Aquele ano
seria especial. Entendi isso logo na primeira aula quando a professora de Canto
Orfeônico, nos explicou que aprenderíamos a solfejar através do movimento das
mãos. Manossolfa, disse-nos. Mano-sol-fá,
pensei. No ano anterior tínhamos aprendido o Hino Nacional e o do Ceará, mas
naquele aprenderíamos mais algumas canções cívicas. Em Colégio Público as aulas
de música se davam uma vez por semana mas diante da expectativa daquele novo
conhecimento eu queria mesmo era que elas fossem todos os dias. Já sabíamos que
todo o aprendizado do ano, culminava com
algum tipo de apresentação na Semana da Pátria, que acontecia no meio do
segundo semestre letivo. Os colégios da cidade entravam em festa com
apresentações, exposições de trabalhos dos alunos, palestras, jogos e exibições
de ginástica. No início de cada ano os
professores já avisavam aos alunos o que iriam apresentar na festa como
trabalho da disciplina. A direção aparecia uma vez ou outra na sala de aulas
pedindo nossa colaboração. Dentro do planejamento escolar, D. Taís soube muito
bem manter o interesse da turma até o dia da grande apresentação no segundo
semestre. Em doses homeopáticas, nos fazia cantar através dos sinais de suas
mãos e a cada progresso levantava o ânimo da turma com novas informações sobre
o que aconteceria na Semana da Pátria.
Primeiro nos
ensinou as notas correspondentes a cada dedo da mão; Dó-ré-mi-fá-sol- polegar,
indicador, mediano, anelar e mínimo. Antes de introduzir o lá e o si, nos disse
que a apresentação seria com os alunos de todas as escolas de Fortaleza. Eu
estava motivada, aprendia tudo rápido e tomava a atividade como uma
brincadeira, um desafio prazeiroso. De quando em vez, ouvia de longe as aulas
das outras turmas e entendia que os alunos maiores também participariam da apresentação.
Enquanto isso ela avançava no programa introduzindo sinais de expressão à nossa
performance; legatos, staccatos, crescendos e diminuindos. Passei a dominar
melhor minha voz, movida pela alegria de responder prontamente aos sinais
daquela que nos guiava. Muitas vezes fechava os olhos e concentrava minha
audição ouvindo toda a turma cantando. Gostava
daquela sensação de completude que os sons me davam. Junto ao aprendizado da
manossolfa, veio uma nova informação e com ela mais entusiasmo. A apresentação
seria no Estádio Presidente Vargas. Ora, a notícia foi um novo jato de ânimo
nos alunos. O colégio inteiro só falava disso. Afinal, o local era por demais
popular. Era onde aconteciam todos os jogos de futebol e que eram irradiados por todas as rádio da cidade. No
meio da balburdia da classe, aqui acolá ela até nos ameaçava de não nos colocar
na apresentação se não nos esforçássemos para cantar afinadas, todas iguais. O
medo de não participar do evento me levava a prestar cada vez mais atenção aos
sinais e a me concentrar na altura dos sons. Me esforçava ao máximo. Parecia
até que queria cantar pela turma toda. Cantava olhando os sinais nos dedos da
professora e aprendia tudo que ela falava. Nem piscava os olhos para não perder
um só detalhe do que se passava. Sabia tanto aquilo tudo que muitas vezes tinha
o ímpeto de cantar a nota antes das outras meninas, como se aquilo fosse uma
corrida, ao invés de uma marcha coletiva.
A aula era
dividida em duas partes; uma de manossolfa e rudimentos de teoria musical e na outra
aprendíamos as canções cívicas. Passados alguns meses, já entendíamos bem os
sinais emitidos pela mão de D. Taís que além de cuidar de nossa afinação, nos
desafiava com muitas brincadeiras para que pudéssemos adquirir precisão na
emissão do som; interrompe-lo quando ela fechava a mão repentinamente, ficarmos
atentas às pausas, cantar forte ou leve. Foi aí que nos contou que para reger o
coro, viria um maestro do Rio de Janeiro. A expectativa do evento começava a
ficar tão importante para mim que passou a ocupar parte do meu tempo de ócio.
