segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Saberes e competencias: mundos antagônicos?

Encontro Nacional da ABEM (Associação Brasileira de Etnomusicologia)

Natal/2002.
Tema do encontro: Pesquisa e Formação em Educação Musical.

Saberes e competencias: mundos antagônicos?

Resumo: Estudos empíricos realizados com alunos dos cursos de música da UnB fazem emergir incompatibilidades entre a bagagem cultural trazida e a que encontram dentro da academia, entre um currículo baseado em códigos estéticos do passado e as demandas de um mercado de trabalho cada vez mais diversificado. O texto explora os resultados do estudo e aponta as dificuldades com as quais professores e instituições de ensino da música confrontam-se hoje.

Introdução:
Este texto foi escrito a partir dos resultados preliminares de uma investigação realizada com alunos dos cursos de música da UnB no primeiro semestre de 2001. A preocupação com a melhoria dos cursos de graduação nos motivou a aplicar questionários, entrevistar e observar estudantes visando saber o grau de envolvimento dos mesmos com as atividades oferecidas pelo curso (disciplinas teóricas, coral, big band, orquestra de câmara, pequeno laboratório de música e computação) e como desenvolvem estratégias para sua inserção num  mercado de trabalho cada vez mais diversificado.

Falar sobre cursos de música nas universidades brasileiras é reconhecer que ainda se dedicam quase que exclusivamente à perpetuação da música do passado, abrindo caminho para sua compreensão na mente dos alunos. A UnB não é exceção. Vindos de diferentes contextos de ensino tais como escolas, colégios, aulas particulares, igrejas, clubes, bandas militares, ou mesmo auto-didatismo, os estudantes inserem-se num processo de profissionalização que começa com seu nivelamento pelo vestibular. Currículos, conteúdo das disciplinas e grade horária são apresentados aos mesmos desconhecendo as variadas vivências e expectativas musicais que trazem quando entram para a academia. Expostos uma  pluralidade campos de conhecimento e propósitos educacionais, tentam como podem, aliar por si mesmos os antagonismos que atravessam seu conhecimento, práticas e educação. Para alguns, o impacto da imposição de códigos estéticos alheios ao seu mundo é enorme.
Isto pode ser interessante mas eu não uso[1].

Apesar dos esforços de alguns professores em atuar com um maior grau de pluralismo estético, lhes faltam ações concretas nos processos educativos. Assim, as intervenções da aprendizagem permanecem calcadas no reforço de hábitos perceptivos e pouco no enriquecimento, melhoramento ou atualização deste sistema. O que emerge quando jovens descrevem sua relação com a música é que seu aprendizado choca-se com a inadequação dos currículos e a ausência de formação docente para atender a estas expectativas. O esgotamento do projeto da modernidade na sociedade pós-industrial, trazendo a existência concreta de uma infinidade de fazeres musicais instigam o pesquisador/professor/intérprete a criar modelos de ensino/análise, visando dar conta de suas especificidades, e a academia não está estruturada para tematizar ou acompanhar esta multiplicidade de fazeres como objeto de estudo. A problemática não é observada somente na UnB. Levantamentos feitos nos cursos de música da UNIRIO,  mostram a pluralidade de gostos estéticos e fazeres musicais entre os estudantes.
As descrições registram mudanças recentes que vem transformando as escolas em pontos de encontro para potencialmente todas as músicas. Se os clássicos continuam ocupando posição central e recebendo a reverencia que a cultura musical do ocidente exige, as escolas assistem ao fortalecimento de setores dedicados a deuses menores concorrentes que questionam a existência de cânones (Travassos.1999: p.120).
Para a pesquisadora, os cursos de música são mais adequadamente descritos como mosaicos de repertórios (sic). Diferindo um pouco do objetivo do estudo relatado por Travassos, os dados colhidos na UnB deveriam contribuir para uma tomada de posição por parte de alunos e professores visando  mudanças em seu currículo.

