À Comissão
de Anistia no Ceará.
Sou Mércia de Vasconcelos Pinto (28/05/44),
ex-militante do PC do B no Ceará. Como musicista, exerci desde a mais tenra
idade, intensa atividade cultural em Fortaleza, integrando grupos musicais,
promovendo eventos, apresentando-me como pianista nos espaços culturais da
cidade na época. Herdei dos meus pais o hábito de participar de agremiações,
fossem elas estudantis ou de classe. Minha mãe era professora secundária,
sindicalista, escritora e membro da Ala
Feminina da Casa de Juvenal Galeno, entidade cultural que congregava as mulheres que atuavam no cenário artístico do
Ceará. Meu pai era contador,
economista e professor aposentado da UFC. Lembro que apesar de não gostar de
política, sempre colaborou generosamente nas organizações de sua classe
profissional. Foi professor e diretor do curso profissionalizante de
contabilidade da Fenix Caixeiral e
depois da Faculdade de Ciências
Econômicas. Até perto dos 85 anos quando por motivos de saúde ficou
inválido, foi membro e responsável pela contabilidade da Associação dos Professores do Ensino Superior do Ceará (APESC).
Quanto a
mim, fui líder estudantil no período de 1966 a 1971.
Quando se
deu o golpe militar em 1964, cursava o segundo ano de Serviço Social e já
trabalhava como estagiária no extinto bairro de Arraial Moura Brasil. Além disso, já ministrava aulas de piano como
professora particular e no Conservatório
de Música Alberto Nepomuceno (CMAN). Exercia também o magistério como
professora de música do quadro permanente curso normal do Centro
Educacional Justiniano de Serpa da Secretaria de Educação do Estado do Ceará (SEDUC)
situado no bairro 13 de Maio. Como o de qualquer jovem de minha geração e que
estava tendo o mesmo tipo de formação minha vida cultural era rica e meu futuro
profissional parecia promissor e integrado à comunidade.
Em 1966
terminei meu curso de Serviço Social e fiz vestibular para o recém-implantado
curso superior de música do Conservatório
de Música Alberto Nepomuceno na Avenida da Universidade 2210- Benfica. A
partir dessa época, passei a me envolver com movimentos sociais, principalmente
com a resistência à ditadura militar que se tornava cada vez mais agressiva e
repressora. Fui membro do CPC (Centro Popular de Cultura), órgão do DCE
(Diretório Central dos Estudantes) na época, onde pude encontrar pessoas que
desempenharam papéis muito importantes para meu desenvolvimento intelectual e
humano. Foi ali que pude obter respostas para questões centrais de minha
prática como professora, artista, colega e cidadã. Além disso, as amizades ali
desenvolvidas, ainda hoje permanecem como tal. Em 1968 participei, como
representante do curso de música, do XX
Congresso da UNE em Ibiúna (São Paulo), onde pela primeira vez fui presa. O
fato é conhecido e foi bem documentado pela imprensa e pelos órgãos de repressão.
Fui detida quando escovava os dentes, num riacho que ficava um pouco acima do
local das reuniões. Levada na caçamba de um caminhão até o DEOPS, fui interrogada e fichada junto com os dirigentes da organização, em virtude de ter
sido das últimas a serem encontradas. O fato torna-se relevante na medida em
que presenciei a montagem de todo o aparato policial que recebeu esses líderes
nas salas da Polícia de São Paulo. Três ou quatro interrogadores ao redor de
uma mesa, numa sala cuja iluminação era dada somente por um foco de luz em cima
do interrogado. A atitude dos policiais e o tipo de pergunta feita a todos nós,
lembrava o cenário das séries televisivas da época. Me pareceu que a polícia ainda
não estava preparada para lidar com 600 pessoas de uma só vez e que a maneira
mais cômoda era amedronta-las. Em virtude de minha vestimenta e umas tranças
que havia feito nos meus longos cabelos, fui tomada como índia peruana até o momento em que
abri a boca para responder aos interrogatórios. Vestir muitas roupas umas por
cima das outras para me proteger do frio e prender o cabelo para não suja-lo,
me pareceu muito normal para uma nordestina que não era acostumada com o clima
de São Paulo e tampouco a ficar vários dias no mato sem poder se trocar ou
tomar banho. Fui encaminhada para um local úmido e insalubre; uma cela que era partilhada com outras
estudantes e muitas prostitutas. Depois de quase um mês, um ônibus escoltado
por policiais, trouxe de São Paulo, os delegados da UNE de Alagoas, Pernambuco
e Ceará. Em Fortaleza, todos aqueles que participaram do evento ficaram
“manchados”; eram evitados como se fossem perigosos. Com raras e honrosas exceções,
muitas de minhas amigas pediam para que eu não frequentasse mais sua casa.
Outras se tornavam distantes. Qualquer expressão mais forte que usávamos,
qualquer gesto executado fora do repertório concebido pelo imaginário vigente
na sociedade era censurado, motivo para sermos considerados perigosos ou
suspeitos. Parecia que as pessoas ou me desconheciam ou tinham regredido na
maneira de pensar e ver as coisas. Minha vida social e afetiva sofreu uma
grande divisão. De um lado estavam os colegas de universidade, com hábitos e pensamentos mais críticos em relação ao que acontecia no país. De
outro minhas ligações afetivas; os laços familiares e de vizinhança. Estas eram
pessoas que me amavam, mas que aos poucos foram se afastando, divididas entre
os sentimentos de pena, de suspeita ou medo.
A atmosfera
ia aos poucos se tornando mais densa. Lembro-me de um dia, numa festinha de
aniversário na casa de um casal de amigos (Hussein e Laurinha), eu ter bocejado
dizendo: “Ai, meu pai eterno! Como é ruim amar!” Essa frase era muito usada por
um cantor da época, (Orlando Dias), que se despedia do público dessa forma.
