segunda-feira, 23 de junho de 2014

Harmonias da Tarde (à memória de Petrúcio Maia)


I    
Quando a campainha tocou, eu começava a arrumar a sala. Pensei em não atender, mas um aluno poderia ter esquecido algo... Olhei pelo olho mágico da porta mas a luz avermelhada do poente entrava pelas frestas dos combogós das escadarias do prédio e só me deixava avistar uma silhueta inquieta, no vestíbulo de espera do apartamento. Abri a porta e a luz da sala iluminou a figura que esfregava incessantemente as mãos uma contra a outra. Não quis entrar. Olhava em várias direções, menos pra mim. Ensaiou palavras que não expressavam os motivos da visita. Depois, de sua fisionomia rígida veio algo que fazia sentido.
– Olha, quero te dizer que estou indo embora amanhã para o Rio de Janeiro.
Que bom! O que vai fazer lá? Quando volta, disse-lhe tentando disfarçar minha surpresa. Queria saber se era a passeio ou se era apenas uma temporada pra conhecer melhor o ambiente artístico e mostrar suas músicas! Ele respondia com monossílabos, de modo incompreensível, como se eu estivesse lhe incomodando. Entendi ser a decisão, um assunto que não queria partilhar. Na tentativa de descontraí-lo, joguei minhas palavras para o campo da brincadeira, juntando trechos de canções de amigos e comecei a cantarolar.
Amanhã, se der o carneiro, você vai embora pro Rio de Janeiro. Vai sair do oco do mundo! Vai abrir porteiras, varar cancelas. Olha lá! Será que esse caminho é certo? Sem perigo fatal?

Petrúcio permanecia reticente, esfregando as mãos, trincando as mandíbulas, repuxando os músculos do pescoço. Depois de várias frases soltas, entendi que arrumara uma licença do emprego do INPS, que sua partida seria definitiva e que tentaria viver de música na metrópole. Colocando otimismo na minha incredulidade quanto a seus intentos, pensei: quem sabe o ambiente musical de lá será melhor pra ele?
Na confusão que tomava conta de mim, uma sensação se destacava: a de ter sido enganada. Afinal, ele frequentava minha casa, dividíamos conversas, parte de nossas vidas tinham-se passado no mesmo ambiente. Tínhamos sido igualmente atingidos pelos fatos que tinham abalado o país desde a década de 60. Não imaginava que tivesse preparado coisa tão definitiva assim, deixando para me comunicar no fim da tarde, à véspera da viagem. Contive-me, pois diante do que estava presenciando só deveria dizer que esperava que tudo desse certo. Comentei levemente que de nossa geração ele seria o último do grupo dos músicos cearenses a migrar para o Centro-sul, onde como dizia a canção, as coisas aconteciam. Mais uma vez eu tentei mudar a atmosfera do nosso diálogo, porque o via tenso, pouco à vontade. Ficamos calados olhando um para o outro, até que ele se aproximou mais e com voz suave, quase sussurrando, perguntou:
 – E agora, o que é que tu vais fazer da tua vida?
Quase pulei pra trás, porque na nossa intensa convivência nunca se aproximara tanto assim de mim, principalmente com aquele tom de voz. Será que ouvi certo, perguntei-me assustada. Incapaz de reagir, pensei: sento-me ou fico como estou? Engulo a seco ou tusso? Nunca interferíamos nas decisões do outro, nossas palavras eram sempre claras e sinceras. No momento, porém, tive impulso de dizer que minha vida não dependia em nada da dele, para desmoronar assim com sua saída. Não, isso seria uma resposta grosseira, e Petrúcio merecia uma reação mais educada. Responderia com um “não entendo” ou “você se enganou”? Também não! Soaria como novela de rádio! Procurei um procedimento mais adequado. A reação mais civilizada e cordial seria responder com uma pergunta: “
"Como assim?” Ou então usaria a clássica assertiva de quando somos flagrados em situação embaraçosa: “Não é nada disso que você está pensando!”.
Qualquer das respostas que me ocorriam eu analisava e desistia. Parecia hipócrita, descarada ou sentimental. Apesar de engraçada e espontânea, sua abordagem era vaga e estava sujeita a muitas interpretações. Poderia me precipitar e feri-lo. É claro, ele estava genuinamente preocupado comigo, que morava sozinha, enfrentava dificuldades. Visitava-me frequentemente e sabia de tudo. Por fim, para que seu gesto não caísse no vazio, engendrei com minha boca trêmula, palavras sem graça: _Ora, a vida segue, tenho minhas tarefas, minhas preocupações.
A despedida foi ali mesmo na entrada do apartamento. Ele de cabeça baixa, corpo encurvado, eu me apoiando no prumo da porta que me dividia em dois lados: um dentro de casa e o outro à vista, até que ele desapareceu escada abaixo.

II

A luminosidade natural do dia se apagava. Depois do trabalho exaustivo, meu cansaço era tanto que o único desejo era desabar na cama. O encontro do fim da tarde  não saia de meus pensamentos. Ah! não devo dar total crédito à decisão do meu amigo. Depois de tantos anos de convívio, não acreditava que fosse passar muito tempo no Rio. Do pouco que sabia, sua vida tinha sido resolvida sempre entre seus familiares. Era filho temporão, as irmãs mais velhas sempre deram um jeito de apoiá-lo, protegê-lo, mimá-lo. Não aguentaria perder seu reino, a cidade onde nascera e crescera, o meio cultural que o reconhecia. Família por perto, roupa lavada e passada, comida a tempo e a hora, além da proteção e do carinho dos colegas. Em mim havia a certeza de que ele não teria condições de enfrentar tal aventura. Relembrava que seus frequentes e inexplicáveis acessos de raiva nunca foram suficientes para cometer atos tresloucados, e aquele não seria o primeiro. Não conseguia entender como se abandonava emprego fixo, direitos adquiridos e ia-se  rumo ao desconhecido sem projeto, nem planejamento. Será que sentira receio de censura de minha parte? De questioná-lo e desencantá-lo do intento? Sabia de minhas críticas a projetos de amigos em comum. Exorcizávamos juntos, muitos dos males de nossa geração. Me perguntava quem estaria lhe apoiando nessa mudança. 
Apesar de nunca ter me dito, percebia não estar mais em tratamento, pois seu terapeuta tinha se mudado para o Rio Grande do Sul. Algum músico lhe dera força? E como enfrentou os desgastantes preparativos para a mudança, se recentemente eu tinha até lhe ajudado a montar um apartamento próprio? E se tudo isso fosse de menor importância pra ele, quem o acolheria na nova cidade nos primeiros dias? Com certeza não estava levando em consideração seus hábitos noturnos, seus inúmeros rituais que poderiam criar problemas de convivência. Não, não, não! A decisão não fora elaborada. Por que, então, apesar de nossas longas conversas sobre música, ele nunca tinha manifestado o desejo de abandonar o emprego de sociólogo e profissionalizar-se como músico, migrando para o Rio de Janeiro? E se pensava, por que só tomara a decisão depois de toda a onda migratória de músicos da cidade, sabendo que muitos até já tinham voltado? Teria pelo menos conversado com eles para saber de suas experiências e poder tomar melhores decisões? Ora, já era adulto e deveria saber que o investimento numa carreira em busca da sobrevivência no campo da música popular não era fácil. Exigia, na maioria das vezes, longos períodos de penúrias pessoais. Talvez estivesse superestimando seus talentos, suas possibilidades como compositor e pianista e esquecendo outras tantas habilidades exigidas para se impor como profissional da música popular, principalmente a maleabilidade de produção com relação às demandas do mercado. E sobre suas composições? Qual o significado delas para si e para o público? Que valor estético teriam para entrar assim de peito aberto no mercado mais exigente e competitivo do Sul? Que ideia fazia de si como compositor e instrumentista? Todas essas questões deveriam estar respondidas para ele, antes de qualquer decisão, pensava. Além disso, estaria desprezando habilidades que muitas vezes são até mais importantes do que o talento musical: lidar com público, com agentes, saber administrar os ganhos, ver que o sucesso pode ser efêmero. Eu me perguntava também se era genuíno seu interesse em ser compositor, viver de música, ou estaria sendo influenciado pelos colegas de geração. E se esse interesse fosse realmente verdadeiro, de que forma tinha realmente investido, estudado, experimentado, trabalhado esse projeto? Será que havia pensado nessas questões quando decidira deixar Fortaleza? E por que nada disso "vazara" em nossas conversas? Um pouco de raiva por me sentir traída, transformava-se agora num leve sentimento de culpa, pois eu poderia ter levado adiante aquela conversa ali na porta para poder fazer uma análise mais segura dos fatos e quem sabe evitar uma catástrofe na sua vida.

Olhei pela janela do meu quarto e vi que as luzes das casas se apagavam uma a uma, sinal de que as pessoas se recolhiam. A noite se instalava, eu precisava deixar um pouco a austeridade e a aspereza de meus pensamentos. Necessitava de alguma leveza para desencadear o sono. Atraída pela luz da lâmpada do quarto, uma pequena mariposa noturna pousou na cabeceira da cama. Depois levantou vôo repentinamente, vindo pousar quase no meu peito. Observando seu corpinho frágil, suas pequenas asas translúcidas que se abriam e se fechavam vagarosamente, flutuei com a memória, que me acabou levando à nostalgia de meus primeiros deslumbramentos, ao tempo da adolescência, quando o conheci. Aparecia, interrompia meu estudo, conversava, mostrava suas improvisações, pedaços de composições, e desaparecia.

III
Localizado nas vizinhanças do bairro onde eu morava, passava boa parte do meu tempo no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Além das aulas de piano, de teoria musical e de história da música, eu também cantava no grande coral que ensaiava nas tardes de sábados. Entusiasmada com a riqueza de conhecimentos que estavam à minha disposição, com a sociabilidade que as aulas coletivas e o coral me proporcionavam, estava sempre presente a tudo que acontecia. Até aos seminários dos professores eu costumava assistir. Me postava numa das janelas da sala e dali podia ouvir comentários e pedaços de peças que eram analisadas nas reuniões. Tudo aquilo me enriquecia. Quando minhas aulas no colégio coincidiam com os horários das aulas de Teoria Musical, eu fugia a pé e atravessava todo o centro da cidade para tomar o ônibus grafite que me levaria ao conservatório. A angústia para controlar o tempo e não perder conteúdos nas duas escolas me deixava cansada, especialmente quando tinha que voltar às pressas ao colégio por causa de alguma tarefa importante no fim de alguma aula.

Jacarecanga, riacho que fluía na região, dava nome ao bairro que se desenvolvera a partir do início do século XX, abrigando em seus sobrados parte da elite local. Velho e mal cuidado, o prédio da Praça Fernandes Vieira onde funcionava o Conservatório de Música Alberto Nepomuceno pertencera a Núbia Bayma, que o teria herdado de seus pais. Casada com o médico Pedro Sampaio, o casal residia ali vizinho, em outra mansão. Ecos da arquitetura eclética que caracterizou muitas das fachadas das construções dos arredores, o casarão lembrava também o estilo Art Nouveau. As grades de ferro que compunham a murada, mostravam a área reservada aos jardins, com seus bancos de cimento e algumas árvores. Avistava-se também o alpendre da frente da casa que poderia ser alcançado por uma escadaria de ferro com um corrimão rendado. Quem passava na rua não deixava de experimentar um pouco do vento fresco que corria entre aqueles inúmeros gradeados que recortavam a brisa das tardes de verão. Mas o casarão se tornava ainda mais característico quando levantávamos a vista e descobríamos que do seu telhado se debruçava uma espécie de cortina, como se fosse uma filigrana formando arcos rendados que repetiam o desenho da escadaria, dando unidade ao conjunto. Na parte interna, os espaços dos amplos salões assoalhados sempre despertaram minha imaginação. As diferentes luminosidades de cada vão me inspiravam a ouvir ruídos, pedaços de conversas, chamados distantes, sussurros familiares e o tilintar de talheres e louças. Passos apressados no piso assoalhado do andar superior, restos de melodias antigas que alguém cantarolava mas não chegavam a fazer muito sentido. Passeando levemente em meus devaneios, aparecia a imagem de uma senhora com um vestido estampado que, sentada a uma mesa enfeitada com um jarro de flores, escrevia silenciosamente. Eram fragmentos de um passado que não tinha desaparecido. Duas vezes por semana ecoavam no prédio os sons do madrigal que se ensaiava no fim das tardes. Matizes sonoros, ressonâncias e timbres em meus ouvidos, soavam como instantes imortalizados pela escrita e pelas vozes dos cantantes.
Mais para o fim da construção, as áreas de serviço ladrilhadas e naturalmente ventiladas faziam do todo da construção um dos cartões-postais do bairro. O quintal era enorme. Atravessava toda a quadra, só terminando do outro lado, já no fim da Rua São Paulo, no oitão do cemitério São João Batista. Recostada na grade de madeira que separava a cozinha, dos aposentos da criadagem, me surpreendi muitas vezes apreciando as árvores sobreviventes, imaginando um pomar com uma horta e um jardim que outrora suprira a casa de frutos e flores. Via a luz do sol brilhando nos delicados alinhavos dos pingos d’água que saiam de um grande regador nas mãos ásperas de um jardineiro usando imenso chapéu de palha, circulando entre "Sorrisos de Maria e Pedacinhos do Céu". Folhas e flores tremulavam de alegria com a água que caía. Quando o sol desaparecia, o perfume de um jasmim que crescia na entrada dos aposentos da criadagem, fazia a diferença entre o dia e a noite.

Quando o conservatório passou a funcionar naquele sobrado, seu diretor, o maestro Orlando Leite, tinha como objetivos, dar o máximo de si ao trabalho de transformar a escola numa instituição de excelência no ensino da música mas também ficar perto de sua família que moraria na parte de cima do imóvel. Lembro que para alcançar suas metas, até mesmo sua intimidade era sacrificada, pois quando sentíamos o cheiro de comida vindo da cozinha da casa já sabíamos que naquele dia, em algum momento da tarde, sons e perfumes se confundiriam, invertendo as funções da escola: o que era Conservatório viraria “conversatório”. Mesmo sendo aluna, ganhava sempre o bônus de ouvir as conversas entre os professores e uma provinha daquilo que ainda hoje meus sentidos nunca esqueceram: os quitutes de Dona Francina, esposa do diretor.
Incansável, Orlando trabalhava dia e noite tentando introduzir novas atividades e renovar conteúdos na grade de disciplinas do currículo da escola. Tentava mudar mentalidades, acolhendo a todos que desejavam contribuir e usufruir da arte dos sons. Era um ambiente sedutor. Grupos de estudantes das redondezas, especialmente do Liceu, que ficava do outro lado da praça, aproveitavam os intervalos das aulas para conhecer a escola. Entravam e saíam livremente do casarão. A personalidade envolvente do diretor atraía-os para conhecer a casa. Muitos deles, seus alunos nos vários colégios onde ensinava. Depois de vivenciarem seu cotidiano, de ouvirem ensaios e audições, eram “fisgados”  pela música e no mínimo passavam a cantar no coral da escola.

