sábado, 28 de junho de 2014

Depoimento à Comissão de Anistia.



À Comissão de Anistia no Ceará.

Sou Mércia de Vasconcelos Pinto (28/05/44), ex-militante do PC do B no Ceará. Como musicista, exerci desde a mais tenra idade, intensa atividade cultural em Fortaleza, integrando grupos musicais, promovendo eventos, apresentando-me como pianista nos espaços culturais da cidade na época. Herdei dos meus pais o hábito de participar de agremiações, fossem elas estudantis ou de classe. Minha mãe era professora secundária, sindicalista, escritora e membro da Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno, entidade cultural que congregava as mulheres que atuavam no cenário artístico do Ceará. Meu pai era contador, economista e professor aposentado da UFC. Lembro que apesar de não gostar de política, sempre colaborou generosamente nas organizações de sua classe profissional. Foi professor e diretor do curso profissionalizante de contabilidade da Fenix Caixeiral e depois da Faculdade de Ciências Econômicas. Até perto dos 85 anos quando por motivos de saúde ficou inválido, foi membro e responsável pela contabilidade da Associação dos Professores do Ensino Superior do Ceará (APESC).

Quanto a mim, fui líder estudantil no período de 1966 a 1971.
Quando se deu o golpe militar em 1964, cursava o segundo ano de Serviço Social e já trabalhava como estagiária no extinto bairro de Arraial Moura Brasil. Além disso, já ministrava aulas de piano como professora particular e no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno (CMAN). Exercia também o magistério como professora de música do quadro permanente curso normal do Centro Educacional Justiniano de Serpa da Secretaria de Educação do Estado do Ceará (SEDUC) situado no bairro 13 de Maio. Como o de qualquer jovem de minha geração e que estava tendo o mesmo tipo de formação minha vida cultural era rica e meu futuro profissional parecia promissor e integrado à comunidade.
Em 1966 terminei meu curso de Serviço Social e fiz vestibular para o recém-implantado curso superior de música do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno na Avenida da Universidade 2210- Benfica. A partir dessa época, passei a me envolver com movimentos sociais, principalmente com a resistência à ditadura militar que se tornava cada vez mais agressiva e repressora. Fui membro do CPC (Centro Popular de Cultura), órgão do DCE (Diretório Central dos Estudantes) na época, onde pude encontrar pessoas que desempenharam papéis muito importantes para meu desenvolvimento intelectual e humano. Foi ali que pude obter respostas para questões centrais de minha prática como professora, artista, colega e cidadã. Além disso, as amizades ali desenvolvidas, ainda hoje permanecem como tal. Em 1968 participei, como representante do curso de música, do XX Congresso da UNE em Ibiúna (São Paulo), onde pela primeira vez fui presa. O fato é conhecido e  foi bem documentado pela imprensa e pelos órgãos de repressão. Fui detida quando escovava os dentes, num riacho que ficava um pouco acima do local das reuniões. Levada na caçamba de um caminhão até o DEOPS, fui interrogada e fichada junto com os dirigentes da organização, em virtude de ter sido das últimas a serem encontradas. O fato torna-se relevante na medida em que presenciei a montagem de todo o aparato policial que recebeu esses líderes nas salas da Polícia de São Paulo. Três ou quatro interrogadores ao redor de uma mesa, numa sala cuja iluminação era dada somente por um foco de luz em cima do interrogado. A atitude dos policiais e o tipo de pergunta feita a todos nós, lembrava o cenário das séries televisivas da época. Me pareceu que a polícia ainda não estava preparada para lidar com 600 pessoas de uma só vez e que a maneira mais cômoda era amedronta-las. Em virtude de minha vestimenta e umas tranças que havia feito nos meus longos cabelos, fui tomada como índia peruana até o momento em que abri a boca para responder aos interrogatórios. Vestir muitas roupas umas por cima das outras para me proteger do frio e prender o cabelo para não suja-lo, me pareceu muito normal para uma nordestina que não era acostumada com o clima de São Paulo e tampouco a ficar vários dias no mato sem poder se trocar ou tomar banho. Fui encaminhada para um local úmido e insalubre; uma cela que era partilhada com outras estudantes e muitas prostitutas. Depois de quase um mês, um ônibus escoltado por policiais, trouxe de São Paulo, os delegados da UNE de Alagoas, Pernambuco e Ceará. Em Fortaleza, todos aqueles que participaram do evento ficaram “manchados”; eram evitados como se fossem perigosos. Com raras e honrosas exceções, muitas de minhas amigas pediam para que eu não frequentasse mais sua casa. Outras se tornavam distantes. Qualquer expressão mais forte que usávamos, qualquer gesto executado fora do repertório concebido pelo imaginário vigente na sociedade era censurado, motivo para sermos considerados perigosos ou suspeitos. Parecia que as pessoas ou me desconheciam ou tinham regredido na maneira de pensar e ver as coisas. Minha vida social e afetiva sofreu uma grande divisão. De um lado estavam os colegas de universidade, com hábitos e pensamentos mais críticos em relação ao que acontecia no país. De outro minhas ligações afetivas; os laços familiares e de vizinhança. Estas eram pessoas que me amavam, mas que aos poucos foram se afastando, divididas entre os sentimentos de pena, de suspeita ou medo.

A atmosfera ia aos poucos se tornando mais densa. Lembro-me de um dia, numa festinha de aniversário na casa de um casal de amigos (Hussein e Laurinha), eu ter bocejado dizendo: “Ai, meu pai eterno! Como é ruim amar!” Essa frase era muito usada por um cantor da época, (Orlando Dias), que se despedia do público dessa forma. Depois de alguns minutos, chegou meu namorado e o amigo aniversariante. Chamaram-me para um canto da sala e relataram-me a seguinte estória: o pai de sua esposa, que era general e estava presente, tinha chamado os dois e dito que só não me expulsava da festa em consideração ao genro e ao meu namorado que era rapaz sensato. Para esse senhor, eu teria feito aquele gesto e dito a frase para provocá-lo. Minha surpresa foi enorme, pois era acostumada a fazer aquilo. Além disso, o conteúdo daquela frase estava muito longe de ser provocativo, principalmente ao pai de minha anfitriã.