Depois de alguns minutos, chegou meu namorado e o amigo aniversariante. Chamaram-me
para um canto da sala e relataram-me a seguinte estória: o pai de sua esposa,
que era general e estava presente, tinha chamado os dois e dito que só não me
expulsava da festa em consideração ao genro e ao meu namorado que era rapaz
sensato. Para esse senhor, eu teria feito aquele gesto e dito a frase para
provocá-lo. Minha surpresa foi enorme, pois era acostumada a fazer aquilo. Além
disso, o conteúdo daquela frase estava muito longe de ser provocativo,
principalmente ao pai de minha anfitriã.
Fui presa
pela segunda vez, depois de uma passeata estudantil que terminou com um
quebra-quebra do USIS (serviço de divulgação americano em Fortaleza). Estava
com dois amigos (Cláudio Pereira e Felix Ximenes). Eram mais ou menos 20hs e
encaminhava-me para casa. Apareceu então uma viatura de polícia e nos levou
para a sede do DOPS, na Praça dos
Voluntários, centro de Fortaleza. Acusavam-nos de haver participado do tal ato.
A acusação era infundada, pois meus dois colegas eram bancários (Banco do
Nordeste) e tinham estado trabalhando durante toda à tarde. Eu estava dando
aulas e, portanto não sabia sequer do que se tratava. Mesmo assim vasculharam nossos pertences e ainda ficamos uma
noite e um dia incomunicáveis, sendo interrogados. Sentia-me como se estivesse
sendo testada para ver se entrava em contradição. Penso que era isso que
esperavam de nós. Depois, sem maiores explicações, fomos soltos. Compreendi que o poder não precisava dar satisfações de suas ações a ninguém.
Em
consequência de minhas atividades políticas (participação no congresso da UNE,
no diretório dos estudantes de música, apoiando eventos, organizando festivais),
fui afastada de minhas funções docentes no Centro
Educacional e sem maiores explicações devolvida à Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Pedi explicações à
diretora (nessa época Sra. Eldair Teixeira) e ela alegou que era por causa de
minha participação e prisão no congresso da UNE. Para alguém que se achava
engajada num trabalho que gostava, foi muito doloroso. Fiquei vários meses
suspensa, até que um dia fui chamada e lotada em outra escola no bairro de
Montese, reiniciando assim minhas atividades. A felicidade durou pouco. Depois
de poucas semanas dando aulas, o diretor da referida escola me chamou e numa reunião
de professores, sem nenhuma justificativa ou fundamento, me acusou publicamente
de subversiva e disse que estava me devolvendo novamente à Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Humilhada e sem possibilidades
de defesa, fiquei mais uma vez impedida de trabalhar. Não acredito que tivessem
algo contra mim como profissional. Creio que sua atitude foi tomada muito mais
em informações e diretrizes que tenha recebido dos orgões de repressão. Era o medo que inundava todas
as mentes na época. O que me surpreendia era a inconsistência das acusações e a
atitude de suspeita que pairava em tudo.
Estas cenas
se repetiram várias vezes. Não me lembro em quantos colégios eu rodei. Enquanto
isso eu me distanciava de minhas atividades artísticas e de minha geração, além
da sensação de insegurança e falta de continuidade nos meus projetos
profissionais. Depois de algum tempo, fui novamente chamada. Desta vez iria
trabalhar no Liceu, escola
tradicional, situada no bairro Jacarecanga, fato que me deixou muito contente, visto
se localizar perto de minha casa. Por ser um colégio grande, talvez não fosse
molestada. O anonimato entre tantos professores e alunos me ajudaria, pensei. Poderia
retornar à normalidade de minha vida. No entanto, depois de algumas semanas aconteceu o
mesmo. O Professor Bandeira, diretor na época, (também proprietário do Colégio Tiradentes), em plena hora do recreio e com todos os professores presentes na
sua sala, subiu numa cadeira (literalmente) e fez um discurso, também sem
fundamento, me expulsando da sala dizendo que não queria comunista como
professor ali na casa. Tudo aquilo me deixava perplexa. Perguntava-me como iria ser meu futuro,
impedida de exercer minha profissão.
Lotada e
devolvida em seguida para a Secretaria de
Educação, rodei por muitos colégios sem que fosse neles acolhida por mais
de um mês. Na época eu era jovem e otimista. Encarava as coisas de bom humor.
Ainda tinha meus pais, casa e comida de graça. Como cidadã, professora e
estudante, achava que deveria lutar contra as injustiças. Mas as humilhações
que estava recebendo me deixavam abalada e insegura.
Em 1971 fui
novamente presa. Desta vez chegaram de madrugada na minha casa na Rua Clarindo de
Queiroz 1860. Vasculharam tudo. Desde as estantes até o telhado da casa.
Levaram até material didático de minha mãe que era professora de francês, nada
tendo a ver com minhas atividades. Fui até a viatura que estava parada a alguns
quarteirões de distancia, cercada de vários policiais para que toda a
vizinhança presenciasse. Permaneci no 23BC
por mais de mês. Fui Interrogada, ameaçada, acareada, amedrontada, humilhada. Permaneci
num grande dormitório vazio, ao lado da parte burocrática da instituição.
Presenciava todo o movimento de funcionários e era vista por eles o dia
inteiro pois apenas uma grade de ferro dividia o espaço. Minha intimidade era impossível. Lembro que aos sábados, ouvia o som
das famosas “tertúlias” do clube Maguary, que ficava numa rua perpendicular ao
quartel. Conservava-me acordada, pois me lembro do pavor de dormir naquele vão
enorme e escuro. Certa vez acordei com um rato roendo meu calcanhar e de outra
vez, como tinha o cabelo grande que arrastava no chão quando estava deitada, um
deles me surpreendeu tentando subir enganchado nos fios de meus cabelos. A
partir dali, dormir significava morrer, ser acometida de doença incurável.
