Introdução.
Antropólogos,
historiadores e cientistas sociais que se preocupam em estudar e compreender a
cultura brasileira são unânimes ao afirmar que uma de suas características mais
marcantes é a diversidade. Resultado de um processo histórico-social peculiar e
de um território de dimensões continentais, mostra a sedimentação, justaposição e entrecruzamento
de tradições colonial católica, indígena, africana e européia, convivendo lado
a lado com ações educativas e comunicativas modernas. No Brasil, país de várias
cores e origens, vive-se simultaneamente
a tradição e a alta modernidade. Não parece tarefa fácil conciliar, num projeto
de educação, democracia e pluralidades, limites e tolerância, justiça e
diferenças. Evidencia-se que em diversos momentos de sua história foram
formuladas diferentemente a relação entre igualdade e liberdade, fundamental no
processo educativo. Se em séculos passados os ecos desses ideais iluminaram de
longe a colônia, no atual momento reconhecer, admitir e instituir diferenças é
condição para sua sobrevivência como nação. Mas como uma diferença pode ser
justa ou não? Quem pode julgá-la? A
partir de que princípios? Pela forma como a globalização tem afetado essa
diversidade, de que ponto considerar este projeto? Das classes dominantes, dos
grupos étnicos, das classes subalternas ou das nações? A partir dos desafios
que os novos tempos mostram, como empreender um projeto educativo emancipador
que propicie uma produção auto-expressiva de práticas simbólicas? Como estender
o conhecimento, a produção e a circulação de bens culturais numa sociedade em
que os processos comunicacionais e
políticos de massa organizam sob novas regras o hegemônico e o subalterno,
desmoronando os limites entre o culto e o popular?
Os
avanços das comunicações têm deixado educadores e intelectuais perplexos diante
desse novo paradigma que se impõe, penetra e modela os campos sociais e de
produção de cultura e conhecimento, cujo princípio básico é a simulação: tudo
se comunica, mas nada se toca. Todos sabem como cultura e lazer estão afetados
por um mundo baseado na noção de redes. Antes de tudo porque ele modifica as
formas convencionais de criação, de manifestação cultural e os hábitos de lazer,
deslocando e eliminando fronteiras entre o lazer e o trabalho, confundindo
sujeito e objeto, produto e produtor, gerando perda de identidade e de
realidade. Ao lado do que o vídeo, o disco e as tecnologias da informação podem
fornecer sobre a diversidade e a riqueza das culturas do planeta, sabe-se o
quanto essas informações podem ser seletivas, incompletas, e distorcidas. Em
meio a isso, que ensinar num mundo em que o que se considera “saber” está à
disposição e perde valor? Como incutir
no educando conceitos morais e éticos universalmente aceitos, sem afetar sua
identidade como membro de uma comunidade
com características singulares? Trazendo a problemática para o campo da
Educação Musical, como chegar a uma evolução através da difusão da arte e do
saber, usando a diversidade da música como riqueza?
O
relato aborda a tentativa de convivência com as
diversidades culturais por meio do ensino da música.
A Experiência.
Dá-se
em 1993, com um grupo de 11 alunos do curso de Licenciatura em Música da Universidade
de Brasília. Não diferindo dos outros cursos de música do Brasil, o currículo é
fundamentado numa tradição criada por forças históricas que nos séculos
passados foram vanguarda e priorizaram, em seus conteúdos, o conhecimento e as
práticas escolares geradas a partir de abordagens feitas por essas forças.
Desta forma, o estudo da música tradicional e da popular não é parte relevante
em sua grade curricular.
Quando
iniciado o trabalho no Departamento de Música, o conteúdo de certas disciplinas
causava inquietude, especialmente na Prática de Ensino. Num período de quatro meses, com quatro horas
semanais, como tornar significativas as atividades? Como garantir numa única
disciplina específica do curso a inter-relação e o aproveitamento dos conteúdos
musicais e pedagógicos apreendidos pelos alunos? Como desenvolver neles a
necessária sensibilidade ao contexto sócio-cultural em que se daria a futura
prática profissional? Como gerar mecanismos de síntese lidando com um currículo
de conteúdos teóricos?
As
lacunas eram muitas. Naquele momento, foi necessário eleger prioridades: o que ensinar; onde
praticar seus conteúdos. Era desejo que os alunos aprendessem a tocar flauta
doce, fizessem pequenos arranjos para vozes e instrumentos elementares. Para
que acontecesse, escolheu-se como local
das atividades o Programa Infanto-Juvenil da UnB, escola-creche que abriga
filhos de funcionários, de professores e de pós-graduandos da instituição. A
convivência entre alunos universitários, crianças oriundas da periferia das
cidades satélites, das camadas intelectualizadas e de estrangeiros remete a um
universo multicultural.
