segunda-feira, 23 de junho de 2014

Canto do Pagé (à memória de Orlando Leite)



Aquele ano seria especial. Entendi isso logo na primeira aula quando a professora de Canto Orfeônico, nos explicou que aprenderíamos a solfejar através do movimento das mãos. Manossolfa, disse-nos.  Mano-sol-fá, pensei. No ano anterior tínhamos aprendido o Hino Nacional e o do Ceará, mas naquele aprenderíamos mais algumas canções cívicas. Em Colégio Público as aulas de música se davam uma vez por semana mas diante da expectativa daquele novo conhecimento eu queria mesmo era que elas fossem todos os dias. Já sabíamos que todo o  aprendizado do ano, culminava com algum tipo de apresentação na Semana da Pátria, que acontecia no meio do segundo semestre letivo. Os colégios da cidade entravam em festa com apresentações, exposições de trabalhos dos alunos, palestras, jogos e exibições de ginástica.  No início de cada ano os professores já avisavam aos alunos o que iriam apresentar na festa como trabalho da disciplina. A direção aparecia uma vez ou outra na sala de aulas pedindo nossa colaboração. Dentro do planejamento escolar, D. Taís soube muito bem manter o interesse da turma até o dia da grande apresentação no segundo semestre. Em doses homeopáticas, nos fazia cantar através dos sinais de suas mãos e a cada progresso levantava o ânimo da turma com novas informações sobre o que aconteceria na Semana da Pátria.
Primeiro nos ensinou as notas correspondentes a cada dedo da mão; Dó-ré-mi-fá-sol- polegar, indicador, mediano, anelar e mínimo. Antes de introduzir o lá e o si, nos disse que a apresentação seria com os alunos de todas as escolas de Fortaleza. Eu estava motivada, aprendia tudo rápido e tomava a atividade como uma brincadeira, um desafio prazeiroso. De quando em vez, ouvia de longe as aulas das outras turmas e entendia que os alunos maiores também participariam da apresentação. Enquanto isso ela avançava no programa introduzindo sinais de expressão à nossa performance; legatos, staccatos, crescendos e diminuindos. Passei a dominar melhor minha voz, movida pela alegria de responder prontamente aos sinais daquela que nos guiava. Muitas vezes fechava os olhos e concentrava minha audição ouvindo toda a turma  cantando. Gostava daquela sensação de completude que os sons me davam. Junto ao aprendizado da manossolfa, veio uma nova informação e com ela mais entusiasmo. A apresentação seria no Estádio Presidente Vargas. Ora, a notícia foi um novo jato de ânimo nos alunos. O colégio inteiro só falava disso. Afinal, o local era por demais popular. Era onde aconteciam todos os jogos de futebol e que eram  irradiados por todas as rádio da cidade. No meio da balburdia da classe, aqui acolá ela até nos ameaçava de não nos colocar na apresentação se não nos esforçássemos para cantar afinadas, todas iguais. O medo de não participar do evento me levava a prestar cada vez mais atenção aos sinais e a me concentrar na altura dos sons. Me esforçava ao máximo. Parecia até que queria cantar pela turma toda. Cantava olhando os sinais nos dedos da professora e aprendia tudo que ela falava. Nem piscava os olhos para não perder um só detalhe do que se passava. Sabia tanto aquilo tudo que muitas vezes tinha o ímpeto de cantar a nota antes das outras meninas, como se aquilo fosse uma corrida, ao invés de uma marcha coletiva.