Mesmo uma parte de minha consciência sabendo que a doença não existia mais,
lembrava que na idade média, multidões morriam infectadas pela peste bubônica,
transmitidas por ratos. BULBÔNICA soava a noite inteira nos meus ouvidos. De
dia eu teria que estar pronta para ser mais uma vez interrogada, ameaçada, acareada,
amedrontada, humilhada. Diziam que eu era parte da organização FBT (Fração
Bolchevique Trotskista) uma espécie de dissidência do Posadismo, e por isso fui
abrigada a identificar colegas e amigos que eles me apresentavam na hora dos
interrogatórios. Na verdade, o meu nome e endereço foi encontrado na caderneta
de notas de uma amiga minha (Maria Francisca Pinheiro) que era estudante de
sociologia e estava sendo procurada. Acontece, que minha amizade com esta moça
estava além de um suposto esquema de militância política. Meus laços afetivos
com ela e sua família eram antigos e de muita convivência. Ali na prisão, me dei conta do quanto estava
cercada de pessoas senão medíocres, mas medrosas. Meus trabalhos das disciplinas
do curso de música, textos sem nenhuma ligação com política, pois tratavam de
temas técnicos de minha área, eram entre outros, objeto de interrogatórios
enquanto estive detida. O interessante é saber como foram parar lá! Quem os entregou
e com qual objetivo.
Um dia, num
destes momentos em que num segundo se compreende tudo, vejo por debaixo das
grades da cela, um par de sapatos marrons caminhando no corredor. Pensei: estes
sapatos eu conheço! Levanto minha vista e me dou conta de que estava certa.
Dentro deles estavam os pés do marido da diretora do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno (Senhora Ednir Nunes de
Almeida) que saia de uma das salas onde estavam os policiais. Meu olhar se
levanta e se encontra com o dele. Dr. Lauro Almeida era dentista, professor
universitário e conhecido como pessoa muito conservadora. Além do susto, do
encontro com a verdade, isso me deixou muito decepcionada, pois me
conscientizava do quão ingênua eu estava sendo, quando não imaginava o quanto o
mal estava próximo de mim.
Depois que
saí da prisão me encontrei com este senhor na entrada do CMAN enquanto ele esperava
sua esposa e eu saia da instituição juunto com dezenas de colegas. Sem que eu sequer falasse com ele, sem que
eu nada perguntasse, me disse de forma nitidamente descontrolada que não estaria ali no
quartel me denunciando, mas me elogiando como uma pessoa responsável e
competente. Naquele momento, um misto de decepção e vergonha me invadiu a ponto
de eu ter tido forças apenas de lhe dizer que não estava perguntando nada a ele. Os fatos falavam por si só.
Nesse
episódio, destaco também que num dos interrogatórios, me deparei com dois
alunos meus (nesta época, quando rodei pelos colégios de Fortaleza, estive
lotada num colégio perto de Parangaba) que afirmavam que eu havia participado
de um ato terrorista dentro da escola. Realmente soubera vagamente de um
tiroteio havido ali, mas o fato se passara à noite e minhas aulas eram à tarde.
Fiquei chocadíssima com a audácia e a mentira deles sustentarem na minha frente,
semelhante estória. Quando saí, voltei ao colégio e eles me procuraram. A
conversa me deixou com pena dos mesmos. A polícia estivera ali para averiguar o
ocorrido. Como não tinham conseguido esclarecer quem havia praticado o ato,
obrigaram-lhes a depor, afirmando ter sido eu a autora do atentado. Ora, quem
induziu ou orientou os policiais a fazerem isto? Como sabiam que eu ensinava
ali? Com que objetivo insistiam em incriminar-me?
O medo e a
insegurança tomavam conta de mim. Era como se minha vida, minha profissão,
minha intimidade fosse sendo inundada de equívocos e que eu não podia desfazê-los,
pois ninguém podia acreditar em mim, visto eu ser “comunista”. Tudo que eu fazia
era objeto de suspeita. Mesmo assim continuei minhas atividades de professora. Além
disso, colei grau no dia 07 de setembro, com um recital no Teatro Universitário. Interessante mencionar que quando estava
presa, um daqueles que me interrogavam dizia com um ar de ironia, que gostava
de “música clássica (sic)” e que ainda me veria tocando. Aquilo me soava como
uma ameaça. Era como se tocar fosse atividade proibida e que eu fazia
escondido. Realmente no dia do meu recital final, tive uma surpresa logo que entrei no palco. Meu olhar encontrou na primeira fila da platéia o dito
policial que na prisão me dizia mil vezes por dia e de forma irônica, que gostava de música clássica. Evidente
que tal fato me deixou abalada. Mas me refiz do susto e consegui ir até o final
da prova. Porque estaria ali ostensivamente na minha cola? Por acaso não sabia
que sua presença poderia prejudicar minha performance? Entendi tudo quando o
identifiquei dias depois quando precisei comprar papel pautado para música. Ele
atendia na loja que vendia esse tipo de material e eu nunca teria notado que me
observava, não fosse minha prisão. O que mais me surpreendia naquela criatura esquisita era sua
dupla profissão; pequeno comerciante e torturador quando necessário.
Os
informantes e os policiais disfarçados estavam em todos os lugares e não havia maneira
de evitá-los. Embora tivesse o máximo cuidado para que minhas palavras ou ações
não despertassem suspeitas de envolvimento político, todo dia apareciam
surpresas. Lembro-me que numa das vezes que saí da prisão, uma vizinha e amiga
de minha família que morava numa esquina em frente à minha casa (Senhora
Isolina) me viu chegando em casa e entrou em seguida pedindo para conversar
comigo. A conversa se deu entre nós duas sentadas na minha cama. Ali ela passou
a me relatar que estava se sentindo muito culpada e que já deveria ter me
prevenido. Dizia que dessa maneira pudesse talvez ter evitado meu sofrimento. Contou que a casa
vizinha à sua, estava já havia alguns meses, alugada por um casal cuja esposa
se aproximara dela por necessidade de falar sobre o que sofria do marido. No
meio de seus dasabafos, ela confessara que a casa havia sido alugada para que seu
marido, que era da Polícia Federal,
pudesse seguir meus passos. A surpresa foi grande, pois entre outras coisas ela
sabia, através da mulher do policial, de tudo que se passara comigo na prisão.