Para
que os alunos pudessem dedicar mais quatro horas semanais à sua prática,
obteve-se da UnB pequena quantia monetária mensal, a título de ajuda. Como o
semestre terminaria em meados de dezembro, elaborou-se um projeto para
encenação de um auto de natal, em que todos os conteúdos programáticos da
creche-escola partissem do mesmo material. Assim, estudos sociais, linguagem e
artes, incluindo música, teriam no auto seu material de trabalho.
O
texto escolhido foi o Pastoril da Cigana, colhido em 1966 num subúrbio de Fortaleza, capital do estado
do Ceará. Evidentemente, a familiaridade com o evento facilitou o trabalho.
Além de quando criança haver dançado e cantado em Pastoris, escrevi duas
monografias sobre o assunto. Posteriormente, o tema foi objeto de estudo de
minha tese de doutorado, defendida em 1997, no Institute of Popular Music da Universidade de Liverpool, na
Inglaterra.
Pastoril, Pastorinhas ou Baile Pastoril são denominações
que tomaram no Brasil as festividades que originalmente revivem a
jornada dos pastores a caminho de Belém, para louvar Jesus Cristo e família. Na
forma e no estilo mais conhecido, o folguedo começou a emergir como evento
popular durante o século XIX,
acompanhando a diversificação dos grupos sociais resultantes do
crescimento das cidades, especialmente daquelas localizadas na região costeira
do nordeste do país. Implantado na colônia no século XVI, como sinal das
grandes mudanças impostas pelo poder lusitano, que teve nos Jesuítas seu braço
ideológico, os autos de natal brasileiros podem ser considerados produto da
mútua influência que a colonização trouxe. Herdeiros das características do
teatro medieval e do jesuítico, eles apresentam-se como testemunho vivo da
mistura entre o sagrado e o profano, o
popular e o culto. Apresentam como material musical canções de procedências
variadas, reelaboração de ritmos de salão europeu, música regional, cirandas,
árias de ópera, abrigando a canção solo e a execução em grupo. Na sua
trajetória de evento popular, ele caminhou em direção à secularização e à
carnavalização, com tendência ao predomínio do cômico e ao desaparecimento das
canções de conteúdo religioso. os esquetes teatrais também desaparecem. Os
diálogos tornaram-se cada vez menores, uma desculpa para que uma nova canção
fosse cantada. No Pastoril da Cigana
há equilíbrio entre o religioso, o profano e o popular. Em seu enredo conta as
aventuras de um grupo de pastores a caminho de Belém. Além de uma cigana que
seduz uma pastora, aparecem vários outros personagens: índios, galegos, negros,
que depois de serem convertidos se juntam ao grupo para visitar a Sagrada
Família. A luta entre o bem e o mal, tão presente no teatro religioso medieval,
caracteriza essa pequena peça, tanto como
a mensagem de tolerância com as diferenças e a união de todos os povos
em torno de ideais éticos universais.
A
principal motivação paea trabalhar com o texto foi seu caráter multicultural, sua
associação de danças, canções e esquetes teatrais, material com o qual se pode
musicalizar as crianças e incentivar os alunos a pesquisar sobre tradições populares brasileiras e aspectos
esquecidos da história do ocidente.
Valoriza-se mais o processo do que o resultado aparente, mas no fim do
ano o grupo fez três apresentações na Universidade de Brasília e outra numa cidade satélite. Foram também promovidos
dois seminários que despertaram interesse de pais e professores das crianças.
Conclusões.
A
experiência em questão foi considerada exemplo de trabalho multicultural em
educação musical, pelo material didático empregado e pelo próprio universo de
pessoas que dela participaram. O fato de haver-se dado em Brasília leva a
refletir sobre a formação da cidade. Concebida dentro dos parâmetros da
arquitetura modernista para sediar a capital do país, exigiu, para construí-la
e implantá-la, o deslocamento de migrantes de todas as regiões. Essa
necessidade de mão-de-obra mostrou, com o tempo, como as migrações levam à
inevitável troca de componentes culturais. O resultado é que 38 anos depois de
sua inauguração (1961), Brasília convive com ofertas simbólicas diversas,
podendo-se conhecê-la pelo culto e pelo popular, pelo massificado e pelo conservador, com a mesma intensidade
de impressões. Seu entorno, onde vive a maioria dos grupos populares, é um
arquipélago, uma colcha de retalhos de grupos que através de diferentes
motivações viabilizam suas identidades. Escolas de samba, religiões esotéricas,
feiras permanentes de cultura regional, bandas de rock e artigos importados fazem parte da paisagem cultural,
provando que a expansão modernizadora, as tecnologias e o desenvolvimento não
conseguiram apagar as manifestações populares. Ao contrário, a cidade mostra que,
se a globalização tende a homogeneizar relações, também favorece a comunicação
entre grupos diferentes, propiciando o encontro com as diversidades. A
impossibilidade de incorporar a
população na produção urbana e a ausência de indústrias têm forçado muitas
pessoas a entrar para o mercado informal. No contexto, o interesse por
atividades alternativas que tenham relação com as culturas tradicionais tende a
florescer (Canclini, p. 251). Necessário considerar que os governantes, por
campanhas culturais e de turismo, têm-se valido de aspectos dessas culturas até
mesmo para fortalecer e legitimar propósitos. À parte isso, os meios de
comunicação de massa têm sido sensibilizados também pelas necessidades de
mercado, incluindo aspectos da cultura popular em sua programação. A
popularidade das novelas, dos festivais, dos programas de música caipira e
popular denotam a transformação e a continuidade da produção de bens
simbólicos.
