Resumo:
Este texto relata uma
experiência de desenvolvimento de cidadania usando entre outros, o recurso da
música (percussão corporal) como mediadora. Ela se dá com jovens de uma cidade
satélite de Brasília (Recanto da Emas). O(s) autor(es) relata(m) suas primeiras
leituras e como elas contribuíram para a
consolidação do seu projeto. A experiência foi
incluída como atividade de extensão da UnB (decanato de Extensão) e a
meta no futuro é formar multiplicadores que possam desenvolver o mesmo tipo de
trabalho em outras comunidades.
Palavras Chaves: Percussão Corporal-educação informal-inclusão social.
Introdução
Esse texto relata uma experiência de trabalho
comunitário. Ela tem sido desenvolvida no DF desde de 1999 e visa a inserção
social de jovens através da utilização do corpo humano como instrumento
musical. Atividades deste tipo, já foram aplicadas a vários grupos[1]
de contextos sociais e faixa etárias distintas.
O embasamento teórico vem da idéia de que a experiência
estética justificaria por si mesma a exploração da atividade musical em
escolas, além do reconhecimento de que as práticas musicais contém
possibilidades de desenvolvimento de potencialidades pessoais e uma melhoria do
equilíbrio geral do ser humano. (SCHIMITH, 2003, pg. 15)
A música pode oferecer
contribuições relativas à experiência de vida dos indivíduos; criatividade,
auto-expressão, interação social positiva fazendo com que conheçam e participem
da vida cultural de sua comunidade de forma eminentemente mais expressiva.
O corpo como
instrumento de experimentação artística aparece também como um meio adequado
para se desenvolver aspectos essenciais da formação de todo ser humano: audição
interior, sentido rítmico, coordenação
motora, comunicação e interação consigo mesmo e com o próximo.
Encontramos referências ao uso do corpo como meio de inserção social em Márcia
Strazzacapa (2001). Em sua publicação A
Educação e a fábrica de corpos ela
aborda o indivíduo agindo no mundo através de seu corpo, mas especificamente
através do movimento. Enfatiza que a expressão corporal, possibilita às pessoas se comunicarem,
trabalharem, aprenderem, sentirem e serem sentidos. Nosso trabalho tenta
através do corpo oferecer possibilidades concretas para o aprendizado de
elementos musicais como altura, duração, intensidade, senso harmônico, aspectos
de dinâmica e agógica de forma natural, além dos aspectos sociais acima
mencionados. É isso que fundamenta a ação que será descrita a seguir.
As primeiras inquietações - base para a ação educativa.
Em Curitiba- 1997, Indioney Rodrigues,
discípulo de J. Eduardo Gramani foi nossa primeira inspiração para o trabalho
com rítmica. Éramos então bolsista do projeto “Virtuose de Bolsa de Estudos” do MEC. No outro ano, a XVI Oficina
de MPB[2]
de Curitiba, orientada pelo próprio Gramani, nos abriu novos horizontes. A
idéia de um trabalho educativo associando a percussão corporal ficou presente
em nossos pensamentos, mas a tomada de decisão veio quando participamos de uma
oficina de percussão corporal ministrada pelo grupo Barbatuques no Sesc de Vila Mariana (São Paulo 1999)[3].
De volta a Brasília procuramos amigos que também tinham as mesmas aspirações; a
sala de aula já não cabia mais nosso desejo de oferecer uma atividade em grupo
que integrasse socialmente e desenvolvesse potencialidades. Criamos numa escola
particular[4]
de música um projeto chamado Oficina
Rítmica. As atividades eram abertas a todos e sem ônus nas mensalidades.
Durante dois semestres mediamos a aprendizagem musical a partir da consciência
corporal. Esse período serviu de base para os trabalhos posteriores. Conhecemos
também o projeto O Passo desenvolvido
pelo professor Lucas Ciavatta no Rio de janeiro. Embora apreciando suas idéias
sobre movimentação, elas foram de imediato descartadas num possível trabalho,
pela ausência entre nós de alguém com experiência de palco. De início, nossa
prática tomaria a experiência do andar e a exploração das possibilidades de
produção sonoras do corpo.
