quarta-feira, 30 de julho de 2014

Para Luíza nos seus 80 anos.

Fim dos anos sessenta do século passado. Tomei um trem na Estação João Felipe em Fortaleza e fui visitar uma prima. Viagem longa. Naquele tempo saia-se de madrugada e atravessava-se todo o sertão rumo ao oeste do estado. Antonio Bezerra, Caucaia, Boqueirão Guarair, Catuana, Croatá, Curú, Umirim, Tururu, Itapipoca, Anário Braga, Miraima, Teógenes Rocha, Humberto Monte, e Sobral. Alí bifurcava-se a linha. Uma subia pra Camocim e outra descia para Crateús que foi a que segui, passando ainda por Jaíbara, Cariré e Amanaiara. Lá pelas 4 da tarde chego finalmente em Reriutaba. Da cidade eu só conseguia ver dois estirões de pequenas construções de um lado e outro da estação. Saí andando em paralelo à linha do trem pois sabia que meus parentes moravam exatamente numa daquelas casas.  Já tinha andado um bom pedaço quando ouvi o apito da locomotiva que começava a deixar devagarinho o povoado. Acompanhei o barulho da máquina que se apressava em cima daquela infindável dupla de fios de ferro. Quando passou por mim, a danada já ia zinindo e com ela um grito bem alto ecoou:
MÉRCIA PIIIIIIIIIIIIIIIIIINTO!
Era Luíza que de cabeça pra fora da janela de um dos vagões acenava efusivamente para mim. Parecia um boneco de posto de gazolina, balançando os braços enquanto desaparecia numa curva. Só ficou o som de sua risada moleca com que sempre troçava da aluna. Continuei andando e pensando: engraçado, o que é que aquela criatura estará fazendo neste fim de mundo? É, mas nessas alturas, ela também deve estar pensando o mesmo de mim, conclui.
Conheci-a quando estudava no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Nessa época, fim dos anos 1950, a escola funcionava ali na Guilherme Rocha, na altura da Praça Gustavo Barrozo, em frente ao Liceu. Fui aluna muito presente nas atividades da casa. Estudava piano, assistia às aulas de Teoria Musical, História da Música e ainda participava de um grande coral idealizado pelo Orlando Leite. Além disso, mesmo sendo uma adolescente, já me ensaiava como professora de piano orientando alguns alunos. Luíza circulava no meio das atividades dos professores. Duas ou três vezes por semana a via chegando à tardinha para os ensaios do Madrigal, onde ela cantava, e às vezes como boa malandrinha que era, surrupiava algumas guloseimas preparadas por D. Francina, mulher do Orlando.
Um belo dia, começou a circular o boato de que o Conservatório iria mudar-se para o Benfica, na Avenida Visconde de Cauípe 2210. O reboliço foi crescendo e ficando grande. Parece que se ouvia a voz do Orlando dizendo; dividam-se as salas para caber a todos! Quero tudo iluminado, sabe?  E bem ventilado, frisava. A escola funcionaria juntamente com o curso de Arte Dramática e ambas seriam ligados à UFC. A atmosfera era de felicidade e orgulho pelo novo espaço. Lembro-me, em 1960, quando o grande coral cantou na Concha Acústica o Alleluia de Haendel e as Canções de Cordialidade de Villa Lobos, dando boas vindas a Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre que viera a Fortaleza para receber da UFC o título de Doutor Honoris Causa. Ela, franzina no seu vestido claro, mas chamando a atenção pelo turbante e os óculos escuros. Ele magrinho, de pescoço pelancudo e óculos redondos, mais parecia um calanguinho. Eram seguidos por um cortejo de intelectuais locais que lutavam na saída do