Foi nessa atmosfera de acolher quem quisesse conhecer música, experimentar os instrumentos ou cantar no coral, que eu e Petrúcio fizemos os primeiros contatos. Não lembro exatamente quando. Sei que um dia, enquanto estudava, fui surpreendida por alguém que da janela me enviava um leve sorriso. A princípio não dei importância. Pensei ser mais uma daquelas pessoas que costumeiramente entravam na casa e se postavam nas janelas observando os alunos enquanto estudavam. Quando nos apercebíamos, elas se escondiam ou desapareciam sorrateiramente atrás das paredes, sem que pudéssemos nos dar a conhecê-las. Mas com ele foi diferente. Um dia sua presença singela começou a soar. Quando eu menos esperava, me desviando dos meus intermináveis treinos, meus ouvidos eram  "seduzidos"  por sons diferentes daqueles que eu escutava no cotidiano da casa. Era ele numa outra sala improvisando alguma melodia.
Do sorriso breve à presença soante, foi um passo para eu convidá-lo a entrar e sentar. A verdade é que a frequência de sua presença e seu sorriso fugidio já passava a me desconcentrar dos estudos.
Que música é essa, perguntou. Não é nada, respondi. É só um exercício. Estou tentando ouvir a ressonância dos acordes pelo efeito dos pedais. E continuava treinando os acordes nos velhos e desafinados pianos da casa, acreditando que um dia conseguiria liberar sonoridades e perceber contrastes numa peça musical antes mesmo de executá-la.
– Como isso funciona?, perguntava ele, parecendo fascinado quando eu lhe explicava para que serviam os pedais. De certa forma melhoram a brevidade do som característico do piano”, expliquei. O som do piano é muito diferente daquele que é emitido por instrumentos de sopro, que soam até que você deixe de alimentar a corrente de ar. No piano, depois que você pressiona a tecla, o som não pode ser modificado. E eu tocava alguns acordes, imaginando que ele era um dos muitos jovens interessados em música. Assim, os pedais são um recurso para tornar seu timbre mais rico e com mais possibilidades, esclarecia. Mostrando curiosidade, ele dava um breve sorriso, e eu me sentia incentivada a continuar. Esse pedal à direita, por exemplo, pode ser usado tanto ao mesmo tempo como depois que tocamos as notas. Pode também unir o som de muitas notas que se sucedem. Como se fosse o fio que une as contas de um colar, certo?

O mormaço das primeiras horas da tarde esquentava de tal forma a areia cinzenta que circundava o jardim da instituição que não permitia a ninguém, ficar do lado de fora das salas. Nas saletas do porão, destinadas ao estudo, a temperatura também não era das melhores. O calor era tão sufocante que os sons emitidos pelos instrumentos já chegavam trêmulos aos nossos ouvidos. As cadeiras das salas pareciam recém-saídas de uma fogueira. Precisávamos forrá-las com livros e cadernos para podermos sentar com mais comodidade. Mas nada disso parecia atingir Petrúcio. Ele ficava ali na sala quieto, calado. Para preencher o silêncio da espera por uma reação àquilo que lhe explicava, eu dava outra informação: mas para que tudo isso funcione, é essencial que você conheça não só a música que vai executar, mas as possibilidades do seu instrumento. E divagava: saiba que o pianista tem que conhecer melhor do que ninguém, o jeito de fazer ressoar, brilhar ou mesmo mascarar as qualidades ou defeitos do instrumento que está usando. Só assim vai poder escolher como usar os pedais para não misturar as harmonias, prejudicando assim sua execução. Abria a tampa do piano e lhe explicava: veja aqui dentro o que acontece com as cordas quando um dos pedais é acionado. O da esquerda, também chamado de segundo pedal, simplesmente aproxima um pouco os martelos das cordas do instrumento quando este é acionado. Vou acioná-lo e tocar alguns acordes e você vai olhar o que acontece aqui dentro. Como um menino bem comportado, ele seguia minhas instruções, levantava e ficava olhando para dentro do piano. Agora sente e escute, pedia. O som fica mais suave, não? Uma fresta de sol passava entre as folhas de um velho abacateiro, iluminando bem de frente aquela figura ruiva de cabelos encaracolados. Este pedal do meio, que podemos deixar travado aqui neste espaço, serve para tocarmos em surdina, com o som mais "velado". Quando é acionado, esta parte de feltro desce e os martelos se aproximam mais das cordas do instrumento. Assim o som fica mais abafado. Este pedal da direita é mais conhecido por aumentar o som. Tem um dispositivo dentro da máquina do instrumento que libera um pouco as cordas para que vibrem mais livremente. A verdade é que existe uma gama infinita de nuances entre o tocar forte e leve, e os pedais desempenham papel importante neste processo. Mobilizam-nos para outras práticas, nos treinam para ouvir coisas que estão além do discurso musical escrito na partitura. Ele desviava um pouco o olhar como se estivesse ausente, indiferente, mas depois de alguns segundos já parecia me escutar novamente. Então, esses exercícios de acordes com pedais são como uma espécie de meditação. Sondam dentro de nós as fronteiras entre o som e o silêncio. Para que não tomasse aquilo como a última palavra, lhe explicava que para tocar bem, teríamos que nos valer antes de tudo do tato, sentindo a resistência da tecla nos dedos e mantendo sempre o contato com ela.
– Era isso que você estava treinando, não era?
Sim, respondi. Apesar de parecer curioso, de ouvir o que eu lhe falava, ele me passava também a estranha sensação de que se ausentava de vez em quando. Eu então falava sozinha. Talvez não me desse conta de que naquele momento, mesmo sem ser sua professora, estava sendo um pouco pedagógica, exemplificando aspectos do piano típicos dos meus pensamentos, das minhas preocupações naquele momento dos estudos. Ao contrário de querer saber um pouco sobre ele, eu queria que assimilasse tudo o que eu falava. Diante do que eu sentia, só tinha uma explicação: talvez minhas informações não lhe interessassem. Estava perdendo meu tempo, dizendo-lhe bobagens, coisas que ele já sabia ou não queria saber.

IV
Entre os professores da casa, o esforço para comemorar o centenário de nascimento de Debussy (1862-1918) foi enorme. Durante todo o ano vivemos a atmosfera do impressionismo. Das aulas de história da música ao repertório a ser executado no coral, do madrigal aos recitais de piano, todos transpiravam a música francesa do fim do século XIX. Frequentei assiduamente as palestras sobre impressionismo proferidas pelo artista plástico Zenon Barreto, as audições de poesias de Malarmée, Maeterlink, Rimbaud, promovidas pela Alliance Française. Recordo o som fanhoso da voz de uma senhora francesa que com um vestido branco esvoaçante declamava a Chanson d’Automne de Paul Verlaine. Vovó Sílfide, como foi logo apelidada pela plateia, estava em tournée pelo país e mostrava com graça a fluidez e o ritmo dos versos do poeta que queria que tudo fosse música e se dissolvesse no ar. Aqui, acolá, falava de como o artista simbolista construíra seus poemas de forma que cada palavra soasse como se estivesse sendo emitida pelas cordas de um violão.

Les sanglots longs
Des violons
De l’automne
Blessent mon coeur
D’une langueur
Monotone.

No fim de uma tarde de sábado, naquelas horas mortas em que não sabemos bem o que fazer a não ser ouvir violões suaves num langor de calma. À toa, pela vida! Folha caída e morta!

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.

Os ecos da cultura francesa nos meios intelectuais da cidade foram sempre bem audíveis. O afrancesamento de hábitos e costumes tomaram diferentes formas no início do século. Mas foram reavivados em 1960, quando Jean-Paul Sartre, em visita ao Brasil, fora a Fortaleza para receber da Universidade Federal o título de "Doutor Honoris Causa". O grande coral idealizado por Orlando Leite recebeu o intelectual e sua esposa Simone de Beauvoir na Concha Acústica da UFC com as canções de Boas-Vindas, de Villa-Lobos, e o Halleluiah do Messias, de Haendel. À noite, por ocasião da outorga do título, o madrigal executou no Salão Nobre da Reitoria um programa inteiro com música francesa e canções brasileiras. A importância da visita dos dois intelectuais foi enorme. Despertou interesses, desencadeou debates e discussões na recém-criada universidade. Assim, em 1962, o campo estava fértil para esse novo contato com a cultura francesa. No conservatório só se falava no “fin du siècle” na França e do legado musical de Debussy. Professores e alunos estudavam e executavam o repertório impressionista.

Não satisfeita com tudo o que aprendia, juntei-me a alguns colegas que organizaram um grupo, o Colegium Musicum, para solfejar e conhecer a música francesa para côro. A verdade é que à época, a música da França, especialmente a de Debussy, tão sofisticada e tão pouco juvenil, me envolveu inteiramente. A complexidade de suas justificativas estéticas, sua procura por um ideal transcendental que convidava o pianista a se concentrar na evocação do prazer instantâneo e a pura contemplação da beleza, me atraíram tão intensamente como jamais pude experimentar novamente. Traduzir para a linguagem musical aquilo que nos toca, me parece hoje muito distante do que eu pensava naquele momento. Imaginar que para um músico as teorias não existiam, que a única lei deveria ser a fantasia, soa hoje inimaginável para mim. “Ser músico é ouvir”, dizia Debussy! “Ver o dia nascer é melhor que ouvir a Sinfonia Pastoral de Beethoven. Os músicos só escutam música feita por mãos hábeis, nunca a que está inscrita na natureza”.

Esses aforismos deveriam me encher de dúvidas. “Não siga os conselhos de ninguém, exceto do vento que passa e nos conta a história do mundo”, escreveu sob o pseudônimo de Monsieur Croche em um de seus artigos. Tudo isto só foi relativizado depois de alguns anos, na medida em que minha vida foi se ligando cada vez mais à minha prática profissional, às minhas necessidades de sobrevivência. Naquela época, eu estava em treinamento auditivo, reconhecendo pontes, transições e momentos de instabilidade numa peça musical. Acurava o ouvido para encontrar afirmações de temas muitas vezes escondidos e que apoiavam o arcabouço harmônico do tecido musical. Numa composição, qualquer pequeno fragmento que tivesse valor ou força para abrir portas, servir como elo com outro momento da peça, me desafiava. Gostava quando chegava a “Semana do Solfejo”. A escola abria suas portas para 12 horas diárias de solfejo. Quem quisesse entrava e saía das salas onde se cantava o dia inteiro. Meu dia a dia deveria me levar a acreditar que tudo o que o músico francês pregava deveria ser tomado somente como retórica contra a racionalidade de toda a espécie de prática, de treinamento, de disciplina. Suas ideias eram avançadas demais para uma adolescente deslumbrada. Mas não foi só isso que aconteceu comigo, pois me apaixonei pelo tema. Queria saber, entender, usufruir e passar para alguém toda a beleza daquilo que estava no ar. Uma espécie de intimidade solitária me alimentava e me permitia amar e sonhar em música, e a obra de Debussy me fazia entrar em contato com um mundo inexplorado que se estendia além daquele que eu tinha vivenciado. Até o teclado do piano, tão familiar desde muito cedo, me aproximou de verdades singulares e transformou-se num corpo vivo com o qual eu entrava em relação, onde eu poderia expressar delicadezas e finuras imperceptíveis aos demais, quase me libertando da minha forma exterior. Tudo oscilava entre o fetichismo e a companhia sentimental dos sons de sua música. Assim, quando eu avistava aquele jovem na janela, já estava cheia de coisas para contar-lhe. Conversávamos. Não, não era isso! Eu "despejava" tudo o que aprendia direto por cima dele. Não tocava Debussy, tocava o que eu imaginava ser sua música, porque me sentia capaz de experimentar sua beleza e julgava minha capacidade um fim. O mundo novo que se abria na minha sensibilidade me instigava a mostrá-lo a alguém, e Petrúcio parecia fascinado, saboreando aquelas informações de que talvez nunca tivesse ouvido falar. Minhas explicações condensavam afetos muito mais do que argumentos racionais, eu sei. Explicava-lhe tudo o que aprendia como se tivesse certeza de que compreendia meus devaneios. Na produção pianística, de Debussy, os contrastes sonoros que o uso adequado dos pedais pode proporcionar não se encontram em nenhum de seus antecessores, falava. Só com um treinamento é possível obter-se o domínio exato e sensível de todos os matizes que o instrumento é capaz de executar, dizia-lhe eu como se tivesse certeza de tudo. Só mudava um pouco o tom de minha explanação quando falava que só não gostava mais do músico porque me parecia irônico e arrogante ao dizer que os pedais não eram para os pés do intérprete, mas para seus ouvidos. Meu amigo soltava um sorriso leve, meio de lado e dizia:
– Não é arrogância, ele é inteligente, tem senso de humor!
Eu lhe explicava: é inacreditável, mas penso que, na sua música, o pedal é quase tudo! Tanto que ele pôs nas partituras indicações precisas de onde colocar ou não cada pedal. Com isso pretendia aproveitar ressonâncias, explorar timbres e sustentar bordões no instrumento. Parecendo estar atento ao que eu lhe falava, me perguntava: 
Mas de onde vem esta preocupação tão exagerada com os pedais? Porque da maneira como você fala, ele queria um piano sem martelos, não?
Ora, explicava: era exatamente isso o que ele dizia. Que era preciso esquecer que o piano tem martelos. Sua música procura evocar estados de espírito e impressões sensoriais, principalmente através das harmonias e do colorido sonoro. Entenda, ela não procura exprimir emoções nem contar histórias como fazia a música programática romântica. Apenas evoca esses estados de espírito através de atmosferas sonoras indefinidas. Ouvimos, ou pensamos ouvir, reminiscências de sons naturais, breves ritmos de danças, passagens melódicas características, mas nossos ouvidos só captam a sensação de algo vago, como se aquilo que ouvimos estivesse envolto numa bruma. Percebemos essas sensações, mas de repente fogem de nossos ouvidos sem que consigamos retê-las. É uma volta a um tema, é sua expansão, uma nota pedal que ecoa durante toda a peça, tudo é dito sem ser dito. Sinistro, não? Ele ficava impassível! Ou não compreendia, ou não estava a fim de responder. No entanto, eu continuava a dar-lhe mais informações. Nesse sentido, a música para piano sofre em Debussy uma revisão radical e, para executá-la, o uso consciente dos pedais é fundamental. Ele olhava para mim mas eu desconfiava de que não estava ali, não escutara o que eu dissera. De repente saía com uma pergunta estranha:
– Mas ele não é romântico?
Apesar da pergunta meio fora de foco, eu lhe respondia achando que queria retomar a ideia da música programática e a evocação de emoções. Sim, ele foi um dos últimos grandes compositores educados dentro dos ideais do romantismo. Uma parte de sua produção ainda segue os princípios estéticos dessa época. Como Chopin, ele escreveu danças típicas, valsas, prelúdios, baladas, mazurcas e até noturnos. Escreveu também duas arabesques e com certeza conhecia as Arabesques de Schumann. Como os grandes românticos, escreveu também estudos para piano. Mas por outro lado, com o desejo expresso de recuperar a tradição da antiga música francesa, também escreveu peças homenageando Rameau e Couperin. Sua produção resgata valores de culturas passadas, mas ao mesmo tempo se projeta para o futuro, abrindo caminho para Ravel, Max Reger, Skriabin e Rachmaninoff. Ele então me pergunta:
Quando e como começou a mudança na sua forma de se expressar? Esse distanciamento do romantismo foi acontecendo por volta de 1892, quando começou a entrar em contato com círculos literários, poetas simbolistas, frequentando circos, cafés-concertos, teatros. – Quando ele caiu na boemia, não é, respondi em tom de brincadeira.
Sim, claro. Antes disso ele ainda estava preso à disciplina da formação nos conservatórios, falou. Sim, depois disso ele exerceu funções típicas de um pianista e professor. Andou pela Rússia em tournée com um trio instrumental, deu aulas para pessoas de posses. Para mim, foi o contato com artistas de outras áreas que ampliou sua sensibilidade, levando-o a expressar uma nova maneira de ouvir e executar a música. É sabido que ele passa até a se sentir melhor entre os intelectuais do que entre os músicos. Esse encontro com uma nova maneira de ver e sentir a música tem a ver com o clima intelectual e artístico do período, mas a crença no progresso material e de que os “males sociais” seriam sanados pelas novas tecnologias foi algo que alimentou a mentalidade do fim do século. Claro, esse tempo foi marcado pelo surgimento de novos valores na esfera estética e nos modos de pensar, acrescentava. Como um menino estudioso que presta contas do que aprendeu, ele foi nomeando baixinho:
– É, talvez ele tenha vivenciado o aparecimento e a popularização do telefone, do telégrafo, da eletricidade, da bicicleta, dos carros e dos aviões. Também a fotografia e o cinema apareceram nessa época, confirmava com a cabeça baixa como se estivesse falando sozinho.
Adiantando e acrescentando mais detalhes à conversa eu falava: “Você já pensou como as tecnologias e os meios de comunicação fomentaram o crescimento das cidades e com isso o aparecimento de novos espaços para as artes: cabarés, teatros, cinemas! Dizem que Paris era cheia de exposições, antiquários, salões onde as pessoas se reuniam para discutir sobre arte e cultura ou mesmo realizar concertos. Imagino uma Europa em efervescência. Já pensou? Paris era o centro dessa nova maneira de viver e instalou a cultura do divertimento em todo o continente. É natural que, nesse clima de ebulição, a poesia, as artes plásticas, o teatro e a música sofressem uma nova síntese. E foi vivendo intensamente esse tempo que Debussy começou a construir seu estilo, musicando poemas, compondo para teatro e ballet, criando novos espaços para a prática da música. Quando penso no nome que dava às suas composições, percebo um parentesco muito grande com as correntes estéticas da época, o impressionismo e o simbolismo: Clair de Lune, L’après-midi d’une Faune, Soirées dans Grenade, Brouillards, Feuilles Mortes, Feux d’artifice são alguns dos nomes que deu às suas composições. O que você acha deles?”
– É, me sugerem cenas, como se fossem quadros, postais ou instantes captados por uma foto.
Exatamente, confirmo. 
Ele fica em silêncio e em seguida me pergunta quais seriam os valores estéticos. Vejo que mais uma vez retoma um comentário anterior e tento responder: “Uma das principais características de sua música é a libertação do sistema de tonalidades entre maior e menor, que desde o século XVII vinha dando coerência a quase toda a música do Ocidente”.
– Então a música dele é atonal, pergunta-me vivamente interessado.
Não, eu não sinto assim. Pelo que li e ouvi até agora, ela apenas mostra que as relações harmônicas entre o modo maior ou menor não são mais imperativas. A dualidade maior/menor agora é apenas uma possibilidade, não a mais importante nem a determinante nas suas composições, respondi.
Ah! Ele foi então uma espécie de profeta da nova era, certo? Ele responde esfregando as mãos fortemente uma na outra. Não sei. sei que era inimigo de categorizações e talvez não gostasse desta qualificação. Mas mesmo assim, depois de algum tempo aceitou, ou melhor, tornou-se indiferente a que chamassem sua música de impressionista. De tudo o que lhe disse, eu acho que ele sem dúvidas abriu um universo sonoro novo onde a sugestão ocupa o lugar da construção temática definida, tão característica da música romântica. Sem romper totalmente com o passado, ele criou novas perspectivas para a criação musical, incluindo o uso de acordes alterados, a reutilização dos modos medievais e escalas de tons inteiros. Isso tudo sem esquecer a ampliação e o enriquecimento das combinações entre os instrumentos da orquestra.
– Como assim, me pergunta.
Bom, eu não conheço sua música para orquestra. O que estou lhe dizendo foi aprendido nos livros e na observação de suas peças para piano. Embora não conhecendo quase nada da música do século XX, já li que a diversidade de timbres da música de Messien e a economia de meios da de Varèse têm reconhecida influência de Debussy. É como se aos poucos ele tivesse iniciado a fragmentação do discurso musical, esgarçando o tecido sonoro pelo uso de motivos curtos e que depois foram explorados por muitos compositores do sec. XX. Me calei um pouco esperando alguma reação de sua parte, mas ele ficava ali encolhido, esfregando as mãos.  
Uma outra coisa que identifica bem sua música é uma espécie de oposição aos exageros enérgicos e profundos do romantismo. Como assim, me pergunta parecendo interessado. Eu lhe respondi que ela se apoia sobretudo na expressão moderada dos sentimentos. Suas imagens evocativas sugerem mais a atmosfera dos sonhos, da imaginação livre. Penso que ela é muito particular, porque procura um som que não apela para a emoção e sim para a evocação de ambientes sonoros, de impressões distintas, e nisso ele também se distingue dos românticos. Já li que ele tinha aversão às manifestações de grandiloquência, ao exibicionismo musical ou a expor em música alguma ideia filosófica, que é outra coisa que os estudiosos atribuem ao romantismo. Para se distanciar desse movimento, o romantismo até se constituiu em motivo para seus sarcasmos, ao que ele chamava de ‘muros de conveniência’, por acreditar que aceitando esta influencia, sua fantasia e sua liberdade poderiam fenecer. Outra coisa interessante é que enquanto no romantismo o ouvinte ainda era levado pelas expectativas do desejado, da completude, do relax depois de uma tensão no discurso musical, Debussy nos leva com sua música para o terreno das incertezas, do sobressalto, de suspenses e surpresas.
O tempo passava e, no meu entusiasmo, eu até esquecia de lhe fazer perguntas que talvez fossem relevantes naquele momento. “Quem era Petrúcio? Como tinha vindo parar ali? Onde estudava? Quais seus interesses? Por que se aproximara de mim?”.