Como jovens preocupados com as
desigualdades sociais buscávamos uma linguagem que pudessem funcionar de
maneira eficaz em qualquer tipo de comunidade. Assim procuramos nos incluir
numa ação educativa que desse algum retorno ao nosso sonho. Desde de novembro
de 2001, estamos com um grupo de jovens entre treze e vinte e dois anos, na
cidade de Recanto das Emas[5].
São membros da Congregação da Igreja Presbiteriana de Brasília, que desenvolve
um trabalho de inclusão social nesta comunidade, levando profissionais da área
médica, odontológica, jurídica, psicológica e atividades lúdicas, onde nos
incluímos.
A proposta inicial era a iniciação musical
utilizando instrumentos convencionais (violão, teclado, bateria) e não
convencionais (sucatas). O uso da percussão corporal, que, a priori, era uma
ferramenta alternativa, revelou-se o eixo central da proposta, devido às
limitações impostas pela realidade econômica da comunidade, estrutura do espaço
físico e principalmente a motivação dos envolvidos.
O universo de trabalho incluiu dezoito
jovens sem muitas opções de laser, alunos da rede de ensino público e com
defasagem na educação escolar. A primeira apresentação do trabalho foi feita
nas comemorações de aniversário da Congregação. A aceitação da experiência na
comunidade foi tamanha que no encontro posterior a esta apresentação, já
estávamos com vinte alunos. A partir daí
o interesse e a motivação foram crescentes. Peças musicais foram compostas
coletivamente e surgiram convites para apresentações, e oficinas. No decorrer
dos encontros, aspectos como objetivos, planejamento, nome do grupo[6],
foram abordados naturalmente. Os próprios membros criaram suas normas de
funcionamento e estabeleceram metas. A cada etapa cumprida, sente-se entre eles
o prazer da realização pessoal e coletiva, além da descoberta de valores e
perspectivas; interação entre os membros, organização de etapas para a
consecução de alvos.
Os
encontros são realizados todos os sábados no período matutino e com duração de
três horas. Por se tratar de jovens da comunidade evangélica, começamos sempre
com um período de meditação bíblica, e orações. Depois vem o aquecimento
corporal, com alongamentos, exercícios de flexibilidade, respiração entre
outros.
Realizamos
pesquisas de sons pelo corpo;
efeitos de voz, palmas, batidas no peito, batidas dos pés, estalos e movimentos
corporais envolvendo os outros participantes. Depois estimulamos a manipulação
desses sons, a criação de padrões rítmicos e a articulação desses elementos
entre si em pequenas composições. Visando aperfeiçoar a atuação musical e
corporal do grupo, gravamos as peças em áudio e vídeo para posterior análise
sonora e cênica. A representação gráfica das peças é feita em pequenos grupos,
onde cada um cria sua própria “partitura” usando vocabulário próprio, que
posteriormente é comparado entre as outras equipes.
O
movimento do andar e a pulsação formam a base do trabalho, pois permitem que o
tempo seja mapeado, e passe a ser algo concreto e palpável. “Quando o corpo faz
e a cabeça tem condições de pensar este fazer, estabelece-se um diálogo, que
através de uma troca constante torna infinita as possibilidades de
realização”(CIAVATTA, 1997, pg. 4). Exercícios de pergunta e resposta,
improvisação controlada, criação e execução de matrizes rítmicas, realizadas
dentro dessa movimentação corporal, que permitem ao executante avaliar a
compreensão da estrutura rítmica em sua precisão e fluência, fazem parte da
rotina dos encontros. Eles são permeados por jogos: frases rítmicas
compartilhadas por duplas, onde um percute no outro com a responsabilidade de
manter a idéia musical; uso de bolas onde um arremessa para o colega dentro de
uma pulsação específica, realizando pulsações sonoras com estalos, palmas,
sapateados entre outros. Deve-se reconhecer que as leituras e discussões dentro
das disciplinas do curso de licenciatura, em muito nos tem ajudado. A
descoberta da riqueza poética e rítmica das parlendas[7]
serviu para mostrar-nos que o patrimônio cultural brasileiro deve ser explorado
não só como facilitador da aprendizagem mas também como fonte de enriquecimento
cultural. Por outro lado, sabemos do crescente interesse dos jovens das grandes
cidades, pelas danças de rua. Assim, a assimilação de muitos movimentos do
hip-hop nas performances do grupo, deve-se à sua popularidade na comunidade[8].