A receptividade e o interesse do grupo de
universitários e do grupo de crianças que participaram do evento espelharam a
situação da cidade: ambiente social e culturalmente desterritorializado, onde
jovens e adultos com diferentes passados culturais e sociais participavam de um
projeto comum. Os universitários pareciam distantes de suas raízes mas
interessados em conhecê-las, enquanto os pais interessavam-se em relembrá-las e
passá-las para as crianças. E os estrangeiros eram movidos pela vontade de
integrar-se à cultura do país em que viviam naquele momento. Gerir esse
universo mediando a aprendizagem, admitindo e instituindo diferenças, foi
condição para a continuidade do projeto. A interdisciplinaridade do plano de
ação, a pesquisa histórico-cultural e os aspectos multiculturais que o trabalho
com o Pastoril enfocou revelaram como
as especificidades encontram-se perdidas no âmbito urbano, na totalidade e na
amplitude do processo de globalização. Procurar conhecê-las e evidenciá-las
foram aspectos dos mais interessantes da atividade. O apelo à tolerância e à
convivência de todos em torno de princípios éticos universais que o folguedo
encerra deu margem a comparações sobre os ideais da ética contemporânea, em que
os homens definem seus limites a partir do indivíduo e da justiça, e não da
comunidade, como aconteceu no período de hegemonia dos Pastoris. Tudo se esclareceu à medida que o trabalho evoluiu.
Percebe-se
que na virada do século o homem está
interligado e é cosmopolita,
independentemente de vontades. Se o
mundo se transformou, cabe ao educador decifrá-lo para o aluno. Por
discutíveis que sejam os usos comerciais e políticos dos bens folclóricos, é
inegável que grande parte do crescimento e da difusão da diversidade cultural
se deve à indústria fonográfica. Isto sem contar que a comunicação de massa
difundiu internacionalmente o rock, a
música asiática, o jazz ou a música
sertaneja.
Compreendendo
a fragilidade do homem diante deste quadro abrangente, a educação musical deve,
em sua prática, estimular o
ressurgimento e o estudo de culturas musicais e usar o conteúdo da mídia como material
didático. Deslocando o eixo da curiosidade e
do aprendizado dos alunos para fora de seu grupo ou classe social, eles
melhorarão o conhecimento sobre o mundo. Aprendendo sobre outras culturas,
eliminar-se-ão preconceitos e melhorar-se-á a igualdade de oportunidades na
sociedade.
Uma
das respostas do sistema educacional às ameaças de homogeneização da cultura
que a globalização traz deveria incluir música do mundo nas escolas, até mesmo
para incrementar o estudo das diversidades e as trocas de experiências.
Propiciadas pelo que a comunicação entre culturas e grupos pode favorecer,
deve-se revigorar, valorizar culturas regionais e aspectos nelas silenciados, independentemente do quão
virtual possa se tornar a educação. Desta forma, permear o trabalho de educação
musical com projetos multidisciplinares parece ser resposta adequada à
problemática da sobrevivência das tradições culturais de um mundo em
mudança.
Como
no dizer de Regina Leite Garcia (1995, p.45), o papel da escola é também
ensinar a degustar formas e conteúdos
que hoje podem parecer superados, mas que fazem parte das nossas raízes ou
pertencem ao patrimônio cultural da humanidade.
Mércia Pinto
Referências.
Belloni,
Maria Luíza. 1994. “A Mundialização da Cultura”. in Sociedade e Estado. vol IX. N°
1/2. Departamento de Sociologia da UnB.
Bullivant,
B.M. 1981. The Pluralist Dilemma in
Education. Allen and Unwin. Sydney.
Canclini, Nestor Garcia. 1997. Culturas Híbridas. Edusp. São Paulo.
Croft, M. 1981. Education for Diversity. Falmer Press.
London.
Floyd, Malcom. 1996. World Music in Education. Scolar Press. England.
Garcia,
Regina Leite. 1995. Cartas Londrinas e de
outros lugares sobre Educação. Releme-Dumara.
Ortiz,
Renato. 1996. Mundialização e Cultura.
Ed. Brasiliense. S.Paulo.
Pinto, Mércia. 1997. The Brazilian Pastoril, a History of a Popular Musical Genre (tese). University
of Liverpool. England.
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