Sabia do ódio de seu marido quando falava de mim. Por incrível que pareça,
nunca havia me dado conta desse novo
vizinho. No momento em que ela me relatava o fato, passava pela minha
mente, a fisionomia de todos os algozes que haviam me interrogado, sendo um
deles confirmado por ela. Depois desse dia foi que passei a observá-lo. Achava
tudo aquilo ridículo! Sinceramente não via necessidade de uma instituição
governamental como a Polícia Federal
gastar dinheiro com aluguel de um “aparelho” de observação e escuta para me
observar. Além disso, ter um policial cuja missão era me seguir. Nada do que eu
fazia justificava semelhante investimento. Nunca me senti como alguém perigosa
para a nação. Eu era uma jovem alegre, idealista e que queria viver plenamente
o meu tempo como cidadã e queria ser aceita pela sociedade em que vivia.
Nessa
época, me envolvi afetivamente com um colega de universidade (Fausto Nilo Costa
Júnior). Em maio de 1971 casei e fui morar num pequeno apartamento na Aldeota
(Rua Silva Paulet 2355- Condomínio Otil TV). Deixei também a militância
política. Esperava que a repressão pudesse me deixar em paz, visto que teria
novas responsabilidades. Poucos meses depois a Polícia Federal me levou novamente detida. Um policial bateu na
minha porta e abriu um pequeno pedaço de papel com letras vermelhas perguntando
se ali morava Mércia Pinto. Confirmei mas me surpreendi quando reconheci minha
própria caligrafia ali naquele papelzinho. Alguns dias antes eu tinha sido
abordada pelo então secretário do Conservatório (Senhor Paes) dizendo-me que
queria me fazer uma visita pelo meu casamento e pedia que escrevesse ali naquele papelzinho
meu endereço. Como estava dando aulas, peguei a caneta vermelha e escrevi o que
ele solicitava. De madrugada, no momento em que policiais chegavam na minha
casa compreendi a traição e mais uma vez, de onde vinham as informações que me
prejudicavam tanto. Elas vinham dali, onde eu trabalhava e estudara desde
criança.
Fui
novamente para o 23BC. Fiquei junto com outras jovens, numa cela coletiva, no
meio de outras celas com soldados presos.
Na minha porta da grade da nossa cela havia sempre um soldado de guarda, e que de cinco em
cinco minutos fazia continência e batia com o fuzil no chão. O barulho não nos
deixava dormir, aumentando assim nossas tensões. Pedíamos para não fazer tanto
barulho sem necessidade, mas ele dizia cinicamente que cumpria ordens. Os
banhos eram o que de mais irônico podia se esperar. Um chuveiro que ao mesmo
tempo em que jorrava água, dava pequenos choques elétricos. Reclamávamos mas o
soldado que ficava na porta respondia que não era verdade e que estávamos
criando coisas. Isso nos deixava além de nervosas, inseguras quanto à nossa
sanidade. Já estaríamos “loucas” mesmo?
Os interrogatórios eram terríveis! Desta vez queriam os
militantes do PCBR e especialmente minha amiga Moema Santiago, acusada de
pertencer ao grupo. Eram acusados de assaltar um banco na Praça São Sebastião,
que ficava perto de minha casa. Tentavam me confundir e se zangavam quando não
conseguiam. Lembro-me da explosão de ódio por parte deles, quando certa vez,
sem querer, mostrei que não estavam como diziam, gravando o meu interrogatório
e me ameaçavam de que eu entrara em contradição. Pedi então que voltassem a
fita do gravador e confirmassem o que eu dissera, já que estava gravado. Como
não quiseram faze-lo, eu mesma inseri meu dedo e apertei o botão para que
voltassem a fita. Foi então que ficou claro que não havia gravação alguma, pois
não havia fita nenhuma no aparelho. Acho que nunca me perdoaram por isso. Colocavam
meus colegas presos e os torturavam na minha frente. Queriam que os reconhecesse e ficavam furiosos
quando eu não confirmava o que queriam.
Colocavam-me para tomar banho de sol, acompanhando a banda
de música. Lembro da canção “Alegria, alegria” executada todos os dias e motivo
de piadinhas bobas, dirigidas a mim pelo fato de eu estudar música. Como
estávamos quatro mulheres juntas e que saiam separadamente para os interrogatórios,
jogavam-nos umas contra as outras para que nos desentendêssemos. Cada uma que
voltava dos interrogatórios eu tinha mais certeza do que eles estavam tentando
fazer conosco. Fazia o possível para conservar a lucidez, mas mesmo assim o
medo interceptava qualquer forma de sanidade. Meu cotidiano estava
completamente invadido e eu mesma já me sentia culpada e criminosa. Acho que
por pouco não cheguei até eles para confirmar que era verdade tudo que eles
diziam de mim. Era como se eu estivesse com uma doença grave.
Quando voltei para
casa, pensava que meu apartamento estava repleto de microfones para saber o que
eu falava. Mas o que mais me deixava atônita era o fato de eu entrar e sair da
prisão sem que nenhum processo fosse instaurado, sem uma culpa a mim fosse atribuída. Talvez fosse melhor se isto
tivesse acontecido. Eu seria julgada, cumpriria com a pena e estaria livre. Mas
eu estava longe de entender que as coisas ainda estavam no começo. Meu então
marido, chocado com o que vinha acontecendo comigo, resolveu pedir ajuda de arquitetos
conhecidos para ver se conseguia saber exatamente o que existia contra mim.
Voltava-se à estaca zero, pois segundo eles, não existia nada...
Lembro-me
que certa vez, me inscrevi para um curso que estava havendo no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno.
Pensei que como ex- aluna, ex-professora da casa pudesse frequenta-la sem
intimidações. Mas logo no início da primeira aula fui chamada pela diretora (ainda Sra.
