sábado, 5 de julho de 2014

Depois da Siesta (à memória de meu pai)



 Lá vem ele retirando o canivete do bolso para fazer as pontas dos lápis e ralhar comigo! Sempre do mesmo jeito. Dorme um pouquinho depois do almoço, levanta, passa o pente fino no cabelo ralo, sai alisando a cabeça e se encaminha para a mesa onde estou fazendo meus deveres. Posso até fechar os olhos, pois já sei a sequência das ações. (Mulher não sabe fazer pontas de lápis), vai dizer, inspecionando cada um deles. (Olha essas pontas! Que serviço porco essas pontas!) Joga-os na mesa ostentando seu costumeiro desdém. (Como se consegue escrever com estas pontas pequenas e grossas assim? Por isso a caligrafia parece um bando de caminho de formiga, tudo fora da linha.) Vira a mão esquerda e aponta o polegar para a frente, coloca um lápis na parte mais carnuda, fixa-o com os outros quatro dedos e aí começa o ritual: tirar lascas compridas e finas da madeira deixando o lápis com a ponta esguia, bem feita, como se fossem novos. Quando eu era pequena gostava de chegar ao colégio com as pontas dos lápis todas feitas por ele. Tinha até pena de usá-los. Sei que é apenas um detalhe, mas o certo é que me sentia orgulhosa, pois ele as fazia como ninguém. Só que depois de poucos dias lá vinha ele novamente: (isso é lá ponta de lápis! Olha aí essas porcarias!) Eu ficava toda encolhida, me sentindo incapaz porque as pontas feitas por mim ficavam feias, curtas e se gastavam rapidamente. (Ninguém senta assim corcunda para escrever), dizia mostrando como deveríamos sentar, colocar o lápis em posição perpendicular, pegá-lo pelo meio com os dedos estirados, sem apertá-lo e escrever levemente no papel. Eu, não! Eu apertava-o com os dedos curvos e lá perto da ponta. Sei que ele não me via como criança. Não imaginava que a cadeira era baixa e a mesa alta. Que era para adultos, e sendo eu pequena só poderia me sentar e escrever daquela forma. (E para que tanta força no risco? Só pra gastar a ponta do lápis e amassar as páginas dos cadernos, bradava já meio zangado!) Não levava em conta que eu não tinha força para fazê-las com as lâminas de barbear velhas que ele descartava. Além disso, eu tinha consciência dos perigos de usar seu canivete afiado. Quantas vezes me cortei com as malditas lâminas, tentando afinar as pontas dos lápis para ficarem iguais às dele. Costumava observá-lo sentado na escrivaninha. O jeito de pegar os livros, a maneira como escrevia. Todas as letras iguais. Milimetrava tudo. Não que eu quisesse imitá-lo. Não! Eu ficava era admirando-o. Sentia que ali ele estava em paz, fora do mundo, passando pacientemente as páginas dos livros, fazendo anotações nas margens. Neste momento não dava conta do barulho dos filhos. Tenho certeza de que ali era onde fazia suas orações. E quando deixava a gaveta aberta? Onde eu via todos aqueles lápis Johan Faber verdes, oitavados e com as pontas impecáveis? A régua preta e a branca, os diferentes tipos de pena, os tinteiros, clipes, bailarinas. A coleção de selos e moedas que ele olhava um por um, falando baixinho, colando com pinças os adquiridos recentemente, limpando as moedas com uma flanela como se fossem as coisas mais importantes para ele. Quando deixava seus mata-borrões à vista eu me divertia tentando decifrar o que restava da sua caligrafia. Só nunca consegui foi me sentar na cadeira feito um escriba nem pegar nos lápis como ele. E aí ele continuava brigando: (que caligrafia é esta? Toda emporcalhada? Cadê a borracha? A colega pediu e não devolveu, perdeu-se no recreio?) Eu é que era desmazelada e culpada de tudo! Muito fácil não gastar as borrachas para quem só escrevia de caneta e não tinha dever de casa para fazer, resmungava eu. Para quem os lápis eram só para anotações escritas de leve naqueles livros enormes: deve, haver, deve, haver.



