O ranger do portão
enferrujado despertou-a de seu esforço para ler
o jornal. A fartura
daquele pedaço de carne
escura, em
contraste com
a branquidão de suas
vestes esparramadas na cadeira,
lembram um berço.
Desarrumadas, as folhas do papel esperneiam em seus braços como uma criança
que se nega a
deitar. Depois
de domá-las levanta a vista, me fixa desinteressada e devolve o olhar
para bem perto do texto.
O gesto de quase
fechar os olhos
para enxergar coisas miúdas é o mesmo
de quando a vejo escolhendo arroz, retirando pedrinhas do feijão
na cozinha.
Incêndio
atinge mais uma vez
o sertão, destruindo grande parte da
mata original.
Ao que tudo
indica, não se trata
de ato criminoso
e sim da prática
das “coivaras”, ainda
muito populares
nas terras da região,
e que dessa vez
fugiram ao controle dos agricultores.
A notícia não lhe comove. O sentido do texto se perde no trabalho de soletrar. Acomodada ali na entrada da casa, parece estar sempre em guarda, como animal de estimação que observa, não diz palavra, mas sabe tudo. Me conhece. Me aceita em silêncio e me permite entrar. Afinal, há quantos anos venho aqui todas as semanas! Tem-me visto crescer e sei que nota qualquer sinal de mudança que acontece comigo. Justamente por isso, tenho medo do seu mutismo. De me mostrar inadequada. Antes esse mal estava associado sobretudo às minhas roupas. Me envergonhava das faixas que só quando os vestidos eram novos estavam no lugar certo, na cintura. A cada lavada duvidava se era eu que espichava ou os vestidos que encolhiam. As blusas ficavam mais curtas e as faixas cada vez mais perto dos braços. Mamãe não entendia muito de proporção, pois ao invés de aumentar o tamanho da blusa, fazia-o na saia. Talvez pensasse que eu só crescia nas pernas. Resultado é que ainda hoje não me livrei da sensação de que sou uma figura comprida dentro de um vestido de boneca. Foi ontem. Deixei de usar meias soquetes. Ainda sinto as dores nas pontas dos pés por causa daqueles sapatos que eu ganhava no natal e que em março já estavam apertando meus dedos. Hoje, embora tente parecer igual a todas as meninas de minha idade, usando pela primeira vez uma roupa que escolhi e de que gosto, ainda me sinto observada. Atravesso rapidamente o pequeno caminho de cimento que corta ao meio o enorme quadrado de areia cinzenta, inexistente jardim que separa interior e exterior da casa. Sei que estou fugindo, entrando na sala desarrumada, repleta de instrumentos, livros, quadros e objetos inacabados. Eles são dádivas para meus sentidos, mas não aliviam minha aflição. Ali, esperando a aula, sinto como se de repente aquelas faixas que tanto me envergonhavam estivessem apertando debaixo dos meus braços. Tempo e mudança se enfrentam dentro de mim. São aquelas pontadas que me atormentam. Aparecem repentinamente sem escolher onde e quando. Tento esconder desviando minha atenção para as figuras de um livro em cima da mesa, mas a intermitência da dor me incomoda, me dá medo. O que é chocante aqui não é sua nudez, mas a forma como ela é tratada, não é? - Claro, realmente a nudez depende da sua localização espacial e temporal. Vai além da condição ou do estado pessoal. No Oriente por exemplo, o pudor é considerado uma virtude. Ele fixa uma barreira entre o humano e a bestialidade. As mulheres sentem-se despidas, se não usam aquele véu. Talvez ele as preserve dos olhares dos outros. E em que idade elas passam a usá-lo? Mas a nudez aqui não se relaciona à vergonha. Parece um sentimento, o que é diferente. Embora esteja nua, a figura permanece insolente e inegavelmente provocativa! Tomo um susto e me pego exclamando alto! Como? Mas ela ainda é uma menina, guarda as faces quadradas de um bebê, a boca de uma criança (Olha o corpo rechonchudo e as pernas curtinhas!). O único sinal de que já é uma mulher são as pantufas de salto alto abandonadas no lençol. A resposta vem em palavras de sapiência. Ela é antes de tudo uma referência audaciosa à célebre Virgem de Urbino, de Titien. Veja aqui! É o protótipo do nu feminino deitado e invisível do exterior. Sua atitude lasciva foi copiada por muitos outros artistas como é o caso da Maja Desnuda, de Goya. Mas esta que você vê aqui vai ser transformada. Transformada? Me dou conta de estar falando alto novamente. Só porque não excita os sentidos? Por que nega seu erotismo? Me acalmo um pouco e continuo. Ou então é porque seu corpo é realçado por uma linha preta. Nas outras, olhando bem de pertinho, essa linha é burlada, diluída. O uso das cores escuras anula a profundidade da cena, mas para mim isso até lhe dá um certo ar de sinceridade!
