as orelhas, as críticas, depois vai ler o conteúdo, como o autor expõe as
ideias, como as explica, como refaz seu pensamento, argumenta, desmembra,
responde, esconde, seduz o leitor com artimanhas, enfeites etc. Você sabe muito
sobre Debussy, sobre sua época e pode muito bem dizer coisas. Vamos lá! Antes
vamos colher as primeiras informações aqui na partitura: tempo moderado, ritmo
sem rigor e carinhoso. Aqui abaixo das primeiras notas está escrito: muito
doce. Agora me responda: que tipo de música você pensa que vai ouvir? Em
ambiência pesada? Marcha vigorosa? Ela é comprida?
Não, me responde com certeza.
Então? Olhe quanta informação já temos. Vamos
identificar os motivos fundadores e os condutores, que você também sabe muito
bem o que são. Vou tocar os quatro primeiros compassos e você vai me dizer o
que ouviu.
Ele ri, mas não diz nada.
Vamos, fale!
Petrúcio permanece calado, e eu lhe digo: A peça já
começa com uma sequência de tons inteiros descendentes e em seguida dois
intervalos paralelos, mas dissonantes, artimanhas para fugir ou diluir a noção dramática
e pesada da tonalidade.
Sorrindo mais abertamente, ele diz: – Os intervalos
parecem com trilha sonora de filme de Hitchcock.
O Prelúdio inteiro é repleto de pequenas passagens
melódicas de tons inteiros e de intervalos considerados dissonantes. Apesar de
sua comparação com os filmes de Hitchcock, a atmosfera é de calma, não?
Sim, é verdade!
Uma coisa muito visível é a nota pedal si bemol, que
vai ser ouvida durante toda a peça. Observe na partitura inteira.
Ele conta na partitura inteira e diz: – Ele realmente
gosta desse tipo de efeito.
Olhe essas três notas na mão direita aqui no sétimo
compasso.
Lá bemol, si bemol e dó. Pois bem, veja na partitura se serão relevantes para
a composição ou se estão aí só para preencher o silêncio.
Ele ri novamente, desta vez como se estivesse meio perdido.
Diga-me onde essas notas aparecem?
Mostra-me as duas vezes em que o motivo aparece mais
nítido. Encorajo-o a mostrar as diferentes combinações onde podemos identificá-lo
na partitura. Olhe nestes acordes! E no compasso 32, onde começa a ficar mais
cheio de notas? Você não vê essas três notas embrenhadas por aí?
Ele então se desconcentra e meio perdido me faz uma
daquelas perguntas: – E estes pontinhos aqui em cima das notas?
É que elas devem ser tocadas destacadas. A música
dele é feita dessas pequenas ideias que sabe tão bem usar. Você encontra alguma
coisa parecida entre os compassos 23 e 25?
Ele ou não ouve ou menospreza minha pergunta. E este
intervalo de quinta diminuta que forma este ritmo pontuado e que se repete, não
lhe chama a atenção?
Na sua momentânea concentração, responde:
É, ele aparece umas seis vezes, mas desaparece aí
pelo meio dos acordes. Mas o que é um intervalo diminuto?
Muito fácil, lhe respondo. De dó a sol, entendemos ser
um intervalo de quinta, justinha, justinha, certo? Dó,ré,mi,fá,sol, lhe mostro
no teclado. Mas o que você acha do intervalo entre de dó e sol bemol? Ele é uma
quinta, mas diminuída pelo bemol, está vendo aqui a distância? Ele sorri com
minha explicação e eu acrescento; ah! Você não imagina as possibilidades dos
intervalos diminutos ou aumentados numa peça musical. Com eles abrem-se
caminhos, fecham-se portas, interrompem-se discursos. Enfim, fazem-se loucuras
numa composição.
Ainda interessado, dirijo-me a outro momento da peça:
Nesta parte aqui, ele segue o mesmo procedimento da Rêverie, colando uma parte carregada de
bemóis. A partir dali a música fica um pouco mais movimentada, como se algo
tivesse decolado ou estivesse deslizando, não é?
Seu olhar se torna repentinamente flutuante, parecendo
navegar em águas paradas. No meu desconforto, continuo lhe explicando, quase com
a certeza de que são só para mim.
Essas notas miudinhas parecem uma improvisação ou
algo feito com harpa. São a transformação deste motivo no fim do compasso 22. O
prelúdio se chama Voiles e foi
inspirado nas velas de barcos. Dá para imaginar o jogo do vento nas velas dos
barcos quando ouvimos a peça? Sabe, isto confirma de certo modo a atração dos
impressionistas pelas águas e pelos barcos não é? Eram muito sofisticados,
pareciam ter muito dinheiro, pois alguns tinham seu estúdio dentro de um barco.
XII
Tudo o que eu dizia eram apenas sugestões para uma
audição, observações, lembretes, meros exercícios de como usufruir melhor a
arte dos sons. Eu mesma não tocava todas as peças. O mais que podia era executar
algumas passagens para exemplificar aspectos que chamavam-me a atenção. A professora
distribuiu três Prelúdios para cada aluna ter a oportunidade de conhecer a obra.