v

A frequência de sua presença despertou brincadeiras das colegas. Passavam na saleta, nos viam conversando, e ouvíamos os característicos risinhos. À minha vista faziam comentários irônicos e me avisavam de sua chegada, sugerindo ligação amorosa entre eu e meu amigo. Depois percebi que algumas até já o conheciam, por morarem no mesmo bairro. Mesmo assim, as poucas informações que me passavam não davam para formar um perfil nítido da figura. Estudava no Colégio São João, frequentava as matinés do Clube dos Diários, muito populares entre os jovens de classe média alta da cidade. Assim, continuávamos a conversar sobre Debussy, sobre as palestras que eu vinha assistindo. Mostrava-lhe livros de pinturas, tocava partes de peças para ele ouvir.
Abria um dos livros que emprestara e lhe mostrava algumas figuras. Veja aqui estes quadros de J. Turner. Mostram uma misteriosa luminescência, não acha? Os objetos não aparecem com contornos definidos. Apenas sugerem, dão só a impressão, comentava.
Você sabe, para os impressionistas, as figuras não deveriam ter contornos nítidos. Diziam que a linha era uma abstração humana para representar imagens e que as sombras deveriam ser luminosas e coloridas tal como é a impressão visual que nos causam, e não escuras como os pintores costumavam representar no passado, você entende? Para eles a pintura deveria registrar as tonalidades que os objetos adquirem ao refletir a luz solar num determinado momento, pois as cores da natureza se modificavam constantemente pela incidência dessa luz. No início foi difícil compreender esta característica do estilo. Tenho pensado sobre isso e vejo que aqui em nossa terra só existem duas luminosidades: a sombra e a luz intensa. Talvez aí esteja minha dificuldade em entender essas sutilezas.
Ele parou um pouco e não aceitou minha insensibilidade.
– Não, não é bem assim. É que esses dois extremos são mais visíveis, tomam a maior parte do tempo do dia, que aqui é muito longo. Mas temos muitas nuances: os raros dias chuvosos, o breve fim da tarde, a pequena madrugada.
Ria parecendo estar gostando de suas próprias palavras.
Todas as nuances são raras, breves, pequenas, tênues e sutis. Rimos juntos e parecendo falarmos também juntos, dissemos: não dá tempo de pensarmos, de apreciarmos, de criarmos belezas num tempo tão curto. Rimos mais ainda até ele interromper com outra observação.
Aqui o sol sobe e desce mais rápido e fica em plena luz muito mais tempo. Aquele foi um momento em que estivemos juntos, na mesma vibração, no humor. Parece que ali fora selado uma pacto entre nós!

Passando as páginas do livro, eu encontrava uma figura mais sugestiva e lhe mostrava. Olha aqui o Monet pintando o rio Tâmisa de um mesmo local, em momentos diferentes do dia. Registrando as impressões do rio ao nascer e ao pôr-do-sol, em tempo nublado, na chuva e na névoa. Olha quantas vezes ele pintou o mesmo ambiente. Que acha? Penso que eles eram malucos! Pra que isso tudo, me responde rindo enquanto eu continuei falando.
Pois é! Parece que ele queria a invocação livre e lírica da cena, ao invés de uma mera descrição, não é?
Como se as cores fossem belas por si sós, acrescentou.
Acho que agora podemos fazer um paralelo disso tudo com a música de Debussy, que passa também por essas procuras. Ele também ‘borra’ os contornos das melodias nos surpreendendo quando altera uma das notas de um acorde, quando mina de alguma forma a hierarquia desses acordes, desestabilizando os cânones tradicionais das repetições e cadências nas formulações de suas ideias musicais. Por isso elas sugerem uma atmosfera onírica. E reforça isso quando nega ou fragiliza de certo modo a quadratura das frases. Assim ele vai se livrando das regras da música romântica, sugerindo novos caminhos para fazer e escutar a música. Com relação às suas harmonias, é como se ele visse os acordes como entidades belas em si, que poderiam ser saboreados exatamente como as cores para os impressionistas.
Petrúcio dava um sorriso pouco, um olhar vazio, virava-se e sem dizer nada saia rapidamente rodando pelos corredores e salas da casa mostrando suas mãos inquietas e seus sapatos murchos. Talvez voltasse, talvez não! Me pergunto hoje quantas vezes deixei realmente de estudar para explicar-lhe coisas e de repente olhava ao lado e via que falava sozinha. Em outros momentos notava que não conseguia diferenciar uma música da outra, sinal de que não escutara ou não entendera o que eu lhe havia explicado. Eu insistia em falar de minhas práticas para que ele pudesse descobrir a riqueza da música do compositor francês, mesmo sabendo da dificuldade de medir com palavras o que eu experimentava. Quem sabe, eu mesma não alcançava que o mundo do piano estava além de analogias ou metáforas. Naquela época, a música se tornara cada vez mais uma via necessária, onde até meu corpo, que era mudo mas pensante, se transformava. Creio que nos meus tenros anos devo ter falado muita bobagem, mas acima de tudo eu continuava ali treinando e carregando aquela figura estranha e enigmática até a hora de voltar pra casa.

VI

Deixar a saleta onde eu estudava, era como me arrancar de um mundo cheio de ecos de um passado luminoso, rico em cores e transparências. Na prática regular do piano eu descobria uma vida carregada de afetos que se prolongava nas minhas atividades sociais e intelectuais. Me deparar com o abandono do jardim da escola, com seus dois bancos de cimentos trincados, olhar para os poucos arbustos que permaneciam verdes, era como abandonar a beleza das ninfeias de Giverny com as quais eu sonhava enquanto folheava os livros de pintura. Os portões enferrujados do casarão, sempre entreabertos, cavavam ainda mais o sulco circular no cimento da calçada deteriorada pelo tempo. Atravessava a praça cinzenta iluminada pelo sol ardente, procurando semelhanças com chafarizes e canteiros floridos dos jardins de Vétheuil pintados por Monet. Apesar da tarde que findava, o calor acumulado do dia tinha força para ferver cada grão de areia, cada pedaço de cimento que compunha seus passeios. Meus pés chegavam em casa inchados da caminhada. Faltava sombra para descansar, para contrastar com tanta luz. Já crescida, passar pelo local diariamente, olhar para a praça e vê-la abandonada me enchia de questões. Por que estava quase sempre deserta e descuidada? Por que mantinham espaços para canteiros, quiosques, bancos, se neles só sobrava areia? Num espaço tão imenso não se podia desfrutar, abstrair-se do mundo a não ser com a própria sombra, esticada no chão pela manhã, nos surpreendendo a caminhar do nosso lado, imitando nossos movimentos, fazendo-nos rir baixinho. Ao meio-dia, escondendo-se debaixo de nós e naquela hora da tarde desafiando-nos a vê-la nos seguindo pelas costas. O Liceu era o edifício mais imponente. Olhar sua fachada angulosa e os altos degraus de suas escadarias me lembrava os passeios de minha infância, quando eu ainda de pernas curtas, fazia o maior esforço para subi-los e gritar por meus pais que ficavam lá embaixo conversando. O Grupo Escolar Fernandes Vieira, que dava nome à praça, já terminara suas aulas. Vizinha, a Corporação dos Bombeiros testemunhava o silêncio da tarde, só quebrado pelas sirenes de seus carros quando saíam para alguma função, ou quando os soldados invadiam a praça em algum treinamento. Espalhavam água, corriam entre seus canteiros de areia e bancos abandonados. De estética mais nova do que a maioria dos sobrados do bairro, destacava-se por sua pintura vermelha e pelas duas esculturas em forma de flamas douradas marcando-lhe a entrada. Do outro lado, um muro alto e misterioso terminava num pequeno santuário na esquina. Os vidros foscos pela poeira, pela luz do sol e pelo acúmulo de cera das velas, nunca deixavam saber o que havia dentro daquele pequeno marco religioso encaixado na parede. O Asilo Bom Pastor me colocava diante de inúmeras questões. Lembrava minha condição de mulher. Sabia ser uma instituição destinada à educação e à disciplina das moças que deveriam se arrepender de seus pecados. Unia o castigo aos comentários que se ouviam, de como mulheres eram seres frágeis, presas fáceis das paixões e sucumbiam sem resistência aos olhares insistentes, aos galanteios sedutores. Meus pensamentos me deixavam mais abaixo de minha própria sombra ao meio-dia. Como fugir a esta sina, se me vejo mulher? Como viver minha condição sem ser presa fácil? A instituição sustentada pela prefeitura e administrada pelas senhoras do bairro, representava bem o movimento de regeneração da cidade que fora instalado no início do século, cujo objetivo era limpá-la de miasmas maléficos, entre eles a prostituição.

Caminhando pela calçada do muro cego do Liceu se via outra instituição. O Asilo de Mendicidade também fazia parte dos projetos assistenciais implantados pelas reformas governamentais do fim do século para a erradicação da mendicância. Construído ainda no século XIX e diferente da casa das meninas perdidas, era um oásis na minha caminhada. Apesar dos muros altos, pela parte da frente, suas grades de ferro se abriam para a realidade com mais sinceridade. Metade dos galhos das árvores do seu pátio me acolhiam, sombreando a calçada por onde eu passava, amenizando o calor. Podia-se até avistar velhinhos sentados em bancos ou caminhando sob frondosos cajueiros e mangueiras. Do outro lado da rua ouvia-se a algazarra de crianças. Vinha do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, instituição religiosa que educava as meninas do bairro abastado e que naquele momento também terminava as aulas. Minha caminhada era motivo para treinar os rallentandos imperceptíveis que Debussy exigia para executar suas peças. Quantas vezes me dei conta de minha mão tensa, com os dedos na posição de algum acorde mais complicado que estudara. De cantar relembrando algum pedaço de melodia que soava obsessivamente nos meus ouvidos. Com a música de Debussy eu descobria uma doce amizade que nascia longe dos homens. Ela me dizia pelo coração o segredo de seus baixos, a flexibilidade de suas melodias e o toque sobre os quais eu depositava minha voz interior. Enquanto eu andava, cenas, sons, pedaços de visões, termos e sinais de expressão em francês que aprendera nas partituras dos prelúdios entrecortavam-se na minha mente. Tinha observado, num dos livros que folheara na aula, uma velha fotografia do músico com a filha a quem chamava Chouchou. Os dois sentados no tapete verde de um bosque. Ele de terno bege e chapéu de palha. Ela com um vestido rendado de voile, sapato, meias brancas compridas e um imenso chapéu cujo tom claro contrastava com seus longos cachos negros. Os dois bem arrumadinhos, sentados no chão. As solas dos sapatos nem sequer estavam arranhadas.