Ednir Nunes de Almeida) que me levou para sua sala e me disse que tinha
recebido uma visita de policiais censurando-a por haver permitido minha entrada
ali, pedindo em seguida para que eu me retirasse. Falei de meu desapontamento
com a diretora de uma instituição privada que permitia ser comandada daquela
forma. Sinceramente, acho que ela não recebeu visita de nenhum policial. O que
ela queria era que eu me retirasse de qualquer forma dali.
Meu então
marido, aproveitando um convite para ensinar em Brasília (UnB), resolveu que
nos mudaríamos para aquela cidade. Assim poderíamos esquecer. Pedi licença sem
vencimentos no Conservatório de Música
Alberto Nepomuceno e na Secretaria de
Educação do Estado do Ceará porque tinha em mente que um dia voltaria a
minha cidade, onde deixara família e amigos. Interrompe-se mais uma vez minha
vida profissional. Em Brasília vivia-se período conturbado. Prisões, delações e
medo faziam parte das notícias de todo dia. Enfrentar um novo meio, um novo
mercado de trabalho não foi fácil. Dava aulas particulares de piano e em
algumas escolas privadas. Mesmo tentando viver de modo quase imperceptível,
quase que clandestina, uma nova prisão me surpreende, interrompendo mais uma
vez minha vida produtiva e as esperanças de uma vida normal. Dessa vez a ordem
vinha de São Paulo. A verdade é que já vinham me seguindo havia mais de mês e
tinham estado em Fortaleza à minha procura. Eu tinha estado de férias naquela
cidade e visitado no Hospital Geral (INPS) um casal de amigos que tinham
sofrido um grave acidente de tráfego, vindo a falecer (Braguinha e Mariana).
Creio que alguém da polícia me viu por lá, confirmando então a suspeita. Para
eles, eu era a pessoa que tinha participado de um atentado em São Paulo e uma bomba havia
atingido um de meus braços. Um médico tinha sido sequestrado e lavado a uma "aparelho" para que fizesse a
amputação deste membro. Saindo do sequestro, depois de ter feito a cirurgia, o
referido médico foi ao DOI-CODI e me identificou como a suposta “terrorista”.
Para a polícia então, eu não estaria em Fortaleza visitando familiares e amigos
e sim me tratando da sequela no braço. Primeiro interrogaram minha mãe, visto
eu já ter viajado de volta à Brasília. Nesta cidade, eu notava uma caminhonete veraneio
vinha me acompanhando aonde quer que eu fosse. Percebia isso quando saia de
casa e ia trabalhar. Nos fins de semana, olhava para o pátio do prédio onde eu morava e lá estava ela ali parada. Sabendo o que queriam (minha mãe havia me
informado) tentava mostrar meus braços (dirigindo, tocando piano, limpando as
vidraças das janelas do meu apartamento) para assegurá-los de que estavam
intactos e que eu não seria a pessoa que procuravam. Nada disso foi suficiente.
Um dia vieram ao apartamento onde eu morava (SQS 311 Ed. Flávia Hilka), num momento em que com certeza sabiam que meu
marido estava no trabalho. Só que por sorte uma amiga estava me visitando
(Zélia Ponte Soares, hoje procuradora do INSS em Curitiba). Naquele momento ela
estava no banheiro e ouviu tudo, indo depois avisar a meus familiares. Os
policiais me levaram para a Polícia Federal de Brasília onde já me esperava um
avião para me levar para São Paulo. Fui examinada de maneira humilhante. A
“encenação” dos raios X dos braços, dos médicos vestidos de branco (será que
eram mesmo médicos?) fazendo todo tipo de movimento com meus músculos, parecia
mais um filme de ficção científica dos mais infantis. Fui também interrogada de
maneira ridícula por alguns dias e depois solta também sem nenhuma explicação
ou pedido de desculpas. Meu único álibi era que no dia do tal atentado eu dizia
que estava fazendo meu exame para tirar carteira de motorista. Mandaram buscar
minha ficha no Departamento de Trânsito e infelizmente tiveram que assumir a
comprovação do fato. Sentia-se a frustração em seus olhos... Absurdo é que não
levaram em conta de que se eu dirigia um carro, se era pianista, e professora
era porque tinha minhas duas mãos funcionando. Depois de solta, as escolas já
não me aceitavam mais e os alunos já haviam sumido. Minha vida profissional
sofria nova interrupção. Anoto aqui o desgaste emocional não só para mim, mas
para todos os meus familiares, quando me viam nessa situação, sendo presa por
qualquer motivo, perdendo alunos, sem sequência na vida profissional, sendo
obrigada a recomeçar tantas vezes.
Pouco
depois que sai da prisão em Brasília, voltei ao Ceará e meu casamento terminou.
Outro golpe! Eu me fragilizava mais ainda. A vida que eu tentava construir, aos
poucos virava pó e cada vez ficavam menos nítidos os “cacos” que me permitiriam
reconstruí-la. Decidi então procurar uma ajuda psiquiátrica. Isso foi um marco
em minha vida, pois aliviou muito meus sofrimentos. Tratei-me por mais ou menos
sete anos e posso dizer que foi a partir dali que criei forças para tomar
decisões. O que eu ganhava ia quase tudo para pagar ao médico. Tentei me
fortalecer retomando meus antigos empregos. No Conservatório de Música Alberto Nepomuceno não consegui retomar
minhas atividades. Apesar dos esforços de antigas colegas no sentido de me
reintegrar, falando inclusive com parentes militares graduados, era impedida
até de entrar na casa, como já relatei. Soube depois que os arquivos desta instiruição tinham sido queimados. Na Secretaria
de Educação do Estado do Ceará, fui lotada no bairro de São João do Tauape no chamado Colégio Noel Hugnen, onde por fim me
fixei e dei aulas até 1977, quando deixei definitivamente a rede pública. Não
me lembro se pedi demissão ou licença sem vencimentos. Lembro que a “gota
d’agua” para me afastar, foi uma conversa pessoal e amigável com o então
vice-diretor. Compreendi que dali não conseguiria evoluir para nada. Não
conseguiria ir além do “cotidiano”. Eu não queria só isso! No entanto deixo
aqui registrado o carinho e respeito com que sempre fui tratada pela direção
dessa escola. Mesmo assim achei que
tinha esgotado minhas forças. Dali em diante teria que tentar sobreviver somente
de aulas particulares. O sonho de um trabalho mais significativo dentro de uma
instituição se tornara definitivamente impossível para mim. Nessas alturas o
aprendizado de flauta doce feito no curso de licenciatura em música, me daria
sustento por muitos anos, pois podia dar aulas coletivas e assim ganhar melhor.