Saberes e competencias.
Começo meu relato com três mini biografias de alunos.
Carlos. Veio do nordeste e mora com a família numa cidade satélite. É aluno de regência. Sobrevive de várias fontes: pequenos arranjos e trilhas sonoras que faz em seu estúdio, toca teclado em churrascarias e restaurantes com seus dois filhos cantores[2]. Nos dias que não tem apresentações, ele e os meninos transformam em sala de aulas, a parte da frente de sua casa, local onde sua esposa trabalha como cabeleireira. Para completar o orçamento doméstico, a família ainda faz e distribui cestas de café da manhã para a clientela da cidade aos domingos.
Luiz. Mora na Capital. Entrou no bacharelato de violão mas apesar de não gostar de ensinar, mudou para o curso de licenciatura. Aos poucos vem aprendendo a tocar outros instrumentos. A flauta transversa e o pandeiro, aprendeu olhando os colegas tocarem ou perguntando a um e a outro como faziam. Sua performance nos três instrumentos o permite participar hoje de um conjunto de choro já com um certo nome na cidade.  As exigências da sobrevivência o tem levado também a trabalhar com trilhas sonoras.
Hélio[3]. Veio de um estado do centroeste para fazer o curso de clarinete. Já tinha também estudado piano mas hoje faz o curso de regência. Como evangélico, é o produtor da vida musical da igreja, regendo o coral, participando dos conjuntos instrumentais e no último ano foi responsável por todo o processo de gravação e distribuição de um CD patrocinado pela sua  comunidade religiosa.

O trecho acima ilustra as relações dos alunos com seus cursos. Mostram de modo subjacente as experiências musicais que trouxeram, as que adquiriram fora dos muros da academia e até que ponto elas ou completam sua formação ou já tomam boa parte de suas competências. O Departamento de música da UnB tem dois tipos de curso; bacharelato e licenciatura. Dentro do bacharelato, encontram-se os cursos para formação do instrumentista de cordas (atualmente sem professor de violino), sopro e canto. Além disto, formam-se também regentes e compositores. A licenciatura forma professores de música para preencher demandas de escolas primárias e secundárias. O número de alunos direcionado para as carreiras de solista ou músico de orquestra  é relativamente pequeno. Estes são estudantes profissionais que já entram no curso com bagagem cultural adquirida em aulas particulares ou conservatórios. Sua prática musical dá-se em orquestras, conjuntos menores que tocam em casamentos, festas, ou como regentes de coros. Em geral não gostam de dar aulas e só o fazem como última alternativa de ganhar algum dinheiro. Só se integram às atividades práticas do curso (orquestra, música de câmara) por obrigação, demonstrando dificuldade de suportar a rotina de orquestras jovens.

Sempre com o mesmo repertório[4].

O sonho de estudar ou mesmo estabelecer-se em alguma orquestra no exterior parece alimentar suas energias durante o curso. Um outro grupo já fez estudos musicais e já possui identidade profissional. São músicos de bandas militares e professores da Escola de Música de Brasília (escola de ensino médio mantida pelo governo do D.F.), que lhes tem exigido o diploma para legitimar seus cargos. A expectativa de uma dupla formação (bacharelato e licenciatura) contempla também a abertura de novas oportunidades de trabalho com novos contatos, mas raramente o desejo de se inserir nas questões do ensino. A análise dos formulários, nos mostra que o curso de licenciatura abriga a maior parte dos alunos. No entanto as entrevistas comprovam que ele é o refugio de vários tipos de estudantes. Depósito de alunos insatisfeitos e decepcionados com as exigências do bacharelato, o curso acolhe também alunos que já são bacharéis mas voltam aos bancos da universidade para conseguir mais um diploma. O curso é tábua de salvação para muitos: os que não se encaixam nos cursos existentes, os que por ausência de professor para seu instrumento mudam de curso e vão ter aulas em outras cidades, além daqueles que pensam que como professor terão uma renda mínima, abrigo das vicissitudes que atingem o músico instrumentista. Mas o que salta aos olhos do observador é a dupla vida musical dos alunos; as discrepâncias entre o modelo de currículo e as práticas solicitadas pelo mercado de trabalho.

Estudantes profissionais e aqueles que trabalham para sobreviver se dividem em duas partes iguais. As práticas musicais exercidas pelos estudantes podem ser compreendidas entre populares, ecléticas ( no sentido daqueles que circulam entre o popular e o erudito) e eruditas. Por fim, um número elevado tem suas práticas na música religiosa. Composto de fiéis de igrejas evangélicas (tradicionais ou protestantes), se tornam cada vez mais numerosos. As igrejas tem abrigado não só cantores e regentes de corais. Eles estão mais e mais organizados como mercado musical paralelo, com lojas, distribuidoras, edição de revistas, programas de TV e rádio. Studios próprios produzindo seus próprios espetáculos e CDs, conjuntos de música que tocam nos serviços religiosos (no mínimo teclado, bateria e guitarras, mas muitas tem até instrumentos de sopro) oferecem alternativas de emprego para muitos estudantes e com perspectiva de permanência no futuro. A maioria dispõe de equipamento de gravação de vídeos, mesa de som, etc. Além disso, possuem suas entidades próprias que apoiam e congregam não só coralistas mas pesquisadores, regentes, e que nós conhecemos muito pouco. Para estes  estudantes, a igreja tem sido a chance de tocar sem as exigências técnicas da academia. Em muitas comunidades eles são incluídos e participam como podem, promovendo assim boa parte de sua a prática e crescimento musical.

