sábado, 25 de outubro de 2014

Percussão Corporal- Relato de uma experiência de desenvolvimento de cidadania no Distrito Federal


Resumo:

Este texto relata uma experiência de desenvolvimento de cidadania usando entre outros, o recurso da música (percussão corporal) como mediadora. Ela se dá com jovens de uma cidade satélite de Brasília (Recanto da Emas). O(s) autor(es) relata(m) suas primeiras leituras e como elas  contribuíram para a consolidação do seu projeto. A experiência foi  incluída como atividade de extensão da UnB (decanato de Extensão) e a meta no futuro é formar multiplicadores que possam desenvolver o mesmo tipo de trabalho em outras comunidades.


Palavras Chaves: Percussão Corporal-educação informal-inclusão social.

Introdução


 Esse texto relata uma experiência de trabalho comunitário. Ela tem sido desenvolvida no DF desde de 1999 e visa a inserção social de jovens através da utilização do corpo humano como instrumento musical. Atividades deste tipo, já foram aplicadas a vários grupos[1] de contextos sociais e faixa etárias distintas.
        O embasamento teórico vem da idéia de que a experiência estética justificaria por si mesma a exploração da atividade musical em escolas, além do reconhecimento de que as práticas musicais contém possibilidades de desenvolvimento de potencialidades pessoais e uma melhoria do equilíbrio geral do ser humano. (SCHIMITH, 2003, pg. 15)
A música pode oferecer contribuições relativas à experiência de vida dos indivíduos; criatividade, auto-expressão, interação social positiva fazendo com que conheçam e participem da vida cultural de sua comunidade de forma eminentemente mais expressiva. 
        O corpo como instrumento de experimentação artística aparece também como um meio adequado para se desenvolver aspectos essenciais da formação de todo ser humano: audição interior, sentido rítmico,  coordenação motora,  comunicação e  interação consigo mesmo e com o próximo. Encontramos referências ao uso do corpo como meio de inserção social em Márcia Strazzacapa (2001). Em sua publicação A Educação e a fábrica de corpos  ela aborda o indivíduo agindo no mundo através de seu corpo, mas especificamente através do movimento. Enfatiza que a expressão corporal,  possibilita às pessoas se comunicarem, trabalharem, aprenderem, sentirem e serem sentidos. Nosso trabalho tenta através do corpo oferecer possibilidades concretas para o aprendizado de elementos musicais como altura, duração, intensidade, senso harmônico, aspectos de dinâmica e agógica de forma natural, além dos aspectos sociais acima mencionados. É isso que fundamenta a ação que será descrita a seguir.
       

As primeiras inquietações - base para a ação educativa.