O terceiro, por exemplo, Le vent dans la
plaine, foi um dos que ela escolhera para eu tocar. Fiquei sabendo que havia
sido inspirado nos versos de Simon Charles Favart - Le vent dans la plaine suspend son
haleine. É carregado de acordes executados bruscamente parecendo rajadas de
ventos que se alternam com sequências de acordes paralelos, num pianíssimo leve
e delicado como se o vento se acalmasse e passasse levemente pelos campos. Às
vezes parece sussurrar e tremer. Toco algumas partes do Prelúdio ainda meio
alinhavado e digo baixinho ao amigo que não consigo executar todas as sugestões
da partitura porque a peça ainda não está nos dedos. Tomo coragem e lhe faço uma
proposta ousada: Você não quer vir ouvir toda a coleção no dia da audição?
Deverá ser numa quarta-feira à tardinha, no auditório. Cada aluna toca uns dois
ou três e assim você poderá ouvir todos eles ao mesmo tempo”. Fico desconcertada,
pois permaneceu inexpressivo e inexplicavelmente mudo. Deus, o que foi que eu disse
que tudo caiu no vazio, pensei. Será que não ouviu? Não quis responder? Tentando ocupar
o vazio, o mal-estar, começo a falar novamente, esquecendo o convite: Neste
mesmo livro tem um outro que fala novamente do vento. É o número 7. Ce qu’a vu le vent d’Ouest foi
possivelmente inspirado num conto de Hans Christian Andersen, onde o vento do Oeste,
cheio de mistério e violência simbólica, conta o que viu por onde passou.”
– E como se chama o conto, diz ao ouvir meu
comentário.
O Jardim do
Paraíso, lhe respondo. Este aqui, o quarto, também foi escolhido para eu
tocar. No início achei meio chato, sem graça, mas aos poucos descobri suas
belezas. Quando vi o nome lá no final, me interessei mais. Foi como se eu
tivesse sido realmente envolvida pelas harmonias da tarde, pelo perfume que
exala das flores depois das chuvas vespertinas. Ele é inspirado num poema de Baudelaire
- Harmonie du soir.
Nesse momento apareceu alguém na porta batendo com o
dedo no visor do relógio de pulso. Era o motorista. Sem protestar, ele baixou a
cabeça e em atitude submissa saiu como um cachorrinho à frente de seu dono, de orelhas
caídas, arrastando o focinho pelo chão e balançando o rabinho. O motorista se
desculpou comigo, dizendo que ainda tinha de pegar uma irmã do rapaz no emprego.
XIII
De outra feita, entrou na sala quando eu já estava acomodada
no banco do piano, começando a soletrar a partitura de um trio de Beethoven que
tocaria como parte do programa de Música de Câmera. De óculos escuros, lembrava
Jardel Filho adolescente. Muito ansioso, esfregava as mãos comprimindo-as com
tanta força que o pescoço e o queixo tremiam. De repente correu da pequena sala.
Pela posição do sol, vi sua sombra deslizando pelos oitões do prédio, decompondo-se
ao subir os degraus da escada. Achava que não voltaria, que explodiria mais
adiante de tanta inquietude. Mas voltou, retirou os óculos e sentou na cadeira.
Como seriam umas peças brasileiras impressionistas?
Como assim, lhe pergunto. De onde ele pescou
semelhante disparate, pensei!
Que nomes teriam elas?
Não estou entendendo. Você quer saber como se chamariam
esses tipos de composição aqui no Brasil?
Sim, responde.
Fiquei engasgada, sem saber o que responder. Tentei
falar mas as palavras só iam até a metade, pois eram interrompidas por suas
perguntas.
O que tu achas de fazermos uma lista com uma série
de nomes para Prelúdios Brasileiros Impressionistas?
Você quer compor, perguntei.
Não, a gente imagina só os nomes mesmo. Inventa só
os nomes de inspiração impressionista. E desatou a rir.
Para que tanta ansiedade e inquietude só para propor aquilo?
Parece que havia esperado o tempo inteiro para ter coragem de dizer algo seu, a
ideia que fazia de tudo o que estava passando em sua mente. Ali eu tomava
conhecimento do que lhe tinha tocado de todas as conversas que tivéramos. Precisava
recolocar-me de repente em todo aquele espaço de tempo em que o havia conhecido.
Quando mostrou seu querer, entendi que o que me propunha era de caso pensado,
tinha sido arquitetado. Vi seus olhos se iluminarem, seu corpo vibrar e uma
risada mais aberta se dar a conhecer. Entendi que propunha uma brincadeira, uma
paródia dos nomes dos prelúdios que eu tanto tentara explicar-lhe. Apesar de
ver a maioria de meus esforços – e não foram poucos – voando como os milhares
de pássaros migratórios que eu ouvia dizer que passavam pelos céus da cidade
rumo ao Polo Sul, topei a brincadeira na hora. Nunca tinha visto os pássaros e desejava
saber aonde iria aquele bando de idéias e risadas. Até então eu tinha tido uma postura mais ativa,
séria, mas agora era ele que propunha algo. Decidi que poderia dividir esforços e esperar que me guiasse na sua proposta. Deixei-me ser levada e conheci outra pessoa,
minuciosa, extremamente apegada a detalhes. Irritava-se, teimava, emocionava-se,
discutia, não aceitava qualquer sugestão de nome, e o que é pior, incansável, propondo
sempre uma nova forma de organização da tal lista das músicas, sem considerar o
tempo do outro. Para que a proposta continuasse, era preciso entender que
aquilo ali não era pra nada, não iria dar em nada. O princípio era mesmo só
lúdico.
