segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Multiculturalismo e Educação Musical. Relato de uma experiência

  
Introdução.
Antropólogos, historiadores e cientistas sociais que se preocupam em estudar e compreender a cultura brasileira são unânimes ao afirmar que uma de suas características mais marcantes é a diversidade. Resultado de um processo histórico-social peculiar e de um território de dimensões continentais, mostra a  sedimentação, justaposição e entrecruzamento de tradições colonial católica, indígena, africana e européia, convivendo lado a lado com ações educativas e comunicativas modernas. No Brasil, país de várias cores e origens,  vive-se simultaneamente a tradição e a alta modernidade. Não parece tarefa fácil conciliar, num projeto de educação, democracia e pluralidades, limites e tolerância, justiça e diferenças. Evidencia-se que em diversos momentos de sua história foram formuladas diferentemente a relação entre igualdade e liberdade, fundamental no processo educativo. Se em séculos passados os ecos desses ideais iluminaram de longe a colônia, no atual momento reconhecer, admitir e instituir diferenças é condição para sua sobrevivência como nação. Mas como uma diferença pode ser justa ou não? Quem pode julgá-la?  A partir de que princípios? Pela forma como a globalização tem afetado essa diversidade, de que ponto considerar este projeto? Das classes dominantes, dos grupos étnicos, das classes subalternas ou das nações? A partir dos desafios que os novos tempos mostram, como empreender um projeto educativo emancipador que propicie uma produção auto-expressiva de práticas simbólicas? Como estender o conhecimento, a produção e a circulação de bens culturais numa sociedade em que  os processos comunicacionais e políticos de massa organizam sob novas regras o hegemônico e o subalterno, desmoronando os limites entre o culto e o popular?

Os avanços das comunicações têm deixado educadores e intelectuais perplexos diante desse novo paradigma que se impõe, penetra e modela os campos sociais e de produção de cultura e conhecimento, cujo princípio básico é a simulação: tudo se comunica, mas nada se toca. Todos sabem como cultura e lazer estão afetados por um mundo baseado na noção de redes. Antes de tudo porque ele modifica as formas convencionais de criação, de manifestação cultural e os hábitos de lazer, deslocando e eliminando fronteiras entre o lazer e o trabalho, confundindo sujeito e objeto, produto e produtor, gerando perda de identidade e de realidade. Ao lado do que o vídeo, o disco e as tecnologias da informação podem fornecer sobre a diversidade e a riqueza das culturas do planeta, sabe-se o quanto essas informações podem ser seletivas, incompletas, e distorcidas. Em meio a isso, que ensinar num mundo em que o que se considera “saber” está à disposição e perde valor?  Como incutir no educando conceitos morais e éticos universalmente aceitos, sem afetar sua identidade como membro de uma  comunidade com características singulares? Trazendo a problemática para o campo da Educação Musical, como chegar a uma evolução através da difusão da arte e do saber, usando a diversidade da música como riqueza?
O relato aborda a tentativa de convivência com as  diversidades culturais por meio do ensino da música.

A Experiência.
Dá-se em 1993, com um grupo de 11 alunos do curso de Licenciatura em Música da Universidade de Brasília. Não diferindo dos outros cursos de música do Brasil, o currículo é fundamentado numa tradição criada por forças históricas que nos séculos passados foram vanguarda e priorizaram, em seus conteúdos, o conhecimento e as práticas escolares geradas a partir de abordagens feitas por essas forças. Desta forma, o estudo da música tradicional e da popular não é parte relevante em sua grade curricular.

Quando iniciado o trabalho no Departamento de Música, o conteúdo de certas disciplinas causava inquietude, especialmente na Prática de Ensino.  Num período de quatro meses, com quatro horas semanais, como tornar significativas as atividades? Como garantir numa única disciplina específica do curso a inter-relação e o aproveitamento dos conteúdos musicais e pedagógicos apreendidos pelos alunos? Como desenvolver neles a necessária sensibilidade ao contexto sócio-cultural em que se daria a futura prática profissional? Como gerar mecanismos de síntese lidando com um currículo de conteúdos teóricos?

As lacunas eram muitas. Naquele momento, foi necessário  eleger prioridades: o que ensinar; onde praticar seus conteúdos. Era desejo que os alunos aprendessem a tocar flauta doce, fizessem pequenos arranjos para vozes e instrumentos elementares. Para que  acontecesse, escolheu-se como local das atividades o Programa Infanto-Juvenil da UnB, escola-creche que abriga filhos de funcionários, de professores e de pós-graduandos da instituição. A convivência entre alunos universitários, crianças oriundas da periferia das cidades satélites, das camadas intelectualizadas e de estrangeiros remete a um universo multicultural.