CONCLUSÕES
O grupo Batucadeiros,
tem se apresentado no Plano Piloto, Samambaia, Ceilândia, em escolas,
orfanatos, igrejas e órgãos públicos. A cada nova apresentação surgem novos
convites um deles foi para que a percussão corporal fizesse parte das
atividades do Coral da UnB. Com a mesma
prática adaptamos ao espaço, número de participantes (cento e cinqüenta) e ao
tempo que varia entre dez a quinze minutos, duas vezes por semana. À dois
semestres uma peça é criada e apresentada em concerto semestral no anfiteatro
09 da UnB. O resultado musical surpreende e motiva alunos e ouvintes.
Com o intuito de suprir nossas limitações teóricas,
inserimo-nos numa disciplina do curso de licenciatura em música (Prática de
Conjunto), cujo programa foi pensado à partir de nossa prática; aprofundar a
pesquisa do corpo, do movimento e do som.
Temos como orientadora a Profa. Mércia Pinto e estamos em pleno processo
de reflexão que envolve as inúmeras facetas do trabalho como: filosofia do
corpo e do movimento, processos psicológicos que envolvem as ações com o corpo,
ação social, elementos pedagógicos musicais, qualidade de vida e ainda o
aperfeiçoamento da técnica e a criação de peças para posteriores
performances. Visando a otimização de
nossos esforços, apresentamos um projeto ao Decanato de Extensão da UnB,
visando um trabalho comunitário (Música e
Qualidade de Vida) nas comunidades de Guará[9],
Sobradinho[10].
Uma das ações do projeto que termina em 12/2003, foi a efetivação da oficina de
percussão corporal na III Semana de
Extensão da UnB envolvendo universitários e jovens das comunidades com as quais
trabalhamos, culminando com uma apresentação no final. Com o objetivo de
incentivar o trabalho com percussão corporal entre os alunos do curso de
música, formamos um grupo que tem se reunido uma vez por semana na hora do
almoço. As atividades englobam não só os exercícios físicos mas a troca de
idéias e a criação de movimentos coreográficos. A experiência tem sido bastante
positiva; uma espécie de laboratório de idéias. A outra ação do projeto é
formar multiplicadores no seio das comunidades. De maneira quase que informal e
orientado pelos componentes do grupo de Recanto das Emas, já foi criado o grupo
“Batucadeirs mirins”, com crianças que ficavam observando os ensaios dos
jovens.
Acreditamos
que ações desta natureza podem ser relevantes para o presente momento da
educação musical no Brasil. A complexidade da vida urbana nas grandes cidades
do país deixam ao descaso milhares de crianças e jovens que mais e mais são
excluídos dos benefícios de qualquer projeto social ou educativo. Como seres
históricos e em formação para nos assumirmos como profissionais do ensino, não
podemos nos esquecer do nosso papel na construção de uma sociedade menos
injusta e de que a sala de aula pode estar na rua, na praça, no galpão de uma
igreja de periferia; onde houver espaço e necessidade para uma ação educativa.
Cabe também às universidades incentivar dentro de suas licenciaturas, a ligação
entre ela e a comunidade. Estágios, trabalhos de pesquisa, programas de
disciplinas são campos adequados para que isso aconteça.
Referências
Bibliográficas:
CARVALHO, Yara Maria de.”O Corpo para os gregos,
pelos gregos e na Grécia antiga”. In SOARES, Carmem (ed) Corpo e História. Editora Autores Associados. Unicamp. Pp 163-175.
2001.
EFLAND, Arthur D. Cultura, Sociedade e Educação em um mundo pós-moderno. Publicação
do SESC/SP. 1998.
HEYLEN,
Jacqueline. Parlenda,
riqueza folclórica-base para a educação musical. Ed. Hucitec. S. Paulo. 1987.