Aqui nesta Danceuses
de Delphes o que podemos colocar? Eu pensava um pouco e sugeria: “Que tal Lavadeiras do Rio Cocó”? E começava a
rir para me ver livre de sua insistência.
– Não, nada a ver, me dizia.
Então Umbigadas
no Côco?
Ele esperava e se manifestava: Isso! Aí faz mais
sentido. E se entregava ao riso. Sentava numa cadeira e, como se sua energia fosse
brotando, como se agora fosse o dono do espaço, me pedia lápis e papel.
Vamos fazer uma lista muito organizada, me dizia em
tom de ameaça.
Tomava o lápis e falava: – Neste que tem nome de Voiles, o que a gente coloca?
Que tal Passeio
de Jangada?
Muito impressionista, muito impressionista, falava
como se estivesse filosofando, como se aquilo fosse uma coisa séria! E desatava
a rir novamente.
Eu então acrescentava: você já pensou em um grupo de pessoas
voltando de um passeio de jangada mareadas, vomitando na beira da praia? Ele
ria e recomeçava: – Nós já temos dois nomes. Quantos a gente escreve?
Rasgava o papel e pedia outra folha pra fazer outra
lista, com o argumento de uma melhor apresentação. Eu pensava nas suas preocupações
tão irrelevantes para o objetivo final da tarefa: fazer uma lista de prelúdios
impressionistas brasileiros.
Vamos fazer tudo muito organizado, viu?, ameaçava
novamente. Surpresa com sua energia, sua risada gozadora, sua disposição para a
brincadeira, eu me via diante de uma outra pessoa. Até sua voz se transformava,
mais parecendo ter incorporado um espírito maligno com critérios próprios para
fazer "malinidades". Sugiro então que no lugar do oitavo prelúdio, La fille aux cheveux de Lin, a gente
coloque A menina dos cabelos Pixaim.
Que tal?
Não achava que fosse aceitar minha ironia, mas ele ria
muito. O mais interessante era sua atitude quase litúrgica quanto a detalhes
que me pareciam sem importância. Contava oito linhas no papel, colocava em cada
uma o número em algarismos romanos e ali se postava para o ritual da nova organização
da lista. A cada nome escrito socava os lábios para dentro da boca com tanta
força que me metia medo cortá-los ou quebrar os dentes. O esforço para escrever
era tamanho que a cada nome gastava meia ponta do lápis. O rapaz desligado,
desconcentrado, transformava-se, tomava iniciativas, propunha formas de
organizar a lista, se envolvia obsessivamente na brincadeira. Tomava meu
caderno de música como rascunho e, inquieto, quando errava alguma coisa arrancava
suas folhas uma a uma, amassava-as e as jogava no chão. Escrevia apressado e de
repente, arrancando mais uma folha, iniciava uma nova lista com outras
prioridades.
Vamos fazê-la novamente e organizá-la melhor.
Aquela atividade banal parecia envolvê-lo tão completa
e seriamente que sugeria estar descobrindo alguma teoria física importante. Quando
errava algum nome, não esperava nem pela borracha, apagava mesmo com o dedo,
deixando uma mancha escura no papel. Tudo o que eu presenciava, o estrago das
folhas do caderno, os borrões com os dedos, a letra ilegível, era como se eu
estivesse perdendo um de meus dentes num pesadelo. Jogar papel fora era
desperdício, “falta de capricho”, diziam meus pais. A atitude doía em mim, pois
caderno era coisa para se ter cuidado. Lembro-me muito de meu pai, que brigava
conosco quando descobria maus-tratos no nosso material escolar. Todos nós
tínhamos blocos para borrões que ele mesmo fazia e só passávamos os textos a
limpo no caderno quando o pensamento ou a tarefa já estava pronta. As
adolescentes da época, então, costumavam ser muito cuidadosas, e eu,
especialmente, era organizada e econômica. Aquela criatura ali, além de tomar
meu tempo, estava também destruindo meu material escolar. Até que ponto seria
necessário usar, sujar e desperdiçar o mundo todo para desfrutar de uma
brincadeira? Eu me sentia lesada e à beira de perder o controle, mas a verdade
é que, no meio de todo o constrangimento, também gostava da brincadeira. Só não
queria que uma aluna ou uma professora da escola nos visse ou ouvisse “profanando”
as regras da casa nem a música do mestre francês. Sabia que poderia gerar
consequências e ser julgada pela “inquisição” do Conservatório. Aquele momento
tinha que permanecer para sempre só entre nós dois, porque sabia que estávamos
fazendo algo proibido, censurável... Mas o jogo já tinha começado, e eu não conseguia
mais parar. Aos poucos fui esquecendo dos estudos, do medo das censuras dos
professores e colegas, do chato do Debussy e de tudo o que eu queria ensinar ao
Petrúcio. A brincadeira tomou conta de mim, e a sensação de estar debochando da
seriedade dos ensinamentos e da minha paixão pelo impressionismo me dava
alegria.