A aula era dividida em duas partes; uma de manossolfa e rudimentos de teoria musical e na outra aprendíamos as canções cívicas. Passados alguns meses, já entendíamos bem os sinais emitidos pela mão de D. Taís que além de cuidar de nossa afinação, nos desafiava com muitas brincadeiras para que pudéssemos adquirir precisão na emissão do som; interrompe-lo quando ela fechava a mão repentinamente, ficarmos atentas às pausas, cantar forte ou leve. Foi aí que nos contou que para reger o coro, viria um maestro do Rio de Janeiro. A expectativa do evento começava a ficar tão importante para mim que passou a ocupar parte do meu tempo de ócio. Ficava olhando para as nuvens, pensando como seria esta apresentação. Um dia a mestra chegou na aula e nos pregou uma peça: dividiu a turma em dois grupos, introduzindo assim, a outra mão nas novas brincadeiras. Enquanto um grupo cantava o que ela indicava na mão direita, o outro cantava outra coisa, seguindo os sinais de sua mão esquerda. Que maravilha ouvir dois sons ao mesmo tempo, sendo eu uma parte desta harmonia. Eu sentia que estava realizando alguma coisa. Quando um crescia e o outro diminuía ou quando tinha que contar o tempo em pausas então, era puro jogo de atenção, tudo muito engraçado. Construía  imagens mentais para cada sinal de expressão. Para sustentar o tempo das pausas sem ser percebida, batia com os dentes, contava no dedão do pé.
Com esta estória de ir soltando aos poucos as informações, D. Taís parecia que estava confeitando um bolo de noivas, onde vai se colocando um em cima do outro entremeando com recheios e cobrindo com aquela massa branca. Quando tudo está pronto começa então ao verdadeiro trabalho artístico; florsinha aqui e ali, fitinhas coladas, folhinhas pintadas de verde e fim. Fim nada! Olha de longe e volta a confeitar mais uma florsinha. Agora põe continhas as continhas prateadas e o leço de tule com as duas alinaças. Ela nos fez então mais uma grande revelação: na outra semana viria uma outra professora fazer o ensaio conosco. Me preparei para sua vinda imaginando que seria uma espécie de inspeção para ver se estávamos mesmo preparadas. Muito prática em suas decisões D. Carmem parecia saber tudo que iria acontecer no grande evento. Levou o colégio inteiro para o pátio e nos ensinou o local exato por onde deveríamos entrar e nos posicionar no gramado do estádio. O regente entraria depois das autoridades. Mostrou-nos onde ele se colocaria, nos deixando cientes de como se comportar no local. Os professores de música estariam também junto aos alunos para controlar a disciplina. Depois fez o ensaio exatamente na seqüência da apresentação. Sob sua direção fizemos exercícios de manossolfa e cantamos as canções que tínhamos aprendido. Muito espigada, quando invertia a mão para que cantássemos uma oitava acima ou abaixo, as sarnas de sua figura alva e loura  desapareciam e eu só via dez dedos curtos com dez unhas pintadas de vermelhão se movimentando no espaço. Por fim, nos fez uma grande recomendação: todo mundo com a farda muito arrumada. Calças e saias muito limpas, blusa lavada e passada. Sapato engraxado e meias limpas. As meninas que tiverem cabelo grande, prendam-no muito bem e as de cabelo curto, vão bem penteadas.  Atenção para a disciplina. Todos olhando para o maestro pois ele vem do Rio de Janeiro e precisamos fazer bonito para ele, dizia ela já meio rouca de tanto falar.
Eu contava dias, horas e minutos. Em casa eu falava insistentemente a meus pais sobre as recomendações das professoras, que ao contrario de mim, reagiam calmamente ao assunto, o que me deixava meio triste pois gostaria mesmo era que eles estivessem com o mesmo nível de adrenalina que eu.