Fui presa pela segunda vez, depois de uma passeata estudantil que terminou com um quebra-quebra do USIS (serviço de divulgação americano em Fortaleza). Estava com dois amigos (Cláudio Pereira e Felix Ximenes). Eram mais ou menos 20hs e encaminhava-me para casa. Apareceu então uma viatura de polícia e nos levou para a sede do DOPS, na Praça dos Voluntários, centro de Fortaleza. Acusavam-nos de haver participado do tal ato. A acusação era infundada, pois meus dois colegas eram bancários (Banco do Nordeste) e tinham estado trabalhando durante toda à tarde. Eu estava dando aulas e, portanto não sabia sequer do que se tratava. Mesmo assim vasculharam nossos pertences e ainda ficamos uma noite e um dia incomunicáveis, sendo interrogados. Sentia-me como se estivesse sendo testada para ver se entrava em contradição. Penso que era isso que esperavam de nós. Depois, sem maiores explicações, fomos soltos. Compreendi que o poder não precisava dar satisfações de suas ações a ninguém.

Em consequência de minhas atividades políticas (participação no congresso da UNE, no diretório dos estudantes de música, apoiando eventos, organizando festivais), fui afastada de minhas funções docentes no Centro Educacional e sem maiores explicações devolvida à Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Pedi explicações à diretora (nessa época Sra. Eldair Teixeira) e ela alegou que era por causa de minha participação e prisão no congresso da UNE. Para alguém que se achava engajada num trabalho que gostava, foi muito doloroso. Fiquei vários meses suspensa, até que um dia fui chamada e lotada em outra escola no bairro de Montese, reiniciando assim minhas atividades. A felicidade durou pouco. Depois de poucas semanas dando aulas, o diretor da referida escola me chamou e numa reunião de professores, sem nenhuma justificativa ou fundamento, me acusou publicamente de subversiva e disse que estava me devolvendo novamente à Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Humilhada e sem possibilidades de defesa, fiquei mais uma vez impedida de trabalhar. Não acredito que tivessem algo contra mim como profissional. Creio que sua atitude foi tomada muito mais em informações e diretrizes que tenha recebido dos orgões de repressão. Era o medo que inundava todas as mentes na época. O que me surpreendia era a inconsistência das acusações e a atitude de suspeita que pairava em tudo.

Estas cenas se repetiram várias vezes. Não me lembro em quantos colégios eu rodei. Enquanto isso eu me distanciava de minhas atividades artísticas e de minha geração, além da sensação de insegurança e falta de continuidade nos meus projetos profissionais. Depois de algum tempo, fui novamente chamada. Desta vez iria trabalhar no Liceu, escola tradicional, situada no bairro Jacarecanga, fato que me deixou muito contente, visto se localizar perto de minha casa. Por ser um colégio grande, talvez não fosse molestada. O anonimato entre tantos professores e alunos me ajudaria, pensei. Poderia retornar à normalidade de minha vida. No entanto, depois de algumas semanas aconteceu o mesmo. O Professor Bandeira, diretor na época, (também proprietário do Colégio Tiradentes), em plena hora do recreio e com todos os professores presentes na sua sala, subiu numa cadeira (literalmente) e fez um discurso, também sem fundamento, me expulsando da sala dizendo que não queria comunista como professor ali na casa. Tudo aquilo me deixava perplexa.  Perguntava-me como iria ser meu futuro, impedida de exercer minha profissão.

Lotada e devolvida em seguida para a Secretaria de Educação, rodei por muitos colégios sem que fosse neles acolhida por mais de um mês. Na época eu era jovem e otimista. Encarava as coisas de bom humor. Ainda tinha meus pais, casa e comida de graça. Como cidadã, professora e estudante, achava que deveria lutar contra as injustiças. Mas as humilhações que estava recebendo me deixavam abalada e insegura.

Em 1971 fui novamente presa. Desta vez chegaram de madrugada na minha casa na Rua Clarindo de Queiroz 1860. Vasculharam tudo. Desde as estantes até o telhado da casa. Levaram até material didático de minha mãe que era professora de francês, nada tendo a ver com minhas atividades. Fui até a viatura que estava parada a alguns quarteirões de distancia, cercada de vários policiais para que toda a vizinhança presenciasse. Permaneci no 23BC por mais de mês. Fui Interrogada, ameaçada, acareada, amedrontada, humilhada. Permaneci num grande dormitório vazio, ao lado da parte burocrática da instituição. Presenciava todo o movimento de funcionários e era vista por eles o dia inteiro pois apenas uma grade de ferro dividia o espaço. Minha intimidade era impossível. Lembro que aos sábados, ouvia o som das famosas “tertúlias” do clube Maguary, que ficava numa rua perpendicular ao quartel. Conservava-me acordada, pois me lembro do pavor de dormir naquele vão enorme e escuro. Certa vez acordei com um rato roendo meu calcanhar e de outra vez, como tinha o cabelo grande que arrastava no chão quando estava deitada, um deles me surpreendeu tentando subir enganchado nos fios de meus cabelos. A partir dali, dormir significava morrer, ser acometida de doença incurável. Mesmo uma parte de minha consciência sabendo que a doença não existia mais, lembrava que na idade média, multidões morriam infectadas pela peste bubônica, transmitidas por ratos. BULBÔNICA soava a noite inteira nos meus ouvidos. De dia eu teria que estar pronta para ser mais uma vez interrogada, ameaçada, acareada, amedrontada, humilhada. Diziam que eu era parte da organização FBT (Fração Bolchevique Trotskista) uma espécie de dissidência do Posadismo, e por isso fui abrigada a identificar colegas e amigos que eles me apresentavam na hora dos interrogatórios. Na verdade, o meu nome e endereço foi encontrado na caderneta de notas de uma amiga minha (Maria Francisca Pinheiro) que era estudante de sociologia e estava sendo procurada. Acontece, que minha amizade com esta moça estava além de um suposto esquema de militância política. Meus laços afetivos com ela e sua família eram antigos e de muita convivência.  Ali na prisão, me dei conta do quanto estava cercada de pessoas senão medíocres, mas medrosas. Meus trabalhos das disciplinas do curso de música, textos sem nenhuma ligação com política, pois tratavam de temas técnicos de minha área, eram entre outros, objeto de interrogatórios enquanto estive detida. O interessante é saber como foram parar lá! Quem os entregou e com qual objetivo.