Um dia ele até me deu um estojo de plástico prateado para que eu guardasse esse tipo de material. Muito útil, pois na tampa tinha um apontador de lápis. No começo foi bom, embora nada como as pontas perfeitas que ele fazia; mas depois a lâmina do estojo enferrujou e eu voltei a usar as velhas lâminas de barbear, ganhando então mais um tipo de repreensão: (Cadê o estojo que lhe dei? Já escangalhou todo? E as capas destes livros? Pra que colar estas figuras bobas? Olha aqui estes dorsos! Todos escangalhados!) Nervoso, se irritava com tudo. Queria encontrar todo o material escolar como tinha entregado no início das aulas e esquecia de que cadernos se acabavam, que borrachas diminuíam com o uso, que na maletinha de madeira que tinha feito para mim quando eu ia ser alfabetizada não cabiam mais todos os livros e cadernos, que nem mais existiam. Não se dava conta de que não indo a aulas, não tendo deveres de casa pra fazer e só escrevendo de caneta, não gastava mesmo material escolar. Aliás, nem material escolar ele tinha! E continuava depreciando minha caligrafia de criança, alegando que eu não sabia fazer nada, como se eu estivesse estudando para também ser o “escrivão da frota”.



(Anda menina! Deixa de besteira! Fica aí escangotada, olhando não sei pra onde!) Dizia quando eu estava aprendendo a ler e costumava me deter na rua soletrando as placas das lojas, dos ônibus ou contando os degraus de uma escada. Eu tomava um susto e corria envergonhada para acompanhá-lo. Sentia-me ridícula e culpada por ser criança, por me distrair e me interessar por coisas sem importância. Policiava-me o tempo todo para evitar suas irritações, mas não adiantava. De repente, por alguma rixa com um irmão, eu abria o “berreiro”, como ele dizia: (É a Mãe d’Água! Vive de boca aberta, chorando). No meio disso tudo, o pior eram as reclamações quando adoecíamos. Precisava de remédio, de médico, e ele achava desnecessário, gasto inútil! Eu me sentia demais, supérflua e pesada a ele. Lembro da ansiedade quando pressentia que ia começar a tossir. Engolir saliva, parar de respirar, mudar de lugar pra ele não ouvir a tosse eram artifícios que eu usava para não ouvir suas brigas. À noite, a coisa piorava. Era mais difícil controlar os acessos. Ele acordava e obrigava-nos a parar de tossir à força. Mamãe costumava dizer: “ô homem azougado!”



Mas no meio disso tudo, tinha uns momentos em que não era grosseiro. Claro! E esses eu guardo com muito carinho. Lembro-me muito bem de um dia de domingo, quando fomos à missa. Não poderia jamais esquecer esse dia, pois usava pela primeira vez o remonte do meu traje de primeira comunhão. De organdi, todo cheio de pregas grandes ao redor da saia e da blusa. Comprido como os das noivas. Tinha até grinalda e véu. Parecia o vestido da minha tia de quem eu tinha ido ao casamento. A única diferença – e esta nunca entendi – era porque no meu buquê, tão bonito, cheio de florezinhas, tinha uma vela no meio. Além disso, minha tia usava seu buquê de forma mais descontraída, assim como se estivesse solto em suas mãos, e eu tinha recebido instruções da catequista para manter o meu bem firme na mão e um pouco afastado do corpo, como se estivesse mostrando-o ou oferecendo-o a todos. Apertei tanto aquele buquê que fiquei vários dias com a mão dolorida. Depois foi que entendi que o aviso era para evitar me queimar com a vela que deveria ficar acesa durante toda a cerimônia. Na outra semana, mamãe fez mais uma prega na saia, encurtando-a até o meio das pernas, e lá fui eu com toda a família para a missa. Véu e tercinho enrolados no pequeno manual, aguentando o calor e as espinhadas do organdi no meu corpo. O chuvisco da madrugada tinha deixado a areia da rua úmida e no caminho me distanciei mais uma vez do grupo, porque parei para ver umas pegadas impressas na areia molhada. Agachei-me e quase de quatro pés tentei atentamente decifrar e soletrar o que estava escrito naqueles baixos-relevos da areia. LA-VIR-MES. Quando levanto minha cabeça, lá estava ele de volta. Devo ter perdido a voz e escurecido a vista. Chegara a hora da costumeira repreensão, pensei. Mas ao contrário, quando dei por mim, seu olhar era manso. Com a perna dobrada mostrava-me a sola do seu sapato novo, onde estava impressa em alto-relevo o nome da marca.