E no lugar de Les sons et
les parfums tournent dans l’air du soir ? Ficamos um pouco
parados, pensando, e aí ele sugeriu: – O cheiro
do mangue na barra do Rio Ceará, que
tal? Caímos na risada. Você disse que os impressionistas gostavam das águas, dizia ele rindo!
Ai que nojo! Me lembrar daqueles caranguejos cabeludos
e sujos andando na lama, a vegetação de raízes à mostra, a cor verde- oliva da
paisagem quando a maré está baixa... Olhei para o rosto dele e o vi vermelho
de tanto rir.
– O que é que tu achas de Aracati no lugar de Ce qu’a
vu le vent d’Ouest? E ele pula por cima do degrau da porta e num só impulso
volta em seguida. Esfrega os olhos fazendo um círculo com as duas mãos fechadas,
se engasgando aqui e acolá com o próprio riso.
Não é a cidade de Aracati, mas aquele vento que
chega sempre na boca da noite, depois do jantar, quando as pessoas estão
sentadas nas calçadas conversando. Você não acha essa ideia impressionista? (Risos).
Assim é muito Belle Époque! Quanto mais falava, mais ele ria.
Você não imagina o que Manet pintaria se visse ali no
Passeio Público, no fim das tardes, as pessoas passeando ou sentadas nos bancos
se refrescando com o Aracati. Ou na
Avenida Dom Manuel, as famílias sentadas balançando-se nas cadeiras de vime, conversando
na calçada!
O nome do quadro seria Musique dans les jardins des promenades, diz.
Apesar do avançado da hora, de eu dar sinais de que
precisava voltar pra casa, ele insistia. Não, não! Vamos terminar a lista! E este aqui, Le vent dans la plaine? Você falou que
tem umas rajadas de ventos, que ele sussurra e treme. Para finalizar a brincadeira, eu disse rapidamente: que
tal Siroco? As pessoas sussurram,
amaldiçoam e tremem também quando ele vem, não?”
Ríamos juntos. Nunca terminaríamos a lista, pois além
de nada ter a ver com coisa nenhuma, não tinha utilidade nem consequências. Não
fazia parte de nada. Era só algo lúdico. No outro encontro ele já teria esquecido
tudo, eu sabia. Mas que nada! Ele não largava a ideia. Voltava e obrigava minha mente a voltar ao set da ironia, do sarcasmo. E o que mais do Siroco, perguntava. É vento seco e quente vindo do deserto e traz muitas
vezes uma tempestade de areia. Bate no nosso corpo dando a sensação de queimar, não lembra? Parecia que qualquer coisa que eu falava era mais um motivo para aumentar
nossas risadas. A situação parecia um transe.
Ah! Agora vem o nome mais sugestivo, dizia ele: La Cathédrale Engloutie. Como ficaria
esta aqui? Tem que ser um nome muito brasileiro, muito cearense, viu? Vamos,
inventa aí, dizia jogando a tarefa de inventar para mim! A luz do sol já se enfraquecia e eu ficava apreensiva,
porque tinha de voltar pra casa na claridade do dia. À noite, percorrer a pé todo
o caminho era no mínimo constrangedor. Apressava-me para evitar algum malfazejo
e para não me sentir atrapalhando o encontro dos casais que se concentravam no pé
daqueles imensos muros que caracterizavam a rua que ligava o Conservatório à
minha casa. Não queria pensar que seriam aquelas mulheres as futuras moradoras
da Bom Pastor e, para me ver livre dele,
sugeri: A Igreja de
Almofala. Ela também submerge e emerge, só que da areia da praia. Para que
mais impressionista do que isso? Já pensou a areia da praia correndo solta pelo
vento que aos poucos enterra a pobre da igreja e depois de muitos anos a duna
ali formada começa a ser transportada para um outro lugar até que a igrejinha reaparece?
Ainda hoje lembro suas risadas e vejo seus sapatos murchos
pulando adoidado dentro da saleta. Eu tinha pensado em Duna, mas esse aí é muito melhor. Tem até legenda. Lá na França a
igreja afunda na água, a daqui afunda na areia, dizia baixinho, tentando conter
o acesso de riso. – Mas isso é óoooooootimo! Para dar fim aquela brincadeira sem fim, movimentei-me pra pegar minhas
coisas, fechar a sala e sair, mesmo sob protestos, prometendo-lhe continuar num
outro dia. Ele finalmente aceitou e me acompanhou até a saída da escola. Sugeri-lhe
que fizesse músicas com os nomes que havíamos inventado. Poderíamos discutir como
colocar os efeitos musicais, as ambiências de cada uma das peças, mas ele nada
confirmava, parecia estar se recuperando das energias despendidas na brincadeira a dois.