Um dia, num destes momentos em que num segundo se compreende tudo, vejo por debaixo das grades da cela, um par de sapatos marrons caminhando no corredor. Pensei: estes sapatos eu conheço! Levanto minha vista e me dou conta de que estava certa. Dentro deles estavam os pés do marido da diretora do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno (Senhora Ednir Nunes de Almeida) que saia de uma das salas onde estavam os policiais. Meu olhar se levanta e se encontra com o dele. Dr. Lauro Almeida era dentista, professor universitário e conhecido como pessoa muito conservadora. Além do susto, do encontro com a verdade, isso me deixou muito decepcionada, pois me conscientizava do quão ingênua eu estava sendo, quando não imaginava o quanto o mal estava próximo de mim.

Depois que saí da prisão me encontrei com este senhor na entrada do CMAN enquanto ele esperava sua esposa e eu saia da instituição juunto com dezenas de colegas. Sem que eu sequer falasse com ele, sem que eu nada perguntasse, me disse de forma nitidamente descontrolada que não estaria ali no quartel me denunciando, mas me elogiando como uma pessoa responsável e competente. Naquele momento, um misto de decepção e vergonha me invadiu a ponto de eu ter tido forças apenas de lhe dizer que não estava perguntando nada a ele. Os fatos falavam por si só. 

Nesse episódio, destaco também que num dos interrogatórios, me deparei com dois alunos meus (nesta época, quando rodei pelos colégios de Fortaleza, estive lotada num colégio perto de Parangaba) que afirmavam que eu havia participado de um ato terrorista dentro da escola. Realmente soubera vagamente de um tiroteio havido ali, mas o fato se passara à noite e minhas aulas eram à tarde. Fiquei chocadíssima com a audácia e a mentira deles sustentarem na minha frente, semelhante estória. Quando saí, voltei ao colégio e eles me procuraram. A conversa me deixou com pena dos mesmos. A polícia estivera ali para averiguar o ocorrido. Como não tinham conseguido esclarecer quem havia praticado o ato, obrigaram-lhes a depor, afirmando ter sido eu a autora do atentado. Ora, quem induziu ou orientou os policiais a fazerem isto? Como sabiam que eu ensinava ali? Com que objetivo insistiam em incriminar-me?

O medo e a insegurança tomavam conta de mim. Era como se minha vida, minha profissão, minha intimidade fosse sendo inundada de equívocos e que eu não podia desfazê-los, pois ninguém podia acreditar em mim, visto eu ser “comunista”. Tudo que eu fazia era objeto de suspeita. Mesmo assim continuei minhas atividades de professora. Além disso, colei grau no dia 07 de setembro, com um recital no Teatro Universitário. Interessante mencionar que quando estava presa, um daqueles que me interrogavam dizia com um ar de ironia, que gostava de “música clássica (sic)” e que ainda me veria tocando. Aquilo me soava como uma ameaça. Era como se tocar fosse atividade proibida e que eu fazia escondido. Realmente no dia do meu recital final, tive uma surpresa  logo que entrei no palco. Meu olhar encontrou na primeira fila da platéia o dito policial que na prisão me dizia mil vezes por dia e de forma irônica, que gostava de música clássica. Evidente que tal fato me deixou abalada. Mas me refiz do susto e consegui ir até o final da prova. Porque estaria ali ostensivamente na minha cola? Por acaso não sabia que sua presença poderia prejudicar minha performance? Entendi tudo quando o identifiquei dias depois quando precisei comprar papel pautado para música. Ele atendia na loja que vendia esse tipo de material e eu nunca teria notado que me observava, não fosse minha prisão. O que mais me surpreendia naquela criatura esquisita era sua dupla profissão; pequeno comerciante e torturador quando necessário.

Os informantes e os policiais disfarçados estavam em todos os lugares e não havia maneira de evitá-los. Embora tivesse o máximo cuidado para que minhas palavras ou ações não despertassem suspeitas de envolvimento político, todo dia apareciam surpresas. Lembro-me que numa das vezes que saí da prisão, uma vizinha e amiga de minha família que morava numa esquina em frente à minha casa (Senhora Isolina) me viu chegando em casa e entrou em seguida pedindo para conversar comigo. A conversa se deu entre nós duas sentadas na minha cama. Ali ela passou a me relatar que estava se sentindo muito culpada e que já deveria ter me prevenido. Dizia que dessa maneira pudesse talvez ter evitado meu sofrimento. Contou que a casa vizinha à sua, estava já havia alguns meses, alugada por um casal cuja esposa se aproximara dela por necessidade de falar sobre o que sofria do marido. No meio de seus dasabafos, ela confessara que a casa havia sido alugada para que seu marido, que era da Polícia Federal, pudesse seguir meus passos. A surpresa foi grande, pois entre outras coisas ela sabia, através da mulher do policial, de tudo que se passara comigo na prisão. Sabia do ódio de seu marido quando falava de mim. Por incrível que pareça, nunca havia me dado conta desse novo vizinho. No momento em que ela me relatava o fato, passava pela minha mente, a fisionomia de todos os algozes que haviam me interrogado, sendo um deles confirmado por ela. Depois desse dia foi que passei a observá-lo. Achava tudo aquilo ridículo! Sinceramente não via necessidade de uma instituição governamental como a Polícia Federal gastar dinheiro com aluguel de um “aparelho” de observação e escuta para me observar. Além disso, ter um policial cuja missão era me seguir. Nada do que eu fazia justificava semelhante investimento. Nunca me senti como alguém perigosa para a nação. Eu era uma jovem alegre, idealista e que queria viver plenamente o meu tempo como cidadã e queria ser aceita pela sociedade em que vivia.