evento para ficar mais perto do casal, na esperança de uma foto para a posteridade. Depois, na cerimônia de outorga do título, música brasileira e francesa cantada pelo Madrigal alegrava os convivas. Lá estava Luíza com seu enorme “liseuse” de gurgurão róseo, uniforme oficial do grupo. A visita do intelectual ecoou durante muito tempo na cidade e no Conservatório dava mais ânimo aos sonhos da mudança para perto da UFC. Só se ouvia falar dos seminários e dos cursos que os professores iam fazer na Bahia, das conquistas do madrigal em festivais internacionais. Ela  participava de tudo isso. Com sua inteligência discutia questões pertinentes no grupo de professores que se envolviam mais diretamente com o sonho do Orlando de mudar mentalidades e construir uma Escola de Música modelo para o nordeste.
Nossos contatos pessoais foram se estabelecer mesmo foi durante o primeiro vestibular para o curso de licenciatura em música e de bacharelato em instrumento. Na hora em que peguei a prova de português, vi que ali estava um pouco de sua alma. “Mundo Grande” de Carlos Drummond de Andrade foi o texto escolhido. Dividi o primeiro lugar com Neusinha Guedes que na época já era professora do curso de Letras da UFC. Dali em diante nossa convivência foi diária.  A efervescência cultural, característica dos anos 1960, marcava minha juventude. A luta contra o acordo MEC-USAID juntava estudantes e intelectuais que protestando abriam novas frentes de embates. Entre eles, aqueles contra os regimes ditatoriais que disseminavam-se por toda a América Latina.  Como minha professora, Luíza esteve sempre por perto discutindo e ouvindo minhas inquietações. Com ela conheci desde as encíclicas de João XXIII até o cinema de Goddard. De Padre Lebret e sua preocupação com o desenvolvimento global até a visão integradora de Teillard Chardin. Do Pasquim que ela já entrava na conversa rindo do Fradin, até o misticismo de Thomas Merton. Numa disciplina que ela inventou e batizou de “Integração Cultural” os alunos liam sobre história e aprendiam sobre democracia e direitos civis de maneira peculiar. Nas aulas discutia-se até o próprio ócio. Mas  foi também com ela que lemos J. D. Salinger (O apanhador de trigo no campo de centeio), James Baldwin (Da próxima vez, o fogo), conhecemos Miriam Makeba e Stokeley Carmichael. Com Luíza meus ouvidos aprenderam coisas nas vozes de Joan Baez e Bob Dylan.
No recém-fundado curso superior de música respirava-se interesse, liberdade, otimismo e renovação. No Curso de Arte Dramática, o movimento de atores era intenso. O B. de Paiva era incansável na implantação de uma nova mentalidade na cidade. Eu me alimentava de tudo aquilo que estava vivendo. Não me esqueço de que foi nos cursos livres ministrados pela Dalva Stella que ouvi falar pela primeira vez em Folclore e Música Popular como campos de estudos dentro da academia. A procura por inscrições foi tão grande que tiveram que mudar o espaço do curso para o Foyer do Teatro José de Alencar. Nas salas de aulas do Conservatório, grupos se reuniam para ensaiar, outros para discutir sobre política, estética ou mesmo só para conversar. No Teatro Universitário que ficava ao lado, ensaios e apresentações de peças faziam parte da rotina da vida universitária. Em suma, tudo ali parecia um palco iluminado e em todo este ambiente o espírito da Luíza estava presente incentivando, discutindo e apoiando a todos.