Très apaisé et très atténué jusqu’ à la fin, eu relembrava minha infância e os passeios com meu pai. A essa altura já tinha ultrapassado mais quarteirões da Rua Padre Ibiapina, que eu seguia até cruzar a Clarindo de Queiroz, onde eu morava. Me encontrava em frente ao local onde aos domingos à tarde, ele nos levava a passear. O sol brilhava, e a brisa era tranquille et flottant. Não precisávamos nos arrumar. Entregue ao prazer de estar com os filhos, ele passeava à vontade com seu pijama listrado, arrastando os chinelos. Quando avistávamos os grossos muros cinzentos do prédio do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), nossos corações pareciam bater mais fortemente. Laisser vibrer. A construção bem cuidada abrigava uma escola para formação profissional de jovens onde ele, às vezes, prestava algum serviço. Já sabíamos que colocaria cada um dos filhos em cima do muro e, segurando nossas mãos, nos fazia andar por toda a sua extensão. Doux et soutenu. Olhe para frente e não para baixo! Escolha um objeto lá longe para fixar o olhar. Eu sustento sua mão, mas é preciso levantar os braços para manter o equilíbrio. Vamos! E lá ia eu, dividida entre o medo e a confiança, até o fim da murada. Depois era hora de entrarmos no prédio e corrermos en animant pelos imensos alpendres vazios da escola. Em cima de uma goiabeira, os bem-te-vis cantavam assustados parecendo avisar uns para os outros, da invasão da cavalaria dos gentios em seu território. Nosso alvo era alcançar o fundo do terreno onde existia um grande poço abandonado. Encostados nas suas bordas nos deliciávamos quando avistávamos as silhuetas de nossas cabeças recortando aquele imenso e límpido céu azul refletido na água. Começavam, então, outras brincadeiras: jogar pedrinhas pra ver nossas figuras trêmulas se quebrando no espelho d’água e ouvir o eco de nossos gritos dentro do poço. Bumm, bumm, Uuuuuuu, Ôooooooooo, Tem, tem, tem, Ai, ai, ai. O som das chinelas que se aproximavam pelos corredores em nossa direção se misturavam aos ecos de nossos gritos. Uma composição perfeita: dois amores, dois humores. Cédez, cédez! Papai nos pegava pela mão e nos arrastava de volta. Vamos, vamos, vamos, deixem de besteira! Voltávamos para casa plenos. O tempo passado ali, très souple, valera a pena, e o que vinha estava cheio de força e confiança. Comme une lointaine sonnerie de cors… até a luz do sol se extinguir... 
Eu só despertava de minhas lembranças quando avistava o muro alto de uma misteriosa garagem cujo imenso portão de ferro permanecia sempre fechado, exceto quando chegavam ou saíam aqueles veículos gigantes, os ônibus que serviam às linhas de transporte do bairro.
À noite, no meu quarto, Debussy, numa de suas raras entrevistas, me lembrava: “Só a música tem o poder de evocar livremente os lugares inacreditáveis, o mundo indubitável e quimérico que vive secretamente na misteriosa poesia da noite, nos milhares de ruídos anônimos que emanam das flores acariciadas pelos raios da lua”.

VII

Petrúcio aparecia do nada! Entrava na sala sem sequer me cumprimentar e queria continuar a conversa do lugar em que tínhamos interrompido quando ele, também sem dizer nada, tinha desaparecido. Depois de tantos dias eu já nem me lembrava mais onde tínhamos parado. No entanto, para satisfazer seus interesses, o tempo era um moto-contínuo; não tinha pausas. Tampouco lembrava que eu podia estar ocupada, que precisava estudar.
– Deixa eu te mostrar uma música, dizia se encaminhando para o piano, já sugerindo que eu deixasse o instrumento e o escutasse. Improvisava alguns acordes, me perguntando o que eu achava. Eu ficava escutando, esperando que utilizasse algo do que tanto eu havia comentado e mostrado do estilo impressionista, mas apesar do meu esforço em identificar ou de receber dele algum retorno, o que eu sentia era frustração. Ele só mostrava desvios, improvisações, e elas em nada lembravam acordes paralelos, motivos sonoros curtos, uso intencional de acordes alterados, a procura por uma criação mais plástica pela anulação das barras de compasso e o uso de diferentes tipos de quiálteras que caracterizavam a música de Debussy. Ao contrário, o rapaz continuava “atochando” o pé no pedal da direita como se fosse a percussão do que tocava. E eu me perguntava: O que ele fazia ali? Me escutava mesmo? Estava existindo alguma interação entre nós, quando eu lhe explicava tudo o que sabia? Ou estava ali para passar o tempo? Afinal, para onde iam aquelas conversas todas e o que eu e a escola significávamos pra ele? Por que não trazia uma canção pronta e me mostrava? O que eu poderia dizer de pedaços soltos, de improvisações que me pareciam sem nexo, sem propósito? Ou queria só se mostrar para mim, como uma criança que dá uma cambalhota para uma visita que chega à sua casa? Quem era mesmo aquele jovem que sabia um pouco de música, que tocava acordes interessantes, mas que não mostrava interesse em estudar teoria musical para elaborar melhor o que me mostrava? Perguntava-lhe que projeto musical tinha ali com aqueles acordes, se era uma canção, se tinha letra, mas ele não me respondia. No meio do marasmo dos meus pensamentos, ele parava de tocar e saía repentinamente. Dias depois reaparecia e se mostrava mais leve e descontraído.
Sabe, ouvi dizer que o impressionismo retrata o cotidiano das pessoas, suas frustrações, preocupações, o curso da vida e o erotismo.
Ainda surpresa, sem entender bem sua repentina aparição, respondi olhando uma partitura que estudava: “É, pelas figuras dos livros os pintores da época retrataram muito as festas, os piqueniques no campo, os passeios de barco, a vida urbana com seus teatros e bares.”
Ele disse: – Essas pinturas parecem fotos de momentos felizes.
É verdade, eu gostaria muito de ter vivido nessa época. Me parece que as pessoas eram realmente mais felizes.
Ele soltava um sorriso meio cínico, me deixando "despida" nas minhas emoções. Talvez estivesse fazendo troça de mim, pensei.
Muito comum também era pintar a intimidade do lar, o movimento da vida, me disse em seguida.
– Você já viu o quadro O Absinto, de Edgar Degas? Parece uma foto assim meio desfocada, lembra?
Sim.
– E aquela mulher? Parece bêbada, não?
Sim, é verdade.
– Mas será que a invenção da fotografia influenciou-os quando desenvolveu o gosto por estas cenas fortuitas? Assim como aquela da mulher bêbada? O absinto foi a bebida preferida durante a Belle Époque, sabia? Todos os grandes escritores, poetas e músicos gostavam da ‘Fada Verde’, como era conhecida.
Dando mais atenção ao que ele dizia, respondi:
Não, não sabia!
– Dizem até que muitas obras foram concebidas sob seu efeito.

Intrigava-me o interesse no absinto e não na música para a qual eu tentava atraí-lo. Pela forma como tinha se ausentado da última vez, eu imaginava que não havia levado nada em conta. Mas a conversa foi se desenrolando, me forçando a esquecer seu riso enigmático e acreditar novamente que entre nós poderiam existir afinidades que poderiam se desenvolver pelas relações mútuas com o piano. Não importavam os caminhos que tomassem esses rascunhos.
É! Agora me vem à mente que esse quadro de Degas é apenas um dentre os inúmeros que já vi e que retratam pessoas bêbadas pelo absinto. Que interessante!
Para minimizar minha observação, ele soltou seu sorriso raso de ironia:
– Ah, mas para mim esses impressionistas viviam sempre em estado de sonho. Tudo pra eles era quimera, devaneio, fantasia! Você fala tanto em impressão que até parece que para eles o reflexo da realidade era mais importante do que a própria realidade. Naquele momento senti que ele tentava atingir-me no meu gosto, nas minhas paixões. Sua observação ia além das palavras.
Não, não era só isso, reagi. Eles amavam o tempo em que viviam. Gostavam das ruas, das pessoas que andavam despreocupadas, dos homens, das mulheres de guarda-chuva, dos barcos, de tudo o que era fruto da civilização da época.
De repente o silêncio tomou o espaço da sala. Ouvia-se apenas o barulho dos ônibus que passavam na rua roncando, soltando baforadas cinzentas de fuligem.
Ah! Me lembrei! Sabe que Debussy tem uma pequena peça que se chama Rêverie? Vou lhe mostrar!. Tomo um dos álbuns que estão em cima do piano e procuro a página em que está a peça, enquanto ele esfrega nervosamente as mãos.
Escute aqui a simplicidade desta melodia inicial na mão esquerda: um motivo melódico de quatro notas e que se repete caminhando para cima e para baixo no teclado. Me lembra o estado de vai e vem da memória, quando invocamos uma lembrança. Muito bem bolado e sensível quando passa a impressão de que as lembranças não contêm tensões, de que elas são filtradas pelo tempo.
Ele pensa um pouco e diz:
– Queria saber mesmo se ele tinha essa intenção quando compôs a peça e colocou esse nome.
Ah, taí uma coisa que não sei. A impressão que me dá é que cada um de nós sente e percebe a música de maneira muito individual. Cada um preenche aquele momento de escuta de maneira diferente, e isso depende muito de fatores subjetivos como imaginação, capacidade de invocar imagens, sentimentos, memórias e desejos. Como a música depende do tempo para sua realização, a passagem desse tempo, o momento da escuta, é usufruído dependendo também da concentração de cada ouvinte. Isso sem mencionar nossa visão de mundo e a do compositor, evidentemente. Talvez tudo o que lhe digo sejam associações, e Debussy nunca tenha pensado nisso.

Petrúcio parecia não entender ou não se interessar pelo que eu lhe dizia naquele momento. Ficava alguns segundos dentro de si, forçando uma mão na outra.
Sinto que sugere esse estado de relembrar quando escreve a expressão très douce et très expressive antes do início da peça. Continuo executando momentos interessantes da composição, tentando mostrar-lhe como o compositor nos confunde quando nos faz imaginar que era realmente indiferente à ideia de tensão harmônica ou de estrutura formal.
Mas você acha isto mesmo?, pergunta.
Não, não! Não acho isso, não. São apenas comentários que leio sobre a música dele. Essa composição é de 1890. O que fazia sucesso nas salas de concertos de Paris à época ainda eram as sinfonias Novo Mundo - de Dvorak, a Patética - de Tchaikovsky, além da produção de compositores franceses como Massenet, Saint Saëns ou Fauré. Músicas muito ligadas ao tonalismo e ao romantismo. E ele frequentava esses concertos, tinha familiaridade com esse tipo de repertório. Além disso, tinha tido uma formação musical tradicional. Não acredito que seu ouvido fosse indiferente à tonalidade. Acho que era mais uma questão de decisão, de escolha do material com o qual queria trabalhar”.
Meu amigo me perguntou: Você certa vez invocou Wagner, não foi?
Sim, mas Wagner tinha 49 anos a mais que ele. Era de outra geração. Acreditava exageradamente que a harmonia cromática seria a porta de entrada para uma nova música. Como cromático, me perguntou. Sim, o termo vem da pintura. Cromo significa cor. Na música significa passar por todas as tonalidades.
Enquanto eu falava, ele acenava com a cabeça acompanhando meu raciocínio, reagia com um breve sorriso e dizia:
– É, sua música tem outros referenciais, ele era alemão, teve outras vivências, e como músico isso conta muito, não?
Não dá para comparar os dois. Wagner se dedicou mais à música de cena, usando a mitologia germânica como material literário para suas óperas. O caminho de Debussy foi outro. Ele foi permeável a músicas de outros povos. Você não imagina o impacto para ele ao ver os balés russos que se apresentavam em Paris sob a direção de Diaghilev. De como ficou fascinado pela música balinesa quando ouviu na Exposição Mundial de Paris, em 1889, a apresentação de um grupo de Gamelão. Enfim, foi receptivo até à onda de orientalismo que foi moda em Paris na sua época. Por que colocou numa coleção de composições o nome de Estampas (1894) e em outro Imagens (1903)? Algumas peças dessas coleções se chamam Pagodes, La Soirée dans Granade e Jardins sous La Pluie,entende?
– É, pelos nomes parecem realmente imagens de postais, reage. Mas acho que me distanciei muito da peça que estava lhe mostrando. Escute aqui esta passagem. Debussy ainda mostra uns breves pousos no romantismo, como no fim desta primeira frase. Só um tempo, um lampejo, pois ninguém é de ferro. (Risos!) E assim mesmo ele é borrado por esse intervalo pouco usual.
Continuo tocando e lhe perguntando se dá para perceber que escolhendo trabalhar com motivos musicais curtos é mais fácil de evitar, de fugir das tensões e dos descansos característicos da música tonal. Se você inventa uma melodia só com quatro ou cinco notas não dá nem pra saber em que tom ela está, quer ver? Experimenta! Assim é mais fácil apenas sugerir. Escute aqui este acorde. É o mais simples: primeira, terceira e quinta nota da escala. No entanto, esta quinta está dilatada, como se a gente tivesse estirado mais o dedo para tocá-la ou tivesse tocado a nota errada. (Risos.) Alterar os acordes é uma das coisas mais características de sua música. É daí que consegue fazer seus “borrões”, se assim podemos dizer. Nos dá a sensação de ambiguidade, como se estivéssemos observando algo através de folhas de papel celofane sobrepostas e de cores diferentes que se movem enquanto observamos o objeto. Não podemos eleger a predominância desta ou daquela cor, entende? – Sim, mas o jazz também usa este tipo de harmonia, diz se encaminhando até o piano para harmonizar uma pequena melodia de Duke Ellington.
Sim, o jazz foi mais uma de suas escutas. Os americanos usavam o piano de forma muito descontraída e divertida e com certeza ele ouviu os músicos americanos ambulantes que se apresentavam em Paris na sua época. Sei que compôs um “Ragtime” bem sincopadinho com efeitos que lembram um Banjo, sabe? Colocou-o na sua Suite “Children’s Corner”. Na peça tem um momento mais calmo onde ele colou um fragmento de "Tristão e Isolda de Wagner". Mistura estranha, não? Ele pareceu não me ouvir e voltei ao que estava lhe explicando. Veja onde ele repete este acorde duas vezes. Este sforzzando grita aos nossos ouvidos. Nos dá um susto quando aparece, como se quisesse nos tirar dos devaneios. No entanto, não permanece ali. Passa repentinamente para um registro mais leve. Para mim, trata-se somente de uma breve eloquência.
– Banal, diz. E por que não? Continua.

