MÉRCIA PIIIIIIIIIIIIIIIIIINTO!
Era Luíza que de cabeça pra fora da janela de um dos vagões acenava
efusivamente para mim. Parecia um boneco de posto de gazolina, balançando os
braços enquanto desaparecia numa curva. Só ficou o som de sua risada moleca com
que sempre troçava da aluna. Continuei andando e pensando: engraçado, o que é
que aquela criatura estará fazendo neste fim de mundo? É, mas nessas alturas, ela
também deve estar pensando o mesmo de mim, conclui.
Conheci-a quando estudava no Conservatório de Música Alberto
Nepomuceno. Nessa época, fim dos anos 1950, a escola funcionava ali na
Guilherme Rocha, na altura da Praça Gustavo Barrozo, em frente ao Liceu. Fui
aluna muito presente nas atividades da casa. Estudava piano, assistia às aulas
de Teoria Musical, História da Música e ainda participava de um grande coral
idealizado pelo Orlando Leite. Além disso, mesmo sendo uma adolescente, já me
ensaiava como professora de piano orientando alguns alunos. Luíza circulava no
meio das atividades dos professores. Duas ou três vezes por semana a via
chegando à tardinha para os ensaios do Madrigal, onde ela cantava, e às vezes
como boa malandrinha que era, surrupiava algumas guloseimas preparadas por D.
Francina, mulher do Orlando.
Um belo dia, começou a circular o boato de que o
Conservatório iria mudar-se para o Benfica, na Avenida Visconde de Cauípe 2210.
O reboliço foi crescendo e ficando grande. Parece que se ouvia a voz do Orlando
dizendo; dividam-se as salas para caber a todos! Quero tudo iluminado,
sabe? E bem ventilado, frisava. A escola
funcionaria juntamente com o curso de Arte Dramática e ambas seriam ligados à
UFC. A atmosfera era de felicidade e orgulho pelo novo espaço. Lembro-me, em
1960, quando o grande coral cantou na Concha Acústica o Alleluia de Haendel e as Canções de Cordialidade de Villa Lobos,
dando boas vindas a Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre que viera a Fortaleza
para receber da UFC o título de Doutor
Honoris Causa. Ela, franzina no seu vestido claro, mas chamando a atenção
pelo turbante e os óculos escuros. Ele magrinho, de pescoço pelancudo e óculos
redondos, mais parecia um calanguinho. Eram seguidos por um cortejo de
intelectuais locais que lutavam na saída do evento para ficar mais perto do
casal, na esperança de uma foto para a posteridade. Depois, na cerimônia de
outorga do título, música brasileira e francesa cantada pelo Madrigal alegrava
os convivas. Lá estava Luíza com seu enorme “liseuse” de gurgurão róseo,
uniforme oficial do grupo. A visita do intelectual ecoou durante muito tempo na
cidade e no Conservatório dava mais ânimo aos sonhos da mudança para perto da
UFC. Só se ouvia falar dos seminários e dos cursos que os professores iam fazer
na Bahia, das conquistas do madrigal em festivais internacionais. Ela participava de tudo isso. Com sua inteligência
discutia questões pertinentes no grupo de professores que se envolviam mais
diretamente com o sonho do Orlando de mudar mentalidades e construir uma Escola
de Música modelo para o nordeste.
Nossos contatos pessoais foram se estabelecer mesmo foi durante
o primeiro vestibular para o curso de licenciatura em música e de bacharelato
em instrumento. Na hora em que peguei a prova de português, vi que ali estava
um pouco de sua alma. “Mundo Grande” de Carlos Drummond de Andrade foi o texto
escolhido. Dividi o primeiro lugar com Neusinha Guedes que na época já era
professora do curso de Letras da UFC. Dali em diante nossa convivência foi
diária. A efervescência cultural,
característica dos anos 1960, marcava minha juventude. A luta contra o acordo
MEC-USAID juntava estudantes e intelectuais que protestando abriam novas
frentes de embates. Entre eles, aqueles contra os regimes ditatoriais que
disseminavam-se por toda a América Latina. Como minha professora, Luíza esteve sempre por
perto discutindo e ouvindo minhas inquietações. Com ela conheci desde as
encíclicas de João XXIII até o cinema de Goddard. De Padre Lebret e sua
preocupação com o desenvolvimento global até a visão integradora de Teillard
Chardin. Do Pasquim que ela já
entrava na conversa rindo do Fradin, até o misticismo de Thomas Merton. Numa
disciplina que ela inventou e batizou de “Integração Cultural” os alunos liam
sobre história e aprendiam sobre democracia e direitos civis de maneira
peculiar. Nas aulas discutia-se até o próprio ócio. Mas foi também com ela que lemos J. D. Salinger (O
apanhador de trigo no campo de centeio), James Baldwin (Da próxima vez, o
fogo), conhecemos Miriam Makeba e Stokeley Carmichael. Com Luíza meus ouvidos aprenderam
coisas nas vozes de Joan Baez e Bob Dylan.