Nessa época, me envolvi afetivamente com um colega de universidade (Fausto Nilo Costa Júnior). Em maio de 1971 casei e fui morar num pequeno apartamento na Aldeota (Rua Silva Paulet 2355- Condomínio Otil TV). Deixei também a militância política. Esperava que a repressão pudesse me deixar em paz, visto que teria novas responsabilidades. Poucos meses depois a Polícia Federal me levou novamente detida. Um policial bateu na minha porta e abriu um pequeno pedaço de papel com letras vermelhas perguntando se ali morava Mércia Pinto. Confirmei mas me surpreendi quando reconheci minha própria caligrafia ali naquele papelzinho. Alguns dias antes eu tinha sido abordada pelo então secretário do Conservatório (Senhor Paes) dizendo-me que queria me fazer uma visita pelo meu casamento e pedia que escrevesse ali naquele papelzinho meu endereço. Como estava dando aulas, peguei a caneta vermelha e escrevi o que ele solicitava. De madrugada, no momento em que policiais chegavam na minha casa compreendi a traição e mais uma vez, de onde vinham as informações que me prejudicavam tanto. Elas vinham dali, onde eu trabalhava e estudara desde criança.

Fui novamente para o 23BC. Fiquei junto com outras jovens, numa cela coletiva, no meio de outras celas com soldados presos.  Na minha porta da grade da nossa cela havia sempre um soldado de guarda, e que de cinco em cinco minutos fazia continência e batia com o fuzil no chão. O barulho não nos deixava dormir, aumentando assim nossas tensões. Pedíamos para não fazer tanto barulho sem necessidade, mas ele dizia cinicamente que cumpria ordens. Os banhos eram o que de mais irônico podia se esperar. Um chuveiro que ao mesmo tempo em que jorrava água, dava pequenos choques elétricos. Reclamávamos mas o soldado que ficava na porta respondia que não era verdade e que estávamos criando coisas. Isso nos deixava além de nervosas, inseguras quanto à nossa sanidade. Já estaríamos “loucas” mesmo?

Os interrogatórios eram terríveis! Desta vez queriam os militantes do PCBR e especialmente minha amiga Moema Santiago, acusada de pertencer ao grupo. Eram acusados de assaltar um banco na Praça São Sebastião, que ficava perto de minha casa. Tentavam me confundir e se zangavam quando não conseguiam. Lembro-me da explosão de ódio por parte deles, quando certa vez, sem querer, mostrei que não estavam como diziam, gravando o meu interrogatório e me ameaçavam de que eu entrara em contradição. Pedi então que voltassem a fita do gravador e confirmassem o que eu dissera, já que estava gravado. Como não quiseram faze-lo, eu mesma inseri meu dedo e apertei o botão para que voltassem a fita. Foi então que ficou claro que não havia gravação alguma, pois não havia fita nenhuma no aparelho. Acho que nunca me perdoaram por isso. Colocavam meus colegas presos e os torturavam na minha frente. Queriam que os reconhecesse e ficavam furiosos quando eu não confirmava o que queriam.
Colocavam-me para tomar banho de sol, acompanhando a banda de música. Lembro da canção “Alegria, alegria” executada todos os dias e motivo de piadinhas bobas, dirigidas a mim pelo fato de eu estudar música. Como estávamos quatro mulheres juntas e que saiam separadamente para os interrogatórios, jogavam-nos umas contra as outras para que nos desentendêssemos. Cada uma que voltava dos interrogatórios eu tinha mais certeza do que eles estavam tentando fazer conosco. Fazia o possível para conservar a lucidez, mas mesmo assim o medo interceptava qualquer forma de sanidade. Meu cotidiano estava completamente invadido e eu mesma já me sentia culpada e criminosa. Acho que por pouco não cheguei até eles para confirmar que era verdade tudo que eles diziam de mim. Era como se eu estivesse com uma doença grave.

 Quando voltei para casa, pensava que meu apartamento estava repleto de microfones para saber o que eu falava. Mas o que mais me deixava atônita era o fato de eu entrar e sair da prisão sem que nenhum processo fosse instaurado, sem uma culpa a mim fosse atribuída. Talvez fosse melhor se isto tivesse acontecido. Eu seria julgada, cumpriria com a pena e estaria livre. Mas eu estava longe de entender que as coisas ainda estavam no começo. Meu então marido, chocado com o que vinha acontecendo comigo, resolveu pedir ajuda de arquitetos conhecidos para ver se conseguia saber exatamente o que existia contra mim. Voltava-se à estaca zero, pois segundo eles, não existia nada...

Lembro-me que certa vez, me inscrevi para um curso que estava havendo no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Pensei que como ex- aluna, ex-professora da casa pudesse frequenta-la sem intimidações. Mas logo no início da primeira aula fui chamada pela diretora (ainda Sra. Ednir Nunes de Almeida) que me levou para sua sala e me disse que tinha recebido uma visita de policiais censurando-a por haver permitido minha entrada ali, pedindo em seguida para que eu me retirasse. Falei de meu desapontamento com a diretora de uma instituição privada que permitia ser comandada daquela forma. Sinceramente, acho que ela não recebeu visita de nenhum policial. O que ela queria era que eu me retirasse de qualquer forma dali.