Este último comentário veio recheado de humor, e isso significa que é capaz de se concentrar, de perceber muitas coisas, pensei. Comento que ela é fugaz, só sugestiva. Aliás, foi a única vez em que precisamos tocar forte, pois a peça inteira circula entre o pianíssimo e o meio forte. Com uma olhada geral na partitura, nesse outro momento dá pra entender bem o que falei sobre a atitude de "antimonumentalidade" em oposição à retórica wagneriana. Ao invés de fazer uma onda crescente na repetição dos acordes, ele interrompe repentinamente seu curso e nos surpreende com um pianíssimo”.
– Que sadismo, disse sorrindo!
Você sabe que os poetas simbolistas fugiam também dos exageros emocionais em suas poesias? Paul Verlaine costumava dizer: peguem a eloquência e torçam-lhe o pescoço.
– Mas essa música me parece muito romântica, afirma.
Sim, mas você tem de considerar que esse é um de seus primeiros trabalhos. Ele tinha 28 anos quando escreveu Rêverie. Você pode ouvi-la romântica, mas quando nos aproximamos da maneira como organiza seu discurso musical ela já contraria em muito os paradigmas do romantismo.
– Mas quanto a isto, Wagner também o fez.
Ah! Aí é que está a diferença. Em Wagner ela estava a serviço da expressão, da eloquência, e em Debussy a serviço da impressão, da sugestão. A música de Wagner se caracteriza pelo acúmulo de tensões sem que permita ao ouvinte a distensão ou a resolução dessas tensões. Com isso cria, antes de tudo, a sensação de algo flutuante, inconcluso.
A calma e a descontração do início de nossa conversa desaparecem, pois olho para o lado e me descubro mais uma vez falando sozinha. Ele sai apressado, todo encurvado, comprimindo os lábios, empurrando uma mão contra a outra. Observo-o dando uma volta inteira nos jardins da escola, voltando depois de algum tempo. Senta-se e começa a puxar ansiosamente os fios do cabelo, arrancando-os um por um, jogando-os no chão.

Surpresa com sua atitude, volto-me para a partitura na estante do piano, simulando não estar notando nada. Estava mesmo com medo, porque nunca tinha visto alguém se machucar daquela maneira sem razão. Ficou assim fora do mundo alguns minutos e voltou a querer me escutar novamente. Fiz de conta que nada tinha notado e recomecei a conversa. “Veja aqui na partitura este pequeno trecho. Um contraste absoluto entre a melodia que caminha numa pauta limpa, sem acidentes, e de repente ele complica, muda para uma tonalidade mais carregada, com quatro sustenidos se distancia muito do tom principal”.
É, mas a gente nem percebe isto.
Sim, mas quem está lendo na partitura se assusta. É como se a passagem fosse uma mancha na música toda. Uma mancha divina, sem dúvida, mas que nos deixa perplexos. Quando aprendemos teoria da música, este é considerado um salto muito grande, porque passa para uma tonalidade muito distante da principal.
É, que para ele cada acorde era uma entidade separada e deveria ser usufruído como um som em si, que para fazer sentido não precisaria de ligações com outros, não é? Mas é só um pequeno trecho. E ele não parece assim tão sombrio apesar de tantos sustenidos, observa.
É, mais como uma iguaria carregada de temperos que deveria ser saboreada com "zelo”, completo sua frase. Ouça aqui como Debussy volta à melodia inicial, entrelaçando-a, dividindo-a entre as duas mãos. 
Um riso pouco da parte dele demonstra achar o procedimento interessante, e comento sobre a dificuldade de executá-la.
Apesar de a peça não ser tão complicada, a procura das sonoridades, a torna difícil de executá-la.
Sua voz já não era mais a de uma criança, quando me disse: (– é, mas você toca!...). Era como a voz de um velho. De todo modo, não sei tocar sem os conselhos de minha professora, tenho muitas inseguranças e quero sempre que ela me assegure das coisas, respondi.

Olhando para seu semblante, eu não via sinal de vida. Apenas um olhar vazio, a boca funda e o sorriso deslocado, como se estivesse rindo de outra coisa. Que sensação estranha! Será que eu era mesmo maluca, boba, ridícula? Afastava um pouco essas ideias, concebendo que tudo aquilo era demais para um jovem loiro e bem cuidado, que chegava trazido por um motorista numa caminhonete. Que não falava de si nem perguntava nada de alguém. Que eu não sabia se escutava o que eu falava. Claro, qualquer um ficaria sufocado com meu excesso de informações, eu concluía. Mas depois que ele saía eu tinha de estudar e continuar ali remoendo meu mal-estar.


VIII

O livro de treinamento de Paul Hindemith ocupava a maioria do tempo de nossas aulas de teoria. Os ritmos desencontrados com que batíamos os pés no chão e percutíamos com o lápis nas carteiras simultaneamente cantando uma melodia, desafiava-me por inteira. Saía da aula leve como uma folha seca caindo das árvores. Naquele dia, uma de minhas colegas aproveitou o final da aula e com um sorrisinho maldoso me disse que “meu amigo” estava chegando. Olho para o pátio da escola e, ainda confusa com a ironia da colega, avisto sua figura tensa, de cabeça baixa, subindo apressadamente as escadas. Quando me avista e vê que ainda estou em aula, passa timidamente pela porta da sala e desce. Desaparece e só retorna quando já estou instalada na pequena sala de estudo.
Anda, fala! O que é que tu estás estudando?
É esta peça – e lhe mostro a partitura – se chama La Cathédrale Engloutie. Faz parte de um ciclo de dois volumes de Prelúdios que Debussy compôs entre 1910 e 1913. São das suas últimas obras. Esta aqui, por exemplo, é inspirada numa legenda bretã da vila de Ys, que teria sido invadida pelo mar e com ela sua catedral. Acredita-se que uma só vez por ano o templo aflora à superfície da água para relembrar sua glória”.
Ele senta na cadeira ao lado do piano e me escuta.
É interessante como ele concebeu a peça usando todo o teclado do piano, como se sugerisse a abrangência de tal catástrofe aquática. 
Leia aqui: Dans une brume doucement sonore et profondement calme. Você lembra o que Debussy aconselhava? Antes mesmo de começar a tocar, temos de nos colocar dentro da atmosfera da peça, lembra? Pois ouça estes acordes do início. Aparecem como se fossem ressonâncias serenas e nos mostram características fundamentais de sua música: sequências de acordes paralelos e que tenho sempre lhe chamado a atenção. Além disso, usa também intervalos que não definem bem os pontos de tensão típicos da tonalidade. O resultado é que ouvimos uma certa ambiguidade, uma sensação de algo vago, meio enganoso. Como se nem a melodia nem as tonalidades fossem nítidas, reconhecíveis. Dá pra você perceber o quanto sua música é diferente da de Wagner?
Petrúcio não dizia sim nem não, e eu continuava em dúvida se acompanhava a explicação ou se pensava noutra coisa. Olhe: Doux et fluide, como ele mesmo sugeriu, entende? Não sabemos se estamos lidando com tons ou modos. Esses são mais alguns indícios de como ele abriu um novo universo sonoro em que a sugestão ocupa o lugar da construção temática e definida dos românticos.”
Toco para ele os primeiros compassos da peça e lhe explico: com relação ao pedal, temos de fazer soar este primeiro acorde, sem que suas notas se misturem com as dos outros acordes que se seguem. Aprendi a executá-los sem mexer muito os dedos, tentando imaginar que os sons estão guardados dentro da palma da minha mão, que deve se conservar tranquila. Aliás, Debussy aconselhava manter os dedos quase planos para que o pianista pudesse sentir melhor a superfície das teclas e tocá-las com mais precisão. Assim...veja! Gostaria de conseguir, na primeira parte da peça, executar uma massa sonora lisa e uniforme sem perder essa transparência, como lhe falei. Mas não ouço assim quando toco, sabe? Não é fácil. Às vezes tenho raiva da peça, da professora que está sempre me fazendo uma ou outra observação, acrescentando demandas ao meu estudo. Eu acho que esta exigência de tantos detalhes chega a um ponto em que perco minha espontaneidade. Em vez de me soltar, fico presa, tensa. Além disso, a natureza volátil desse tipo de música dificulta muito a memorização, mesmo quando encontramos alguns pontos de apoio para nossa concentração. Identificar, reter todos os diminuendos, tudo o que é derivado, fundido ou sobreposto na composição, nos impõe um outro tipo de atenção, diferente da atenção de quando estudamos uma música do século XVII, por exemplo. Para quem analisa, e para quem ouve, a situação é até mais cômoda, sabe?
Ele interrompe minha fala como se não quisesse saber de minhas dores e pede para que eu toque novamente o trecho. Talvez para ver se minhas mãos estão planas e calmas, penso. No entanto, enquanto toco, ele dá duas voltas em torno de si mesmo e parece não ouvir o que faço.
Veja aqui este trecho, como lembra sutilmente o som de sinos, sugere algo religioso, tranquilo, sem arroubos emotivos. Agora vou tocar o mesmo trecho usando os pedais, tentando seguir as instruções contidas na partitura. Que acha? Mudou alguma coisa? O pedal contribuiu para a construção da atmosfera sugerida na peça?”

Não ouço resposta. Ele continua envolvido com seus mungangos: pulinhos, mãos que se empurram ou a cabeça contra a parede. De repente sua voz me diz:
Parece música de Igreja! E se cala, como se essa expressão fosse só uma bolha de ar que emergia do fundo do mar de sua mente.
Você não acha interessante a ideia do som do piano evocar sinos com intervalos graves? Como se os da catedral soassem enquanto ela estava sendo invadida pela água? Mesmo assim ele não se estende, não para, não explora essa sensação, pois já passa a evocar outra coisa.  Veja aqui: peu a peu sortant de la brume. A própria ideia de bruma já sugere algo impreciso, sem limites definidos. É mais ou menos aquilo que lhe falei da pintura impressionista, lembra? Nessa outra página, os acordes estão mais carregados de notas, enquanto a mão esquerda sugere uma grande onda. Tudo em pianíssimo, muito calmo, como está escrito na partitura! Ela só soa forte nestes dois acordes, aqui onde está escrito para aumentar progressivamente o andamento.
Ele me interrompe e diz: – Essa música é muito sofisticada!
Eu também acho. Tudo é muito pensado e caprichoso.
É, mas o resultado é que não deixa liberdade ao intérprete, me diz.
É verdade, a crítica é pertinente. Por isso acho tão difícil executá-lo. Até os rubatos, aconselhava que fossem executados com a maior finura e o mais imperceptivelmente possível.
Essa sofisticação se justifica em parte pela convivência que teve com os poetas simbolistas e pintores impressionistas. Parece que eram muito requintados. Sim,  ele musicou versos de Verlaine, Mallarmé, fez ópera com texto de Maeterlink, inspirou-se em quadros de pintores da época. Foi a maneira que encontrou para traduzir com música as novas percepções e a sensibilidade de seu tempo. Vamos ver mais dessa música. Mais adiante vão aparecer outros acordes interessantes. São blocos sonoros simples, sem tensão e em movimento paralelo. Lembram um pouco a música medieval, sem grandes contrastes ou insinuações, buscando a paz e a tranquilidade. Essa peça é muito sugestiva como música impressionista, lhe expliquei.

Do lado de fora, o calor do fim do ano tinha transformado em garranchos o único pé de abacate que restava vivo como lembrança do pomar do velho casarão. Suas folhas caídas secavam no chão feito lixo. O sol dava diretamente dentro da sala, aumentando ainda mais o mormaço. De seus cabelos e rosto pingava suor. O líquido deixava também duas enormes manchas úmidas debaixo das mangas de minha blusa, me deixando envergonhada. O restante vai se apresentar sempre dentro das sonoridades meio brumosas, embaçadas, explico. Depois chamo sua atenção para uma passagem no meio da peça, que lembra um coral. Como se a água já tivesse baixado e pudéssemos ouvir o grupo cantante vindo de dentro da catedral que começava a aflorar à superfície.
Olhei para o lado, esperando dele alguma reação, e não havia ninguém na sala. Saíra sem dizer uma palavra, me deixando falando no vazio. Eu voltava ao estudo com uma certo desconforto no estômago, carregando aquela figura enigmática. Me perguntando o que teria causado seu repentino gesto?

IX
A presença dos alunos e o barulho das aulas de música estavam sedimentadas tão intensamente dentro da casa que, mesmo depois de encerradas as aulas, sons e imagens ainda permaneciam como eco em meus sentidos.

Para apagar os detritos, abria todas as portas e janelas para que o vento levasse tudo aquilo que era desnecessário e eu pudesse descansar. Armava a rede no único lugar sem as inscrições sonoras e visuais do meu dia a dia: a pequena varanda do apartamento em que eu morava. Ali do alto observava os telhados das poucas casas que se escondiam no meio dos espigões de apartamentos e me deliciava com a nesga de céu escuro a que ainda tinha direito. A imagem da Torre da TV Verdes Mares estava coberta de luzinhas de todas as cores que piscavam se confundindo com as estrelas que anunciavam o Natal.

Aos poucos o silêncio esvaziava e limpava meus ouvidos. Como um mantra, eu passava a outra esfera das escutas: a das lembranças. Elas me levavam mais uma vez ao velho casarão, tempo em que a luz e a cor desempenhavam papel dominante como reveladoras dos fatos e conferiam à vida uma atmosfera de otimismo e fé na beleza e no encanto da existência.

No balanço da rede fito meu olhar numa estante onde vejo livros que se destacam pelo tamanho e recordo Petrúcio chegando após ziguezaguear pelas salas do Conservatório, entrando apressado no cubículo do porão onde eu estudava. Posta-se na parede interna como se estivesse se escondendo. O cabelo, ainda úmido, espalha na sala perfume de sabonete. Continua de cabeça baixa, ora roendo as unhas, ora empurrando as mãos uma contra a outra.

Naquela época, reflito eu, adquirir livros de partituras era um verdadeiro sacrifício. As edições francesas eram quase impossíveis, pois saíam caríssimas para alunos e professores. Encomendávamos no Rio de Janeiro, ao importador Oscar Arani, e levavam até meses para chegar às nossas mãos. Pelas dificuldades em adquiri-los, copiávamos muitas vezes à mão uma peça inteira. Naquele ano, nós, alunas, fizemos uma cota e encomendamos algumas partituras: as Suítes para Piano, os dois volumes de Prelúdios, as Estampas e as Imagens de Debussy.

Quando Petrúcio se aproximava do piano, lá estou eu apreciando como se fossem preciosidades, os enormes livros verdes das Edições Durand que mandara buscar na França. Agora eu tinha em mãos uma edição original dos dois volumes dos Prelúdios e poderia explicar-lhe muito mais coisas. Sem levar muito a sério sua ansiedade, abri o primeiro volume para mostrar-lhe a proposta inusitada do músico francês em escrever o nome das peças só no final de cada uma.
Não entendo! Por que isso, pergunta.
É que ele primeiro queria criar imagens ou associações sensoriais para o ouvinte sem impor um nome e só no fim dizer do que se tratava. Aliás, isso é impressionismo. Mallarmé, contemporâneo, dizia que nomear um poema significava tirar ¾ de seu prazer, que é feito de "sacações", insights que surgem pouco a pouco. Escrevendo um título no início, o poeta estaria logo mostrando o sonho, fato muito verdadeiro, sabe?”
E essa foi a ideia de Debussy quando pensou seus Prelúdios? A ideia é interessante, respondeu. Evocar atmosferas sonoras não era bobagem para eles, era uma atitude independente de construir peças fora das normas tradicionais da época.”
Como se não acreditasse ou não tivesse entendido, pergunta: o que são mesmo esses prelúdios? 
Olha, eu os vejo como uma coleção de ambiências, de cenários sonoros desse mundo fluido e nebuloso que queria evocar. Às vezes antiquíssimo, inexplicável e encantado. São peças pequenas, conversações breves entre alguém e o piano (1910-1913). Você vai ver que elas apresentam ambiências variadas. Uma tem inspiração italiana, a outra espanhola, outra lembra um conto de fadas e muitas são apenas lembranças advindas de estampas, postais que ele via em algum lugar.