No recém-fundado curso superior de música respirava-se
interesse, liberdade, otimismo e renovação. No Curso de Arte Dramática, o
movimento de atores era intenso. O B. de Paiva era incansável na implantação de
uma nova mentalidade na cidade. Eu me alimentava de tudo aquilo que estava
vivendo. Não me esqueço de que foi nos cursos livres ministrados pela Dalva Stella
que ouvi falar pela primeira vez em Folclore e Música Popular como campos de
estudos dentro da academia. A procura por inscrições foi tão grande que tiveram
que mudar o espaço do curso para o Foyer do Teatro José de Alencar. Nas salas
de aulas do Conservatório, grupos se reuniam para ensaiar, outros para discutir
sobre política, estética ou mesmo só para conversar. No Teatro Universitário
que ficava ao lado, ensaios e apresentações de peças faziam parte da rotina da
vida universitária. Em suma, tudo ali parecia um palco iluminado e em todo este
ambiente o espírito da Luíza estava presente incentivando, discutindo e
apoiando a todos.
Mas um dia faltou luz. Cortaram a fiação que levava energia.
E então veio a escuridão. Sem luz, a vida foi invadida pelo mofo. Não se
conseguia trabalhar ou estudar. Depois começaram as perdas. Primeiro os
empregos, depois os amigos. Uns foram embora, outros desapareceram. Por não enxergarem,
muitos se tornaram inimigos. E foram
muitos mesmo. Vaguei sem rumo, perdida e
desconsolada. Era a imagem da menina atingida por Napalm. À procura de luz saí
muitas vezes às ruas e fui pega. Obrigada
a permanecer trancada em prédios enormes cheios de pequenos quartos gradeados. Aos
poucos fui sabendo que por traz daquele sonhado palco iluminado existia um
“making off” que tramava toda aquela desgraça. Também nesse tempo, a Luíza
esteve perto de mim, mesmo quando não podia fazer nada! O tempo passava e as
trevas se alastravam cada vez mais. Não
apareciam nem pássaros para trazer uma folhinha de Oliveira no bico. Nada! Era
só a escuridão.
Um dia a Elba e a Eunice trouxeram umas velas e nos
mostraram. Interessantes pois não apagavam quando soprávamos. Ao contrário,
iluminavam cada vez mais. E o melhor é que soavam. Aprendemos a manuseá-las e ensinamos
muita gente a sopra-las. Aonde íamos carregávamos as bichinhas. Talvez para que
pudéssemos ouvir os outros e nos localizarmos. Um grupo se formou rapidamente
em torno daquelas velas cantantes. Eu fazia os arranjos e com a Elba copiávamos
as partituras. Digo assim, porque eram mesmo um bando de malandrinhas! Reuníamo-nos
na casa de D. Vanda ou na minha. Um pequeno queijo branco redondo, um pouco de
mel, café e torradas acolhiam a algazarra e também minhas irritações com
aquelas que não estudavam e atrapalhavam os ensaios parando a música a toda
hora. Mais uma vez, lá estava ela soprando sua velinha conosco e aproveitando
qualquer oportunidade para dar sua risada moleca. Casamentos, lançamentos de
livros, aniversários de amigos foram iluminados com nossas velas soantes.
Depois, eu, Elba e Eunice resolvemos ensinar a soprar em massa. Era uma
procissão de crianças de todas as idades que sopravam e aprendiam música. Nessa
nova empreitada, lá vinha ela com sua risada moleca, dando apoio ou fazendo
troça das ex-alunas. É, mas um dia fiz uma “baldeação” num entroncamento de
linha e me mandei. Rodei o mundo e nunca mais voltei, sabe?
Bom, esta é minha estorinha com a Luíza. Não é nenhum conto
de fadas, pois no final não tem lição de bondade ou de redenção. Mas tem lutas
entre sombras e luzes, bruxos perversos que perseguem a quem pensa diferente,
muita briga e brincadeira como toda criança gosta. Também não chega a ser uma
ópera pois nenhuma de nós chegaria a tanto! Uma estória de suspense? Hum! Não
sei, pois não cometemos nenhum crime hediondo. No entanto nossa estorinha tem
muitos inquéritos, detetives, pistas que se apagaram em incêndios, outras que
eram falsas e burlaram as investigações, testemunhas que por medo se calaram,
outras que por odiarem a liberdade não se calaram e muito mais. O que me lembro
bem são dos muitos personagens secundários! Ah, esses enriqueceriam qualquer
manual de psiquiatria. Então para que mais emocionante?
Durante todo esse tempo, eu e ela viajamos no mesmo trem. Estivemos
juntas, mas em vagões separados, escolhemos descer em lugares diferentes mas
aqui acolá ainda ouço seu grito:
MÉRCIA PIIIIIIIIIIIINTO!
E sua risada moleca quando o comboio passa em alguma estação.
Que viva Luíza!