Meu então marido, aproveitando um convite para ensinar em Brasília (UnB), resolveu que nos mudaríamos para aquela cidade. Assim poderíamos esquecer. Pedi licença sem vencimentos no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno e na Secretaria de Educação do Estado do Ceará porque tinha em mente que um dia voltaria a minha cidade, onde deixara família e amigos. Interrompe-se mais uma vez minha vida profissional. Em Brasília vivia-se período conturbado. Prisões, delações e medo faziam parte das notícias de todo dia. Enfrentar um novo meio, um novo mercado de trabalho não foi fácil. Dava aulas particulares de piano e em algumas escolas privadas. Mesmo tentando viver de modo quase imperceptível, quase que clandestina, uma nova prisão me surpreende, interrompendo mais uma vez minha vida produtiva e as esperanças de uma vida normal. Dessa vez a ordem vinha de São Paulo. A verdade é que já vinham me seguindo havia mais de mês e tinham estado em Fortaleza à minha procura. Eu tinha estado de férias naquela cidade e visitado no Hospital Geral (INPS) um casal de amigos que tinham sofrido um grave acidente de tráfego, vindo a falecer (Braguinha e Mariana). Creio que alguém da polícia me viu por lá, confirmando então a suspeita. Para eles, eu era a pessoa que tinha participado de um atentado em São Paulo e uma bomba havia atingido um de meus braços. Um médico tinha sido sequestrado e lavado a uma "aparelho" para que fizesse a amputação deste membro. Saindo do sequestro, depois de ter feito a cirurgia, o referido médico foi ao DOI-CODI e me identificou como a suposta “terrorista”. Para a polícia então, eu não estaria em Fortaleza visitando familiares e amigos e sim me tratando da sequela no braço. Primeiro interrogaram minha mãe, visto eu já ter viajado de volta à Brasília. Nesta cidade, eu notava uma caminhonete veraneio vinha me acompanhando aonde quer que eu fosse. Percebia isso quando saia de casa e ia trabalhar. Nos fins de semana, olhava para o pátio do prédio onde eu morava e lá estava ela ali parada. Sabendo o que queriam (minha mãe havia me informado) tentava mostrar meus braços (dirigindo, tocando piano, limpando as vidraças das janelas do meu apartamento) para assegurá-los de que estavam intactos e que eu não seria a pessoa que procuravam. Nada disso foi suficiente. Um dia vieram ao apartamento onde eu morava (SQS 311 Ed. Flávia Hilka), num momento em que com certeza sabiam que meu marido estava no trabalho. Só que por sorte uma amiga estava me visitando (Zélia Ponte Soares, hoje procuradora do INSS em Curitiba). Naquele momento ela estava no banheiro e ouviu tudo, indo depois avisar a meus familiares. Os policiais me levaram para a Polícia Federal de Brasília onde já me esperava um avião para me levar para São Paulo. Fui examinada de maneira humilhante. A “encenação” dos raios X dos braços, dos médicos vestidos de branco (será que eram mesmo médicos?) fazendo todo tipo de movimento com meus músculos, parecia mais um filme de ficção científica dos mais infantis. Fui também interrogada de maneira ridícula por alguns dias e depois solta também sem nenhuma explicação ou pedido de desculpas. Meu único álibi era que no dia do tal atentado eu dizia que estava fazendo meu exame para tirar carteira de motorista. Mandaram buscar minha ficha no Departamento de Trânsito e infelizmente tiveram que assumir a comprovação do fato. Sentia-se a frustração em seus olhos... Absurdo é que não levaram em conta de que se eu dirigia um carro, se era pianista, e professora era porque tinha minhas duas mãos funcionando. Depois de solta, as escolas já não me aceitavam mais e os alunos já haviam sumido. Minha vida profissional sofria nova interrupção. Anoto aqui o desgaste emocional não só para mim, mas para todos os meus familiares, quando me viam nessa situação, sendo presa por qualquer motivo, perdendo alunos, sem sequência na vida profissional, sendo obrigada a recomeçar tantas vezes.

Pouco depois que sai da prisão em Brasília, voltei ao Ceará e meu casamento terminou. Outro golpe! Eu me fragilizava mais ainda. A vida que eu tentava construir, aos poucos virava pó e cada vez ficavam menos nítidos os “cacos” que me permitiriam reconstruí-la. Decidi então procurar uma ajuda psiquiátrica. Isso foi um marco em minha vida, pois aliviou muito meus sofrimentos. Tratei-me por mais ou menos sete anos e posso dizer que foi a partir dali que criei forças para tomar decisões. O que eu ganhava ia quase tudo para pagar ao médico. Tentei me fortalecer retomando meus antigos empregos. No Conservatório de Música Alberto Nepomuceno não consegui retomar minhas atividades. Apesar dos esforços de antigas colegas no sentido de me reintegrar, falando inclusive com parentes militares graduados, era impedida até de entrar na casa, como já relatei. Soube depois que os arquivos desta instiruição tinham sido queimados. Na Secretaria de Educação do Estado do Ceará, fui lotada no bairro de São João do Tauape no chamado Colégio Noel Hugnen, onde por fim me fixei e dei aulas até 1977, quando deixei definitivamente a rede pública. Não me lembro se pedi demissão ou licença sem vencimentos. Lembro que a “gota d’agua” para me afastar, foi uma conversa pessoal e amigável com o então vice-diretor. Compreendi que dali não conseguiria evoluir para nada. Não conseguiria ir além do “cotidiano”. Eu não queria só isso! No entanto deixo aqui registrado o carinho e respeito com que sempre fui tratada pela direção dessa escola.  Mesmo assim achei que tinha esgotado minhas forças. Dali em diante teria que tentar sobreviver somente de aulas particulares. O sonho de um trabalho mais significativo dentro de uma instituição se tornara definitivamente impossível para mim. Nessas alturas o aprendizado de flauta doce feito no curso de licenciatura em música, me daria sustento por muitos anos, pois podia dar aulas coletivas e assim ganhar melhor. Do ponto de vista da quantidade de alunos, fui bem sucedida como professora particular. Dei aulas para filhos de professores universitários, prefeitos, governadores e até mesmo de gente do SNI. Tinha semestres que se apresentavam entre 60 e 80 alunos. Fiz juntamente com outras colegas (Eunice Moura e Elba Ramalho) diversas apresentações em clubes e auditórios. Formei duas orquestras de flautas doces em Fortaleza. Promovi viagens com grupos de alunos. No entanto sabia que dali não passaria. Apesar da satisfação com as atividades, o dinheiro que sobrava era pouco. Não tinha capital para montar uma escola. Além disso, não era esse o meu desejo. Nunca passara pela minha cabeça ser empresária da educação. Isso era função do estado.