Do ponto de vista da quantidade de alunos, fui bem sucedida como professora particular.
Dei aulas para filhos de professores universitários, prefeitos, governadores e
até mesmo de gente do SNI. Tinha semestres que se apresentavam entre 60 e 80
alunos. Fiz juntamente com outras colegas (Eunice Moura e Elba Ramalho)
diversas apresentações em clubes e auditórios. Formei duas orquestras de
flautas doces em Fortaleza. Promovi viagens com grupos de alunos. No entanto
sabia que dali não passaria. Apesar da satisfação com as atividades, o dinheiro
que sobrava era pouco. Não tinha capital para montar uma escola. Além disso,
não era esse o meu desejo. Nunca passara pela minha cabeça ser empresária da
educação. Isso era função do estado.
O
isolamento profissional e as dificuldades econômicas e emocionais pelas quais
passava há muitos anos me fizeram começar a pensar em deixar o país. Muitos
amigos meus me perguntavam por que não me exilava. Eu não tinha resposta a não
ser o fato de explicar que não tinha processo correndo contra mim, não tinha
prisão preventiva decretada, portanto não deveria sair assim. Além disso, como
sair? Quem me ajudaria a sobreviver fora do país? Para sair era preciso apoio
de um grupo ou de familiares e esses eu não tinha. Reconhecia no entanto, que saindo do
país, poderia crescer profissionalmente e quando voltasse arranjaria um emprego
decente. Infelizmente devo reconhecer que o meio musical é muito conservador,
principalmente numa cidade como Fortaleza onde os espaços culturais são
pequenos. À custa de muito sofrimento ia entendendo que essa realidade não
mudaria e que eu deveria escolher outro caminho. Ao mesmo tempo, me sentia sem
esperanças, sem energia ou motivação para ficar horas seguidas em cima de um banco
de piano estudando. Para quê, se não conseguia sobreviver disso? Como, se
precisava de um salário que garantisse meu sustento?
Assim, a
idéia de ficar um tempo fora do país foi crescendo e com a ajuda de um
professor alemão que estivera em Fortaleza (Klaus Schilde) e tinha me dado
aulas, vendi um pequeno apartamento que tinha e com a ajuda monetária de amigos
e pais de alunos, fui para a Alemanha ter aulas com ele. O dinheiro era pouco,
mas tinha esperança de encontrar algo que pudesse me garantir a sobrevivência.
Estudei piano na Hochschule für Musik
de Berlim. Vivi com muito pouco dinheiro. Morava de favor num quarto de um apto
(pertencente ao antigo leitor do DAAD em Fortaleza; Herr Berthold Zilly). O
período foi rico de experiências, mas também muito difícil! Por conta de meus
problemas anteriores, tinha dificuldades para me concentrar e ser compreendida.
Até tentativa de estupro por um maníaco sexual eu sofri. Fui obrigada a fazer
boletim de ocorrência e exame de corpo de delito. Passei vários meses sendo
chamada para identificar a pessoa, coisa que para alguém com minhas recentes
experiências no Brasil me deixava constrangida. Só me mantinha com a esperança
de nesta etapa poder me “limpar” e conseguir ser “uma igual” como todas as
minhas colegas de geração. A verdade é que apesar da amizade e respeito de
muitos, nunca consegui retomar o curso de minha vida em Fortaleza. Depois de
minha volta da Alemanha, ainda vivi ali por dois anos como professora
particular. Dividia o apartamento com uma amiga (a advogada e hoje procuradora
do INSS em Curitiba- Zélia Soares Bastos), pois o rendimento não dava para
viver diferente. Sabia que minha geração, as colegas de conservatório estavam
todas já encaminhadas na vida, enquanto eu ainda estava na fase de procura, de
tentativa. Me desesperava a perspectiva de viver novamente de aulas
particulares. Por fim arranjei um colégio particular para dar aulas de
música (Instituto Educacional de Alencar). Como tinha sido convidada pela
orientadora educacional da referida escola, comecei indo a uma reunião. Não
precisei ir a segunda vez na escola. A diretora me chamou e me disse que sentia muito,
mas que na família dela havia um membro que havia morrido envolvido com a resistência
à ditadura (Frei Tito) e que ela achava melhor não me ter na escola. Além
disso, tinha ouvido falar que eu era pessoa muito “altiva” e que teria dito que
havia “abortado” na prisão. Compreendi a primeira parte de suas desculpas. Quanto
à segunda, quero esclarecer que numa de minhas estadias na prisão, com o
objetivo de me ver, minha mãe alegava que eu estaria grávida e com risco de
abortar. Apesar de não ter conseguido seu intento, pergunto se qualquer mãe não
faria o mesmo e muito mais, para se certificar de que sua filha estava inteira?
Esta senhora diretora não tinha ainda entendido que nos porões da ditadura,
eram armados e distorcidos todos os fatos e mentes.
Nas inúmeras tentativas de conseguri um trabalho que não fosse sómente aulas particulares, soube de um concurso para professor da Escola
de Música de Brasília (EMB), órgão do governo do D.F. Teria sido muito bom,
pois era emprego fixo e num meio melhor poderia crescer como profissional. Além
disso, teria o apoio de minha irmã que casara e estava morando naquela cidade.
Fui reprovada. Nunca tirei tanta nota baixa na minha vida. Numa situação
dessas, não pensa-se mais que é a última da fila, mas que nem direito a entrar
na mesma você tem. Era difícil admitir que num concurso onde o principal
interessado no cargo estava na banca por não ter o título necessário para
concorrer.