(– Olha aí, nêgo véi! Que era como ele me chamava- Especial, né?)







Minha ansiedade cresce com sua aproximação. Já viu que estou folheando uma de suas revistas da National Geographic. Como nada está certo para ele, me pergunto do que vai reclamar hoje. Posição dos braços, jeito de abrir e passar as páginas da revista? Lógico que vai fazer as pontas dos lápis, mas como já passei de ano e comecei a usar caneta, não pode mais reclamar da minha caligrafia. Apenas, contrariando meu gosto pela tinta “azul real lavável da Pilot”, ele me obriga a usar a “preta permanente da Parker”, sem dar nenhuma explicação convincente. (Isso não é tinta de gente), diz. E só compra aquela cor. No colégio, sinto-me diferente das amigas cujos cadernos são escritos com letras mais claras, e os meus mais parecem ter sido escritos com a nanquim de Pero Vaz Caminha.



Enquanto eu tento selecionar os verbos ingleses da reportagem sobre os flamingos, ele interrompe o que eu estava fazendo, volta algumas páginas da revista e me mostra uma foto da silhueta de uns elefantes contra o pôr-do-sol numa savana da África.



(Você sabe que os elefantes emitem sons inaudíveis ao ouvido humano? São sons de baixa frequência.) Em seguida toma um dos lápis e calmamente começa a fazer sua ponta. (Com isso se comunicam com elefantes de outras manadas que podem estar perdidos.) Pequenas lascas de madeira começam a cair no chão e ele continua: (além disso, conseguem detectar a existência de água até a mais de 5km de distância). Ignorando a tarefa que eu estava fazendo, continua: (esses sons servem também para, no meio das savanas, localizar água, perceber quando chegam as chuvas ou mesmo quando algum perigo se aproxima.) Ignorando mesmo que eu estava fazendo uma tarefa, continuava lendo o texto e me passando o conteúdo. (Os elefantes são animais muito sensíveis. Podem sentir nos pés os movimentos subterrâneos do solo, não é incrível? Sua tromba tem tantos músculos e ele tem tanta habilidade com ela que é capaz até de virar as páginas de um livro.)



O pó negro do grafite se espalha pelo chão, enquanto ele me explica: (quando um elefantezinho está para nascer, as fêmeas da manada se aproximam da futura mãe e fazem um círculo ao seu redor, uma espécie de cordão de isolamento.) Colocando mais força na mão, continua: (o objetivo é proteger a parturiente, deixá-la calma e à vontade para o caso de aparecer algum inimigo que possa causar distúrbio no parto.) Toma outro lápis na mesa e vai falando. (Você sabe que as mães elefantes têm seios parecidos com os dos humanos?) Eu não digo nada, mas fico imaginando aqueles enormes quadrúpedes correndo com dois seios pendurados cheios de leite pra lá e pra cá. Ele continua explicando: (os elefantezinhos sempre caminharão no meio do grupo, protegidos pelos mais velhos. E se um deles está em perigo ou faz alguma coisa errada, não é só a mãe que tem o dever de protegê-lo ou ensiná-lo, mas todas as fêmeas da manada. Veja aqui esta foto. Os elefantezinhos bebendo água, e o grupo de elefantes adultos protegendo-os, fazendo uma espécie de cordão de isolamento enquanto eles saciam sua sede.) Sem reclamar, toma mais um lápis e começa a fazer a ponta, prosseguindo com sua explicação. (As fêmeas dos elefantes costumam, em determinados momentos, se reunir em algum lugar da savana. Este texto fala que os cientistas chegaram à conclusão de que nesses encontros elas prestam respeito à matriarca da manada e aos seus ancestrais.) Depois abre a caixa de lápis de cor, toma um deles, muda a posição dos pés como se houvesse decidido que iria ficar mais tempo ali. Me distraio um pouco e penso nos flamingos. They rest standing  in one leg, Curling a leg under the body keeps the foot warm and conserves body heat. Mas logo ele me tira do devaneio. (Veja aqui esta foto! Elas estão todas juntas com as cabeças voltadas para o centro do círculo. Dizem que nestes momentos também reafirmam os laços de amizade para com o grupo, combinam coisas, armam estratégias para melhor enfrentar as intempéries da vida.) – E falam dos maridos, concluo rapidamente.



