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Nicolau era o papagaio de minha avó. Naquele tempo,
além dos agregados familiares que moravam e trabalhavam na casa, só saindo
quando se casavam, ainda se criavam muitos bichos; soins, gatos, cachorros, e
não faltava um papagaio que comia os restos de miolos de pão com café que
sobravam na mesa. Assim era na casa da minha avó. Viviam com muita
simplicidade, mas a população de agregados e bichos parecia não pesar no
orçamento familiar.
Nicolau era especial. Com seu olhar redondo e
vidrado, pés virados para dentro, emprestava até seu nome para o
apelido de quem andava meio cambota. Cantava o dia todo.
ó preta ó
preeta, lá do sertãââo, jogando as cartas, no meio do chão. O resto
da canção Maria lhe ensinava cantando, mas ele nunca aprendia a
ir até o fim. Vivia numa arandela de flandre pendurada lá em
cima da parede da cozinha. Dali, sempre cambaleando, vislumbrava todo o
movimento da casa. Se alguém aparecia, ele ia logo ironizando antecipadamente
a atenção que lhe dariam: "dê cá o pé, meu louro", falava.
Pela manhã irritava a todos porque acordava cedo e ficava repetindo
as mesmas palavras: Maria, quero café,
café, café!, enquanto Maria ainda fazia o fogo. Durante o dia, Nicolau
tinha vários momentos de exaltação discursiva, mas os matutinos e vespertinos
eram inevitáveis. Todo o repertório de palavras, canções e ruídos
que aprendera na floresta eram repetidos ininterruptamente por horas a fio,
até ele se acalmar.
Os netos de minha avó gostavam muito de Nicolau,
que quando nos via passando pela cozinha ia logo dizendo: camone boy! Tinha aprendido a expressão conosco, que
víamos os filmes de cowboys e aprendêramos a cumprimentar as pessoas com
essas palavras, as únicas que entendíamos da película. Como casa de avó era
para se fazer tudo que não se fazia na casa dos pais, já
entrávamos correndo, passando por dentro dos quartos e salas, atravessando
a cozinha, só parando no quintal. Ali costumávamos reinterpretar as cenas dos
filmes a que assistíamos. Nos dividíamos entre bandidos e mocinhos,
cada um com um graveto de pau que funcionava como revólver. Nos escondíamos
todos e, como faziam os mocinhos, repetíamos seus gestos de colocar só uma
pequena parte da cabeça de fora do esconderijo para enxergar o inimigo, atirar
e depois nos encolhermos novamente. Aí entrava toda sorte de sons que ouvíamos
no cinema e que podiam reconstruir a atmosfera daquelas cenas no deserto do
Arizona. Havia momentos de barulheira total dentro de casa, quando
resolvíamos reinventar as batalhas entre índios e brancos, gritando como
os índios e correndo como cavalos desde o quintal até a porta da rua. Hoje,
quando me lembro, parece que minha avó e o resto da família tinham uma espécie
de botão que desligavam para não ver nem ouvir tal algazarra na casa. Ninguém
saía de suas funções, ninguém reclamava do barulho ou mesmo da sujeira que
fazíamos por lá! Era como se cada grupo vivesse seus fantasmas sem que o outro
interferisse. Mas um dia Nicolau pregou uma peça nos netos da velha, acabando
assim com aquela invasão de bárbaros em seu território. Certa hora, quando estávamos
mais absortos na nossa encenação de bandido e mocinho, ouvimos uma voz
que passou a nos denunciar seja lá onde estivéssemos: BUÁ TILLLL. Era
Nicolau que tinha aprendido a, como nós, imitar o som das balas dos
mocinhos e bandidos, ricocheteando nas pedras do deserto. Assim, onde pudéssemos
nos esconder ele estaria a falar BUÁ TILLL, entregando ao grupo inimigo nossos
esconderijos.
Pobre Nicoláu! Acabou seus dias de forma trágica!
Quando meu avô morreu, a comoção da família foi
intensa. Um mês de cama e mais seis dias em coma e o velho por fim se foi. Só
se ouviam os lamentos dos filhos: papai morreu, papai morreu, papai morreu!
Luto absoluto por um ano, falavam pra costureira que faria os vestidos de toda a
família. Só os netos usariam três meses de luto fechado e o resto do ano aliviado,
decidindo nossos destinos baseados numa tradição que eu tomava conhecimento
pela primeira vez. Em casa, parecia tudo vazio, A vida estava suspensa.
Só funcionavam Maria, que apesar do seu luto cozinhava todas as roupas da
família na tinta preta para que outras cores não entrassem naquele tempo, e as
reuniões dos membros do clã para relembrar afetos e emoções do tempo em que o
velho era vivo. Me lembro dessas intermináveis reuniões em torno da mesa,
onde aos poucos a memória do velho ia sendo purificada e enriquecida. Na hora
das refeições, todos comiam calados. Nem Nicolau perturbava. De repente um dos
membros da família ficava parado. Se estivesse comendo, o talher parava onde
estava, a respiração não se efetuava e a cabeça ficava baixa. O tempo se
abria para se ouvir o som do seu choro alto e convulsivo.
Aquilo era para mim um ritual novo, que eu nunca tinha presenciado. Sabia que
meu avô tinha morrido, mas não sabia que o luto seria sentido e até provocado
através de rituais. Nem que o do meu avô levaria tanto tempo e de forma tão
trágica e grave. A casa ficou triste feito um prato de macarrão na
água e no sal. Feito vestido velho e desbotado. O peso da morte foi tão
grande que até as brincadeiras não tinham como se realizarem. Olhávamos uns
para os outros e nada engatava, tão impotentes que estávamos para
manifestarmos qualquer forma de vitalidade. Só se ouviam os lamentos que
ecoavam dentro de casa: papai morreu, papai morreu, papai morreu! Assim foi
durante muitos dias; e as crianças, sem se darem conta, foram envolvidas no
mesmo resguardo que o tempo exigiu.
As emoções da família só começaram a reaparecer,
voltando ao rebuliço habitual, no dia em que fui entrando na casa e percebi um
grande alvoroço que entrava pela cozinha e saia pelo quintal. Era minha mãe,
com um cabo de vassoura, que corria bravejando atrás de Nicolau, que tentava
se defender gritando: Ai! Papai Morreu! UHHHHHHHHH! Papai Morreu!UHHHHHHHHH!
Coitado do Nicolau! Não acredito que estivesse fazendo pouco dos exageros emocionais
da família, como acreditou minha mãe. Para mim ele estava também de
luto. Ou numa compreensão menos dramática, ele estava no
mínimo feliz por ter acrescentado mais algumas palavras ao
seu repertório.
Nunca mais ouvimos falar de Nicolau!
Mércia Pinto/2009

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