Assim mesmo
ainda fiquei um ano em Brasília tentando sobreviver como professora de piano e
flauta doce em escolas particulares até que uma amiga minha (Dra. Elba Ramalho)
me indicou para lecionar na Escola de
Música do Maranhão EMEM. Aceitei o convite na hora e me mudei imediatamente para São
Luiz. Quando escrevo “mudei”, é força de expressão, pois nestas alturas da minha vida e de
tantas andanças, me sentia como um pedaço de arame que envergava em todas as
direções. Não tinha pertences senão uma pequena mala com roupas e o piano. Ali
ensinei flauta doce e piano durante três anos e meio. Exerci também ampla
atividade como solista e camerista, gravando também um long-play com músicas de
compositores maranhenses do sec. XIX. Mas apesar de minha satisfação com o
trabalho e os alunos, o salário não me deixava o suficiente sequer para alugar uma casa. Morava
num quarto de um convento e não vislumbrava mudanças.
Em 1982 resolvi visitar em Brasília meu sobrinho Samir (filho
de minha irmã Godiva Pinto) que tinha nascido.
Nessa visita, encontrei um antigo amigo (Frank Svensson) que me propôs
uma vida em comum na Suécia, onde vivia como exilado. Pensei e repensei ainda
um ano até resolver abdicar do emprego no Maranhão e ir novamente embora para a
Europa. Não tinha muito a perder, visto já ter vivido naquele continente.
Analisei o que tinha de bens; uma máquina de escrever pequenina, um projetor de
slides, uma máquina fotográfica, um metrónomo, um toca discos portátil e desta
vez até o piano. Vendi tudo e com mais alguns dólares ganhos dos amigos deixei
novamente o Brasil. Vivi na Suécia (Gotemburgo e Lund) por seis anos. Trabalhei
como pianista de academia de balé, como professora de piano em escolas. Mas fiz também muita faxina em hospitais. Conclui meu mestrado
e iniciei o doutorado. O fato de ter oficialmente entrado no país como
emigrante e não como exilada, não me permitia receber apoio de entidades de
suporte, o que me fazia trabalhar para estudar e me manter. Assim mesmo tentei
me fixar naquele país, construir família. Tive um filho que morreu logo que nasceu,
fato que me marcou profundamente. A sensação era de que iria morrer sem ao
menos ser lembrada, já que não deixava descendentes.
Pensava nunca mais voltar ao Brasil. Apesar das
dificuldades de integração numa sociedade diferente da minha, eu também estava
aprendendo, estava fazendo o doutorado, e isto me alegrava. Mas em 1989, meu
então marido (que no Brasil tinha sido enquadrado na lei 477) foi anistiado e reintegrado
à UnB. A expectativa de voltar ao Brasil mudou meus projetos. Teria que
interromper o doutorado e resolver como sobreviveria aqui. Sabia que
dificilmente meu meio profissional tinha mudado. Sabia que sem uma indicação, minha competência não seria reconhecida e provavelmente voltaria
a viver de aulas particulares. Mas
resolvi enfrentar mais uma vez a vida ali. Era época de abertura política e quem sabe teria mais oportunidades.
Logo depois
que cheguei surgiu um concurso para o Departamento
de Música da UnB. Mas a fama de subversiva e de mulher de exilado ainda me
prejudicou. Apesar de meus títulos e experiência de professora em diferentes
estados (Brasília, Ceará e Maranhão) e países (Suécia e Alemanha) e de notas
excelentes que tirei, não fui contemplada com a vaga. Uma nova batalha se
apresentava: entrar na justiça para garantir meu lugar. Eram duas vagas; uma
para quem tinha mestrado (assistente) e outra para quem só era graduado
(auxiliar de ensino). Inscreveram-se dois candidatos para a vaga de assistente;
eu e outra pessoa (David Junker) e apenas um candidato para a vaga de auxiliar de ensino (Flavio dos S. Pereira). Quando veio o resultado, eu estava em terceiro lugar. Como?
Se só dois candidatos estavam inscritos para o nível de assitente? Quando fui saber, a banca tinha colocado no
segundo lugar, o candidato que tinha feito concurso para a vaga de auxiliar de
ensino (categoria que só exigia a graduação), misturando assim todas as categorias
para que fossem alocados nos cargos, as pessoas “eleitas” pela banca.
Foi um
tempo dificílimo em minha vida, pois sabia que com mais de 40 anos tornava-se a
cada dia mais difícil de eu arrumar um emprego digno. Não gostaria de terminar meus
dias como professora particular. Queria mostrar o que sabia, queria terminar
meu doutorado, tinha projetos e sabia que só precisava de uma oportunidade.
Entrei com um processo de revisão do concurso. Pela primeira vez na vida, ganhei
esta causa em todas as instancias em que foi julgada. Depois de muito
sofrimento; de tentativas do Departamento de Música de contratar os dois outros concorrentes às
escondidas, fui finalmente incorporada ao quadro. De início não foi nada fácil!
No Departamento de Música havia listas de alunos contra minha contratação,
abaixo assinados para que os outros não se inscrevessem nas minhas disciplinas,
bilhetinhos que eram colocados debaixo da porta de minha sala, etc. Os colegas
mal falavam comigo. Apesar de reagir a tudo isso, de fazer de conta que não
entendia, vivia apavorada. O que seria de mim como profissional, se ali eu não
era aceita? Parecia-me que aquela era minha última chance. Com o passar dos
dias fui sendo informada sobre os caminhos tortuosos que o tal concurso tinha percorrido, de como apareciam as listas contra minhas disciplinas, dos
bilhetinhos debaixo da porta e muito mais. Em muitos momentos achei que não
suportaria mais aquele tipo de pressão. Apesar de saber que a abertura política
do Brasil era embrionária e de que ainda demoraria chegar aos ambientes musicais,
sofria muito com isso. Lembro-me que um dia falei para o então chefe (Professor
Zuinglio Faustini), que gostaria de tocar nos concertos semanais do
departamento (atividade musical levada à cabo ao meio dia por estudantes e
professores da casa). Ele me disse imediatamente que estes eram destinados
àqueles que tinham nível profissional. Entendi a “mensagem” e respondi dizendo
que sabia disso e que exatamente por isso me oferecia. Marquei então minha apresentação,
mas quando cheguei para tocar, estava aninciado outro evento. Como entender isso?