E como se chamaria essa coletânea, ainda perguntei. Impressionismo
Cearense, respondeu já distante e preocupado. Dei então uma última
contribuição ao nosso happening! Que tal Luz e lírica:
imagens do impressionismo tropical? Nesse momento ele já caminhava indiferente,
esfregava fortemente as mãos. Chegando ao portão, o motorista o aguardava no
carro. Sem dizer palavra, abriu a porta, enquanto eu atravessava a rua já não sendo
ninguém pra ele.
XIV
Apesar de ser um jovem inteligente e gostar de música,
ele não alcançava a maioria de meus devaneios musicais. Falar de modos
eclesiásticos e de escalas orientais na música de Debussy, então, estava fora
de cogitação. Apesar de tudo, me pergunto sempre o que o atraia aos nossos
encontros, o que aprendia de tudo o que eu falava sobre música. Chegava, saía
rodopiando pelas salas até me encontrar. Aqui, acolá, dizia algo que me dava a
impressão de que me ouvia. Mas tudo era muito tênue, como passos na neve,
desenhos na areia da praia. Sabíamos muito pouco um do outro. Como vinha muito
frequentemente ao Conservatório, me perguntava se nada mais tinha a fazer? Deveres?
Aulas de línguas, como qualquer rapaz de sua idade? Sabia que era o mais novo
de uma família e que as irmãs mais velhas cuidavam dele. Tinha motorista e se
transformava quando o assunto era organização, fazer listas, esquemas, mesmo
que não tivessem utilidade. Depois de muito tempo, soube pelo namorado de uma
colega, que ele jogava xadrez e dançava twist
nas matinées do Clube dos Diários,
que ficava perto de sua casa, na praia de Meireles. Naquela época, saber dançar
era condição para fazer amizades e enriquecer nossa vida social. Nas tertúlias
dos clubes, locais de encontro da juventude, long plays com as orquestras de
Waldir Calmon, Ivanildo, Trio Irakitan e o estilo “Easy Listening” de Ray
Coniff e Billy Vaughn e ainda o som suave de Glenn Miller faziam sucesso entre
os casais de namorados que fugindo da censura dos pais balançavam-se “coladinhos”
no centro dos salões. Mesmo quando a
ocasião exigia música ao vivo os grupos musicais imitavam o repertório destes
ídolos. Mas Petrúcio era diferente. Sei que nunca dançou um bolero ou um samba.
Era tímido demais para tirar alguém para dançar? Seu gosto musical ia mais para
o estilo americano; o Jazz que circulava como raridade em discotecas
particulares da cidade, e o Twist de Chubby Checker. Como jovem precoce, me
surpreendia sua simpatia pela Bossa Nova que despontara nas rádios no fim dos
anos cinquenta. Lembro que quando pedia para tocar alguma coisa, ele ia logo
executando a canção “Chega de Saudade”. A vida musical dos adolescentes era
também exercida nas salas de visitas das residencias onde se reuniam para conversar
e dançar. Havia sempre alguém que tocava piano ou acordeón e de ouvido, apurava
o repertório da moda para animar a ocasião, fazendo todo mundo dançar. Nos
momentos de pausa, surgia sempre uma garota imitando Angela Maria ou uma mais
ousada cantando Maysa, Dolores Duran ou alguma canção em inglês. O repertório
americano, obrigatório nestes eventos vinha através da trilha sonora dos filmes
em cartaz nos cinemas da cidade. Pat Boone, Connie Francis, Brenda Lee, Judy
Garland e The Platters eram cantores conhecidos entre os jovens de classe média.
Mas Petrúcio parecia mais distante deste gosto musical. Gostava mesmo era do
tempo sincopado de Dave Brubeck, das improvisações de Coltrane. Enquanto dançávamos
revivendo as estórias de amor de Suplício de uma Saudade, Melodia Imortal,
Música e Lágrimas, Lili, Anastácia, Volta ao mundo em oitenta dias, Tarde
demais para esquecer, meu amigo se afastava desse tipo de romantismo e já
apreciava os filmes da Nouvelle Vague que assistíamos no Clube de Cinema. Pedia
muitas vezes que tocasse alguma destas melodias mas meus esforços eram em vão. Apezar
de saber harmonizar muito bem ele não passava das primeiras frases e desistia,
como se aquele tipo de discurso sonoro não lhe sensibilizasse. Não era um
romântico como maioria dos jovens da época, pensava. Mas o certo é que Petrúcio
era radical no seu gosto; só tocava o que lhe interessava no momento. Sei que
frequentava os cinemas da cidade, mas quando eu tentava saber algo mais sobre o
que achava das trilhas sonoras de um filme ele voltava ao seu mutismo e saía
nervosamente da sala. Nestes momentos eu me achava fútil, boba e burra diante
daquela criatura de gosto musical tão sofisticado e exclusivo!
