quarta-feira, 30 de julho de 2014

Para Luíza nos seus 80 anos.

Fim dos anos sessenta do século passado. Tomei um trem na Estação João Felipe em Fortaleza e fui visitar uma prima. Viagem longa. Naquele tempo saia-se de madrugada e atravessava-se todo o sertão rumo ao oeste do estado. Antonio Bezerra, Caucaia, Boqueirão Guarair, Catuana, Croatá, Curú, Umirim, Tururu, Itapipoca, Anário Braga, Miraima, Teógenes Rocha, Humberto Monte, e Sobral. Alí bifurcava-se a linha. Uma subia pra Camocim e outra descia para Crateús que foi a que segui, passando ainda por Jaíbara, Cariré e Amanaiara. Lá pelas 4 da tarde chego finalmente em Reriutaba. Da cidade eu só conseguia ver dois estirões de pequenas construções de um lado e outro da estação. Saí andando em paralelo à linha do trem pois sabia que meus parentes moravam exatamente numa daquelas casas.  Já tinha andado um bom pedaço quando ouvi o apito da locomotiva que começava a deixar devagarinho o povoado. Acompanhei o barulho da máquina que se apressava em cima daquela infindável dupla de fios de ferro. Quando passou por mim, a danada já ia zinindo e com ela um grito bem alto ecoou:
MÉRCIA PIIIIIIIIIIIIIIIIIINTO!
Era Luíza que de cabeça pra fora da janela de um dos vagões acenava efusivamente para mim. Parecia um boneco de posto de gazolina, balançando os braços enquanto desaparecia numa curva. Só ficou o som de sua risada moleca com que sempre troçava da aluna. Continuei andando e pensando: engraçado, o que é que aquela criatura estará fazendo neste fim de mundo? É, mas nessas alturas, ela também deve estar pensando o mesmo de mim, conclui.
Conheci-a quando estudava no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Nessa época, fim dos anos 1950, a escola funcionava ali na Guilherme Rocha, na altura da Praça Gustavo Barrozo, em frente ao Liceu. Fui aluna muito presente nas atividades da casa. Estudava piano, assistia às aulas de Teoria Musical, História da Música e ainda participava de um grande coral idealizado pelo Orlando Leite. Além disso, mesmo sendo uma adolescente, já me ensaiava como professora de piano orientando alguns alunos. Luíza circulava no meio das atividades dos professores. Duas ou três vezes por semana a via chegando à tardinha para os ensaios do Madrigal, onde ela cantava, e às vezes como boa malandrinha que era, surrupiava algumas guloseimas preparadas por D. Francina, mulher do Orlando.
Um belo dia, começou a circular o boato de que o Conservatório iria mudar-se para o Benfica, na Avenida Visconde de Cauípe 2210. O reboliço foi crescendo e ficando grande. Parece que se ouvia a voz do Orlando dizendo; dividam-se as salas para caber a todos! Quero tudo iluminado, sabe?  E bem ventilado, frisava. A escola funcionaria juntamente com o curso de Arte Dramática e ambas seriam ligados à UFC. A atmosfera era de felicidade e orgulho pelo novo espaço. Lembro-me, em 1960, quando o grande coral cantou na Concha Acústica o Alleluia de Haendel e as Canções de Cordialidade de Villa Lobos, dando boas vindas a Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre que viera a Fortaleza para receber da UFC o título de Doutor Honoris Causa. Ela, franzina no seu vestido claro, mas chamando a atenção pelo turbante e os óculos escuros. Ele magrinho, de pescoço pelancudo e óculos redondos, mais parecia um calanguinho. Eram seguidos por um cortejo de intelectuais locais que lutavam na saída do evento para ficar mais perto do casal, na esperança de uma foto para a posteridade. Depois, na cerimônia de outorga do título, música brasileira e francesa cantada pelo Madrigal alegrava os convivas. Lá estava Luíza com seu enorme “liseuse” de gurgurão róseo, uniforme oficial do grupo. A visita do intelectual ecoou durante muito tempo na cidade e no Conservatório dava mais ânimo aos sonhos da mudança para perto da UFC. Só se ouvia falar dos seminários e dos cursos que os professores iam fazer na Bahia, das conquistas do madrigal em festivais internacionais. Ela  participava de tudo isso. Com sua inteligência discutia questões pertinentes no grupo de professores que se envolviam mais diretamente com o sonho do Orlando de mudar mentalidades e construir uma Escola de Música modelo para o nordeste.
Nossos contatos pessoais foram se estabelecer mesmo foi durante o primeiro vestibular para o curso de licenciatura em música e de bacharelato em instrumento. Na hora em que peguei a prova de português, vi que ali estava um pouco de sua alma. “Mundo Grande” de Carlos Drummond de Andrade foi o texto escolhido. Dividi o primeiro lugar com Neusinha Guedes que na época já era professora do curso de Letras da UFC. Dali em diante nossa convivência foi diária.  A efervescência cultural, característica dos anos 1960, marcava minha juventude. A luta contra o acordo MEC-USAID juntava estudantes e intelectuais que protestando abriam novas frentes de embates. Entre eles, aqueles contra os regimes ditatoriais que disseminavam-se por toda a América Latina.  Como minha professora, Luíza esteve sempre por perto discutindo e ouvindo minhas inquietações. Com ela conheci desde as encíclicas de João XXIII até o cinema de Goddard. De Padre Lebret e sua preocupação com o desenvolvimento global até a visão integradora de Teillard Chardin. Do Pasquim que ela já entrava na conversa rindo do Fradin, até o misticismo de Thomas Merton. Numa disciplina que ela inventou e batizou de “Integração Cultural” os alunos liam sobre história e aprendiam sobre democracia e direitos civis de maneira peculiar. Nas aulas discutia-se até o próprio ócio. Mas  foi também com ela que lemos J. D. Salinger (O apanhador de trigo no campo de centeio), James Baldwin (Da próxima vez, o fogo), conhecemos Miriam Makeba e Stokeley Carmichael. Com Luíza meus ouvidos aprenderam coisas nas vozes de Joan Baez e Bob Dylan.