Mas um dia faltou luz. Cortaram a fiação que levava energia. E então veio a escuridão. Sem luz, a vida foi invadida pelo mofo. Não se conseguia trabalhar ou estudar. Depois começaram as perdas. Primeiro os empregos, depois os amigos. Uns foram embora, outros desapareceram. Por não enxergarem, muitos se tornaram inimigos.  E foram muitos mesmo.  Vaguei sem rumo, perdida e desconsolada. Era a imagem da menina atingida por Napalm. À procura de luz saí muitas vezes às ruas e fui pega.  Obrigada a permanecer trancada em prédios enormes cheios de pequenos quartos gradeados. Aos poucos fui sabendo que por traz daquele sonhado palco iluminado existia um “making off” que tramava toda aquela desgraça. Também nesse tempo, a Luíza esteve perto de mim, mesmo quando não podia fazer nada! O tempo passava e as trevas se alastravam cada vez mais.  Não apareciam nem pássaros para trazer uma folhinha de Oliveira no bico. Nada! Era só a escuridão.
Um dia a Elba e a Eunice trouxeram umas velas e nos mostraram. Interessantes pois não apagavam quando soprávamos. Ao contrário, iluminavam cada vez mais. E o melhor é que soavam. Aprendemos a manuseá-las e ensinamos muita gente a sopra-las. Aonde íamos carregávamos as bichinhas. Talvez para que pudéssemos ouvir os outros e nos localizarmos. Um grupo se formou rapidamente em torno daquelas velas cantantes. Eu fazia os arranjos e com a Elba copiávamos as partituras. Digo assim, porque eram mesmo um bando de malandrinhas! Reuníamo-nos na casa de D. Vanda ou na minha. Um pequeno queijo branco redondo, um pouco de mel, café e torradas acolhiam a algazarra e também minhas irritações com aquelas que não estudavam e atrapalhavam os ensaios parando a música a toda hora. Mais uma vez, lá estava ela soprando sua velinha conosco e aproveitando qualquer oportunidade para dar sua risada moleca. Casamentos, lançamentos de livros, aniversários de amigos foram iluminados com nossas velas soantes. Depois, eu, Elba e Eunice resolvemos ensinar a soprar em massa. Era uma procissão de crianças de todas as idades que sopravam e aprendiam música. Nessa nova empreitada, lá vinha ela com sua risada moleca, dando apoio ou fazendo troça das ex-alunas. É, mas um dia fiz uma “baldeação” num entroncamento de linha e me mandei. Rodei o mundo e nunca mais voltei, sabe?
Bom, esta é minha estorinha com a Luíza. Não é nenhum conto de fadas, pois no final não tem lição de bondade ou de redenção. Mas tem lutas entre sombras e luzes, bruxos perversos que perseguem a quem pensa diferente, muita briga e brincadeira como toda criança gosta. Também não chega a ser uma ópera pois nenhuma de nós chegaria a tanto! Uma estória de suspense? Hum! Não sei, pois não cometemos nenhum crime hediondo. No entanto nossa estorinha tem muitos inquéritos, detetives, pistas que se apagaram em incêndios, outras que eram falsas e burlaram as investigações, testemunhas que por medo se calaram, outras que por odiarem a liberdade não se calaram e muito mais. O que me lembro bem são dos muitos personagens secundários! Ah, esses enriqueceriam qualquer manual de psiquiatria. Então para que mais emocionante?
Durante todo esse tempo, eu e ela viajamos no mesmo trem. Estivemos juntas, mas em vagões separados, escolhemos descer em lugares diferentes mas aqui acolá ainda ouço seu grito:
MÉRCIA PIIIIIIIIIIIINTO!
E sua risada moleca quando o comboio passa em alguma estação.
Que viva Luíza!