O isolamento profissional e as dificuldades econômicas e emocionais pelas quais passava há muitos anos me fizeram começar a pensar em deixar o país. Muitos amigos meus me perguntavam por que não me exilava. Eu não tinha resposta a não ser o fato de explicar que não tinha processo correndo contra mim, não tinha prisão preventiva decretada, portanto não deveria sair assim. Além disso, como sair? Quem me ajudaria a sobreviver fora do país? Para sair era preciso apoio de um grupo ou de familiares e esses eu não tinha. Reconhecia no entanto, que saindo do país, poderia crescer profissionalmente e quando voltasse arranjaria um emprego decente. Infelizmente devo reconhecer que o meio musical é muito conservador, principalmente numa cidade como Fortaleza onde os espaços culturais são pequenos. À custa de muito sofrimento ia entendendo que essa realidade não mudaria e que eu deveria escolher outro caminho. Ao mesmo tempo, me sentia sem esperanças, sem energia ou motivação para ficar horas seguidas em cima de um banco de piano estudando. Para quê, se não conseguia sobreviver disso? Como, se precisava de um salário que garantisse meu sustento?

Assim, a idéia de ficar um tempo fora do país foi crescendo e com a ajuda de um professor alemão que estivera em Fortaleza (Klaus Schilde) e tinha me dado aulas, vendi um pequeno apartamento que tinha e com a ajuda monetária de amigos e pais de alunos, fui para a Alemanha ter aulas com ele. O dinheiro era pouco, mas tinha esperança de encontrar algo que pudesse me garantir a sobrevivência. Estudei piano na Hochschule für Musik de Berlim. Vivi com muito pouco dinheiro. Morava de favor num quarto de um apto (pertencente ao antigo leitor do DAAD em Fortaleza; Herr Berthold Zilly). O período foi rico de experiências, mas também muito difícil! Por conta de meus problemas anteriores, tinha dificuldades para me concentrar e ser compreendida. Até tentativa de estupro por um maníaco sexual eu sofri. Fui obrigada a fazer boletim de ocorrência e exame de corpo de delito. Passei vários meses sendo chamada para identificar a pessoa, coisa que para alguém com minhas recentes experiências no Brasil me deixava constrangida. Só me mantinha com a esperança de nesta etapa poder me “limpar” e conseguir ser “uma igual” como todas as minhas colegas de geração. A verdade é que apesar da amizade e respeito de muitos, nunca consegui retomar o curso de minha vida em Fortaleza. Depois de minha volta da Alemanha, ainda vivi ali por dois anos como professora particular. Dividia o apartamento com uma amiga (a advogada e hoje procuradora do INSS em Curitiba- Zélia Soares Bastos), pois o rendimento não dava para viver diferente. Sabia que minha geração, as colegas de conservatório estavam todas já encaminhadas na vida, enquanto eu ainda estava na fase de procura, de tentativa. Me desesperava a perspectiva de viver novamente de aulas particulares. Por fim arranjei um colégio particular para dar aulas de música (Instituto Educacional de Alencar). Como tinha sido convidada pela orientadora educacional da referida escola, comecei indo a uma reunião. Não precisei ir a segunda vez na escola. A diretora me chamou e me disse que sentia muito, mas que na família dela havia um membro que havia morrido envolvido com a resistência à ditadura (Frei Tito) e que ela achava melhor não me ter na escola. Além disso, tinha ouvido falar que eu era pessoa muito “altiva” e que teria dito que havia “abortado” na prisão. Compreendi a primeira parte de suas desculpas. Quanto à segunda, quero esclarecer que numa de minhas estadias na prisão, com o objetivo de me ver, minha mãe alegava que eu estaria grávida e com risco de abortar. Apesar de não ter conseguido seu intento, pergunto se qualquer mãe não faria o mesmo e muito mais, para se certificar de que sua filha estava inteira? Esta senhora diretora não tinha ainda entendido que nos porões da ditadura, eram armados e distorcidos todos os fatos e mentes. 

Nas inúmeras tentativas de conseguri um trabalho que não fosse sómente aulas particulares, soube de um concurso para professor da Escola de Música de Brasília (EMB), órgão do governo do D.F. Teria sido muito bom, pois era emprego fixo e num meio melhor poderia crescer como profissional. Além disso, teria o apoio de minha irmã que casara e estava morando naquela cidade. Fui reprovada. Nunca tirei tanta nota baixa na minha vida. Numa situação dessas, não pensa-se mais que é a última da fila, mas que nem direito a entrar na mesma você tem. Era difícil admitir que num concurso onde o principal interessado no cargo estava na banca por não ter o título necessário para concorrer.