No recém-fundado curso superior de música respirava-se interesse, liberdade, otimismo e renovação. No Curso de Arte Dramática, o movimento de atores era intenso. O B. de Paiva era incansável na implantação de uma nova mentalidade na cidade. Eu me alimentava de tudo aquilo que estava vivendo. Não me esqueço de que foi nos cursos livres ministrados pela Dalva Stella que ouvi falar pela primeira vez em Folclore e Música Popular como campos de estudos dentro da academia. A procura por inscrições foi tão grande que tiveram que mudar o espaço do curso para o Foyer do Teatro José de Alencar. Nas salas de aulas do Conservatório, grupos se reuniam para ensaiar, outros para discutir sobre política, estética ou mesmo só para conversar. No Teatro Universitário que ficava ao lado, ensaios e apresentações de peças faziam parte da rotina da vida universitária. Em suma, tudo ali parecia um palco iluminado e em todo este ambiente o espírito da Luíza estava presente incentivando, discutindo e apoiando a todos.
Mas um dia faltou luz. Cortaram a fiação que levava energia. E então veio a escuridão. Sem luz, a vida foi invadida pelo mofo. Não se conseguia trabalhar ou estudar. Depois começaram as perdas. Primeiro os empregos, depois os amigos. Uns foram embora, outros desapareceram. Por não enxergarem, muitos se tornaram inimigos.  E foram muitos mesmo.  Vaguei sem rumo, perdida e desconsolada. Era a imagem da menina atingida por Napalm. À procura de luz saí muitas vezes às ruas e fui pega.  Obrigada a permanecer trancada em prédios enormes cheios de pequenos quartos gradeados. Aos poucos fui sabendo que por traz daquele sonhado palco iluminado existia um “making off” que tramava toda aquela desgraça. Também nesse tempo, a Luíza esteve perto de mim, mesmo quando não podia fazer nada! O tempo passava e as trevas se alastravam cada vez mais.  Não apareciam nem pássaros para trazer uma folhinha de Oliveira no bico. Nada! Era só a escuridão.
Um dia a Elba e a Eunice trouxeram umas velas e nos mostraram. Interessantes pois não apagavam quando soprávamos. Ao contrário, iluminavam cada vez mais. E o melhor é que soavam. Aprendemos a manuseá-las e ensinamos muita gente a sopra-las. Aonde íamos carregávamos as bichinhas. Talvez para que pudéssemos ouvir os outros e nos localizarmos. Um grupo se formou rapidamente em torno daquelas velas cantantes. Eu fazia os arranjos e com a Elba copiávamos as partituras. Digo assim, porque eram mesmo um bando de malandrinhas! Reuníamo-nos na casa de D. Vanda ou na minha. Um pequeno queijo branco redondo, um pouco de mel, café e torradas acolhiam a algazarra e também minhas irritações com aquelas que não estudavam e atrapalhavam os ensaios parando a música a toda hora. Mais uma vez, lá estava ela soprando sua velinha conosco e aproveitando qualquer oportunidade para dar sua risada moleca. Casamentos, lançamentos de livros, aniversários de amigos foram iluminados com nossas velas soantes. Depois, eu, Elba e Eunice resolvemos ensinar a soprar em massa. Era uma procissão de crianças de todas as idades que sopravam e aprendiam música. Nessa nova empreitada, lá vinha ela com sua risada moleca, dando apoio ou fazendo troça das ex-alunas. É, mas um dia fiz uma “baldeação” num entroncamento de linha e me mandei. Rodei o mundo e nunca mais voltei, sabe?
Bom, esta é minha estorinha com a Luíza. Não é nenhum conto de fadas, pois no final não tem lição de bondade ou de redenção. Mas tem lutas entre sombras e luzes, bruxos perversos que perseguem a quem pensa diferente, muita briga e brincadeira como toda criança gosta. Também não chega a ser uma ópera pois nenhuma de nós chegaria a tanto! Uma estória de suspense? Hum! Não sei, pois não cometemos nenhum crime hediondo. No entanto nossa estorinha tem muitos inquéritos, detetives, pistas que se apagaram em incêndios, outras que eram falsas e burlaram as investigações, testemunhas que por medo se calaram, outras que por odiarem a liberdade não se calaram e muito mais. O que me lembro bem são dos muitos personagens secundários! Ah, esses enriqueceriam qualquer manual de psiquiatria. Então para que mais emocionante?
Durante todo esse tempo, eu e ela viajamos no mesmo trem. Estivemos juntas, mas em vagões separados, escolhemos descer em lugares diferentes mas aqui acolá ainda ouço seu grito:
MÉRCIA PIIIIIIIIIIIINTO!
E sua risada moleca quando o comboio passa em alguma estação.
Que viva Luíza!

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