Em Curitiba- 1997, Indioney Rodrigues, discípulo de J. Eduardo Gramani foi nossa primeira inspiração para o trabalho com rítmica. Éramos então bolsista do projeto “Virtuose de Bolsa de Estudos” do MEC. No outro ano, a XVI Oficina de MPB[2] de Curitiba, orientada pelo próprio Gramani, nos abriu novos horizontes. A idéia de um trabalho educativo associando a percussão corporal ficou presente em nossos pensamentos, mas a tomada de decisão veio quando participamos de uma oficina de percussão corporal ministrada pelo grupo Barbatuques no Sesc de Vila Mariana (São Paulo 1999)[3]. De volta a Brasília procuramos amigos que também tinham as mesmas aspirações; a sala de aula já não cabia mais nosso desejo de oferecer uma atividade em grupo que integrasse socialmente e desenvolvesse potencialidades. Criamos numa escola particular[4] de música um projeto chamado Oficina Rítmica. As atividades eram abertas a todos e sem ônus nas mensalidades. Durante dois semestres mediamos a aprendizagem musical a partir da consciência corporal. Esse período serviu de base para os trabalhos posteriores. Conhecemos também o projeto O Passo desenvolvido pelo professor Lucas Ciavatta no Rio de janeiro. Embora apreciando suas idéias sobre movimentação, elas foram de imediato descartadas num possível trabalho, pela ausência entre nós de alguém com experiência de palco. De início, nossa prática tomaria a experiência do andar e a exploração das possibilidades de produção sonoras do corpo.
Como jovens preocupados com as desigualdades sociais buscávamos uma linguagem que pudessem funcionar de maneira eficaz em qualquer tipo de comunidade. Assim procuramos nos incluir numa ação educativa que desse algum retorno ao nosso sonho. Desde de novembro de 2001, estamos com um grupo de jovens entre treze e vinte e dois anos, na cidade de Recanto das Emas[5]. São membros da Congregação da Igreja Presbiteriana de Brasília, que desenvolve um trabalho de inclusão social nesta comunidade, levando profissionais da área médica, odontológica, jurídica, psicológica e atividades lúdicas, onde nos incluímos.
A proposta inicial era a iniciação musical utilizando instrumentos convencionais (violão, teclado, bateria) e não convencionais (sucatas). O uso da percussão corporal, que, a priori, era uma ferramenta alternativa, revelou-se o eixo central da proposta, devido às limitações impostas pela realidade econômica da comunidade, estrutura do espaço físico e principalmente a motivação dos envolvidos.
O universo de trabalho incluiu dezoito jovens sem muitas opções de laser, alunos da rede de ensino público e com defasagem na educação escolar. A primeira apresentação do trabalho foi feita nas comemorações de aniversário da Congregação. A aceitação da experiência na comunidade foi tamanha que no encontro posterior a esta apresentação, já estávamos com vinte alunos.  A partir daí o interesse e a motivação foram crescentes. Peças musicais foram compostas coletivamente e surgiram convites para apresentações, e oficinas. No decorrer dos encontros, aspectos como objetivos, planejamento, nome do grupo[6], foram abordados naturalmente. Os próprios membros criaram suas normas de funcionamento e estabeleceram metas. A cada etapa cumprida, sente-se entre eles o prazer da realização pessoal e coletiva, além da descoberta de valores e perspectivas; interação entre os membros, organização de etapas para a consecução de alvos. 
        Os encontros são realizados todos os sábados no período matutino e com duração de três horas. Por se tratar de jovens da comunidade evangélica, começamos sempre com um período de meditação bíblica, e orações. Depois vem o aquecimento corporal, com alongamentos, exercícios de flexibilidade, respiração entre outros.
        Realizamos pesquisas de sons pelo corpo; efeitos de voz, palmas, batidas no peito, batidas dos pés, estalos e movimentos corporais envolvendo os outros participantes. Depois estimulamos a manipulação desses sons, a criação de padrões rítmicos e a articulação desses elementos entre si em pequenas composições. Visando aperfeiçoar a atuação musical e corporal do grupo, gravamos as peças em áudio e vídeo para posterior análise sonora e cênica. A representação gráfica das peças é feita em pequenos grupos, onde cada um cria sua própria “partitura” usando vocabulário próprio, que posteriormente é comparado entre as outras equipes.
        O movimento do andar e a pulsação formam a base do trabalho, pois permitem que o tempo seja mapeado, e passe a ser algo concreto e palpável. “Quando o corpo faz e a cabeça tem condições de pensar este fazer, estabelece-se um diálogo, que através de uma troca constante torna infinita as possibilidades de realização”(CIAVATTA, 1997, pg. 4). Exercícios de pergunta e resposta, improvisação controlada, criação e execução de matrizes rítmicas, realizadas dentro dessa movimentação corporal, que permitem ao executante avaliar a compreensão da estrutura rítmica em sua precisão e fluência, fazem parte da rotina dos encontros. Eles são permeados por jogos: frases rítmicas compartilhadas por duplas, onde um percute no outro com a responsabilidade de manter a idéia musical; uso de bolas onde um arremessa para o colega dentro de uma pulsação específica, realizando pulsações sonoras com estalos, palmas, sapateados entre outros. Deve-se reconhecer que as leituras e discussões dentro das disciplinas do curso de licenciatura, em muito nos tem ajudado. A descoberta da riqueza poética e rítmica das parlendas[7] serviu para mostrar-nos que o patrimônio cultural brasileiro deve ser explorado não só como facilitador da aprendizagem mas também como fonte de enriquecimento cultural. Por outro lado, sabemos do crescente interesse dos jovens das grandes cidades, pelas danças de rua. Assim, a assimilação de muitos movimentos do hip-hop nas performances do grupo, deve-se à sua popularidade na comunidade[8].