Sentada
ao piano recebo explicações
numa partitura. Pense em três planos que se
completam. No primeiro, o mais
grave, uma nota
pedal dá sustentação
a tudo o que
vai acontecer. Ela
estará soando o tempo inteiro, lembrando-lhe a base
das harmonias, a profundidade
do discurso musical. No plano intermediário
aparecem ondas sonoras que fluem milimetricamente no tempo,
não importa o que
aconteça. São arpejos,
variação do acorde quebrado,
o Baixo de Alberti, lembra? É que aqui aparecem mais
alongados. Você lembra do Noturno opus
27 n.º 2, de Chopin? Essa peça
lembra muito aquele
tipo de escrita.
Por fim,
no terceiro compasso
aparece em destaque
uma cantilena, espécie
de prece que
se desdobra e se transforma ao longo de toda a peça, certo? Sim! É a
cantilena de Dona
Helena! Não
sei tocar a nota
do baixo e saltar
quase duas oitavas
sem perder um pouco a perspectiva do tempo.
Esses arpejos
imensos que
arrodeiam e arrodeiam sem nunca terminar. Inicio novamente a peça
tentando guardar o baixo
e uni-lo ao arpejo, mas
me frustro, não
consigo obter
o som desejado. Mesmo
assim continuo. Sem
se importar com
minha atitude
irreverente, ela
me instrui. Aqui
as coisas tomam outro
caminho a partir
do compasso 9. A melodia
aparece mais iluminada. Ouça melhor
aquela segunda nota
do baixo, pois
é ela que
abrirá caminho para
essa mudança. Continuo tocando enquanto ela
comenta: atenção, aqui
no compasso 13 você
vai tocar um arpejo só com teclas
negras, portanto deve colocar
sua mão
mais dentro
do teclado para
realizá-lo melhor. Toma
meus braços
e os levanta um pouco
pelos cotovelos,
aliviando-os da tensão. Assim! Curve um
pouco seu
tronco para a
frente, que
ficará mais fácil.
Ela continua encaminhando minha execução.
Aqui no compasso
16 não ponha pedal!
Deixe a melodia soar
como uma prece
solitária, como
se essa espécie de súplica
no fim do compasso
pudesse transformar em
lágrimas até
mesmo um
bloco de pedra.
Estou mais insensível
que um
deles. Sou como aquela areia cinzenta e morta
que circunda esta casa.
Sem possibilidade alguma de que germine algo.
Não escuto esta súplica,
só sinto desalento.
As palpitações recomeçam, alheias ao que ela me diz. Toque o baixo e arraste sua
mão, conservando-a perto
do teclado, guardando essa nota grave como se ela realmente fosse o começo
do arpejo...; e o é, não?
Não consigo
dar sentido a
nada disso quando
toco. Me
desconcentro. A figura é casta. Sua sensualidade é deslocada pelo
pudor, pela
ternura e pelo
abandono. Tudo
isso é por
causa desse corpo
que não
me pertence.
Meus seios!
Duas bolas que
crescem estranhas a mim. Colocadas já inchadas e inflamadas no lugar
das outras. Sem eu
saber. Não
escolhi isso. Ouço novamente
sua voz
e sinto-a empurrar meu
tronco levemente
para a esquerda
. Volte ao início. É melhor você tocar
o baixo dos três
primeiros compassos
com sua
mão direita.
Assim atinge melhor
a nota desejada e controla melhor a sonoridade. Toque primeiro na tecla e (sem pressa)
pressione-a para baixo.
Ela deve soar
mais profundamente,
pois é ela que esclarece e completa o que sua mão direita vai
dizer. Eu não vou conseguir. Me falta energia, firmeza
daquilo que quero. Gostaria de poder expressar-me melhor,
mas sinto os braços
tensos, presos.
A música está distante
de mim, não
consigo captar
o que ela
me diz, me
ensina. É essa aflição
que me
invade. Um som
mais grave
que esse,
mais profundo
que esse,
que desafina minha
música, que
enfraquece meu ritmo.
Que soa dia
e noite como
se anunciasse uma verdade desconhecida.