Esperava sempre que nossos contatos produzissem algum
efeito, que o movessem para um estudo de música mais organizado, que frequentasse
regularmente aulas de instrumento. O que eu lhe falava estava sempre ligado à
prática regular do meu instrumento, constituía minhas reservas, meus recursos,
pois investira muito tempo naquilo. Naquela época, o mundo das palavras só me
interessava se estivesse a serviço dessa maneira de organizar meu mundo
interior. Descobri que com ele eu perdia tempo. Quando tentava, mesmo a seu
pedido, passar-lhe dicas sobre técnica, percebia que não tinha calma para ficar
escutando até mesmo uma pequena melodia, para praticar exercícios, por mais
rápidos que fossem os resultados. Tampouco se dispunha a disciplinar-se para
assimilar treinamentos. Em verdade, não queria sequer escutar-me, pois de
repente se desligava da conversa, interrompia o diálogo, mudava o assunto ou ia
embora sem dizer nada, como se já tivesse obtido o que desejava, como se seu
cérebro suportasse só aquilo. O resto não importava. Eu que ficasse falando
sozinha. Ora, eu vivia num mundo de partituras e notas e já sabia que aquilo
implicava muito tempo de estudo. Ele pensava e sentia diferentemente. Não se
importava de entrar na sala quando queria, atrapalhando-me muitas vezes, numa
espécie de profanação do meu cotidiano. Não detectava, no material que ele trazia
e me mostrava, sinais de assimilação do estilo de Debussy nem tampouco de
melhoras técnicas. Duvidava se tinha entendido minhas explicações até o ponto
em que nosso contato tinha sido interrompido. Onde estariam os tons inteiros, o
paralelismo de acordes, os motivos musicais curtos? Ele estava muito mais
impregnado de uma etiqueta e de matrizes performáticas da maneira de compor e
improvisar dos pianistas e compositores de música popular. Era a Bossa Nova com
seu novo jeito de tocar piano, sua nova gramática musical, que povoava seu
imaginário musical. Em alguns momentos até conseguíamos manter uma conversa
interessante, comparando a música impressionista com o gênero de João Gilberto,
Carlinhos Lira e Luiz Bonfá. Os temas das poesias, a forma dos encadeamentos
harmônicos, a atmosfera indefinida das tonalidades, o exagerado número de
dissonâncias acrescentadas aos acordes, o ritmo quase dolente do gênero nos
lembrava a música francesa.
Sentado ao piano, Petrúcio colocava o pé direito no pedal
e o esquerdo mais distante, como forma de dar o tempo da peça e começar a
tocar. Adolescente, tinha o corpo esguio e maleável. Figura alva, cheia de
sarnas, olhava pra mim enquanto tocava, como se esperasse alguma reação de
minha parte. Quando executava um acorde menos usual parava, encolhia os ombros
e seu olhar vazio se enchia com dois pontos de interrogação, como se dissesse “escuta
este, ouve como é moderninho, bonito, bem feito”. A ideia que eu tinha dele
nessa época era a de um menino inteligente que simulava estar fascinado pelo
que eu lhe falava, mas de forma vaga, indefinida, exceto nas horas das
brincadeiras. Talvez quisesse só mostrar suas composições, ou somente uma
confirmação de que o que estava fazendo era bom. Evidentemente, ali não era o
local. Eu era apenas uma aluna deslumbrada que pensava em atraí-lo para o meu
universo musical. Sabia que a escolha pela música exigia disposição interior,
uma sensibilidade do mundo e muito mais, um estilo de vida. E não via nele esta
disposição. O piano era para mim uma maneira de viver e embora seu fascínio
pela música e pelo piano fossem particulares, poderia pelo menos ter se
envolvido com as atividades que a instituição oferecia, que eram muitas e
atraentes. Nunca o vi num recital ou numa audição de alunos. Afinal, havia a
oportunidade de ver uma peça inteira sendo executada, no lugar certo. O coral
abrigava muitos jovens e funcionava em diferentes horários. As aulas de teoria
musical aconteciam inclusive à noite, e se alguém quisesse de fato aprender,
tudo era facilitado. Por mais acadêmico e engessado que fosse o currículo da
instituição, as atividades poderiam enriquecê-lo como pianista e como
compositor. Mas ele não fazia maiores contatos, não se comprometia a não ser
com seus desejos. Cada vez que aparecia era como a primeira e a última, sem
ligação com o passado ou consequência para uma próxima vez.
XV
Depois
de tantos anos, não imaginava que a simples visita à secretaria do Colégio para
pedir uma cópia de meu certificado de conclusão do ensino médio desencadearia
tantas lembranças. Fui envolvida pela mesma ansiedade antiga daquilo que seria
mais um semestre em que deveria equilibrar o horário das aulas no colégio, com as do
Conservatório. Duas vezes por semana assistir a duas aulas e depois,
aproveitando o descuido da inspetora, sair às escondidas pelo portão principal
da escola. Andar com o uniforme da escola na rua em horário de aula exigia de
cada uma de nós uma série de preceitos. Não namorar de farda, não fazer
bagunça, tratar bem as pessoas. Apesar da minha boa causa, justificar que
estava fora da sala de aula àquela hora me criaria problemas, porque todos
sabiam que o que mais queríamos quando saíamos às ruas fardadas era negar o
código de ética que o uso do uniforme nos legava. Ser acusada de matar aula
para ir ao cinema ou para namorar me angustiava. Perder conteúdos também, mas
ao mesmo tempo não queria me atrasar para as aulas de música.