(Os elefantes têm o olfato e o senso de direção tão desenvolvidos que quando percebem que estão velhos, fracos e que vão morrer, usam seu conhecimento destas tais ondas sonoras para encontrar o lugar onde seus ancestrais foram esperar a morte. Seguem para lá, choram por eles e ficam esperando também sua morte.) Eu estava calada até esse momento, mas daí por diante resolvi participar um pouquinho e disse: – olha que estranha esta foto de elefantes andando numa praia. (Isso aí é no Gabão, me responde entusiasmado.) – Gabão, Ga-bão! Que lugar de nome estranho, penso eu! Como se estivesse lendo meus pensamentos, ele esclarece: (o lugar é muito árido, mas eles, com seu senso de direção, encontram partes mais verdes onde podem comer à vontade, e muitas vezes essas partes ficam perto da praia.) Para de falar e fica lendo. Depois pensa um pouco e começa a explicar o que leu. (Aqui diz que nas florestas do Gabão as fêmeas de elefantes e seus filhotes fazem trilhas que do mesmo jeito são percorridas por gerações com seus filhotes. Ninguém sabe por que elas assim fazem. Olha aqui que interessante! Elas entram com suas crias numas grutas dentro da floresta e se comportam como se ali estivessem mostrando para eles cada detalhe do lugar; cheiram as paredes, o chão, observam tudo e voltam pela mesma trilha. O dado triste é que sendo um costume, elas se tornam presas fáceis para muitos caçadores que, descobrindo as trilhas, matam-nas!) Finalmente olha para o resto do material escolar que está em cima da mesa e começa a disparar suas reclamações: (Olha isto aqui! Régua, esquadro, transferidor, compasso e este dicionário. Tudo já riscado. Vocês escangalham tudo! Só me dão prejuízo!) Por fim, sopra o canivete, fecha-o e o põe no bolso da calça. Olha as horas no relógio de algibeira e lá vai ele para o trabalho, com seu terno de riscado carregando sua vaidade; a caneta Pelikan de pena de ouro no bolso da camisa e seu sapato novo SEM RIVAL. Espalhados no chão ficam o pó do grafite e as lascas de madeira, pois ele não é porcalhão! Levanto a cabeça, vejo a ponta do seu paletó desaparecendo no umbral da porta e tenho vontade de lhe lembrar: – Ei, pai, falta reclamar da comida que nos dá, do chão que pisamos, do ar que respiramos, não?



Continuo minha tarefa e no meio de tantos verbos que eu deveria coletar no texto, ainda consegui, com meus rudimentos de inglês, entender que os flamingos são aves migratórias que apesar de sua língua áspera e de seus bicos curiosos, são como os pombos, alimentam seus filhotes com uma espécie de líquido vermelho escuro que sai de dentro do seu bico. Se ainda estivesse aqui, com certeza me diria: (ora, ora, ora! Para que serve esta tua cabeça? Só para separar as orelhas?




Mércia Pinto.

Clique aí para ver a  dança dos Flamingos.

 


BsB 2009

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