Para que os alunos pudessem dedicar mais quatro horas semanais à sua prática, obteve-se da UnB pequena quantia monetária mensal, a título de ajuda. Como o semestre terminaria em meados de dezembro, elaborou-se um projeto para encenação de um auto de natal, em que todos os conteúdos programáticos da creche-escola partissem do mesmo material. Assim, estudos sociais, linguagem e artes, incluindo música, teriam no auto seu material de trabalho.

O texto escolhido foi o Pastoril da Cigana,  colhido em 1966  num subúrbio de Fortaleza, capital do estado do Ceará. Evidentemente, a familiaridade com o evento facilitou o trabalho. Além de quando criança haver dançado e cantado em Pastoris,  escrevi duas monografias sobre o assunto. Posteriormente, o tema foi objeto de estudo de minha tese de doutorado, defendida em 1997, no Institute of Popular Music da Universidade de Liverpool, na Inglaterra.

Pastoril, Pastorinhas ou Baile Pastoril são denominações  que tomaram no Brasil as festividades que originalmente revivem a jornada dos pastores a caminho de Belém, para louvar Jesus Cristo e família. Na forma e no estilo mais conhecido, o folguedo começou a emergir como evento popular durante o século XIX,  acompanhando a diversificação dos grupos sociais resultantes do crescimento das cidades, especialmente daquelas localizadas na região costeira do nordeste do país. Implantado na colônia no século XVI, como sinal das grandes mudanças impostas pelo poder lusitano, que teve nos Jesuítas seu braço ideológico, os autos de natal brasileiros podem ser considerados produto da mútua influência que a colonização trouxe. Herdeiros das características do teatro medieval e do jesuítico, eles apresentam-se como testemunho vivo da mistura entre o  sagrado e o profano, o popular e o culto. Apresentam como material musical canções de procedências variadas, reelaboração de ritmos de salão europeu, música regional, cirandas, árias de ópera, abrigando a canção solo e a execução em grupo. Na sua trajetória de evento popular, ele caminhou em direção à secularização e à carnavalização, com tendência ao predomínio do cômico e ao desaparecimento das canções de conteúdo religioso. os esquetes teatrais também desaparecem. Os diálogos tornaram-se cada vez menores, uma desculpa para que uma nova canção fosse cantada. No Pastoril da Cigana há equilíbrio entre o religioso, o profano e o popular. Em seu enredo conta as aventuras de um grupo de pastores a caminho de Belém. Além de uma cigana que seduz uma pastora, aparecem vários outros personagens: índios, galegos, negros, que depois de serem convertidos se juntam ao grupo para visitar a Sagrada Família. A luta entre o bem e o mal, tão presente no teatro religioso medieval, caracteriza essa pequena peça, tanto como  a mensagem de tolerância com as diferenças e a união de todos os povos em torno de ideais éticos universais.

A principal motivação paea trabalhar com o texto foi seu caráter multicultural, sua associação de danças, canções e esquetes teatrais, material com o qual se pode musicalizar as crianças e incentivar os alunos a pesquisar sobre  tradições populares brasileiras e aspectos esquecidos da história do ocidente.  Valoriza-se mais o processo do que o resultado aparente, mas no fim do ano o grupo fez três apresentações na Universidade de Brasília e outra  numa cidade satélite. Foram também promovidos dois seminários que despertaram interesse de pais e professores das crianças.

Conclusões.
A experiência em questão foi considerada exemplo de trabalho multicultural em educação musical, pelo material didático empregado e pelo próprio universo de pessoas que dela participaram. O fato de haver-se dado em Brasília leva a refletir sobre a formação da cidade. Concebida dentro dos parâmetros da arquitetura modernista para sediar a capital do país, exigiu, para construí-la e implantá-la, o deslocamento de migrantes de todas as regiões. Essa necessidade de mão-de-obra mostrou, com o tempo, como as migrações levam à inevitável troca de componentes culturais. O resultado é que 38 anos depois de sua inauguração (1961), Brasília convive com ofertas simbólicas diversas, podendo-se conhecê-la pelo culto e pelo popular, pelo massificado  e pelo conservador, com a mesma intensidade de impressões. Seu entorno, onde vive a maioria dos grupos populares, é um arquipélago, uma colcha de retalhos de grupos que através de diferentes motivações viabilizam suas identidades. Escolas de samba, religiões esotéricas, feiras permanentes de cultura regional, bandas de rock e artigos importados fazem parte da paisagem cultural, provando que a expansão modernizadora, as tecnologias e o desenvolvimento não conseguiram apagar as manifestações populares. Ao contrário, a cidade mostra que, se a globalização tende a homogeneizar relações, também favorece a comunicação entre grupos diferentes, propiciando o encontro com as diversidades. A impossibilidade de incorporar  a população na produção urbana e a ausência de indústrias têm forçado muitas pessoas a entrar para o mercado informal. No contexto, o interesse por atividades alternativas que tenham relação com as culturas tradicionais tende a florescer (Canclini, p. 251). Necessário considerar que os governantes, por campanhas culturais e de turismo, têm-se valido de aspectos dessas culturas até mesmo para fortalecer e legitimar propósitos. À parte isso, os meios de comunicação de massa têm sido sensibilizados também pelas necessidades de mercado, incluindo aspectos da cultura popular em sua programação. A popularidade das novelas, dos festivais, dos programas de música caipira e popular denotam a transformação e a continuidade da produção de bens simbólicos.