sábado, 5 de julho de 2014

Depois da Siesta (à memória de meu pai)



 Lá vem ele retirando o canivete do bolso para fazer as pontas dos lápis e ralhar comigo! Sempre do mesmo jeito. Dorme um pouquinho depois do almoço, levanta, passa o pente fino no cabelo ralo, sai alisando a cabeça e se encaminha para a mesa onde estou fazendo meus deveres. Posso até fechar os olhos, pois já sei a sequência das ações. (Mulher não sabe fazer pontas de lápis), vai dizer, inspecionando cada um deles. (Olha essas pontas! Que serviço porco essas pontas!) Joga-os na mesa ostentando seu costumeiro desdém. (Como se consegue escrever com estas pontas pequenas e grossas assim? Por isso a caligrafia parece um bando de caminho de formiga, tudo fora da linha.) Vira a mão esquerda e aponta o polegar para a frente, coloca um lápis na parte mais carnuda, fixa-o com os outros quatro dedos e aí começa o ritual: tirar lascas compridas e finas da madeira deixando o lápis com a ponta esguia, bem feita, como se fossem novos. Quando eu era pequena gostava de chegar ao colégio com as pontas dos lápis todas feitas por ele. Tinha até pena de usá-los. Sei que é apenas um detalhe, mas o certo é que me sentia orgulhosa, pois ele as fazia como ninguém. Só que depois de poucos dias lá vinha ele novamente: (isso é lá ponta de lápis! Olha aí essas porcarias!) Eu ficava toda encolhida, me sentindo incapaz porque as pontas feitas por mim ficavam feias, curtas e se gastavam rapidamente. (Ninguém senta assim corcunda para escrever), dizia mostrando como deveríamos sentar, colocar o lápis em posição perpendicular, pegá-lo pelo meio com os dedos estirados, sem apertá-lo e escrever levemente no papel. Eu, não! Eu apertava-o com os dedos curvos e lá perto da ponta. Sei que ele não me via como criança. Não imaginava que a cadeira era baixa e a mesa alta. Que era para adultos, e sendo eu pequena só poderia me sentar e escrever daquela forma. (E para que tanta força no risco? Só pra gastar a ponta do lápis e amassar as páginas dos cadernos, bradava já meio zangado!) Não levava em conta que eu não tinha força para fazê-las com as lâminas de barbear velhas que ele descartava. Além disso, eu tinha consciência dos perigos de usar seu canivete afiado. Quantas vezes me cortei com as malditas lâminas, tentando afinar as pontas dos lápis para ficarem iguais às dele. Costumava observá-lo sentado na escrivaninha. O jeito de pegar os livros, a maneira como escrevia. Todas as letras iguais. Milimetrava tudo. Não que eu quisesse imitá-lo. Não! Eu ficava era admirando-o. Sentia que ali ele estava em paz, fora do mundo, passando pacientemente as páginas dos livros, fazendo anotações nas margens. Neste momento não dava conta do barulho dos filhos. Tenho certeza de que ali era onde fazia suas orações. E quando deixava a gaveta aberta? Onde eu via todos aqueles lápis Johan Faber verdes, oitavados e com as pontas impecáveis? A régua preta e a branca, os diferentes tipos de pena, os tinteiros, clipes, bailarinas. A coleção de selos e moedas que ele olhava um por um, falando baixinho, colando com pinças os adquiridos recentemente, limpando as moedas com uma flanela como se fossem as coisas mais importantes para ele. Quando deixava seus mata-borrões à vista eu me divertia tentando decifrar o que restava da sua caligrafia. Só nunca consegui foi me sentar na cadeira feito um escriba nem pegar nos lápis como ele. E aí ele continuava brigando: (que caligrafia é esta? Toda emporcalhada? Cadê a borracha? A colega pediu e não devolveu, perdeu-se no recreio?) Eu é que era desmazelada e culpada de tudo! Muito fácil não gastar as borrachas para quem só escrevia de caneta e não tinha dever de casa para fazer, resmungava eu. Para quem os lápis eram só para anotações escritas de leve naqueles livros enormes: deve, haver, deve, haver.



Um dia ele até me deu um estojo de plástico prateado para que eu guardasse esse tipo de material. Muito útil, pois na tampa tinha um apontador de lápis. No começo foi bom, embora nada como as pontas perfeitas que ele fazia; mas depois a lâmina do estojo enferrujou e eu voltei a usar as velhas lâminas de barbear, ganhando então mais um tipo de repreensão: (Cadê o estojo que lhe dei? Já escangalhou todo? E as capas destes livros? Pra que colar estas figuras bobas? Olha aqui estes dorsos! Todos escangalhados!) Nervoso, se irritava com tudo. Queria encontrar todo o material escolar como tinha entregado no início das aulas e esquecia de que cadernos se acabavam, que borrachas diminuíam com o uso, que na maletinha de madeira que tinha feito para mim quando eu ia ser alfabetizada não cabiam mais todos os livros e cadernos, que nem mais existiam. Não se dava conta de que não indo a aulas, não tendo deveres de casa pra fazer e só escrevendo de caneta, não gastava mesmo material escolar. Aliás, nem material escolar ele tinha! E continuava depreciando minha caligrafia de criança, alegando que eu não sabia fazer nada, como se eu estivesse estudando para também ser o “escrivão da frota”.