No
início da Avenida Santos Dumont, entre as ruas Coronel Ferraz e 25 de Março, ficava
o Colégio Estadual Justiniano de Serpa. Chegar ao Conservatório, do outro lado
da cidade, significava atravessar todo o centro de Fortaleza e tomar o ônibus
que me levaria à Praça do Liceu. Caminhava tão apressada, que nem o costumeiro
cheiro das mercadorias vendidas nos armazéns da Rua Governador Sampaio se anunciava
em meus sentidos. Omitia até o costumeiro grito que dava na esquina quando subia
na janela do casarão daquelas duas senhoras chamadas por nós de ”Titias”. A
multidão de estudantes se agitava de alegria, enquanto as indignadas
solteironas jogavam água quente para atingir-nos e diziam impropérios contra
nossas famílias e nossa honra.
As
calçadas estreitas do Beco dos Pocinhos desciam num pequeno declive cortando a
mata ciliar por onde corria o Riacho Pajeú, cheio de detritos que os
transeuntes jogavam em suas águas. Na subida, já na Rua Pedro Borges, a Praça
do Ferreira se abria de repente às minhas vistas e com ela o cheiro do pão
recém-saído dos fornos da Padaria Lisbonense envolvia o quarteirão. Para
encurtar o caminho, atravessava a praça na diagonal. Adolescente, amava minha
cidade como se a Coluna da Hora fosse o centro do mundo e o Cine São Luís seu
cartão-postal. Tínhamos sempre o cuidado de segurar a saia de tropical vermelho
da farda, porque do outro lado da calçada, homens desocupados, deliciando-se
com sua condição de machos, postavam-se de pernas abertas, ao longo do meio-fio, esperando que o vento levantasse as
saias das moças que por ali passavam. Aqui, acolá, um deles quebrava a unidade
do grupo fazendo com uma das mãos um sungado no entrepernas. A cena de que me
recordo melhor, no entanto, era do ritmo percutido e constante que a passagem
do vento fazia em suas calças. Àquela hora da tarde, flamejavam como bandeiras,
todas ao mesmo tempo. Ah! Como eu gostaria de ficar mais tempo ali observando
aquela cena, ouvindo os ritmos executados pelo maestro dos ventos, mas precisava
dobrar apressadamente a esquina da Flama, sem sequer lembrar que em suas
vitrines estavam os símbolos da distinção da cidade. Queria chegar a tempo de assistir
à aula de Teoria Musical e o ônibus ainda percorria toda a rua Guilherme Rocha
até chegar na parada que me permitia empurrar o portão enferrujado do
Conservatório e escutar sua desafinada expressão de boas-vindas.
Será
que a luz do sol ainda bate nas velhas palmeiras e nos arbustos e faz aquela
sombra leve e escassa nos jardins abandonados do casarão?, perguntei-me com um
pouco de náusea pela lembrança. Depois da aula, eu iria estudar no mesmo
cubículo até o sol esfriar, relembrei. Um dia, Petrúcio não veio. Não escutei nos
pianos da casa alguma sérénade
interrompue enquanto eu estudava. Ao sair, olhei pra esquina e vi a Leiteria cheia de estudantes. Estranhei,
pois àquela hora as aulas já tinham terminado e não havia motivos para a
presença deles na cantina. Apesar da fome ativada pela lembrança de que ali se
vendia a melhor coalhada da cidade, me contive nos limites da timidez típica
das moças de minha geração. A praça descuidada estava também cheia de jovens
estudantes que gritavam palavras de ordem. Protestavam contra o aumento do
preço das passagens de ônibus. De repente apareceram policiais com cassetetes que
dispersaram a massa de estudantes. Mais parecia que uma enorme bota havia
pisado num caminho de formigas, dispersando-as, amedrontando-as, desorientando-as
em seu trajeto. Vi alguns que corriam e se escondiam no Grupo Escolar. Outros
fugiam pelas ruas Francisco Sá e Filomeno Gomes. Soube depois que tinham feito uma manifestação em frente à casa
do senhor Oscar Pedreira, o dono da empresa dos ônibus, que morava ali por
perto.
Só
depois que acabou o alvoroço, empreendi minha volta pra casa. Os canteiros
vazios e cinzentos da praça ainda guardavam as emoções dos acontecimentos. A
areia perdera a aparência estática dando lugar a esculturas de rastros,
pequenos redemoinhos, carimbos das lutas entre a polícia e os estudantes. No
cimento, pedaços de papel espalhados. Os muros cegos do prédio do Liceu me
pareciam tão altos que se confundiam com o céu lá no alto. Na casa das meninas
perdidas, o silêncio. Nem sequer os cânticos da missa vespertina eram ouvidos.
Será que perdemos realmente todas as expressões de vida quando nos entregamos a
algum tipo de regeneração, quando nos permitimos ser vigiados, pensei. Nos
fundos do colégio das freiras uma outra surpresa. Bem no meio de seus muros
tinha agora uma casa comercial. Andando mais um pouco consegui ler: Padaria Continental - pão e conveniências.