Ficava olhando para as nuvens, pensando como seria esta apresentação. Um dia a
mestra chegou na aula e nos pregou uma peça: dividiu a turma em dois grupos,
introduzindo assim, a outra mão nas novas brincadeiras. Enquanto um grupo
cantava o que ela indicava na mão direita, o outro cantava outra coisa,
seguindo os sinais de sua mão esquerda. Que maravilha ouvir dois sons ao mesmo
tempo, sendo eu uma parte desta harmonia. Eu sentia que estava realizando
alguma coisa. Quando um crescia e o outro diminuía ou quando tinha que contar o
tempo em pausas então, era puro jogo de atenção, tudo muito engraçado. Construía imagens mentais para cada sinal de expressão.
Para sustentar o tempo das pausas sem ser percebida, batia com os dentes,
contava no dedão do pé.
Com esta
estória de ir soltando aos poucos as informações, D. Taís parecia que estava
confeitando um bolo de noivas, onde vai se colocando um em cima do outro
entremeando com recheios e cobrindo com aquela massa branca. Quando tudo está
pronto começa então ao verdadeiro trabalho artístico; florsinha aqui e ali, fitinhas
coladas, folhinhas pintadas de verde e fim. Fim nada! Olha de longe e volta a
confeitar mais uma florsinha. Agora põe continhas as continhas prateadas e o
leço de tule com as duas alinaças. Ela nos fez então mais uma grande revelação:
na outra semana viria uma outra professora fazer o ensaio conosco. Me preparei
para sua vinda imaginando que seria uma espécie de inspeção para ver se
estávamos mesmo preparadas. Muito prática em suas decisões D. Carmem parecia
saber tudo que iria acontecer no grande evento. Levou o colégio inteiro para o
pátio e nos ensinou o local exato por onde deveríamos entrar e nos posicionar no
gramado do estádio. O regente entraria depois das autoridades. Mostrou-nos onde
ele se colocaria, nos deixando cientes de como se comportar no local. Os
professores de música estariam também junto aos alunos para controlar a
disciplina. Depois fez o ensaio exatamente na seqüência da apresentação. Sob
sua direção fizemos exercícios de manossolfa e cantamos as canções que tínhamos
aprendido. Muito espigada, quando invertia a mão para que cantássemos uma
oitava acima ou abaixo, as sarnas de sua figura alva e loura desapareciam e eu só via dez dedos curtos com
dez unhas pintadas de vermelhão se movimentando no espaço. Por fim, nos fez uma
grande recomendação: todo mundo com a farda muito arrumada. Calças e saias
muito limpas, blusa lavada e passada. Sapato engraxado e meias limpas. As
meninas que tiverem cabelo grande, prendam-no muito bem e as de cabelo curto, vão
bem penteadas. Atenção para a
disciplina. Todos olhando para o maestro pois ele vem do Rio de Janeiro e
precisamos fazer bonito para ele, dizia ela já meio rouca de tanto falar.
Eu contava
dias, horas e minutos. Em casa eu falava insistentemente a meus pais sobre as
recomendações das professoras, que ao contrario de mim, reagiam calmamente ao
assunto, o que me deixava meio triste pois gostaria mesmo era que eles
estivessem com o mesmo nível de adrenalina que eu.
Chega
finalmente o grande dia. Da noite anterior só me lembro de ter ouvido uma
centena de vezes na radiadora do bairro, a marcha do IV Centenário de São Paulo
que comemorava-se naquele ano. Em tempos de discos de cera, não se dispunha de
muitos exemplares para se fazer um baile, principalmente os populares. O jeito
era mesmo se dançar ao som de marchas e dobrados militares. Acordei muito cedo e
me levantei pois não conseguia mais me manter na cama, tal era a ansiedade. À
mesa, o café e o pão pareciam não ter gosto de nada. Inchavam na minha boca.