CONCLUSÕES
       
        O grupo Batucadeiros, tem se apresentado no Plano Piloto, Samambaia, Ceilândia, em escolas, orfanatos, igrejas e órgãos públicos. A cada nova apresentação surgem novos convites um deles foi para que a percussão corporal fizesse parte das atividades do Coral da UnB.  Com a mesma prática adaptamos ao espaço, número de participantes (cento e cinqüenta) e ao tempo que varia entre dez a quinze minutos, duas vezes por semana. À dois semestres uma peça é criada e apresentada em concerto semestral no anfiteatro 09 da UnB. O resultado musical surpreende e motiva alunos e ouvintes.
        Com o intuito de suprir nossas limitações teóricas, inserimo-nos numa disciplina do curso de licenciatura em música (Prática de Conjunto), cujo programa foi pensado à partir de nossa prática; aprofundar a pesquisa do corpo, do movimento e do som.  Temos como orientadora a Profa. Mércia Pinto e estamos em pleno processo de reflexão que envolve as inúmeras facetas do trabalho como: filosofia do corpo e do movimento, processos psicológicos que envolvem as ações com o corpo, ação social, elementos pedagógicos musicais, qualidade de vida e ainda o aperfeiçoamento da técnica e a criação de peças para posteriores performances.  Visando a otimização de nossos esforços, apresentamos um projeto ao Decanato de Extensão da UnB, visando um trabalho comunitário (Música e Qualidade de Vida) nas comunidades de Guará[9], Sobradinho[10]. Uma das ações do projeto que termina em 12/2003, foi a efetivação da oficina de percussão corporal na III  Semana de Extensão da UnB envolvendo universitários e jovens das comunidades com as quais trabalhamos, culminando com uma apresentação no final. Com o objetivo de incentivar o trabalho com percussão corporal entre os alunos do curso de música, formamos um grupo que tem se reunido uma vez por semana na hora do almoço. As atividades englobam não só os exercícios físicos mas a troca de idéias e a criação de movimentos coreográficos. A experiência tem sido bastante positiva; uma espécie de laboratório de idéias. A outra ação do projeto é formar multiplicadores no seio das comunidades. De maneira quase que informal e orientado pelos componentes do grupo de Recanto das Emas, já foi criado o grupo “Batucadeirs mirins”, com crianças que ficavam observando os ensaios dos jovens. 
        Acreditamos que ações desta natureza podem ser relevantes para o presente momento da educação musical no Brasil. A complexidade da vida urbana nas grandes cidades do país deixam ao descaso milhares de crianças e jovens que mais e mais são excluídos dos benefícios de qualquer projeto social ou educativo. Como seres históricos e em formação para nos assumirmos como profissionais do ensino, não podemos nos esquecer do nosso papel na construção de uma sociedade menos injusta e de que a sala de aula pode estar na rua, na praça, no galpão de uma igreja de periferia; onde houver espaço e necessidade para uma ação educativa. Cabe também às universidades incentivar dentro de suas licenciaturas, a ligação entre ela e a comunidade. Estágios, trabalhos de pesquisa, programas de disciplinas são campos adequados para que isso aconteça.