O que eu aprendi com a gravação deste CD, desde o momento de escolher as músicas, ensaiar, até sua venda, valeu mais do que quatro anos de UnB[5].

Os que tocam repertório erudito são geralmente alunos de bacharelato em instrumento (piano e cordas) e canto, cursos cuja organização canaliza a prática para tais gêneros. Na possibilidade de atuação profissional, os cantores limitam-se praticamente a cantar em coros, ser professor de canto ou preparador de coral. Para pianistas a limitação de mercado de trabalho é maior por não contarem com a alternativa das orquestras. Ou se é professor ou acompanhador de coros. Para os instrumentistas de sopro ou violão, existe a alternativa de bandas militares ou espaços sociais tais como bares, shoppings, restaurantes ou estúdios onde o blues, o jazz, a MPB e o forró fazem parte da paisagem sonora habitual. Alguns já começam a compreender que este tipo de atividade não será só um “bico”.

Cuido para que meus filhos sejam músicos, mas para mim, sei que será difícil sair dessa vida. Meu curso já se estende por mais de seis anos[6].

Dentro de suas preferencias, os estudantes em início de curso e que residem em Brasília também apreciam o rock. Riem quando pergunta-se por que deixaram a prática deste gênero e dizem não ter mais tempo.

O que dizer dos compositores? Como encaram as atividades de arranjador, trilha sonora? O que conhecem eles sobre o mercado de trabalho que os espera? Este pequeno grupo apresenta-se como estudantes profissionais. Pelas próprias característica do currículo do curso, tem pouca participação nas práticas musicais  oferecidas pela academia e conhecem pouco o universo da realidade do compositor como trabalhador cultural.

Estou fazendo um trabalho de ambientação sonora para uma exposição de pintura, mas não é isto que quero como compositor[7].

Por fim, os que praticam a música sacra tem nos corais o seu grande espaço. São cantores, regentes acompanhadores e até instrumentistas. Dentro da variedade de experiências musicais na vida de estudantes de música da UnB  o grupo mais numeroso é orientado para música popular e a religiosa. No entanto, estas práticas não chegam a mobilizar processos de conhecimento dentro da academia nem tampouco interroga-se sobre os atrativos que exercem nos jovens.  Seus valores e atitudes não geram estratégias de comparação a partir de empréstimos ou de comportamentos musicais destes fazeres[8]. Os dados obtidos nos mostram que as experiências dos alunos entram em conflito com o processo de aquisição de conhecimento oferecido na escola e é compreensível que nestas condições eles começem a formar seus próprios valores, suas próprias atitudes, sua própria prática que não é encontrada dentro da universidade.