Ainda era cedo mas mesmo sob os protestos de meu pai de que eu me acalmasse,
corri para me arrumar. A saia de tropical cinza estava impecável pois faziam semanas
que quando eu chegava das aulas colocava-a debaixo do colchão da minha cama
para conservar as pregas bem delineadas. A blusa que minha mãe mandara lavar a
passar, estava ali pendurada num cabide à parte para que não amassasse em
contato com as outras roupas no guarda-roupa. O único problema era mesmo as
meias de algodão. Apesar de limpas, os soquete não seguravam nas minhas pernas
finas. Para fixa-los eu costumava
prende-los com um elástico. Mas perdia-os
com muita facilidade. Tudo tinha a ver com a expectativa de cantar para o
maestro vindo do Rio de Janeiro. Aquela pequena preocupação; as meias que não
estavam coladas às pernas me deixavam nervosa e insegura. Acreditava que mesmo
uma pequena imperfeição, um pequenino detalhe na indumentária poderia me
desconcentrar e quebrar minha inteireza na hora do espetáculo. Quando fui
saindo de casa, minha mãe me chamou e me disse que se eu molhasse
a parte de cima da meia-o soquete, que ficava em contato com a perna, o
algodão encolheria mais um pouco e ficaria mais tempo em contato com as pernas.
Assim eu fiz e sai satisfeita.
Teríamos que
chegar ao local com muita antecedência para efetuarmos a formação. Seriam
centenas de crianças e adolescentes chegando ao mesmo tempo e teríamos que
encontrar cada uma o seu grupo e nos arrumarmos. Meu pai que foi me deixar na
porta do estádio, quando se despediu de mim tirou do bolso um bastão de chocolate
e me entregou dizendo: se você sentir fome coma-o. Virou-se e se foi. Dali em
diante me encontrei sozinha diante daquele imenso portão de ferro que apesar
das informações de D, Carmem, eu teria que ultrapassar como se estivesse indo
rumo ao desconhecido. Mas eu estava feliz, me sentindo responsável e não
poderia ter medo. Lá dentro a construção
de muros circulares e arquibancadas quase subiam aos céus. O impacto daquele
imenso espaço me deu vertigem. Tive vontade de gritar para ver se pelo menos eu
ouvia o eco da minha voz, para que eu pudesse me encontrar no vazio. O quanto
era pequeno o meu mundo, restrito até então a casas, igrejas e colégios!
No gramado,
fui das primeiras a chegar. Como uma ilha, encontrei rapidamente meu colégio e
com ele D. Taís que me indicou o local onde eu deveria me colocar. Ao lado de
minhas colegas me sentia mais segura. Passei então a olhar para os lados e a
ter uma visão menos assustadora do local. Lá longe via as pessoas subirem as
arquibancadas juntando-se aos que já estavam sentados. Em pouco tempo o espaço
estava lotado. No campo, a diversidade de cores das fardas dos estudantes
parecia mais uma colcha de retalhos. No centro da arquibancada o palanque das
autoridades, uma espécie de tenda coberta com palhas de coqueiro ainda estava
vazio.
Da manhâ
ensolarada que deixara quando saira de casa, a brisa fria já desaparecera. Restava
somente o sol que subia e começava a arder em nossas cabeças. De pé, a tagarelice
entre as colegas tentava diminuir um pouco a angústia da espera, enquanto as
professoras desconhecendo nosso cansaço tentavam nos controlar, falando que as autoridades que
ainda não tinham chegado.