Chega finalmente o grande dia. Da noite anterior só me lembro de ter ouvido uma centena de vezes na radiadora do bairro, a marcha do IV Centenário de São Paulo que comemorava-se naquele ano. Em tempos de discos de cera, não se dispunha de muitos exemplares para se fazer um baile, principalmente os populares. O jeito era mesmo se dançar ao som de marchas e dobrados militares. Acordei muito cedo e me levantei pois não conseguia mais me manter na cama, tal era a ansiedade. À mesa, o café e o pão pareciam não ter gosto de nada. Inchavam na minha boca. Ainda era cedo mas mesmo sob os protestos de meu pai de que eu me acalmasse, corri para me arrumar. A saia de tropical cinza estava impecável pois faziam semanas que quando eu chegava das aulas colocava-a debaixo do colchão da minha cama para conservar as pregas bem delineadas. A blusa que minha mãe mandara lavar a passar, estava ali pendurada num cabide à parte para que não amassasse em contato com as outras roupas no guarda-roupa. O único problema era mesmo as meias de algodão. Apesar de limpas, os soquete não seguravam nas minhas pernas finas. Para fixa-los eu costumava  prende-los com um elástico. Mas  perdia-os com muita facilidade. Tudo tinha a ver com a expectativa de cantar para o maestro vindo do Rio de Janeiro. Aquela pequena preocupação; as meias que não estavam coladas às pernas me deixavam nervosa e insegura. Acreditava que mesmo uma pequena imperfeição, um pequenino detalhe na indumentária poderia me desconcentrar e quebrar minha inteireza na hora do espetáculo. Quando fui saindo de casa, minha mãe me chamou e me disse que se eu  molhasse  a parte de cima da meia-o soquete, que ficava em contato com a perna, o algodão encolheria mais um pouco e ficaria mais tempo em contato com as pernas. Assim eu fiz e sai satisfeita.

Teríamos que chegar ao local com muita antecedência para efetuarmos a formação. Seriam centenas de crianças e adolescentes chegando ao mesmo tempo e teríamos que encontrar cada uma o seu grupo e nos arrumarmos. Meu pai que foi me deixar na porta do estádio, quando se despediu de mim tirou do bolso um bastão de chocolate e me entregou dizendo: se você sentir fome coma-o. Virou-se e se foi. Dali em diante me encontrei sozinha diante daquele imenso portão de ferro que apesar das informações de D, Carmem, eu teria que ultrapassar como se estivesse indo rumo ao desconhecido. Mas eu estava feliz, me sentindo responsável e não poderia ter medo. Lá dentro a  construção de muros circulares e arquibancadas quase subiam aos céus. O impacto daquele imenso espaço me deu vertigem. Tive vontade de gritar para ver se pelo menos eu ouvia o eco da minha voz, para que eu pudesse me encontrar no vazio. O quanto era pequeno o meu mundo, restrito até então a casas, igrejas e colégios!