(Anda menina! Deixa de besteira! Fica aí escangotada, olhando não sei pra onde!) Dizia quando eu estava aprendendo a ler e costumava me deter na rua soletrando as placas das lojas, dos ônibus ou contando os degraus de uma escada. Eu tomava um susto e corria envergonhada para acompanhá-lo. Sentia-me ridícula e culpada por ser criança, por me distrair e me interessar por coisas sem importância. Policiava-me o tempo todo para evitar suas irritações, mas não adiantava. De repente, por alguma rixa com um irmão, eu abria o “berreiro”, como ele dizia: (É a Mãe d’Água! Vive de boca aberta, chorando). No meio disso tudo, o pior eram as reclamações quando adoecíamos. Precisava de remédio, de médico, e ele achava desnecessário, gasto inútil! Eu me sentia demais, supérflua e pesada a ele. Lembro da ansiedade quando pressentia que ia começar a tossir. Engolir saliva, parar de respirar, mudar de lugar pra ele não ouvir a tosse eram artifícios que eu usava para não ouvir suas brigas. À noite, a coisa piorava. Era mais difícil controlar os acessos. Ele acordava e obrigava-nos a parar de tossir à força. Mamãe costumava dizer: “ô homem azougado!”



Mas no meio disso tudo, tinha uns momentos em que não era grosseiro. Claro! E esses eu guardo com muito carinho. Lembro-me muito bem de um dia de domingo, quando fomos à missa. Não poderia jamais esquecer esse dia, pois usava pela primeira vez o remonte do meu traje de primeira comunhão. De organdi, todo cheio de pregas grandes ao redor da saia e da blusa. Comprido como os das noivas. Tinha até grinalda e véu. Parecia o vestido da minha tia de quem eu tinha ido ao casamento. A única diferença – e esta nunca entendi – era porque no meu buquê, tão bonito, cheio de florezinhas, tinha uma vela no meio. Além disso, minha tia usava seu buquê de forma mais descontraída, assim como se estivesse solto em suas mãos, e eu tinha recebido instruções da catequista para manter o meu bem firme na mão e um pouco afastado do corpo, como se estivesse mostrando-o ou oferecendo-o a todos. Apertei tanto aquele buquê que fiquei vários dias com a mão dolorida. Depois foi que entendi que o aviso era para evitar me queimar com a vela que deveria ficar acesa durante toda a cerimônia. Na outra semana, mamãe fez mais uma prega na saia, encurtando-a até o meio das pernas, e lá fui eu com toda a família para a missa. Véu e tercinho enrolados no pequeno manual, aguentando o calor e as espinhadas do organdi no meu corpo. O chuvisco da madrugada tinha deixado a areia da rua úmida e no caminho me distanciei mais uma vez do grupo, porque parei para ver umas pegadas impressas na areia molhada. Agachei-me e quase de quatro pés tentei atentamente decifrar e soletrar o que estava escrito naqueles baixos-relevos da areia. LA-VIR-MES. Quando levanto minha cabeça, lá estava ele de volta. Devo ter perdido a voz e escurecido a vista. Chegara a hora da costumeira repreensão, pensei. Mas ao contrário, quando dei por mim, seu olhar era manso. Com a perna dobrada mostrava-me a sola do seu sapato novo, onde estava impressa em alto-relevo o nome da marca.