Finalmente
anunciam que vai começar. O palanque fica repleto de homens fardados, ou de
linho branco. De repente, nos pedem para ficar em posição de sentido. Era o
maestro que chegava. A figurinha que saia lá de dentro de um túnel foi vindo e
se avolumando, se avolumando até eu ter noção do seu verdadeiro tamanho. Então
subiu numa espécie de pódio no meio do espaço entre nós e as autoridades. Tudo
que a professora tinha dito para nós era mesmo verdade, pensei. Ele estava ali,
em carne e osso, vindo do Rio para a grande apresentação. Sinceramente, naquele
momento eu preferia não estar ali pois meu queixo tremia e eu não conseguia
controla-lo. Vi quando ele fechou os olhos e respirou fundo. Abriu os olhos, levantou
os braços até a altura dos ombros colocando à vista, as palmas de suas mãos. Em
seguida ergueu o olhar um pouco acima de nossos olhos e percorreu todo o
estádio num ângulo de 180 gráus como se quizesse nos conhecer, nos cumprimentar um a um. Sentia que dali por diante estávamos todos em suas mãos. Quando o
diapasão deu a nota inicial da manossolfa e foi imitada por todo o estádio, eu
me vi inundada pelas vibrações daquele enorme som emitido pela multidão. É
claro que D. Taís costumava nos ensinar como deveríamos guardar no ouvido a nota inicial da
música para começarmos a cantar todos na mesma altura, mas naquela ocasião e
naquele lugar, o som corria por todo o meu corpo. Eu mal conseguia seguir as
instruções que recebera. Atenção para quando o regente der o sinal para o início
da manossolfa, alertava D. Taís. Com as
duas mãos o regente mostrava o polegar a todos. Tenho certeza de que as
primeiras notas saíram automaticamente da minha boca pois não conseguia me
ouvir. Estava imersa numa espécie de onda, algo muito mais forte do que eu e
que calava minha voz. A força do som era tão grande que eu sentia tremer meu
peito. Só vim a me controlar a partir da terceira ou quarta nota, quando me dei
conta de que nada daquilo que ele pedia era desconhecido por mim. Começando do
polegar, um dedo, dois dedos, três dedos, quatro dedos, cinco dedos, polegar e
dedo mínimo, por último só o mínimo e todos cantavam dò, ré mi, fá sol lá si.
Iniciou novamente a mesma coisa e quando mostrou o dedo mínimo, inverteu
rápidamente a palma das mãos para mostrar que cantaríamos num registo mais
agudo. Eu começava a me acalmar, dominar minha ansiedade e a me ouvir. Estava
realmente participando, conseguindo unir o aprendizado ao que entrava pelos
meus ouvidos. Era como se naquele momento tudo estivesse unido, homogêneo e eu fizesse
parte daquilo. Eu lembrava de frases e palavras soltas que decorara das canções
aprendidas durante o ano. Brasil, teu povo é forte como é grande a minha terra!
Florestas, rios, mares e até o gorgeio da passarada pareciam parte de um mesmo
acorde e eu era parte dele. O maestro começava a dar sinais diferentes em cada
mão. A principio com as duas mãos iguais. Notas longas, curtas, pausas, sinalizando
com a inclinação das mãos a execução de sustenidos e bemóis, invertendo as
palmas das mãos para que entoássemos as notas numa altura superior, exatamente
como tínhamos aprendido. O ponto alto do espetáculo foi quando ele entrou com os
sinais para dividir os estudantes em duas e depois tres vozes. Enquanto os
rapazes cantavam as notas mais graves, a outra mão dava sinal para que as meninas cantassem as mais agudas. As vozes masculinas
me faziam lembrar os homens fortes que viviam a pescar, parte de uma canção que
aprendera.
Preciso em
seus movimentos, o regente mostrava muita segurança do que queria do grupo. Mais parecia um equilibrista
de circo andando num fino fio arame. Mantendo a atenção de toda a platéia,
exibindo sua perícia com rodas, bastões ou sombrinhas. Aqui acolá causando
angústia a todos, fazendo de conta que ia cair. No entanto ele sabe que tudo faz
parte do espetáculo. Tudo fora muito bem ensaiado, sabemos. Mesmo assim, todos
o olhares estão voltados para ele! No
final, ecoam os aplausos. Sua figura ereta se curva da cintura para cima, agradece
solenemente a cada lado do estádio. No palanque, óculos escuros são retirados
para enxugar o suor dos rostos. Fulgurantes e gloriosos!
Na segunda
parte da apresentação um coro de adultos constituía um grupo à parte dos
estudantes. No meio da canção o cantar baixinho destacava a voz de uma solista.
Uma espécie de oração que invocava ao divino onipotente, proteção para o país,
sua natureza e sua gente. Nos meus dez anos de idade, eu quase sentia amor à Pátria pois fui
invadida ali, pela certeza de que a natureza do meu país era realmente a mãe altiva
de uma raça livre. Olhei para a saia da minha farda e vi que ela estava com uma
enorme mancha do lado. Me lembrei imediatamente do chocolate que meu pai me
dera. Meti a mão no bolso e senti que ele tinha derretido com o calor. O papel
laminado, que o envolvia e que eu pensava em estirá-lo e depois guardá-lo
dentro de um livro, estava todo inundado por aquela pasta marrom entre suas
pequenas pregas. Impossível seguir o conselho de meu pai, pensei. Ainda bem que
eu não estava com fome.