No gramado, fui das primeiras a chegar. Como uma ilha, encontrei rapidamente meu colégio e com ele D. Taís que me indicou o local onde eu deveria me colocar. Ao lado de minhas colegas me sentia mais segura. Passei então a olhar para os lados e a ter uma visão menos assustadora do local. Lá longe via as pessoas subirem as arquibancadas juntando-se aos que já estavam sentados. Em pouco tempo o espaço estava lotado. No campo, a diversidade de cores das fardas dos estudantes parecia mais uma colcha de retalhos. No centro da arquibancada o palanque das autoridades, uma espécie de tenda coberta com palhas de coqueiro ainda estava vazio.
Da manhâ ensolarada que deixara quando saira de casa, a brisa fria já desaparecera. Restava somente o sol que subia e começava a arder em nossas cabeças. De pé, a tagarelice entre as colegas tentava diminuir um pouco a angústia da espera, enquanto as professoras desconhecendo nosso cansaço tentavam nos controlar, falando que as autoridades que ainda não tinham chegado.
Finalmente anunciam que vai começar. O palanque fica repleto de homens fardados, ou de linho branco. De repente, nos pedem para ficar em posição de sentido. Era o maestro que chegava. A figurinha que saia lá de dentro de um túnel foi vindo e se avolumando, se avolumando até eu ter noção do seu verdadeiro tamanho. Então subiu numa espécie de pódio no meio do espaço entre nós e as autoridades. Tudo que a professora tinha dito para nós era mesmo verdade, pensei. Ele estava ali, em carne e osso, vindo do Rio para a grande apresentação. Sinceramente, naquele momento eu preferia não estar ali pois meu queixo tremia e eu não conseguia controla-lo. Vi quando ele fechou os olhos e respirou fundo. Abriu os olhos, levantou os braços até a altura dos ombros colocando à vista, as palmas de suas mãos. Em seguida ergueu o olhar um pouco acima de nossos olhos e percorreu todo o estádio num ângulo de 180 gráus como se quizesse nos conhecer, nos cumprimentar um a um. Sentia que dali por diante estávamos todos em suas mãos. Quando o diapasão deu a nota inicial da manossolfa e foi imitada por todo o estádio, eu me vi inundada pelas vibrações daquele enorme som emitido pela multidão. É claro que D. Taís costumava nos ensinar como  deveríamos guardar no ouvido a nota inicial da música para começarmos a cantar todos na mesma altura, mas naquela ocasião e naquele lugar, o som corria por todo o meu corpo. Eu mal conseguia seguir as instruções que recebera. Atenção para quando o regente der o sinal para o início da  manossolfa, alertava D. Taís. Com as duas mãos o regente mostrava o polegar a todos. Tenho certeza de que as primeiras notas saíram automaticamente da minha boca pois não conseguia me ouvir. Estava imersa numa espécie de onda, algo muito mais forte do que eu e que calava minha voz. A força do som era tão grande que eu sentia tremer meu peito. Só vim a me controlar a partir da terceira ou quarta nota, quando me dei conta de que nada daquilo que ele pedia era desconhecido por mim. Começando do polegar, um dedo, dois dedos, três dedos, quatro dedos, cinco dedos, polegar e dedo mínimo, por último só o mínimo e todos cantavam dò, ré mi, fá sol lá si. Iniciou novamente a mesma coisa e quando mostrou o dedo mínimo, inverteu rápidamente a palma das mãos para mostrar que cantaríamos num registo mais agudo. Eu começava a me acalmar, dominar minha ansiedade e a me ouvir. Estava realmente participando, conseguindo unir o aprendizado ao que entrava pelos meus ouvidos. Era como se naquele momento tudo estivesse unido, homogêneo e eu fizesse parte daquilo. Eu lembrava de frases e palavras soltas que decorara das canções aprendidas durante o ano. Brasil, teu povo é forte como é grande a minha terra! Florestas, rios, mares e até o gorgeio da passarada pareciam parte de um mesmo acorde e eu era parte dele. O maestro começava a dar sinais diferentes em cada mão. A principio com as duas mãos iguais. Notas longas, curtas, pausas, sinalizando com a inclinação das mãos a execução de sustenidos e bemóis, invertendo as palmas das mãos para que entoássemos as notas numa altura superior, exatamente como tínhamos aprendido. O ponto alto do espetáculo foi quando ele entrou com os sinais para dividir os estudantes em duas e depois tres vozes. Enquanto os rapazes cantavam as notas mais graves, a outra mão dava sinal para que as meninas cantassem as mais agudas. As vozes masculinas me faziam lembrar os homens fortes que viviam a pescar, parte de uma canção que aprendera.
Preciso em seus movimentos, o regente mostrava muita segurança  do que queria do grupo. Mais parecia um equilibrista de circo andando num fino fio arame. Mantendo a atenção de toda a platéia, exibindo sua perícia com rodas, bastões ou sombrinhas. Aqui acolá causando angústia a todos, fazendo de conta que ia cair. No entanto ele sabe que tudo faz parte do espetáculo. Tudo fora muito bem ensaiado, sabemos. Mesmo assim, todos o olhares estão voltados para ele!  No final, ecoam os aplausos. Sua figura ereta se curva da cintura para cima, agradece solenemente a cada lado do estádio. No palanque, óculos escuros são retirados para enxugar o suor dos rostos. Fulgurantes e gloriosos!

Na segunda parte da apresentação um coro de adultos constituía um grupo à parte dos estudantes. No meio da canção o cantar baixinho destacava a voz de uma solista. Uma espécie de oração que invocava ao divino onipotente, proteção para o país, sua natureza e sua gente. Nos meus dez anos de idade,  eu quase sentia amor à Pátria pois fui invadida ali, pela certeza de que a natureza do meu país era realmente a mãe altiva de uma raça livre. Olhei para a saia da minha farda e vi que ela estava com uma enorme mancha do lado. Me lembrei imediatamente do chocolate que meu pai me dera. Meti a mão no bolso e senti que ele tinha derretido com o calor. O papel laminado, que o envolvia e que eu pensava em estirá-lo e depois guardá-lo dentro de um livro, estava todo inundado por aquela pasta marrom entre suas pequenas pregas. Impossível seguir o conselho de meu pai, pensei. Ainda bem que eu não estava com fome.