Olho para o meu amigo e me apercebo de que seus cabelos dourados tinham secado e o perfume do banho  tinha evaporado. No calor da tarde, ele liberava muito mais o suor característico dos meninos adolescentes.
Mas o que é mesmo um prelúdio, me perguntava mais enfaticamente. Ah! Você quer saber da palavra? Bom, pela primeira sílaba você pode imaginar que seja peça para ser executada precedendo algo, uma outra peça. Uma maneira de nos colocar no tempo musical. Assim como Postlúdio vem a ser tocado depois de algo e Interlúdio ou Intermezzo no meio de algo. São todas peças que precedem, intermedeiam ou encerram algo. É que ouvir música é mesmo cansativo, não é? Nossos ouvidos precisam de mudanças de andamentos, de intercalar grandes e pequenas formas, digo em tom de brincadeira.
Mas se você fala de antecedente, consequente, os prelúdios de Debussy antecediam a quê?
Aí sua pergunta me deixou meio engasgada, em silêncio, procurando como explicar-lhe, levando em conta a relação de dependência da música com o tempo.
Não sei como lhe dizer, mas tem a ver com o fato de que até o século XVIII os eventos musicais se relacionavam uns com os outros. Uma Abertura para uma ópera. Entre os atos, um Intermezzo musical ou uma cena teatral mais cômica contrastando com a dramaticidade do enredo. Uma dança mais lenta contrastando com outra mais leve e rapidinha. Nas sonatas, um movimento rápido contrastando com um grave etc. Mas a partir do século XIX essas formas foram sendo compostas como peças isoladas sem compromisso com o que viria antes ou depois de sua execução. Deu pra entender?
Ele não diz nada e seu olhar é raso! Eu continuo. Os Prelúdios de Debussy, por exemplo, são divididos em dois volumes. Diferentes dos prelúdios de Bach ou dos de Chopin, que seguem o ciclo das tonalidades, não se pode afirmar que Debussy tenha tido algum propósito desse tipo. Como falei de ambiências, talvez possamos pensar que é uma coleção delas. Você vai percebê-las pelos nomes das peças.
– Como assim?
Imagino que é porque vão desde a calma do primeiro (Danseuses de Delphes) ou do décimo (Cathédrale engloutie) até o tumultuado Ce qu’a vu le vent d’Ouest do segundo volume. Do misterioso Brouillards, também no segundo volume, ao explosivo Feux d’artifice. E reforçou a ideia quando deu nomes ao que antigamente se dava apenas o número e no máximo a tonalidade. Sabe, apesar de não tocar todos eles, já li que podemos reconhecer na coleção todas as características de sua música e que elas são um resumo de suas preocupações técnicas com relação ao piano. Gosto muito delas, pois são mais intimistas, para serem tocadas para quatro olhos e ouvidos, como ele mesmo dizia.
Ele dá uma risada mais solta e resume baixinho: – Dois do pianista e dois de quem ouve.


X

Aos poucos caíram as máscaras de nossos contatos iniciais e as conversas ficaram menos formais. De brincadeira sugeri que imaginasse uma ligação entre as vestes de estátuas gregas dos livros de História da Arte e os primeiros acordes do primeiro prelúdio de Debussy, que dizem ter sido inspirado numa pequena gravura de três dançarinas bacantes que ele viu no Museu do Louvre. Petrúcio ria do que eu falava. Olhe como são esculpidas suas vestes, dando a sensação de que estão molhadas, pregadas ao corpo. Lembra-se dos acordes que eu treinava quando você entrou aqui pela primeira vez? São parte desta peça. Você não acha que eles são assim meio molhados? (-Risos) Apesar de sugerirem algo processional, você não os acha bonitos, sensuais?
Ele dava um sorriso de descrédito: – Como assim? Sensual em música? Você é mesmo maluca!
Eu seguia executando os acordes da peça insistindo nas minhas interpretações. Ouça como constrói o primeiro compasso: três acordes, somente. No entanto, escondido entre suas notas aparece um pequeno motivo cromático: Si bemol, Si natural, Dó, Dó sustenido. Preste atenção a essas oitavas do baixo, pois vão aparecer como efeito expressivo em toda a peça. Esse mesmo motivo curtinho é repetido aqui no segundo compasso, ouviu?
Hum, hum, confirma.
E o que acha dessa nova ideia, pergunto enquanto toco. Não se enquadra bem na quadratura do compasso que ele propõe. Só termina no início do outro compasso. Dá pra entender bem? Confira a outra saída dada para o pequeno motivo cromático do início, que deve ser ouvido agora lá nas oitavas do baixo. Muito genial, não é?
Faço de conta que não noto que não está escutando minhas explicações e continuo.
Vem em seguida uma série de acordes paralelos que contrastam com o movimento contrário dos acordes iniciais. Fico fascinada quando consigo identificar numa partitura uma racionalidade, um propósito do compositor, por mais simples que seja. Esses acordes paralelos me lembram o vento modelando as dobras dos véus no corpo das três bacantes.
Ele então dá sinal de vida e ri: – Entendi.
Quando a gente expressa com palavras uma imagem que vem à mente ao escutarmos uma música, elas se tornam engraçadas. Minhas amigas abrem sempre um sorriso no olhar, mas deixam os lábios fechados como se se negassem a aceitar minhas palavras. Parece que procuram um lugar pra encaixá-las, mas o certo é que não sei explicar a música só analisando os livros. Tenho de me valer de imagens.
Peço-lhe que observe como o compositor é astucioso quando mostra nitidamente decupada, aquela melodia intermediária do início, enquanto os acordes, em contratempo, completam a harmonia na parte aguda do instrumento. Como se fossem aqui na partitura. É preciso que o ouvido faça a ligação.
Soa muito bonito, me diz. Morde um pouco os lábios e se cala. Parece que sua preocupação eram só as manchas sonoras que sugeria com esses acordes meio repuxados, fora do convencional, não? Estes cinco compassos são constituídos exatamente com o mesmo material sonoro do início e que ele expandiu, remodelou. Toco o trecho e mostro na partitura, explicando como se constroi  uma composição musical.
Ele então acrescenta: – Bach fazia assim, não?
Bom, eu não vou cansar seus ouvidos nem sua capacidade de ver e ouvir, falando de escalas dóricas ou pentatônicas que ele ‘dragava’ lá de músicas medievais ou de outras culturas para usar em suas composições, mas queria lembrar os acordes alterados e os jogos de intensidade que ele teve tanto cuidado em escrever como queria que fossem executados. Sei que este piano é ruim e meus dedos não estão prontos neste prelúdio, mas dá para perceber como a peça é riquíssima de efeitos timbrísticos e o mais interessante é que quase tudo dentro de sonoridades muito delicadas, como uma aquarela ou desenhos encontrados em ruínas, que só o trabalho de arqueólogos consegue evidenciar. Como a solução de um quebra-cabeças lhe mostrava o nome Danseuses de Delphes impresso em letras miúdas no finzinho do papel.
(Rimos juntos!)
Sabe, acho os títulos de suas composições muito poéticos! Escuta: Jardins sous la pluie, Reflects dans l’eau, Et la lune descend  sur le temple qui fut etc. É, mas são bonitos e musicais se ditos em francês (Risos!). Continuei: que tal Lindaraja?”
Parece nome de princesa oriental, me diz rindo.
E este: En Blanc et Noir?
Esse aí parece o hino do time de futebol do Ceará.

XI
Entusiasmada com a leitura do segundo Prelúdio do livro, nem dei por sua entrada na saleta. Só me apercebi dele quando o ruído da cadeira em que sentara me trouxe ao mundo dos falantes. Antes que perguntasse o que eu estava estudando, inquiri se desejava conhecer o segundo Prelúdio. Sem dizer nada ele crispou o pescoço para o lado direito, empurrando na altura da cintura uma mão contra a outra.
Vamos fazer uma experiência, vamos inverter as coisas. Pelo que você já viu, já sabe, já percebe, o que pode dizer desta música? Ele permanece calado, como se não estivesse ouvindo. Tento encorajá-lo.
Vamos, olhe a partitura e diga alguma coisa! Mesmo quem não sabe música pode dizer muito sobre uma composição, desde que observe e tenha tido iniciação sobre a confecção do tecido musical, e isso você sabe muito bem. Quando você não conhece um livro procura saber quem o escreveu, em que época foi escrito, onde foi ambientado, quem é o autor, sobre o que escreve; lê as orelhas, as críticas, depois vai ler o conteúdo, como o autor expõe as ideias, como as explica, como refaz seu pensamento, argumenta, desmembra, responde, esconde, seduz o leitor com artimanhas, enfeites etc. Você sabe muito sobre Debussy, sobre sua época e pode muito bem dizer coisas. Vamos lá! Antes vamos colher as primeiras informações aqui na partitura: tempo moderado, ritmo sem rigor e carinhoso. Aqui abaixo das primeiras notas está escrito: muito doce. Agora me responda: que tipo de música você pensa que vai ouvir? Em ambiência pesada? Marcha vigorosa? Ela é comprida?
Não, me responde com certeza.
Então? Olhe quanta informação já temos. Vamos identificar os motivos fundadores e os condutores, que você também sabe muito bem o que são. Vou tocar os quatro primeiros compassos e você vai me dizer o que ouviu.
Ele ri, mas não diz nada.
Vamos, fale!
Petrúcio permanece calado, e eu lhe digo: A peça já começa com uma sequência de tons inteiros descendentes e em seguida dois intervalos paralelos, mas dissonantes, artimanhas para fugir ou diluir a noção dramática e pesada da tonalidade.
Sorrindo mais abertamente, ele diz: – Os intervalos parecem com trilha sonora de filme de Hitchcock.
O Prelúdio inteiro é repleto de pequenas passagens melódicas de tons inteiros e de intervalos considerados dissonantes. Apesar de sua comparação com os filmes de Hitchcock, a atmosfera é de calma, não?
Sim, é verdade!
Uma coisa muito visível é a nota pedal si bemol, que vai ser ouvida durante toda a peça. Observe na partitura inteira.
Ele conta na partitura inteira e diz: – Ele realmente gosta desse tipo de efeito.
Olhe essas três notas na mão direita aqui no sétimo compasso.
Lá bemol, si bemol e dó. Pois bem, veja na partitura se serão relevantes para a composição ou se estão aí só para preencher o silêncio.
Ele ri novamente, desta vez como se estivesse meio perdido.
Diga-me onde essas notas aparecem?
Mostra-me as duas vezes em que o motivo aparece mais nítido. Encorajo-o a mostrar as diferentes combinações onde podemos identificá-lo na partitura. Olhe nestes acordes! E no compasso 32, onde começa a ficar mais cheio de notas? Você não vê essas três notas embrenhadas por aí?
Ele então se desconcentra e meio perdido me faz uma daquelas perguntas: – E estes pontinhos aqui em cima das notas?
É que elas devem ser tocadas destacadas. A música dele é feita dessas pequenas ideias que sabe tão bem usar. Você encontra alguma coisa parecida entre os compassos 23 e 25?
Ele ou não ouve ou menospreza minha pergunta. E este intervalo de quinta diminuta que forma este ritmo pontuado e que se repete, não lhe chama a atenção?
Na sua momentânea concentração, responde:
É, ele aparece umas seis vezes, mas desaparece aí pelo meio dos acordes. Mas o que é um intervalo diminuto?
Muito fácil, lhe respondo. De dó a sol, entendemos ser um intervalo de quinta, justinha, justinha, certo? Dó,ré,mi,fá,sol, lhe mostro no teclado. Mas o que você acha do intervalo entre de dó e sol bemol? Ele é uma quinta, mas diminuída pelo bemol, está vendo aqui a distância? Ele sorri com minha explicação e eu acrescento; ah! Você não imagina as possibilidades dos intervalos diminutos ou aumentados numa peça musical. Com eles abrem-se caminhos, fecham-se portas, interrompem-se discursos. Enfim, fazem-se loucuras numa composição.
Ainda interessado, dirijo-me a outro momento da peça:
Nesta parte aqui, ele segue o mesmo procedimento da Rêverie, colando uma parte carregada de bemóis. A partir dali a música fica um pouco mais movimentada, como se algo tivesse decolado ou estivesse deslizando, não é?
Seu olhar se torna repentinamente flutuante, parecendo navegar em águas paradas. No meu desconforto, continuo lhe explicando, quase com a certeza de que são só para mim.
Essas notas miudinhas parecem uma improvisação ou algo feito com harpa. São a transformação deste motivo no fim do compasso 22. O prelúdio se chama Voiles e foi inspirado nas velas de barcos. Dá para imaginar o jogo do vento nas velas dos barcos quando ouvimos a peça? Sabe, isto confirma de certo modo a atração dos impressionistas pelas águas e pelos barcos não é? Eram muito sofisticados, pareciam ter muito dinheiro, pois alguns tinham seu estúdio dentro de um barco.

XII

Tudo o que eu dizia eram apenas sugestões para uma audição, observações, lembretes, meros exercícios de como usufruir melhor a arte dos sons. Eu mesma não tocava todas as peças. O mais que podia era executar algumas passagens para exemplificar aspectos que chamavam-me a atenção. A professora distribuiu três Prelúdios para cada aluna ter a oportunidade de conhecer a obra. O terceiro, por exemplo, Le vent dans la plaine, foi um dos que ela escolhera para eu tocar. Fiquei sabendo que havia sido inspirado nos versos de Simon Charles Favart - Le vent dans la plaine suspend son haleine. É carregado de acordes executados bruscamente parecendo rajadas de ventos que se alternam com sequências de acordes paralelos, num pianíssimo leve e delicado como se o vento se acalmasse e passasse levemente pelos campos. Às vezes parece sussurrar e tremer. Toco algumas partes do Prelúdio ainda meio alinhavado e digo baixinho ao amigo que não consigo executar todas as sugestões da partitura porque a peça ainda não está nos dedos. Tomo coragem e lhe faço uma proposta ousada: Você não quer vir ouvir toda a coleção no dia da audição? Deverá ser numa quarta-feira à tardinha, no auditório. Cada aluna toca uns dois ou três e assim você poderá ouvir todos eles ao mesmo tempo”. Fico desconcertada, pois permaneceu inexpressivo e inexplicavelmente mudo. Deus, o que foi que eu disse que tudo caiu no vazio, pensei. Será que não ouviu? Não quis responder? Tentando ocupar o vazio, o mal-estar, começo a falar novamente, esquecendo o convite: Neste mesmo livro tem um outro que fala novamente do vento. É o número 7. Ce qu’a vu le vent d’Ouest foi possivelmente inspirado num conto de Hans Christian Andersen, onde o vento do Oeste, cheio de mistério e violência simbólica, conta o que viu por onde passou.”
– E como se chama o conto, diz ao ouvir meu comentário.
O Jardim do Paraíso, lhe respondo. Este aqui, o quarto, também foi escolhido para eu tocar. No início achei meio chato, sem graça, mas aos poucos descobri suas belezas. Quando vi o nome lá no final, me interessei mais. Foi como se eu tivesse sido realmente envolvida pelas harmonias da tarde, pelo perfume que exala das flores depois das chuvas vespertinas. Ele é inspirado num poema de Baudelaire - Harmonie du soir.
Nesse momento apareceu alguém na porta batendo com o dedo no visor do relógio de pulso. Era o motorista. Sem protestar, ele baixou a cabeça e em atitude submissa saiu como um cachorrinho à frente de seu dono, de orelhas caídas, arrastando o focinho pelo chão e balançando o rabinho. O motorista se desculpou comigo, dizendo que ainda tinha de pegar uma irmã do rapaz no emprego.