Onde reclamar? Tive que ficar calada e esperar um outro momento. Minha primeira
vitória veio quando logo no primeiro semestre fui escolhida pelos alunos para
ser paraninfa da turma. Me deixou muito feliz. Fui ganhando confiança e
compreendendo melhor como eram resolvidas as coisas ali na casa. Enfrentei
muito preconceito (por ter sotaque de nordestina, por ser mulher, por não ter
vindo dos EEUU) simplesmente por não ser conhecida dos mesmos. Pensei muitas
vezes que nem sequer tinham lido meu currículo, visto que desconheciam o que eu
durante toda a vida tinha me preparado para fazer. Mas para minha alegria, um
aluno de clarinete (Ricardo Dourado Freire, hoje professor da casa) me surpreendeu
um dia quando me pediu para acompanhá-lo no seu recital de formatura. Aceitei
na hora, pois era uma oportunidade de me impor, de me mostrar, de tentar virar
aquele jogo. Estudei feito louca e nunca vou esquecer a expressão de surpresa e
vergonha estampada na fisionomia daqueles professores e alunos presentes ao
recital. Logo ali recebi convite para formar um duo pianístico com a principal
professora de piano da casa (Elza Kasuko). Com ela fiz vários recitais, na
capital, em São Luiz e em Fortaleza. Tudo isso foi muito gratificante para mim.
Trabalhei com muito afinco, mas também com muito cuidado, dando várias
disciplinas, acompanhando professores e alunos, além de ter organizado muitos
eventos. Depois de quatro anos, tempo exigido pela universidade para solicitar
um afastamento, solicitei uma bolsa do CNPq e voltei à Europa para terminar meu
doutorado. Para mim, foi uma dádiva poder concluí-lo com um salário garantido e
uma ajuda financeira dessa agência. Infelizmente, alegando falta de recursos,
suspenderam a ajuda prometida de quatro anos e no último ano tive que voltar ao
Brasil retomando minhas atividades docentes. Acredito que a suspensão de minha
bolsa deveu-se em parte à minha idade (53 anos) e ao fato de ser casada com um
estrangeiro. A aposentadoria e mudança para o estrangeiro depois do doutorado,
já acontecera com outra professora do meu departamento, deixando os colegas insatisfeitos com sua atitude. Mesmo assim conclui meu doutorado no tempo previsto e defendi a
monografia sem atropelos (1997). Hoje sou professora adjunta III (aposentada),
com especialização na Alemanha, mestrado na Suécia e doutorado na Inglaterra.
Com todos os hiatos na minha carreira, tenho 35 anos de contribuição ao INSS (a
lei só pede 25 para professor). Como sei que muita gente no Brasil se aposenta
para ganhar dinheiro em outra instituição (não estou julgando essas pessoas),
quero salientar que só tenho esta fonte de renda. Fui professora reconhecida
pelos alunos na medida em que promovi eventos fora do cotidiano das aulas, dei
exemplo de assiduidade, de alegria no trabalho e de amizade por todos eles.
Além das aulas, trabalhei em atividades de extensão quase todos os semestres
letivos. Apresentei trabalhos em congressos, publiquei artigos, orientei alunos
em projetos de extensão e pesquisa, desenvolvi na medida do possível todas as
funções exigidas pela UnB (ensino, pesquisa e extensão). Não exerci nenhum
cargo importante nem dentro do meu departamento nem na UnB. No entanto fiz
parte de diversas comissões, desempenhando todas as tarefas que me foram
confiadas. Como membro da comunidade universitária fui secretária da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB)
durante dois anos, convidada por minha amiga Maria Francisca Pinheiro, então
presidente do órgão. Como profissional, fui me tornando sempre respeitada e reconhecida,
pois me responsabilizava pelo que fazia e desenvolvia as atividades entregues a
mim pela instituição. Talvez tenha sido essa consciência de que poderia ser
útil, de que tinha valor como profissional, que me deu esperanças para não
sucumbir a tantas adversidades.
Tento neste depoimento, relembrar alguns fatos que
marcaram minha vida pública, na esperança de que ele possa servir como
informação sobre o período da ditadura. Como ela marcou a sociedade e as
pessoas. Hoje eu entendo que o curso de minha vida foi interrompido de forma
brutal. Que fui mal entendida, humilhada, massacrada, prejudicada, perseguida.
Só depois de muito tempo (quando a mídia começou a desnudar as atrocidades do
regime militar) voltei a ter o respeito e consideração de alguns de meus
familiares. A luta que travei para não enlouquecer, para não perder a noção de
respeito por mim mesma foi muito grande. Sei que uma de minhas defesas para que
isso não acontecesse foi o fato de nunca ter acreditado que eu era realmente
uma pessoa perigosa. Associado a isso vem uma desconfiança muito grande de que
todos aqueles que me interrogavam que me delatavam ou que de algum modo estavam
envolvidos com o que acontecia comigo estavam simplesmente “encenando” o tempo
todo. Aquele “espetáculo” era parte da retórica do poder naquele momento e eu
não queria participar daquele jogo. No geral, estávam todos amedrontados,
perplexos e nessas horas é difícil escolher que ações são mais eficazes e o
lado mais coerente para se situar. Acredito que ainda precisaremos de muito
tempo para digerir e entender melhor o que aconteceu com todos nós que fomos
prejudicados. Só espero é que este relato possa contribuir para evitar que
pessoas não sejam perseguidas por suas convicções políticas de forma arbitrária
e sem fundamento.
Brasília, Julho de 2004.
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