A última música ia começar. O coro masculino entraria executando o acompanhamento da peça; repetição constante de uma mesma estrutura rítmica como se estivesse repetindo a todos a mesma idéia. Escutem, vou cantar oito vezes uma mesma coisa e aí vocês entram, nos ensinava D. Taís nos ensaios. Para nos fazer contar, mostrava com os dedos as quatro vezes e depois diminuindo os movimentos dos braços cantava mais quatro, para que pudéssemos entrar com o canto. Vou fazer as quatro primeiras vezes mais fortes e as outras quatro mais leves, explicava.

Tum, don, gon, don, don, tum, tum
Tum don, gon,don, don, tum,tum
Tum, don, gon, don, don, tum, tum
Tum don, gon,don, don, tum,tum

Já sabíamos que quando interrompia o ritmo e dizia baixinho “Pssssssiu! mais leve”, teríamos que ouvir a mesma coisa como se fosse um eco. Contava mais quatro vezes e entrávamos com nossa melodia. Já tinha tanta certeza daquilo que ás vezes eu mesma, dentro de mim, brincava de entrar não pelo que eu ouvia, mas pela movimentação de suas mãos que desenhavam uma espécie de arabesco no espaço, algo sinuoso e que eu já entendia tão bem quanto os olhares de minha mãe para o espelho, quando se vestia para ir passear. Percebi que este seu desenho tinha um ponto estável que retornava e começava novamente. Quando a última sílaba ecoava ela arregalava os olhos, levantava um pouco a cabeça e os braços e o arabesco era desenhado um pouco mais largo. Era o sinal para entrarmos.

Ali no gramado o calor era infernal. O suor pingava das minhas pernas e do meu rosto. No outro lado da concentração eu ouvia as vozes masculinas que começavam a entoar as oito vezes da introdução da música; quatro mais fortes e quatro mais leves. Eu estava atenta contando os compassos para entrar com o coro infantil. O maestro levantou um pouco os braços para alertar-nos de que era chegada nossa hora.

O’ manhâ de Sol
Anhangá fugiu!

Me imaginava fazendo parte de um coro que surgia lá longe e ia se aproximando, se tornado mais audível. Estava conseguindo administrar minha ansiedade e sentia que estava seguindo corretamente o que tinha aprendido. Olhava e via que Anita estava ao meu lado. Isto me dava mais segurança. No colégio ela também sentava comigo na mesma carteira. Levantara um dia e perguntara à professora quem era Anhangá! Para não atrapalhar o ensaio D. Taís respondeu que era “a alma errante da floresta” e continuou.

Anhangá hê,hê!
Ah foi você!
Quem me fez sonhar,
para chorar a minha terra.
Coaraci hê, hê!
Anhangá fugiu!

Agora tudo me parecia conhecido. Como um filme que eu assistira várias vezes em preto e branco e agora assistia uma vez mais, só que mais nítido e emocionante  ou seja: colorido. Mas como na música o tempo não perdoa,  senti uma leve preocupação quando a segunda parte da canção foi se aproximando.

O’ Tupã, Deus do Brasil.
Que o céu enche de luz.

Sabia que esta segunda frase começava com o mesmo salto melódico da primeira mas o final me dava calafrios. Está desafinado! Preparem este último intervalo inspirando antes de começar a frase e segurando bem a musculatura da barriga, dizia a professora durante as aulas.  Abram a boca e soltem o queixo. Deixem-no relaxado. Assim... Me lembro muito bem de sua fisionomia abobalhada quando abria a boca e soltava a musculatura do queixo para pronunciar a palavra “Sol”. No fim, fechem a boca ligeiramente, para terminar a sílaba, dizia.
Minha vontade de atingir o salto de oitava, de não desafinar a nota aguda era tão grande que cerrei bem os olhos até ficar com o rosto cheio de pregas. Estiquei tanto o pescoço que fiquei de cara pra cima. Devia estar parecida com uma galinha bebendo água! Pensando nas instruções da professora, encolhi a barriga e larguei o grito!  