A última
música ia começar. O coro masculino entraria executando o acompanhamento da
peça; repetição constante de uma mesma estrutura rítmica como se estivesse
repetindo a todos a mesma idéia. Escutem, vou cantar oito vezes uma mesma coisa
e aí vocês entram, nos ensinava D. Taís nos ensaios. Para nos fazer contar,
mostrava com os dedos as quatro vezes e depois diminuindo os movimentos dos
braços cantava mais quatro, para que pudéssemos entrar com o canto. Vou fazer
as quatro primeiras vezes mais fortes e as outras quatro mais leves, explicava.
Tum, don, gon, don, don, tum, tum
Tum don, gon,don, don, tum,tum
Tum, don, gon, don, don, tum, tum
Tum don, gon,don, don, tum,tum
Já sabíamos que
quando interrompia o ritmo e dizia baixinho “Pssssssiu! mais leve”, teríamos
que ouvir a mesma coisa como se fosse um eco. Contava mais quatro vezes e entrávamos
com nossa melodia. Já tinha tanta certeza daquilo que ás vezes eu mesma, dentro
de mim, brincava de entrar não pelo que eu ouvia, mas pela movimentação de suas
mãos que desenhavam uma espécie de arabesco no espaço, algo sinuoso e que eu já
entendia tão bem quanto os olhares de minha mãe para o espelho, quando se
vestia para ir passear. Percebi que este seu desenho tinha um ponto estável que
retornava e começava novamente. Quando a última sílaba ecoava ela arregalava os
olhos, levantava um pouco a cabeça e os braços e o arabesco era desenhado um
pouco mais largo. Era o sinal para entrarmos.
Ali no
gramado o calor era infernal. O suor pingava das minhas pernas e do meu rosto. No
outro lado da concentração eu ouvia as vozes masculinas que começavam a entoar
as oito vezes da introdução da música; quatro mais fortes e quatro mais leves. Eu
estava atenta contando os compassos para entrar com o coro infantil. O maestro
levantou um pouco os braços para alertar-nos de que era chegada nossa hora.
O’ manhâ de Sol
Anhangá fugiu!
Me imaginava
fazendo parte de um coro que surgia lá longe e ia se aproximando, se tornado
mais audível. Estava conseguindo administrar minha ansiedade e sentia que estava
seguindo corretamente o que tinha aprendido. Olhava e via que Anita estava ao
meu lado. Isto me dava mais segurança. No colégio ela também sentava comigo na
mesma carteira. Levantara um dia e perguntara à professora quem era Anhangá!
Para não atrapalhar o ensaio D. Taís respondeu que era “a alma errante da
floresta” e continuou.
Anhangá hê,hê!
Ah foi você!
Quem me fez sonhar,
para chorar a minha terra.
Coaraci hê, hê!
Anhangá fugiu!
Agora tudo me parecia conhecido. Como
um filme que eu assistira várias vezes em preto e branco e agora assistia uma
vez mais, só que mais nítido e emocionante
ou seja: colorido. Mas como na música o tempo não perdoa, senti uma leve preocupação quando a segunda
parte da canção foi se aproximando.
O’ Tupã, Deus do Brasil.
Que o céu enche de luz.
Sabia que
esta segunda frase começava com o mesmo salto melódico da primeira mas o final
me dava calafrios. Está desafinado! Preparem este último intervalo inspirando
antes de começar a frase e segurando bem a musculatura da barriga, dizia a
professora durante as aulas. Abram a
boca e soltem o queixo. Deixem-no relaxado. Assim... Me lembro muito bem de sua
fisionomia abobalhada quando abria a boca e soltava a musculatura do queixo
para pronunciar a palavra “Sol”. No fim, fechem a boca ligeiramente, para
terminar a sílaba, dizia.