XIII
De outra feita, entrou na sala quando eu já estava acomodada no banco do piano, começando a soletrar a partitura de um trio de Beethoven que tocaria como parte do programa de Música de Câmera. De óculos escuros, lembrava Jardel Filho adolescente. Muito ansioso, esfregava as mãos comprimindo-as com tanta força que o pescoço e o queixo tremiam. De repente correu da pequena sala. Pela posição do sol, vi sua sombra deslizando pelos oitões do prédio, decompondo-se ao subir os degraus da escada. Achava que não voltaria, que explodiria mais adiante de tanta inquietude. Mas voltou, retirou os óculos e sentou na cadeira.
Como seriam umas peças brasileiras impressionistas?
Como assim, lhe pergunto. De onde ele pescou semelhante disparate, pensei!
Que nomes teriam elas?
Não estou entendendo. Você quer saber como se chamariam esses tipos de composição aqui no Brasil?
Sim, responde.
Fiquei engasgada, sem saber o que responder. Tentei falar mas as palavras só iam até a metade, pois eram interrompidas por suas perguntas.
O que tu achas de fazermos uma lista com uma série de nomes para Prelúdios Brasileiros Impressionistas?
Você quer compor, perguntei.
Não, a gente imagina só os nomes mesmo. Inventa só os nomes de inspiração impressionista. E desatou a rir.
Para que tanta ansiedade e inquietude só para propor aquilo? Parece que havia esperado o tempo inteiro para ter coragem de dizer algo seu, a ideia que fazia de tudo o que estava passando em sua mente. Ali eu tomava conhecimento do que lhe tinha tocado de todas as conversas que tivéramos. Precisava recolocar-me de repente em todo aquele espaço de tempo em que o havia conhecido. Quando mostrou seu querer, entendi que o que me propunha era de caso pensado, tinha sido arquitetado. Vi seus olhos se iluminarem, seu corpo vibrar e uma risada mais aberta se dar a conhecer. Entendi que propunha uma brincadeira, uma paródia dos nomes dos prelúdios que eu tanto tentara explicar-lhe. Apesar de ver a maioria de meus esforços – e não foram poucos – voando como os milhares de pássaros migratórios que eu ouvia dizer que passavam pelos céus da cidade rumo ao Polo Sul, topei a brincadeira na hora. Nunca tinha visto os pássaros e desejava saber aonde iria aquele bando de idéias e risadas. Até então eu tinha tido uma postura mais ativa, séria, mas agora era ele que propunha algo. Decidi que poderia dividir esforços e esperar que me guiasse na sua proposta. Deixei-me ser levada e conheci outra pessoa, minuciosa, extremamente apegada a detalhes. Irritava-se, teimava, emocionava-se, discutia, não aceitava qualquer sugestão de nome, e o que é pior, incansável, propondo sempre uma nova forma de organização da tal lista das músicas, sem considerar o tempo do outro. Para que a proposta continuasse, era preciso entender que aquilo ali não era pra nada, não iria dar em nada. O princípio era mesmo só lúdico.
Aqui nesta Danceuses de Delphes o que podemos colocar? Eu pensava um pouco e sugeria: “Que tal Lavadeiras do Rio Cocó”? E começava a rir para me ver livre de sua insistência.
– Não, nada a ver, me dizia.
Então Umbigadas no Côco?
Ele esperava e se manifestava: Isso! Aí faz mais sentido. E se entregava ao riso. Sentava numa cadeira e, como se sua energia fosse brotando, como se agora fosse o dono do espaço, me pedia lápis e papel.
Vamos fazer uma lista muito organizada, me dizia em tom de ameaça.
Tomava o lápis e falava: – Neste que tem nome de Voiles, o que a gente coloca?
Que tal Passeio de Jangada?
Muito impressionista, muito impressionista, falava como se estivesse filosofando, como se aquilo fosse uma coisa séria! E desatava a rir novamente.
Eu então acrescentava: você já pensou em um grupo de pessoas voltando de um passeio de jangada mareadas, vomitando na beira da praia? Ele ria e recomeçava: – Nós já temos dois nomes. Quantos a gente escreve?
Rasgava o papel e pedia outra folha pra fazer outra lista, com o argumento de uma melhor apresentação. Eu pensava nas suas preocupações tão irrelevantes para o objetivo final da tarefa: fazer uma lista de prelúdios impressionistas brasileiros.
Vamos fazer tudo muito organizado, viu?, ameaçava novamente. Surpresa com sua energia, sua risada gozadora, sua disposição para a brincadeira, eu me via diante de uma outra pessoa. Até sua voz se transformava, mais parecendo ter incorporado um espírito maligno com critérios próprios para fazer "malinidades". Sugiro então que no lugar do oitavo prelúdio, La fille aux cheveux de Lin, a gente coloque A menina dos cabelos Pixaim. Que tal?
Não achava que fosse aceitar minha ironia, mas ele ria muito. O mais interessante era sua atitude quase litúrgica quanto a detalhes que me pareciam sem importância. Contava oito linhas no papel, colocava em cada uma o número em algarismos romanos e ali se postava para o ritual da nova organização da lista. A cada nome escrito socava os lábios para dentro da boca com tanta força que me metia medo cortá-los ou quebrar os dentes. O esforço para escrever era tamanho que a cada nome gastava meia ponta do lápis. O rapaz desligado, desconcentrado, transformava-se, tomava iniciativas, propunha formas de organizar a lista, se envolvia obsessivamente na brincadeira. Tomava meu caderno de música como rascunho e, inquieto, quando errava alguma coisa arrancava suas folhas uma a uma, amassava-as e as jogava no chão. Escrevia apressado e de repente, arrancando mais uma folha, iniciava uma nova lista com outras prioridades.
Vamos fazê-la novamente e organizá-la melhor.
Aquela atividade banal parecia envolvê-lo tão completa e seriamente que sugeria estar descobrindo alguma teoria física importante. Quando errava algum nome, não esperava nem pela borracha, apagava mesmo com o dedo, deixando uma mancha escura no papel. Tudo o que eu presenciava, o estrago das folhas do caderno, os borrões com os dedos, a letra ilegível, era como se eu estivesse perdendo um de meus dentes num pesadelo. Jogar papel fora era desperdício, “falta de capricho”, diziam meus pais. A atitude doía em mim, pois caderno era coisa para se ter cuidado. Lembro-me muito de meu pai, que brigava conosco quando descobria maus-tratos no nosso material escolar. Todos nós tínhamos blocos para borrões que ele mesmo fazia e só passávamos os textos a limpo no caderno quando o pensamento ou a tarefa já estava pronta. As adolescentes da época, então, costumavam ser muito cuidadosas, e eu, especialmente, era organizada e econômica. Aquela criatura ali, além de tomar meu tempo, estava também destruindo meu material escolar. Até que ponto seria necessário usar, sujar e desperdiçar o mundo todo para desfrutar de uma brincadeira? Eu me sentia lesada e à beira de perder o controle, mas a verdade é que, no meio de todo o constrangimento, também gostava da brincadeira. Só não queria que uma aluna ou uma professora da escola nos visse ou ouvisse “profanando” as regras da casa nem a música do mestre francês. Sabia que poderia gerar consequências e ser julgada pela “inquisição” do Conservatório. Aquele momento tinha que permanecer para sempre só entre nós dois, porque sabia que estávamos fazendo algo proibido, censurável... Mas o jogo já tinha começado, e eu não conseguia mais parar. Aos poucos fui esquecendo dos estudos, do medo das censuras dos professores e colegas, do chato do Debussy e de tudo o que eu queria ensinar ao Petrúcio. A brincadeira tomou conta de mim, e a sensação de estar debochando da seriedade dos ensinamentos e da minha paixão pelo impressionismo me dava alegria.
E no lugar de Les sons et les parfums tournent dans l’air du soir Ficamos um pouco parados, pensando, e aí ele sugeriu: – O cheiro do mangue na barra do Rio Ceará, que tal? Caímos na risada. Você disse que os impressionistas gostavam das águas, dizia ele rindo!
Ai que nojo! Me lembrar daqueles caranguejos cabeludos e sujos andando na lama, a vegetação de raízes à mostra, a cor verde- oliva da paisagem quando a maré está baixa... Olhei para o rosto dele e o vi vermelho de tanto rir.
– O que é que tu achas de Aracati no lugar de Ce qu’a vu le vent d’Ouest? E ele pula por cima do degrau da porta e num só impulso volta em seguida. Esfrega os olhos fazendo um círculo com as duas mãos fechadas, se engasgando aqui e acolá com o próprio riso. 
Não é a cidade de Aracati, mas aquele vento que chega sempre na boca da noite, depois do jantar, quando as pessoas estão sentadas nas calçadas conversando. Você não acha essa ideia impressionista? (Risos). Assim é muito Belle Époque! Quanto mais falava, mais ele ria.
Você não imagina o que Manet pintaria se visse ali no Passeio Público, no fim das tardes, as pessoas passeando ou sentadas nos bancos se refrescando com o Aracati. Ou na Avenida Dom Manuel, as famílias sentadas balançando-se nas cadeiras de vime, conversando na calçada!
O nome do quadro seria Musique dans les jardins des promenades, diz.
Apesar do avançado da hora, de eu dar sinais de que precisava voltar pra casa, ele insistia. Não, não! Vamos terminar a lista! E este aqui, Le vent dans la plaine? Você falou que tem umas rajadas de ventos, que ele sussurra e treme. Para finalizar a brincadeira, eu disse rapidamente: que tal Siroco? As pessoas sussurram, amaldiçoam e tremem também quando ele vem, não?”
Ríamos juntos. Nunca terminaríamos a lista, pois além de nada ter a ver com coisa nenhuma, não tinha utilidade nem consequências. Não fazia parte de nada. Era só algo lúdico. No outro encontro ele já teria esquecido tudo, eu sabia. Mas que nada! Ele não largava a ideia. Voltava e obrigava minha mente a voltar ao set da ironia, do sarcasmo. E o que mais do Siroco, perguntavaÉ vento seco e quente vindo do deserto e traz muitas vezes uma tempestade de areia. Bate no nosso corpo dando a sensação de queimar, não lembra? Parecia que qualquer coisa que eu falava era mais um motivo para aumentar nossas risadas. A situação parecia um transe.
Ah! Agora vem o nome mais sugestivo, dizia ele: La Cathédrale Engloutie. Como ficaria esta aqui? Tem que ser um nome muito brasileiro, muito cearense, viu? Vamos, inventa aí, dizia jogando a tarefa de inventar para mim! A luz do sol já se enfraquecia e eu ficava apreensiva, porque tinha de voltar pra casa na claridade do dia. À noite, percorrer a pé todo o caminho era no mínimo constrangedor. Apressava-me para evitar algum malfazejo e para não me sentir atrapalhando o encontro dos casais que se concentravam no pé daqueles imensos muros que caracterizavam a rua que ligava o Conservatório à minha casa. Não queria pensar que seriam aquelas mulheres as futuras moradoras da Bom Pastor e, para me ver livre dele, sugeri: A Igreja de Almofala. Ela também submerge e emerge, só que da areia da praia. Para que mais impressionista do que isso? Já pensou a areia da praia correndo solta pelo vento que aos poucos enterra a pobre da igreja e depois de muitos anos a duna ali formada começa a ser transportada para um outro lugar até que a igrejinha reaparece?
Ainda hoje lembro suas risadas e vejo seus sapatos murchos pulando adoidado dentro da saleta. Eu tinha pensado em Duna, mas esse aí é muito melhor. Tem até legenda. Lá na França a igreja afunda na água, a daqui afunda na areia, dizia baixinho, tentando conter o acesso de riso. – Mas isso é óoooooootimo! Para dar fim aquela brincadeira sem fim, movimentei-me pra pegar minhas coisas, fechar a sala e sair, mesmo sob protestos, prometendo-lhe continuar num outro dia. Ele finalmente aceitou e me acompanhou até a saída da escola. Sugeri-lhe que fizesse músicas com os nomes que havíamos inventado. Poderíamos discutir como colocar os efeitos musicais, as ambiências de cada uma das peças, mas ele nada confirmava, parecia estar se recuperando das energias despendidas na brincadeira a dois.
E como se chamaria essa coletânea, ainda perguntei. Impressionismo Cearense, respondeu já distante e preocupado. Dei então uma última contribuição ao nosso happening! Que tal Luz e lírica: imagens do impressionismo tropical? Nesse momento ele já caminhava indiferente, esfregava fortemente as mãos. Chegando ao portão, o motorista o aguardava no carro. Sem dizer palavra, abriu a porta, enquanto eu atravessava a rua já não sendo ninguém pra ele.