A  receptividade e o interesse do grupo de universitários e do grupo de crianças que participaram do evento espelharam a situação da cidade: ambiente social e culturalmente desterritorializado, onde jovens e adultos com diferentes passados culturais e sociais participavam de um projeto comum. Os universitários pareciam distantes de suas raízes mas interessados em conhecê-las, enquanto os pais interessavam-se em relembrá-las e passá-las para as crianças. E os estrangeiros eram movidos pela vontade de integrar-se à cultura do país em que viviam naquele momento. Gerir esse universo mediando a aprendizagem, admitindo e instituindo diferenças, foi condição para a continuidade do projeto. A interdisciplinaridade do plano de ação, a pesquisa histórico-cultural e os aspectos multiculturais que o trabalho com o Pastoril enfocou revelaram como as especificidades encontram-se perdidas no âmbito urbano, na totalidade e na amplitude do processo de globalização. Procurar conhecê-las e evidenciá-las foram aspectos dos mais interessantes da atividade. O apelo à tolerância e à convivência de todos em torno de princípios éticos universais que o folguedo encerra deu margem a comparações sobre os ideais da ética contemporânea, em que os homens definem seus limites a partir do indivíduo e da justiça, e não da comunidade, como aconteceu no período de hegemonia dos Pastoris. Tudo se esclareceu à medida que  o trabalho evoluiu.

Percebe-se que na virada do século o homem está  interligado e é cosmopolita,  independentemente de vontades. Se o  mundo se transformou, cabe ao educador decifrá-lo para o aluno. Por discutíveis que sejam os usos comerciais e políticos dos bens folclóricos, é inegável que grande parte do crescimento e da difusão da diversidade cultural se deve à indústria fonográfica. Isto sem contar que a comunicação de massa difundiu internacionalmente o rock, a música asiática, o jazz ou a música sertaneja.
Compreendendo a fragilidade do homem diante deste quadro abrangente, a educação musical deve, em sua prática,  estimular o ressurgimento e o estudo de culturas musicais e usar o conteúdo da mídia como material didático. Deslocando o eixo da curiosidade e  do aprendizado dos alunos para fora de seu grupo ou classe social, eles melhorarão o conhecimento sobre o mundo. Aprendendo sobre outras culturas, eliminar-se-ão preconceitos e melhorar-se-á a igualdade de oportunidades na sociedade.

Uma das respostas do sistema educacional às ameaças de homogeneização da cultura que a globalização traz deveria incluir música do mundo nas escolas, até mesmo para incrementar o estudo das diversidades e as trocas de experiências. Propiciadas pelo que a comunicação entre culturas e grupos pode favorecer, deve-se revigorar, valorizar culturas regionais e aspectos nelas  silenciados, independentemente do quão virtual possa se tornar a educação. Desta forma, permear o trabalho de educação musical com projetos multidisciplinares parece ser resposta adequada à problemática da sobrevivência das tradições culturais de um mundo em mudança. 
Como no dizer de Regina Leite Garcia (1995, p.45), o papel da escola é também ensinar a degustar  formas e conteúdos que hoje podem parecer superados, mas que fazem parte das nossas raízes ou pertencem ao patrimônio cultural da humanidade.
Mércia Pinto

Referências.
Belloni, Maria Luíza. 1994. “A Mundialização da Cultura”. in Sociedade e Estado. vol IX.   N° 1/2. Departamento de Sociologia da UnB.
Bullivant, B.M. 1981. The Pluralist Dilemma in Education. Allen and Unwin. Sydney.
Canclini, Nestor Garcia. 1997. Culturas Híbridas. Edusp. São Paulo.
Croft, M. 1981. Education for Diversity. Falmer Press. London.
Floyd, Malcom. 1996. World Music in Education. Scolar Press. England.
Garcia, Regina Leite. 1995. Cartas Londrinas e de outros lugares sobre Educação. Releme-Dumara.
Ortiz, Renato. 1996. Mundialização e Cultura. Ed. Brasiliense. S.Paulo.
Pinto, Mércia. 1997. The Brazilian Pastoril, a History of  a Popular Musical Genre (tese).    University of Liverpool. England.












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