Ela parece adivinhar
a confusão dos meus
pensamentos quando
interrompe e diz: Não! Não toque esse baixo assim com toda essa gravidade.
Ele só
precisa ressoar,
dar identidade
à sua performance.
Veja, a melodia agora
vai ser duplicada, como
se a prece precisasse ser
reforçada por alguma promessa,
por um
fervor maior
aqui no compasso
19. Enquanto toco,
ela ilustra e encoraja minha execução.
Aqui no compasso
29, não precisa
se justificar. Vão
aparecer apenas
desdobramentos, sussurros, insinuações
inocentes. Muito
bem, continue... Ah! Agora
calma, calma!
Expressivo! Dolcíssimo. A atmosfera vai crescer até o compasso 42, mas
sem exageros.
Afinal, uma prece
é feita baixinho, não?
É o ápice da peça,
a última tentativa
de tocar as estrelas
mais longe,
onde somente lá você vai encontrar
o que procura.
Cuidado! Cuidado!
Ri-te-nu-to. Sem
desespero! Com
serenidade. Bravo! Agora ouça bem! Veja que maravilha! Sua súplica foi
ouvida por
uma voz mais
grave. Ela
lhe assegura de que
foi aquilo mesmo
que você
pediu! Aqui nos
compassos 44, 45 e 46, entendeu? O mais bonito é a
conexão dessa pequena
parte da melodia
em registro grave, com esse looooooongo, longuíííííííssimo arpejo
nos compassos.
47/48 e que vai terminar
numa volta da melodia
na altura original.
Vamos, toque! - Mas
minha mão
é pequena, lhe
respondo. Eu ainda
sou menina. Não!
Não! Experimente desenhar,
com todo
o seu braço,
partindo lá do ombro,
essa curva que
o arpejo faz. Assim
sua mão
pode se expandir. Vamos! Assim!
Viu como dá certo?
Abra a mão e conserve-a espalmada, porque até o fim ela vai precisar dessa posição.
Por que
aquela menina mantém a mão aberta,
cobrindo seu sexo?
Meus pensamentos
voam, meus dedos
seguem quase automáticos
até ela
me lembrar: xiiiiiii! piano,
pianíssimo, pianissííííííssimo,
sussurrando perto de meus ouvidos. Controle sua pressa, contenha sua
ansiedade. Desacelere seu ritmo apressado com
uma visão de eternidade,
tentando dar um
sentido a cada
nota. Essa melodia
pede, às vezes implora, mas nunca se desespera. Não
se inquiete. Se entregue às pulsações do
tempo. Essas pequenas
notas aqui
não precisam seguir
a justeza de um
compasso. Elas
são como
poeira, perdendo-se no espaço, aparentemente
sem comando.
Me encoraja tomando minha
mão e diminuindo seu
peso, a faz deslizar
em cima
do teclado falando baixinho: smor-zan-do.
O técnico da Emater esclareceu: “O regime
de coivara, a rotação
entre as terras,
é intensa: o que
exige que possam dispor
de diferentes áreas
de plantio para
intercalarem as plantações ao longo dos anos”.
Mais
uma onda de desespero
se apodera de mim. São
essas pontadas nos
seios que
me amedrontam. São
como um
metrônomo que
descompassa o meu
ritmo. Esses
vestígios de umidade que me aparecem
inesperadamente para
piorar tudo...
Nunca me
sinto seca, limpa.
Me desconcentro novamente.
Olha como
os seios dela negam seu
erotismo. Estão frontalmente
iluminados. Que isso
quer dizer? Sua presença é perturbadora,
pois me fixa franca e friamente com seu olhar tranqüilo.
Ontem eu
dormi com meus
travesseiros limpos,
secos e cheirosos.
Brancos. Iluminados como
os dela. Acordei e me dei conta
de que um
fio de linha
escura saíra de dentro
deles e roçava minha face. O que faz
aquele gato
a seus pés?
Ronrona. Se roça com
o dorso arqueado à procura
de carinho. Ao contrário,
o cão de Urbino é fiel. Enrodilhado
ao pé da cama,
não interessa de quem.
A mulher nua de Goya é voluptuosa. Tem formas
amplas, acentuadas pelo ventre
redondo. Afirma sua
sensualidade e sedução
de maneira franca
e quase tátil.
Seus travesseiros
são cinzentos.
Por três
anos essas plantações
são intercaladas. Passado
esse tempo,
o solo já
perdeu sua fertilidade
inicial, e a roça
é abandonada.
A
característica desinteressada
da outra cena
é existir uma criada
no segundo plano,
que se funde com
a cor da parede.