Que o céu enche de luuuuuuuuuuuuuuz!

Consegui, pensei! Abri os olhos e nem sequer tinha começado a fechar “ligeiramente a boca” quando avistei o céu azul imenso, maior que o estádio. Sem uma nuvem sequer. O sol tinha subido e perdido a suave cor amarelada da manhã. Estava ali bem no meio do céu, branquíssimo, lançando seus raios bem em cima de mim. E ele era forte, sério e sem nuances. Estava a meio metro e me ameaçava.
______Menina, canta direito senão eu entro pela tua boca!
Mas a música não podia esperar. Tudo tinha que ser rápido. Eu teria ainda que fechar a boca e inspirar pois a nova frase era longa e já iria começar. Ainda bem que era fácil, pensei. Só tinha que me lembrar de pronunciar bem a palavra “esperança”, para deixar que o contra canto “me fez sonhar”, entoado pelo grupo masculino, também fosse ouvido.

De estrelas,
de luar,
e de esperança.

Não era difícil, pois melodia e letra se davam em movimento descendentes, facilitando assim a afinação. Eu poderia até descer o olhar, baixar um pouco a cabeça e cantar as duas notas mais graves sem muito esforço. Só não podia esquecer era da boa execução do tal ritmo “contrariado” que a professora lembrava para fazermos no fim das frases. Um dia eu e Anita abrimos o livro dela, onde tinha a partitura da música e vimos um balãosinho desenhado a lápis em cima do final de cada frase da segunda parte da peça, onde estava escrito “ritmo contrariado”!
Quando fui me dando conta de que a próxima frase se aproximava, mesmo sabendo de tudo direitinho, de ter ensaiado o ano inteiro, este era o ponto culminante da peça e no fim acontecia uns saltos melódicos muito grandes. Eram como se eu tivesse que saltar três vezes sem sequer descansar a voz. Brincadeira de amarelinha quando temos que saltar de uma vez até o céu e ainda apanhar pedrinhas com um pé só!

Ó Tupã, tira de mim.

Até aqui consegui certinho, pensei! Mas quando fui entoar “tira de mim esta saudade!”, senti que algo estranho estava vindo lá de dentro de mim. Pensei: será que saiu desafinado e não percebi? Ah! se tivesse acontecido algum erro, este já tinha se ido no tempo e  não poderia atrapalhar o resto da peça. Eu iria mesmo era cantar a próxima parte e pronto! Olhei então para a única coisa que deveria olhar naquele momento: o maestro. Lá estava ele longe, no alto de sua pequena torre, movimentando suas mãos. Soltava um meio sorriso tranqüilo, dando sinal para cada grupo que entrava. Eu deixava-me fascinar por sua figura e pensava levemente que uma parte daquele sorriso seria para mim, me assegurando, me confirmando aquilo que eu cantava. Eu estava mesmo era tentando esquecer o que estava vindo de dentro de mim. Era tristeza? Não! Minha mãe diria que era cansaço, que eu precisava dormir. Voltei a olhar para ele e me perguntar se ele sentia o mesmo que eu. As notas repetidas da próxima frase me lembravam a mesma verdade, a de uma nação ideal onde tudo; natureza e gente estavam em equilíbrio. Inspirei fundo e cantei.

Anhangá me fez,
sonhar com a terra que perdi.

Os últimos intervalos vieram acompanhados de uma súbita nostalgia. Compreendi que o que estava vindo de dentro de mim não era tristeza, cansaço ou nostalgia.  Era a leveza. É que ela se anunciava pelos ouvidos.

Hê, hê, hê, hê!

Os últimos sons entoados pelos adolescentes.
Ohhhhhhhh! O estádio inteiro explodia em palmas e gritos!

Janeiro de 2011.



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