Quem sabe as freiras, muito habilidosas, estavam investindo em mais esta fonte
de rendas?
Um
idoso que caminhava com dificuldades aproximou-se de mim quando passava pelas
grades do asilo de mendicidade. Devia ser um dos muitos moradores do abrigo de
desvalidos. Encostou-se e, sem falar, levantou uma das mãos fazendo o sinal de
quem pede uma esmola. A cena me fez lembrar minhas infindáveis conversas com
Petrúcio, quando eu lhe pedia que executasse uns acordes ao piano. Tal qual
aquele velho, ele me mostrara a palma das mãos. Talvez tenha confundido seu
gesto, mas pensei no momento em ”Me dê alguma coisa, eu não posso nada, não
tenho nada!” Chocou-me ver pela primeira vez que as palmas das suas mãos eram
totalmente calejadas, endurecidas e ressequidas. Suas nervuras características
eram evidenciadas por linhas escuras. Levantei o olhar e me deparei com seus olhos
tristes, rasos, pedintes. Não, não! Eram mais que isso: eram fundos, vazios, quase
cegos. Como se quisesse finalmente me mostrar: é isso que eu sou! Eu não deveria
ter lhe pedido para fazer aquele exercício, pensei. Por que fiz aquilo? Continuei
a caminhada carregando a lembrança das duas cenas que se confundiam no tempo,
como se eu tivesse visto ou tocado em algo que não deveria ou que eu não queria
ver.
Os muros altos das instituíções estatais, da garagem dos ônibus passaram
em meus olhos mas não em meus pensamentos. A
expectativa da apresentação dos Prelúdios de Debussy no pequeno auditório da
escola passou a preencher mais e mais o meu tempo. Quando não estava estudando,
imaginava todos os detalhes para que tudo estivesse de acordo com a importância
do evento. Me via subindo no palco vestida de branco, de pois negro. Com saia ampla, muitos babados e fitas, como as Femmes au Jardin, de Monet.
Sem
babados nem fitas, lembro daquele meu vestido branco. Os pois, também brancos, eram quase
imperceptíveis.
E
naquele dia ele não veio. Nem no outro, nem no outro.
Les
sons et les parfums tournent dans l’air du soir;
Valse mélancolique et langoureux vertige!
(Charles
Baudelaire)
Mércia Pinto (2013)
Mércia Pinto (2013)


Adorei o texto amiga Mercia Pinto. Além de uma bela memória de meu amigo Petrúcio Maia, que foi o primeiro de todos os amigos que conheci entre os musicais do Ceará, também foi ele o responsável por me levar aos demais amigos e parceiros como Rodger, Augusto Pontes, Fausto Nilo, Dedé, Brandão e Yeda Estergilda e até a você amiga Mércia Pinto. Conheci o Petrúcio na Casa Juvenal Galeno, exatamente como você o descreve, em início de 1967. Ficamos amigos logo que nos conhecemos.
ResponderExcluirNo ano seguinte já na Faculdade de Direito, conheci o Belchior que estudava na mesma classe de meu irmão Emanuel na Faculdade de Medicina.
Seu texto é carregado de belos códigos da música universal e trata do processo de estilização capaz de fundir a assimilação de códigos populares a códigos eruditos, embora haja certa incapacidade do código erudito integrar a cultura popular, como disse Mário de Andrade.
Por outro lado não concordo com a ideia de que o compositor brasileiro deve se considerar obrigado a fazer uso de determinados códigos nacionais, como ritmos e melodias e harmonias consideradas canônicas da MPB. Nem pender para o primitivismo, nem para a erudição. Entendo que rótulos são simplificadores. A nossa música se configura antes como autonomia da obra, nos procedimentos de composição, no trabalho com o material musical. Por isso admirei mais ainda o texto que descreve esse seu encontro mágico com um grande compositor brasileiro, livre desses grilhões de nossa tradição e aberto ao que de melhor a cultura universal tem para nos ensinar.
O texto é lindo. E o admiro mais do que a uma simples literatura. Principalmente porque também tenho formação musical formal. Cursei “Composição e Regência” e ainda “Licenciatura Plena em Música”.
Adorei o momento do texto em que você escreve: “Bom, eu não vou cansar seus ouvidos nem sua capacidade de ver e ouvir, falando de escalas dóricas ou pentatônicas que ele ‘dragava’ lá de músicas medievais ou de outras culturas para usar em suas composições, mas queria lembrar os acordes alterados e os jogos de intensidade que ele teve tanto cuidado em escrever como queria que fossem executados. Sei que este piano é ruim e meus dedos não estão prontos neste prelúdio, mas dá para perceber como a peça é riquíssima de efeitos timbrísticos e o mais interessante é que quase tudo dentro de sonoridades muito delicadas, como uma aquarela ou desenhos encontrados em ruínas, que só o trabalho de arqueólogos consegue evidenciar.”
Grande abraço e saudades Mercia. Você me proporcionou bons momentos de lembrança de meu amigo Petrúcio Maia.
Abraços
Jorge Mello