(– Olha aí, nêgo véi! Que era como ele me chamava- Especial, né?)







Minha ansiedade cresce com sua aproximação. Já viu que estou folheando uma de suas revistas da National Geographic. Como nada está certo para ele, me pergunto do que vai reclamar hoje. Posição dos braços, jeito de abrir e passar as páginas da revista? Lógico que vai fazer as pontas dos lápis, mas como já passei de ano e comecei a usar caneta, não pode mais reclamar da minha caligrafia. Apenas, contrariando meu gosto pela tinta “azul real lavável da Pilot”, ele me obriga a usar a “preta permanente da Parker”, sem dar nenhuma explicação convincente. (Isso não é tinta de gente), diz. E só compra aquela cor. No colégio, sinto-me diferente das amigas cujos cadernos são escritos com letras mais claras, e os meus mais parecem ter sido escritos com a nanquim de Pero Vaz Caminha.



Enquanto eu tento selecionar os verbos ingleses da reportagem sobre os flamingos, ele interrompe o que eu estava fazendo, volta algumas páginas da revista e me mostra uma foto da silhueta de uns elefantes contra o pôr-do-sol numa savana da África.



(Você sabe que os elefantes emitem sons inaudíveis ao ouvido humano? São sons de baixa frequência.) Em seguida toma um dos lápis e calmamente começa a fazer sua ponta. (Com isso se comunicam com elefantes de outras manadas que podem estar perdidos.) Pequenas lascas de madeira começam a cair no chão e ele continua: (além disso, conseguem detectar a existência de água até a mais de 5km de distância). Ignorando a tarefa que eu estava fazendo, continua: (esses sons servem também para, no meio das savanas, localizar água, perceber quando chegam as chuvas ou mesmo quando algum perigo se aproxima.) Ignorando mesmo que eu estava fazendo uma tarefa, continuava lendo o texto e me passando o conteúdo. (Os elefantes são animais muito sensíveis. Podem sentir nos pés os movimentos subterrâneos do solo, não é incrível? Sua tromba tem tantos músculos e ele tem tanta habilidade com ela que é capaz até de virar as páginas de um livro.)



O pó negro do grafite se espalha pelo chão, enquanto ele me explica: (quando um elefantezinho está para nascer, as fêmeas da manada se aproximam da futura mãe e fazem um círculo ao seu redor, uma espécie de cordão de isolamento.) Colocando mais força na mão, continua: (o objetivo é proteger a parturiente, deixá-la calma e à vontade para o caso de aparecer algum inimigo que possa causar distúrbio no parto.) Toma outro lápis na mesa e vai falando. (Você sabe que as mães elefantes têm seios parecidos com os dos humanos?) Eu não digo nada, mas fico imaginando aqueles enormes quadrúpedes correndo com dois seios pendurados cheios de leite pra lá e pra cá. Ele continua explicando: (os elefantezinhos sempre caminharão no meio do grupo, protegidos pelos mais velhos. E se um deles está em perigo ou faz alguma coisa errada, não é só a mãe que tem o dever de protegê-lo ou ensiná-lo, mas todas as fêmeas da manada. Veja aqui esta foto. Os elefantezinhos bebendo água, e o grupo de elefantes adultos protegendo-os, fazendo uma espécie de cordão de isolamento enquanto eles saciam sua sede.) Sem reclamar, toma mais um lápis e começa a fazer a ponta, prosseguindo com sua explicação. (As fêmeas dos elefantes costumam, em determinados momentos, se reunir em algum lugar da savana. Este texto fala que os cientistas chegaram à conclusão de que nesses encontros elas prestam respeito à matriarca da manada e aos seus ancestrais.) Depois abre a caixa de lápis de cor, toma um deles, muda a posição dos pés como se houvesse decidido que iria ficar mais tempo ali. Me distraio um pouco e penso nos flamingos. They rest standing  in one leg, Curling a leg under the body keeps the foot warm and conserves body heat. Mas logo ele me tira do devaneio. (Veja aqui esta foto! Elas estão todas juntas com as cabeças voltadas para o centro do círculo. Dizem que nestes momentos também reafirmam os laços de amizade para com o grupo, combinam coisas, armam estratégias para melhor enfrentar as intempéries da vida.) – E falam dos maridos, concluo rapidamente.