Conclusão:
A reflexão sobre o ensino da música,  confronta-se hoje com questões difíceis e contraditórias visto que apreende a dimensão da ruptura introduzida pelas músicas populares, pelas de cunho religioso e pelas vanguardas contemporâneas vis a vis com a música do passado. Esta ruptura nos conduz a uma questão específica pois interroga a necessária continuidade de estratégias de processos educacionais e a exigência de estabelecer uma articulação entre valores musicais do passado e os do presente. A formação do profissional de música não pode ignorar as questões levantadas pela modernidade musical, mas ao mesmo tempo não pode instituir, favorecer uma autonomia hipotética do sujeito sob a base de um mal conhecimento dos valores culturais anteriores. Entender e experienciar fazeres musicais diferentes do nosso, exige estratégias e atitudes pedagógicas específicas: ruptura  com os hábitos tonais, com as técnicas tradicionais de interpretação vocal e instrumental, ruptura com os processos de criação musical etc. Mas como elaborar estas estratégias e  atitudes específicas afim que os processos de empréstimos pedagógicos e apropriação possam conduzir a verdadeiras apropriações criativas da cultura? Tudo isto sublinha a característica interdisciplinar do ensino musical. É estar disponível para novos âmbitos de intervensão: espaços educativos onde a música tem lugar visível, espaços informais orientados para a formação de público, espaços formais onde a música popular, contemporânea ou do passado tem permitido desenvolver ações concretas de trabalhos pedagógicos e até mesmo espaços universitários onde se dá ênfase à formação do músico profissional[9]. A  academização do popular ou a popularização da academia embora signifiquem um caminho para a universidade romper esquemas de apropriação e construção de conhecimento de maneira alternativa à educação musical convencional, enfrenta a problemática da pedagogia dentro das particularidades das formas de produção, circulação e consumo. O reconhecimento de outros textos e contextos musicais nos permitirão ver outras maneiras de ser, fazer e formar o instrumentista ou o professor. No entanto quando falamos de músicas vivas, midiáticas, em mudança e em permanente interinfluencia com músicas e linguagens de outros contextos, implica em conhecer e incluir instrumentos de tradição oral em processos sistemáticos e formais, e os materiais e  pedagogias até hoje sistematizadas tem sido através de partituras. Outra demanda seria a construção destes instrumentos com técnicas de luteria qualificadas. Não podemos negar que existem tentativas de propostas metodológicas entre nós[10]. Muitas delas tem proposto encontrar diversidades musicais sob forma de escuta, jogos musicais, de encorajamentos à criatividade musical e desenvolvimento de gestos criadores em música, mas na maioria são esforços isolados que não tem encontrado o impacto necessário nos lugares de trabalho para fazer destas reflexões, ações contundentes.

Referências.
-CARVALHO, José Jorge de. 1999. “Transformações da Sensibilidade Musical”. in Horizontes Antropológicos. Ano 5, nº 11/ p.53. PPGAS/UFRGS.
-DeNORA, Tia. Music in Everyday life. Cambridge University Press.2000.
-FRANCES, Robert. Les Sciences Humaines devant la Musique Contemporaine. Les Moulineaux: Editions EAP, 1992.
-GARZÓN, Leonardo e outros. Conclusões do GT de Música Popular e Educação. IV Encontro Sulamericano da IASPM. México, 2002.
-GREEN, Lucy. How Popular Musicians Learn- a way ahead for music educatorsSydney: Ashgate Press, 2001.
-LUCAS, Maria Elizabeth. “Música popular à porta ou aporta na Academia?” in Em Pauta. Revista do Curso de Pós-graduação (mestrado) em Música da UFRGS. Ano 4 nº 6, 1992.
-LUNDSTRÖM, Håkan. “Higher Music Education in a Multicultural Society”. In Music of the World’s Culture: a source book for music educators. ISME. p.102, 1998.
-PINTO, Mércia. “Ouvidos para o Mundo- Aprendizado informal de música em grupos da periferia de Brasília”. Comunicação apresentada no encontro da IASPM. México, 2002._
-_____ . O Estudo da Música Popular. Texto apresentado no GT de Música Popular. In Anais do XIII Encontro da ANPPOM. BH/ Minas Gerais, 2001.
-TRAVASSOS, Maria Elizabeth. “Redesenhando as Fronteiras do Gosto: estudantes de música e diversidade”. In Horizontes Antropológicos. Ano 5 nº  11, p.119. PPGAS/UFRGS, 1999.
-STÅLHAMMAR, Börje. “The Space of Music and its Foundation of Values- music teaching and young people’s own music experience”. In International Journal of Music Education. n º 36, p. 35. ISME, 2000.
SUNDIN, Bertil. “Aesthetics and Education: an ill-matched couple?” in International Journal of Music Educationn º 36. p.04. ISME, 2000.


[1] Depoimento de um aluno.
[2] Como ele mesmo disse: música breganeja.
[3] Nomes fictícios.
[4] Depoimento de uma aluna.
[5] Depoimento de um aluno.
[6] Depoimento de um aluno.
[7] Depoimento de um aluno de composição.
[8] Não se tem uma disciplina específica de música brasileira nem tampouco de folclore. A disciplina de música popular é optativa e aberta para alunos de toda a universidade.
[9] A Colômbia tem recorrido a um caminho eloquente neste aspecto.  No último encontro da IASPM realizado no México percebeu-se como os espaços universitários tem dado ênfase à formação do músico profissional com um claro vínculo ou opção pelas músicas populares.
[10] As Ofivinas de Músicas (OBM) que existem com disciplina em vários cursos universitários parece ser a mais sedimentada neste aspecto.

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