Minha vontade
de atingir o salto de oitava, de não desafinar a nota aguda era tão grande que
cerrei bem os olhos até ficar com o rosto cheio de pregas. Estiquei tanto o
pescoço que fiquei de cara pra cima. Devia estar parecida com uma galinha
bebendo água! Pensando nas instruções da professora, encolhi a barriga e larguei
o grito!
Que o céu enche de luuuuuuuuuuuuuuz!
Consegui,
pensei! Abri os olhos e nem sequer tinha começado a fechar “ligeiramente a
boca” quando avistei o céu azul imenso, maior que o estádio. Sem uma nuvem
sequer. O sol tinha subido e perdido a suave cor amarelada da manhã. Estava ali
bem no meio do céu, branquíssimo, lançando seus raios bem em cima de mim. E ele
era forte, sério e sem nuances. Estava a meio metro e me ameaçava.
______Menina,
canta direito senão eu entro pela tua boca!
Mas a música
não podia esperar. Tudo tinha que ser rápido. Eu teria ainda que fechar a boca
e inspirar pois a nova frase era longa e já iria começar. Ainda bem que era fácil,
pensei. Só tinha que me lembrar de pronunciar bem a palavra “esperança”, para
deixar que o contra canto “me fez sonhar”, entoado pelo grupo masculino, também
fosse ouvido.
De estrelas,
de luar,
e de esperança.
Não era
difícil, pois melodia e letra se davam em movimento descendentes, facilitando assim
a afinação. Eu poderia até descer o olhar, baixar um pouco a cabeça e cantar as
duas notas mais graves sem muito esforço. Só não podia esquecer era da boa
execução do tal ritmo “contrariado” que a professora lembrava para fazermos no
fim das frases. Um dia eu e Anita abrimos o livro dela, onde tinha a partitura
da música e vimos um balãosinho desenhado a lápis em cima do final de cada
frase da segunda parte da peça, onde estava escrito “ritmo contrariado”!
Quando fui me
dando conta de que a próxima frase se aproximava, mesmo sabendo de tudo
direitinho, de ter ensaiado o ano inteiro, este era o ponto culminante da peça
e no fim acontecia uns saltos melódicos muito grandes. Eram como se eu tivesse
que saltar três vezes sem sequer descansar a voz. Brincadeira de amarelinha
quando temos que saltar de uma vez até o céu e ainda apanhar pedrinhas com um
pé só!
Ó Tupã, tira de mim.
Até aqui consegui
certinho, pensei! Mas quando fui entoar “tira de mim esta saudade!”, senti que
algo estranho estava vindo lá de dentro de mim. Pensei: será que saiu
desafinado e não percebi? Ah! se tivesse acontecido algum erro, este já tinha se
ido no tempo e não poderia atrapalhar o
resto da peça. Eu iria mesmo era cantar a próxima parte e pronto! Olhei então para
a única coisa que deveria olhar naquele momento: o maestro. Lá estava ele
longe, no alto de sua pequena torre, movimentando suas mãos. Soltava um meio
sorriso tranqüilo, dando sinal para cada grupo que entrava. Eu deixava-me
fascinar por sua figura e pensava levemente que uma parte daquele sorriso seria
para mim, me assegurando, me confirmando aquilo que eu cantava. Eu estava mesmo
era tentando esquecer o que estava vindo de dentro de mim. Era tristeza? Não!
Minha mãe diria que era cansaço, que eu precisava dormir. Voltei a olhar para
ele e me perguntar se ele sentia o mesmo que eu. As notas repetidas da próxima
frase me lembravam a mesma verdade, a de uma nação ideal onde tudo; natureza e
gente estavam em equilíbrio. Inspirei fundo e cantei.
Anhangá me fez,
sonhar com a terra que perdi.
Os últimos
intervalos vieram acompanhados de uma súbita nostalgia. Compreendi que o que
estava vindo de dentro de mim não era tristeza, cansaço ou nostalgia. Era a leveza. É que ela se anunciava pelos
ouvidos.
Hê, hê, hê, hê!
Os últimos
sons entoados pelos adolescentes.
Ohhhhhhhh! O
estádio inteiro explodia em palmas e gritos!
Janeiro de
2011.

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