XIV

Apesar de ser um jovem inteligente e gostar de música, ele não alcançava a maioria de meus devaneios musicais. Falar de modos eclesiásticos e de escalas orientais na música de Debussy, então, estava fora de cogitação. Apesar de tudo, me pergunto sempre o que o atraia aos nossos encontros, o que aprendia de tudo o que eu falava sobre música. Chegava, saía rodopiando pelas salas até me encontrar. Aqui, acolá, dizia algo que me dava a impressão de que me ouvia. Mas tudo era muito tênue, como passos na neve, desenhos na areia da praia. Sabíamos muito pouco um do outro. Como vinha muito frequentemente ao Conservatório, me perguntava se nada mais tinha a fazer? Deveres? Aulas de línguas, como qualquer rapaz de sua idade? Sabia que era o mais novo de uma família e que as irmãs mais velhas cuidavam dele. Tinha motorista e se transformava quando o assunto era organização, fazer listas, esquemas, mesmo que não tivessem utilidade. Depois de muito tempo, soube pelo namorado de uma colega, que ele jogava xadrez e dançava twist nas matinées do Clube dos Diários, que ficava perto de sua casa, na praia de Meireles. Naquela época, saber dançar era condição para fazer amizades e enriquecer nossa vida social. Nas tertúlias dos clubes, locais de encontro da juventude, long plays com as orquestras de Waldir Calmon, Ivanildo, Trio Irakitan e o estilo “Easy Listening” de Ray Coniff e Billy Vaughn e ainda o som suave de Glenn Miller faziam sucesso entre os casais de namorados que fugindo da censura dos pais balançavam-se “coladinhos” no centro dos salões.  Mesmo quando a ocasião exigia música ao vivo os grupos musicais imitavam o repertório destes ídolos. Mas Petrúcio era diferente. Sei que nunca dançou um bolero ou um samba. Era tímido demais para tirar alguém para dançar? Seu gosto musical ia mais para o estilo americano; o Jazz que circulava como raridade em discotecas particulares da cidade, e o Twist de Chubby Checker. Como jovem precoce, me surpreendia sua simpatia pela Bossa Nova que despontara nas rádios no fim dos anos cinquenta. Lembro que quando pedia para tocar alguma coisa, ele ia logo executando a canção “Chega de Saudade”. A vida musical dos adolescentes era também exercida nas salas de visitas das residencias onde se reuniam para conversar e dançar. Havia sempre alguém que tocava piano ou acordeón e de ouvido, apurava o repertório da moda para animar a ocasião, fazendo todo mundo dançar. Nos momentos de pausa, surgia sempre uma garota imitando Angela Maria ou uma mais ousada cantando Maysa, Dolores Duran ou alguma canção em inglês. O repertório americano, obrigatório nestes eventos vinha através da trilha sonora dos filmes em cartaz nos cinemas da cidade. Pat Boone, Connie Francis, Brenda Lee, Judy Garland e The Platters eram cantores conhecidos entre os jovens de classe média. Mas Petrúcio parecia mais distante deste gosto musical. Gostava mesmo era do tempo sincopado de Dave Brubeck, das improvisações de Coltrane. Enquanto dançávamos revivendo as estórias de amor de Suplício de uma Saudade, Melodia Imortal, Música e Lágrimas, Lili, Anastácia, Volta ao mundo em oitenta dias, Tarde demais para esquecer, meu amigo se afastava desse tipo de romantismo e já apreciava os filmes da Nouvelle Vague que assistíamos no Clube de Cinema. Pedia muitas vezes que tocasse alguma destas melodias mas meus esforços eram em vão. Apezar de saber harmonizar muito bem ele não passava das primeiras frases e desistia, como se aquele tipo de discurso sonoro não lhe sensibilizasse. Não era um romântico como maioria dos jovens da época, pensava. Mas o certo é que Petrúcio era radical no seu gosto; só tocava o que lhe interessava no momento. Sei que frequentava os cinemas da cidade, mas quando eu tentava saber algo mais sobre o que achava das trilhas sonoras de um filme ele voltava ao seu mutismo e saía nervosamente da sala. Nestes momentos eu me achava fútil, boba e burra diante daquela criatura de gosto musical tão sofisticado e exclusivo!
Esperava sempre que nossos contatos produzissem algum efeito, que o movessem para um estudo de música mais organizado, que frequentasse regularmente aulas de instrumento. O que eu lhe falava estava sempre ligado à prática regular do meu instrumento, constituía minhas reservas, meus recursos, pois investira muito tempo naquilo. Naquela época, o mundo das palavras só me interessava se estivesse a serviço dessa maneira de organizar meu mundo interior. Descobri que com ele eu perdia tempo. Quando tentava, mesmo a seu pedido, passar-lhe dicas sobre técnica, percebia que não tinha calma para ficar escutando até mesmo uma pequena melodia, para praticar exercícios, por mais rápidos que fossem os resultados. Tampouco se dispunha a disciplinar-se para assimilar treinamentos. Em verdade, não queria sequer escutar-me, pois de repente se desligava da conversa, interrompia o diálogo, mudava o assunto ou ia embora sem dizer nada, como se já tivesse obtido o que desejava, como se seu cérebro suportasse só aquilo. O resto não importava. Eu que ficasse falando sozinha. Ora, eu vivia num mundo de partituras e notas e já sabia que aquilo implicava muito tempo de estudo. Ele pensava e sentia diferentemente. Não se importava de entrar na sala quando queria, atrapalhando-me muitas vezes, numa espécie de profanação do meu cotidiano. Não detectava, no material que ele trazia e me mostrava, sinais de assimilação do estilo de Debussy nem tampouco de melhoras técnicas. Duvidava se tinha entendido minhas explicações até o ponto em que nosso contato tinha sido interrompido. Onde estariam os tons inteiros, o paralelismo de acordes, os motivos musicais curtos? Ele estava muito mais impregnado de uma etiqueta e de matrizes performáticas da maneira de compor e improvisar dos pianistas e compositores de música popular. Era a Bossa Nova com seu novo jeito de tocar piano, sua nova gramática musical, que povoava seu imaginário musical. Em alguns momentos até conseguíamos manter uma conversa interessante, comparando a música impressionista com o gênero de João Gilberto, Carlinhos Lira e Luiz Bonfá. Os temas das poesias, a forma dos encadeamentos harmônicos, a atmosfera indefinida das tonalidades, o exagerado número de dissonâncias acrescentadas aos acordes, o ritmo quase dolente do gênero nos lembrava a música francesa.
Sentado ao piano, Petrúcio colocava o pé direito no pedal e o esquerdo mais distante, como forma de dar o tempo da peça e começar a tocar. Adolescente, tinha o corpo esguio e maleável. Figura alva, cheia de sarnas, olhava pra mim enquanto tocava, como se esperasse alguma reação de minha parte. Quando executava um acorde menos usual parava, encolhia os ombros e seu olhar vazio se enchia com dois pontos de interrogação, como se dissesse “escuta este, ouve como é moderninho, bonito, bem feito”. A ideia que eu tinha dele nessa época era a de um menino inteligente que simulava estar fascinado pelo que eu lhe falava, mas de forma vaga, indefinida, exceto nas horas das brincadeiras. Talvez quisesse só mostrar suas composições, ou somente uma confirmação de que o que estava fazendo era bom. Evidentemente, ali não era o local. Eu era apenas uma aluna deslumbrada que pensava em atraí-lo para o meu universo musical. Sabia que a escolha pela música exigia disposição interior, uma sensibilidade do mundo e muito mais, um estilo de vida. E não via nele esta disposição. O piano era para mim uma maneira de viver e embora seu fascínio pela música e pelo piano fossem particulares, poderia pelo menos ter se envolvido com as atividades que a instituição oferecia, que eram muitas e atraentes. Nunca o vi num recital ou numa audição de alunos. Afinal, havia a oportunidade de ver uma peça inteira sendo executada, no lugar certo. O coral abrigava muitos jovens e funcionava em diferentes horários. As aulas de teoria musical aconteciam inclusive à noite, e se alguém quisesse de fato aprender, tudo era facilitado. Por mais acadêmico e engessado que fosse o currículo da instituição, as atividades poderiam enriquecê-lo como pianista e como compositor. Mas ele não fazia maiores contatos, não se comprometia a não ser com seus desejos. Cada vez que aparecia era como a primeira e a última, sem ligação com o passado ou consequência para uma próxima vez. 


XV
Depois de tantos anos, não imaginava que a simples visita à secretaria do Colégio para pedir uma cópia de meu certificado de conclusão do ensino médio desencadearia tantas lembranças. Fui envolvida pela mesma ansiedade antiga daquilo que seria mais um semestre em que deveria equilibrar o horário das aulas no colégio, com as do Conservatório. Duas vezes por semana assistir a duas aulas e depois, aproveitando o descuido da inspetora, sair às escondidas pelo portão principal da escola. Andar com o uniforme da escola na rua em horário de aula exigia de cada uma de nós uma série de preceitos. Não namorar de farda, não fazer bagunça, tratar bem as pessoas. Apesar da minha boa causa, justificar que estava fora da sala de aula àquela hora me criaria problemas, porque todos sabiam que o que mais queríamos quando saíamos às ruas fardadas era negar o código de ética que o uso do uniforme nos legava. Ser acusada de matar aula para ir ao cinema ou para namorar me angustiava. Perder conteúdos também, mas ao mesmo tempo não queria me atrasar para as aulas de música.

No início da Avenida Santos Dumont, entre as ruas Coronel Ferraz e 25 de Março, ficava o Colégio Estadual Justiniano de Serpa. Chegar ao Conservatório, do outro lado da cidade, significava atravessar todo o centro de Fortaleza e tomar o ônibus que me levaria à Praça do Liceu. Caminhava tão apressada, que nem o costumeiro cheiro das mercadorias vendidas nos armazéns da Rua Governador Sampaio se anunciava em meus sentidos. Omitia até o costumeiro grito que dava na esquina quando subia na janela do casarão daquelas duas senhoras chamadas por nós de ”Titias”. A multidão de estudantes se agitava de alegria, enquanto as indignadas solteironas jogavam água quente para atingir-nos e diziam impropérios contra nossas famílias e nossa honra.
As calçadas estreitas do Beco dos Pocinhos desciam num pequeno declive cortando a mata ciliar por onde corria o Riacho Pajeú, cheio de detritos que os transeuntes jogavam em suas águas. Na subida, já na Rua Pedro Borges, a Praça do Ferreira se abria de repente às minhas vistas e com ela o cheiro do pão recém-saído dos fornos da Padaria Lisbonense envolvia o quarteirão. Para encurtar o caminho, atravessava a praça na diagonal. Adolescente, amava minha cidade como se a Coluna da Hora fosse o centro do mundo e o Cine São Luís seu cartão-postal. Tínhamos sempre o cuidado de segurar a saia de tropical vermelho da farda, porque do outro lado da calçada, homens desocupados, deliciando-se com sua condição de machos, postavam-se de pernas abertas, ao longo do  meio-fio, esperando que o vento levantasse as saias das moças que por ali passavam. Aqui, acolá, um deles quebrava a unidade do grupo fazendo com uma das mãos um sungado no entrepernas. A cena de que me recordo melhor, no entanto, era do ritmo percutido e constante que a passagem do vento fazia em suas calças. Àquela hora da tarde, flamejavam como bandeiras, todas ao mesmo tempo. Ah! Como eu gostaria de ficar mais tempo ali observando aquela cena, ouvindo os ritmos executados pelo maestro dos ventos, mas precisava dobrar apressadamente a esquina da Flama, sem sequer lembrar que em suas vitrines estavam os símbolos da distinção da cidade. Queria chegar a tempo de assistir à aula de Teoria Musical e o ônibus ainda percorria toda a rua Guilherme Rocha até chegar na parada que me permitia empurrar o portão enferrujado do Conservatório e escutar sua desafinada expressão de boas-vindas.
Será que a luz do sol ainda bate nas velhas palmeiras e nos arbustos e faz aquela sombra leve e escassa nos jardins abandonados do casarão?, perguntei-me com um pouco de náusea pela lembrança. Depois da aula, eu iria estudar no mesmo cubículo até o sol esfriar, relembrei. Um dia, Petrúcio não veio. Não escutei nos pianos da casa alguma sérénade interrompue enquanto eu estudava. Ao sair, olhei pra esquina e vi a Leiteria cheia de estudantes. Estranhei, pois àquela hora as aulas já tinham terminado e não havia motivos para a presença deles na cantina. Apesar da fome ativada pela lembrança de que ali se vendia a melhor coalhada da cidade, me contive nos limites da timidez típica das moças de minha geração. A praça descuidada estava também cheia de jovens estudantes que gritavam palavras de ordem. Protestavam contra o aumento do preço das passagens de ônibus. De repente apareceram policiais com cassetetes que dispersaram a massa de estudantes. Mais parecia que uma enorme bota havia pisado num caminho de formigas, dispersando-as, amedrontando-as, desorientando-as em seu trajeto. Vi alguns que corriam e se escondiam no Grupo Escolar. Outros fugiam pelas ruas Francisco Sá e Filomeno Gomes. Soube depois que  tinham feito uma manifestação em frente à casa do senhor Oscar Pedreira, o dono da empresa dos ônibus, que morava ali por perto.

Só depois que acabou o alvoroço, empreendi minha volta pra casa. Os canteiros vazios e cinzentos da praça ainda guardavam as emoções dos acontecimentos. A areia perdera a aparência estática dando lugar a esculturas de rastros, pequenos redemoinhos, carimbos das lutas entre a polícia e os estudantes. No cimento, pedaços de papel espalhados. Os muros cegos do prédio do Liceu me pareciam tão altos que se confundiam com o céu lá no alto. Na casa das meninas perdidas, o silêncio. Nem sequer os cânticos da missa vespertina eram ouvidos. Será que perdemos realmente todas as expressões de vida quando nos entregamos a algum tipo de regeneração, quando nos permitimos ser vigiados, pensei. Nos fundos do colégio das freiras uma outra surpresa. Bem no meio de seus muros tinha agora uma casa comercial. Andando mais um pouco consegui ler: Padaria Continental - pão e conveniências. Quem sabe as freiras, muito habilidosas, estavam investindo em mais esta fonte de rendas?

Um idoso que caminhava com dificuldades aproximou-se de mim quando passava pelas grades do asilo de mendicidade. Devia ser um dos muitos moradores do abrigo de desvalidos. Encostou-se e, sem falar, levantou uma das mãos fazendo o sinal de quem pede uma esmola. A cena me fez lembrar minhas infindáveis conversas com Petrúcio, quando eu lhe pedia que executasse uns acordes ao piano. Tal qual aquele velho, ele me mostrara a palma das mãos. Talvez tenha confundido seu gesto, mas pensei no momento em ”Me dê alguma coisa, eu não posso nada, não tenho nada!” Chocou-me ver pela primeira vez que as palmas das suas mãos eram totalmente calejadas, endurecidas e ressequidas. Suas nervuras características eram evidenciadas por linhas escuras. Levantei o olhar e me deparei com seus olhos tristes, rasos, pedintes. Não, não! Eram mais que isso: eram fundos, vazios, quase cegos. Como se quisesse finalmente me mostrar: é isso que eu sou! Eu não deveria ter lhe pedido para fazer aquele exercício, pensei. Por que fiz aquilo? Continuei a caminhada carregando a lembrança das duas cenas que se confundiam no tempo, como se eu tivesse visto ou tocado em algo que não deveria ou que eu não queria ver. 

Os muros altos das instituíções estatais, da garagem dos ônibus passaram em meus olhos mas não em meus pensamentos. A expectativa da apresentação dos Prelúdios de Debussy no pequeno auditório da escola passou a preencher mais e mais o meu tempo. Quando não estava estudando, imaginava todos os detalhes para que tudo estivesse de acordo com a importância do evento. Me via subindo no palco vestida de branco, de pois negro. Com saia ampla, muitos babados e fitas, como as Femmes au Jardin, de Monet.
Sem babados nem fitas, lembro daquele meu vestido branco. Os pois, também brancos, eram quase imperceptíveis.

E naquele dia ele não veio. Nem no outro, nem no outro.

 Les sons et les parfums tournent dans l’air du soir;
Valse mélancolique et langoureux vertige!
(Charles Baudelaire)

Mércia Pinto (2013)

Um comentário:

  1. Adorei o texto amiga Mercia Pinto. Além de uma bela memória de meu amigo Petrúcio Maia, que foi o primeiro de todos os amigos que conheci entre os musicais do Ceará, também foi ele o responsável por me levar aos demais amigos e parceiros como Rodger, Augusto Pontes, Fausto Nilo, Dedé, Brandão e Yeda Estergilda e até a você amiga Mércia Pinto. Conheci o Petrúcio na Casa Juvenal Galeno, exatamente como você o descreve, em início de 1967. Ficamos amigos logo que nos conhecemos.
    No ano seguinte já na Faculdade de Direito, conheci o Belchior que estudava na mesma classe de meu irmão Emanuel na Faculdade de Medicina.
    Seu texto é carregado de belos códigos da música universal e trata do processo de estilização capaz de fundir a assimilação de códigos populares a códigos eruditos, embora haja certa incapacidade do código erudito integrar a cultura popular, como disse Mário de Andrade.
    Por outro lado não concordo com a ideia de que o compositor brasileiro deve se considerar obrigado a fazer uso de determinados códigos nacionais, como ritmos e melodias e harmonias consideradas canônicas da MPB. Nem pender para o primitivismo, nem para a erudição. Entendo que rótulos são simplificadores. A nossa música se configura antes como autonomia da obra, nos procedimentos de composição, no trabalho com o material musical. Por isso admirei mais ainda o texto que descreve esse seu encontro mágico com um grande compositor brasileiro, livre desses grilhões de nossa tradição e aberto ao que de melhor a cultura universal tem para nos ensinar.
    O texto é lindo. E o admiro mais do que a uma simples literatura. Principalmente porque também tenho formação musical formal. Cursei “Composição e Regência” e ainda “Licenciatura Plena em Música”.
    Adorei o momento do texto em que você escreve: “Bom, eu não vou cansar seus ouvidos nem sua capacidade de ver e ouvir, falando de escalas dóricas ou pentatônicas que ele ‘dragava’ lá de músicas medievais ou de outras culturas para usar em suas composições, mas queria lembrar os acordes alterados e os jogos de intensidade que ele teve tanto cuidado em escrever como queria que fossem executados. Sei que este piano é ruim e meus dedos não estão prontos neste prelúdio, mas dá para perceber como a peça é riquíssima de efeitos timbrísticos e o mais interessante é que quase tudo dentro de sonoridades muito delicadas, como uma aquarela ou desenhos encontrados em ruínas, que só o trabalho de arqueólogos consegue evidenciar.”
    Grande abraço e saudades Mercia. Você me proporcionou bons momentos de lembrança de meu amigo Petrúcio Maia.
    Abraços
    Jorge Mello

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