Assim mesmo ainda fiquei um ano em Brasília tentando sobreviver como professora de piano e flauta doce em escolas particulares até que uma amiga minha (Dra. Elba Ramalho) me indicou para lecionar na Escola de Música do Maranhão EMEM. Aceitei o convite na hora e me mudei imediatamente para São Luiz. Quando escrevo “mudei”, é força de expressão, pois nestas alturas da minha vida e de tantas andanças, me sentia como um pedaço de arame que envergava em todas as direções. Não tinha pertences senão uma pequena mala com roupas e o piano. Ali ensinei flauta doce e piano durante três anos e meio. Exerci também ampla atividade como solista e camerista, gravando também um long-play com músicas de compositores maranhenses do sec. XIX. Mas apesar de minha satisfação com o trabalho e os alunos, o salário não me deixava o suficiente sequer para alugar uma casa. Morava num quarto de um convento e não vislumbrava mudanças.

Em 1982 resolvi visitar em Brasília meu sobrinho Samir (filho de minha irmã Godiva Pinto) que tinha nascido.  Nessa visita, encontrei um antigo amigo (Frank Svensson) que me propôs uma vida em comum na Suécia, onde vivia como exilado. Pensei e repensei ainda um ano até resolver abdicar do emprego no Maranhão e ir novamente embora para a Europa. Não tinha muito a perder, visto já ter vivido naquele continente. Analisei o que tinha de bens; uma máquina de escrever pequenina, um projetor de slides, uma máquina fotográfica, um metrónomo, um toca discos portátil e desta vez até o piano. Vendi tudo e com mais alguns dólares ganhos dos amigos deixei novamente o Brasil. Vivi na Suécia (Gotemburgo e Lund) por seis anos. Trabalhei como pianista de academia de balé, como professora de piano em escolas. Mas fiz também muita faxina em hospitais. Conclui meu mestrado e iniciei o doutorado. O fato de ter oficialmente entrado no país como emigrante e não como exilada, não me permitia receber apoio de entidades de suporte, o que me fazia trabalhar para estudar e me manter. Assim mesmo tentei me fixar naquele país, construir família. Tive um filho que morreu logo que nasceu, fato que me marcou profundamente. A sensação era de que iria morrer sem ao menos ser lembrada, já que não deixava descendentes.
Pensava nunca mais voltar ao Brasil. Apesar das dificuldades de integração numa sociedade diferente da minha, eu também estava aprendendo, estava fazendo o doutorado, e isto me alegrava. Mas em 1989, meu então marido (que no Brasil tinha sido enquadrado na lei 477) foi anistiado e reintegrado à UnB. A expectativa de voltar ao Brasil mudou meus projetos. Teria que interromper o doutorado e resolver como sobreviveria aqui. Sabia que dificilmente meu meio profissional tinha mudado. Sabia que sem uma indicação, minha competência não seria reconhecida e provavelmente voltaria a viver de aulas particulares.  Mas resolvi enfrentar mais uma vez a vida ali. Era época de abertura política e quem sabe teria mais oportunidades.