O gato, a negra,
a parede. O branco
do lençol pregueado
e o bege mais
denso da colcha
levemente estampada. Mas o atrativo maior são as flores! Natureza morta
se introduzindo inconvenientemente num quadro de nu. Não deveria ter sido
concebido num outro espaço?
Ela
interrompe mais uma vez
meus devaneios
e minha execução
estéril. Vamos tocar
mais uma vez.
Não se preocupe se algumas notas saírem erradas por
engano, ou
se tocar alguns
acordes dissonantes, alheios à música. Eles vão desaparecer na medida em que a execução amadurecer. Enquanto
isso eu
penso naquele fio
áspero e grosseiro.
Indisciplinado no seu caminho. Insolente,
pois não o
reconheço! No entanto ele cresce audacioso e
desafiador. Quem o chamou? Não fui eu!
Nesse momento me
mostro frágil e falo:
sei que estou doente!
Um choro
desesperado me arrasta. Palavras sem nexo saem de mim
sem eu
me sentir.
Vivi tanto tempo
ali! Me
levaram para longe...
eu era
ainda menina
e não sabia. Pobre
de mim! Tudo
mudou tão rapidamente...(soluços). - O que
foi que não
procurei ali! E o que
buscavam de mim? (silêncio).
Tantas coisas trocadas por outras que não conheço! Sem
indagar o significado
de tudo aquilo
ela me
consola e diz, aumentando a voz:
-
Corre aqui, Bié! Vem fazer
um chazinho de caroço
de limão pra
ela!
Ela
abandona o jornal
ao vento e se levanta lentamente
da cadeira lá
fora. O corpo
pesado, as pernas arqueadas, arrastando
os chinelos e seu olhar
de orangotango.
De
pé ao meu
lado, a professora tenta
minimizar minha
angústia. Isso
passa! Não
é nada! Acalme sua
mente! Descanse um
pouco e depois
recomeçamos. Perpassa de volta as folhas da partitura
e me mostra
lá no alto
da primeira folha:
lento e plácido!
Não tenha pudor
de seus sentimentos.
Nos sentimos mesmo despidas quando tocamos. Mas
a nudez é muitas vezes
sinal de humildade.
São Francisco se despiu na praça de Assis. Os loucos,
os seres das florestas
e os hereges também
podem se desvestir. Nesse momento,
o tempo é todo
nosso.
E é eterno. Assim,
preencha-o com o seu
melhor, sua
música.
Vamos
repetir toda
a peça e lembre-se da terminação das frases;
mais leves...
Embora
não manifestando interesse
nas flores que
ela mesmo
vai receber, ela
continua a posar e provocar
o espectador com
seu olhar franco.
Aí
vem a criada com
uma xícara de chá
numa bandeja velha
e sem brilho.
Coloquei também umas florzinhas de laranjeira. Essa menina
está é nervosa!
A
professora dá um sorriso
curto e exclama: é, ela
está impressionada mesmo!
Impressionada,
impressão, impressionismo.
Bebo um gole
do chá de gosto
desenxabido e sinto um
arrepio. Olho
dentro da xícara
e vejo umas bolinhas esverdeadas num líquido que fumaça. Ah!
Então são
essas florzinhas boiando que estão
fazendo cócegas nos
meus lábios.
-
Por que
colocou essas florzinhas, pergunto baixinho.
-
Ah! Isso aí
é segredo, responde e se vira bruscamente,
dando pouca importância
à minha questão
e desaparece diluída na escuridão do corpo da casa.
Ouço a risada baixinha de Dona Helena: é,
ela tem receitas
secretas para cada
um e não
ensina a ninguém!
Segredo,
secreto, segredar,
secretar, secreção...
o que havia de ser
se foi... agora é a angústia
de me pôr
noutra... só restando uma etérea visão e
a nostalgia.
Ela
toma minhas
mãos, esfrega
levemente a parte
mais carnuda
dos meus dedos
contra os dela e fala:
esses últimos
momentos são
apenas ressonâncias
que afloram... Toque-os assim,
de leve, com
os dedos perto
do teclado, sem
muito movimento.
Tomo os últimos
goles do chá
já frio,
enquanto as pétalas
das florzinhas que se movimentam na superfície do líquido
afagam meus lábios.
O vento joga
o jornal que
se engancha na porta.
As terras permanecem em
descanso por
períodos de até
12 anos, até
que os nutrientes
do solo se reconstituam tornando-as
novamente atraentes.
Mércia
Pinto
(Setembro, 2007)