Referências Bibliográficas:
CARVALHO, Yara Maria de.”O Corpo para os gregos, pelos gregos e na Grécia antiga”. In SOARES, Carmem (ed) Corpo e História. Editora Autores Associados. Unicamp. Pp 163-175. 2001.
EFLAND, Arthur D. Cultura, Sociedade e Educação em um mundo pós-moderno. Publicação do SESC/SP. 1998.
HEYLEN, Jacqueline. Parlenda, riqueza folclórica-base para a educação musical. Ed. Hucitec. S. Paulo. 1987.
SEVCENKO, Nicolau. A Corrida para o Século XXI. Ed. Schwarcz. S. Paulo. 2001.
SILVA, Ana Márcia. “Elementos para compreender o corpo: a festa, o circo, a ginástica” in SOARES, Carmem (ed.) Imagens da Educação do Corpo. p 17-31. Ed. Autores Associados. Unicamp. 1998.
STRAZZACAPA, Márcia. “Técnicas Corporais - à procura do outro que somos nós mesmos”. In Revista do Lume. p.45-51. Unicamp. 2001.
VAZ, Alex Fernandes. “Treinar o corpo, dominar a natureza: notas para uma análise do esporte com base no treinamento corporal”. In Cadernos CEDES ano XIX, nº 48 p. 89-105. Agosto de 1999.
Mércia Pinto.
Ricardo Amorim.
Rafael  Galvão.
Edilênio Souza. 

Para ver uma apresentação de percussão corporal, acesse o site abaixo. 

https://www.youtube.com/watch?v=BJp7SlE6R2s

Mércia Pinto: Professora adjunta do departamento de Música da UnB, onde coordena um núcleo de estudos de músicas urbanas (NEMUR). É formada em Serviço Social, Piano e educação Musical pela Universidade Estadual do ceará. Estudou Piano na Alemanha (Berlim). Fez mestrado e Pedagogia dos Instrumentos de Teclado em Lund-Suécia e Doutorado na Universidade de Liverpool na Inglaterra. Além de suas atividades docentes, apresenta-se com freqüência como pianista e tem inúmeras publicações na área de cultura popular.
Endereço: SQN 407, bloco O apto 105.
                70855-150. Brasília D.F.
                Fone: (061) 347 4533.
                Email: mercia@yawl.com.br

Edilênio Sousa: Aluno do terceiro semestre de Licenciatura da UnB. Guitarrista, violonista e compositor. Fundador da Escola de Música Cordas & Cia, em Brasília. Integrante do grupo Raízes de Música Gospel e do JCBrass- Orquestra Cristã de BSB. Atuação em música popular, como instrumentista, arranjador, produtor e diretor musical.
Endereço: QMS 25 Lote 2-A Setor de Mansões de Sobradinho.D.F.
73001-970
Fones; (061) 485 1077 ou 9649 1037.

Rafael Galvão: Aluno de regência da UnB e de piano na Escola de Música de Brasília. Professor da Orquestra de Teclados do SESI. Como integrante da banda Dark Avenger, apresentou-se em tournées nacionais por diversas vezes.
Endereço: SHIN QI 14 conj. 07 casa 22 lago Norte.
Telefones: (0610 577 1285 ou 368 3296 ou 9624 1123.

Ricardo Amorim: Aluno de regência na UnB. Como bolsista do projeto Virtuose de bolsas de estudos do MEC, realizou o curso de arranjo instrumental com Ian Guest no Conservatório de Música Popular de Curitiba,. Violonista e pesquisador na área de percussão corporal, realizou oficinas com o grupo Barbatuques de São Paulo e com José Eduardo Gramani em Curitiba.
Endereço: Rua 14 Norte. Lote 03, apto 1201. Águas Claras- Taguatinga/D.F.
Telefones: (061) 432 2241 ou 9608 5935.






             







[1] Estudantes universitários, servidores públicos, escolas de música e grupos religiosos.
[2] Oficina XVI de MPB evento que acontece todos os anos em Curitiba.
[3] Barbatuques: grupo profissional em performances de percussão corporal de São Paulo.
[4] Cordas &Cia. Situada no Plano Piloto.
[5] Cidade da periferia de Brasília
[6] O nome escolhido para o grupo foi Batucadeiros”.
[7] Versos de 4 ou 5 sílabas recitados para entreter, acalmar ou divertir crianças.
[8] Alguns participantes fazem parte de grupos de hip-hop.
[9] A 6 km do Plano Piloto.
[10] A 10 km do Plano Piloto.

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