Logo depois que cheguei surgiu um concurso para o Departamento de Música da UnB. Mas a fama de subversiva e de mulher de exilado ainda me prejudicou. Apesar de meus títulos e experiência de professora em diferentes estados (Brasília, Ceará e Maranhão) e países (Suécia e Alemanha) e de notas excelentes que tirei, não fui contemplada com a vaga. Uma nova batalha se apresentava: entrar na justiça para garantir meu lugar. Eram duas vagas; uma para quem tinha mestrado (assistente) e outra para quem só era graduado (auxiliar de ensino). Inscreveram-se dois candidatos para a vaga de assistente; eu e outra pessoa (David Junker) e apenas um candidato para a vaga de auxiliar de ensino (Flavio dos S. Pereira). Quando veio o resultado, eu estava em terceiro lugar. Como? Se só dois candidatos estavam inscritos para o nível de assitente? Quando fui saber, a banca tinha colocado no segundo lugar, o candidato que tinha feito concurso para a vaga de auxiliar de ensino (categoria que só exigia a graduação), misturando assim todas as categorias para que fossem alocados nos cargos, as pessoas “eleitas” pela banca.
Foi um tempo dificílimo em minha vida, pois sabia que com mais de 40 anos tornava-se a cada dia mais difícil de eu arrumar um emprego digno. Não gostaria de terminar meus dias como professora particular. Queria mostrar o que sabia, queria terminar meu doutorado, tinha projetos e sabia que só precisava de uma oportunidade. Entrei com um processo de revisão do concurso. Pela primeira vez na vida, ganhei esta causa em todas as instancias em que foi julgada. Depois de muito sofrimento; de tentativas do Departamento de Música de contratar os dois outros concorrentes às escondidas, fui finalmente incorporada ao quadro. De início não foi nada fácil! No Departamento de Música havia listas de alunos contra minha contratação, abaixo assinados para que os outros não se inscrevessem nas minhas disciplinas, bilhetinhos que eram colocados debaixo da porta de minha sala, etc. Os colegas mal falavam comigo. Apesar de reagir a tudo isso, de fazer de conta que não entendia, vivia apavorada. O que seria de mim como profissional, se ali eu não era aceita? Parecia-me que aquela era minha última chance. Com o passar dos dias fui sendo informada sobre os caminhos tortuosos que o tal concurso tinha percorrido, de como apareciam as listas contra minhas disciplinas, dos bilhetinhos debaixo da porta e muito mais. Em muitos momentos achei que não suportaria mais aquele tipo de pressão. Apesar de saber que a abertura política do Brasil era embrionária e de que ainda demoraria chegar aos ambientes musicais, sofria muito com isso. Lembro-me que um dia falei para o então chefe (Professor Zuinglio Faustini), que gostaria de tocar nos concertos semanais do departamento (atividade musical levada à cabo ao meio dia por estudantes e professores da casa). Ele me disse imediatamente que estes eram destinados àqueles que tinham nível profissional. Entendi a “mensagem” e respondi dizendo que sabia disso e que exatamente por isso me oferecia. Marquei então minha apresentação, mas quando cheguei para tocar, estava aninciado outro evento. Como entender isso? Onde reclamar? Tive que ficar calada e esperar um outro momento. Minha primeira vitória veio quando logo no primeiro semestre fui escolhida pelos alunos para ser paraninfa da turma. Me deixou muito feliz. Fui ganhando confiança e compreendendo melhor como eram resolvidas as coisas ali na casa. Enfrentei muito preconceito (por ter sotaque de nordestina, por ser mulher, por não ter vindo dos EEUU) simplesmente por não ser conhecida dos mesmos. Pensei muitas vezes que nem sequer tinham lido meu currículo, visto que desconheciam o que eu durante toda a vida tinha me preparado para fazer. Mas para minha alegria, um aluno de clarinete (Ricardo Dourado Freire, hoje professor da casa) me surpreendeu um dia quando me pediu para acompanhá-lo no seu recital de formatura. Aceitei na hora, pois era uma oportunidade de me impor, de me mostrar, de tentar virar aquele jogo. Estudei feito louca e nunca vou esquecer a expressão de surpresa e vergonha estampada na fisionomia daqueles professores e alunos presentes ao recital. Logo ali recebi convite para formar um duo pianístico com a principal professora de piano da casa (Elza Kasuko). Com ela fiz vários recitais, na capital, em São Luiz e em Fortaleza. Tudo isso foi muito gratificante para mim. Trabalhei com muito afinco, mas também com muito cuidado, dando várias disciplinas, acompanhando professores e alunos, além de ter organizado muitos eventos. Depois de quatro anos, tempo exigido pela universidade para solicitar um afastamento, solicitei uma bolsa do CNPq e voltei à Europa para terminar meu doutorado. Para mim, foi uma dádiva poder concluí-lo com um salário garantido e uma ajuda financeira dessa agência. Infelizmente, alegando falta de recursos, suspenderam a ajuda prometida de quatro anos e no último ano tive que voltar ao Brasil retomando minhas atividades docentes. Acredito que a suspensão de minha bolsa deveu-se em parte à minha idade (53 anos) e ao fato de ser casada com um estrangeiro. A aposentadoria e mudança para o estrangeiro depois do doutorado, já acontecera com outra professora do meu departamento, deixando os colegas insatisfeitos com sua atitude. Mesmo assim conclui meu doutorado no tempo previsto e defendi a monografia sem atropelos (1997). Hoje sou professora adjunta III (aposentada), com especialização na Alemanha, mestrado na Suécia e doutorado na Inglaterra. Com todos os hiatos na minha carreira, tenho 35 anos de contribuição ao INSS (a lei só pede 25 para professor). Como sei que muita gente no Brasil se aposenta para ganhar dinheiro em outra instituição (não estou julgando essas pessoas), quero salientar que só tenho esta fonte de renda. Fui professora reconhecida pelos alunos na medida em que promovi eventos fora do cotidiano das aulas, dei exemplo de assiduidade, de alegria no trabalho e de amizade por todos eles. Além das aulas, trabalhei em atividades de extensão quase todos os semestres letivos. Apresentei trabalhos em congressos, publiquei artigos, orientei alunos em projetos de extensão e pesquisa, desenvolvi na medida do possível todas as funções exigidas pela UnB (ensino, pesquisa e extensão). Não exerci nenhum cargo importante nem dentro do meu departamento nem na UnB. No entanto fiz parte de diversas comissões, desempenhando todas as tarefas que me foram confiadas. Como membro da comunidade universitária fui secretária da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB) durante dois anos, convidada por minha amiga Maria Francisca Pinheiro, então presidente do órgão. Como profissional, fui me tornando sempre respeitada e reconhecida, pois me responsabilizava pelo que fazia e desenvolvia as atividades entregues a mim pela instituição. Talvez tenha sido essa consciência de que poderia ser útil, de que tinha valor como profissional, que me deu esperanças para não sucumbir a tantas adversidades.
Tento neste depoimento, relembrar alguns fatos que marcaram minha vida pública, na esperança de que ele possa servir como informação sobre o período da ditadura. Como ela marcou a sociedade e as pessoas. Hoje eu entendo que o curso de minha vida foi interrompido de forma brutal. Que fui mal entendida, humilhada, massacrada, prejudicada, perseguida. Só depois de muito tempo (quando a mídia começou a desnudar as atrocidades do regime militar) voltei a ter o respeito e consideração de alguns de meus familiares. A luta que travei para não enlouquecer, para não perder a noção de respeito por mim mesma foi muito grande. Sei que uma de minhas defesas para que isso não acontecesse foi o fato de nunca ter acreditado que eu era realmente uma pessoa perigosa. Associado a isso vem uma desconfiança muito grande de que todos aqueles que me interrogavam que me delatavam ou que de algum modo estavam envolvidos com o que acontecia comigo estavam simplesmente “encenando” o tempo todo. Aquele “espetáculo” era parte da retórica do poder naquele momento e eu não queria participar daquele jogo. No geral, estávam todos amedrontados, perplexos e nessas horas é difícil escolher que ações são mais eficazes e o lado mais coerente para se situar. Acredito que ainda precisaremos de muito tempo para digerir e entender melhor o que aconteceu com todos nós que fomos prejudicados. Só espero é que este relato possa contribuir para evitar que pessoas não sejam perseguidas por suas convicções políticas de forma arbitrária e sem fundamento.
Brasília, Julho de 2004.

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