SEVCENKO, Nicolau. A Corrida para o Século XXI. Ed. Schwarcz. S. Paulo. 2001.
SILVA, Ana Márcia. “Elementos para compreender o
corpo: a festa, o circo, a ginástica” in SOARES, Carmem (ed.) Imagens da Educação do Corpo. p 17-31.
Ed. Autores Associados. Unicamp. 1998.
STRAZZACAPA, Márcia. “Técnicas Corporais - à
procura do outro que somos nós mesmos”. In Revista
do Lume. p.45-51. Unicamp. 2001.
VAZ, Alex Fernandes. “Treinar o corpo, dominar a
natureza: notas para uma análise do esporte com base no treinamento corporal”.
In Cadernos CEDES ano XIX, nº 48 p.
89-105. Agosto de 1999.
Mércia Pinto.
Ricardo Amorim.
Rafael Galvão.
Edilênio Souza.
Para ver uma apresentação de percussão corporal, acesse o site abaixo.
https://www.youtube.com/watch?v=BJp7SlE6R2s
https://www.youtube.com/watch?v=BJp7SlE6R2s
Mércia
Pinto:
Professora adjunta do departamento de Música da UnB, onde coordena um núcleo de
estudos de músicas urbanas (NEMUR). É formada em Serviço Social, Piano e
educação Musical pela Universidade Estadual do ceará. Estudou Piano na Alemanha
(Berlim). Fez mestrado e Pedagogia dos Instrumentos de Teclado em Lund-Suécia e
Doutorado na Universidade de Liverpool na Inglaterra. Além de suas atividades
docentes, apresenta-se com freqüência como pianista e tem inúmeras publicações
na área de cultura popular.
Endereço: SQN 407, bloco O apto 105.
70855-150.
Brasília D.F.
Fone:
(061) 347 4533.
Edilênio
Sousa:
Aluno do terceiro semestre de Licenciatura da UnB. Guitarrista, violonista e
compositor. Fundador da Escola de Música
Cordas & Cia, em Brasília. Integrante do grupo Raízes de Música Gospel e do JCBrass-
Orquestra Cristã de BSB. Atuação em música popular, como instrumentista,
arranjador, produtor e diretor musical.
Endereço: QMS 25 Lote 2-A Setor de Mansões de
Sobradinho.D.F.
73001-970
Fones; (061) 485 1077 ou 9649 1037.
Rafael
Galvão:
Aluno de regência da UnB e de piano na Escola
de Música de Brasília. Professor da Orquestra
de Teclados do SESI. Como integrante da banda Dark Avenger, apresentou-se em tournées nacionais por diversas
vezes.
Endereço: SHIN QI 14 conj. 07 casa 22 lago Norte.
Telefones: (0610 577 1285 ou 368 3296 ou 9624
1123.
Ricardo
Amorim:
Aluno de regência na UnB. Como bolsista do projeto Virtuose de bolsas de estudos do MEC, realizou o curso de arranjo
instrumental com Ian Guest no Conservatório
de Música Popular de Curitiba,. Violonista e pesquisador na área de
percussão corporal, realizou oficinas com o grupo Barbatuques de São Paulo e com José Eduardo Gramani em Curitiba.
Endereço: Rua 14 Norte. Lote 03, apto 1201. Águas
Claras- Taguatinga/D.F.
Telefones: (061) 432 2241 ou 9608 5935.
[1]
Estudantes universitários, servidores públicos, escolas de música e grupos
religiosos.
[2] Oficina
XVI de MPB evento que acontece todos os anos em Curitiba.
[3] Barbatuques: grupo profissional em
performances de percussão corporal de São Paulo.
[4] Cordas &Cia. Situada no Plano
Piloto.
[5] Cidade
da periferia de Brasília
[6] O nome
escolhido para o grupo foi “Batucadeiros”.
[7] Versos
de 4 ou 5 sílabas recitados para entreter, acalmar ou divertir crianças.
[8] Alguns
participantes fazem parte de grupos de hip-hop.
[9] A 6 km
do Plano Piloto.
[10] A 10 km
do Plano Piloto.
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