(Os elefantes têm o olfato e o senso de direção tão desenvolvidos que quando percebem que estão velhos, fracos e que vão morrer, usam seu conhecimento destas tais ondas sonoras para encontrar o lugar onde seus ancestrais foram esperar a morte. Seguem para lá, choram por eles e ficam esperando também sua morte.) Eu estava calada até esse momento, mas daí por diante resolvi participar um pouquinho e disse: – olha que estranha esta foto de elefantes andando numa praia. (Isso aí é no Gabão, me responde entusiasmado.) – Gabão, Ga-bão! Que lugar de nome estranho, penso eu! Como se estivesse lendo meus pensamentos, ele esclarece: (o lugar é muito árido, mas eles, com seu senso de direção, encontram partes mais verdes onde podem comer à vontade, e muitas vezes essas partes ficam perto da praia.) Para de falar e fica lendo. Depois pensa um pouco e começa a explicar o que leu. (Aqui diz que nas florestas do Gabão as fêmeas de elefantes e seus filhotes fazem trilhas que do mesmo jeito são percorridas por gerações com seus filhotes. Ninguém sabe por que elas assim fazem. Olha aqui que interessante! Elas entram com suas crias numas grutas dentro da floresta e se comportam como se ali estivessem mostrando para eles cada detalhe do lugar; cheiram as paredes, o chão, observam tudo e voltam pela mesma trilha. O dado triste é que sendo um costume, elas se tornam presas fáceis para muitos caçadores que, descobrindo as trilhas, matam-nas!) Finalmente olha para o resto do material escolar que está em cima da mesa e começa a disparar suas reclamações: (Olha isto aqui! Régua, esquadro, transferidor, compasso e este dicionário. Tudo já riscado. Vocês escangalham tudo! Só me dão prejuízo!) Por fim, sopra o canivete, fecha-o e o põe no bolso da calça. Olha as horas no relógio de algibeira e lá vai ele para o trabalho, com seu terno de riscado carregando sua vaidade; a caneta Pelikan de pena de ouro no bolso da camisa e seu sapato novo SEM RIVAL. Espalhados no chão ficam o pó do grafite e as lascas de madeira, pois ele não é porcalhão! Levanto a cabeça, vejo a ponta do seu paletó desaparecendo no umbral da porta e tenho vontade de lhe lembrar: – Ei, pai, falta reclamar da comida que nos dá, do chão que pisamos, do ar que respiramos, não?



Continuo minha tarefa e no meio de tantos verbos que eu deveria coletar no texto, ainda consegui, com meus rudimentos de inglês, entender que os flamingos são aves migratórias que apesar de sua língua áspera e de seus bicos curiosos, são como os pombos, alimentam seus filhotes com uma espécie de líquido vermelho escuro que sai de dentro do seu bico. Se ainda estivesse aqui, com certeza me diria: (ora, ora, ora! Para que serve esta tua cabeça? Só para separar as orelhas?




Mércia Pinto.

Clique aí para ver a  dança dos Flamingos.

 


BsB 2009

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Nicolau



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Nicolau era o papagaio de minha avó. Naquele tempo, além dos agregados familiares que moravam e trabalhavam na casa, só saindo quando se casavam, ainda se criavam muitos bichos; soins, gatos, cachorros, e não faltava um papagaio que comia os restos de miolos de pão com café que sobravam na mesa.  Assim era na casa da minha avó. Viviam com muita simplicidade, mas a população de agregados e bichos parecia não pesar no orçamento familiar.

Nicolau era especial. Com seu olhar redondo e vidrado, pés virados para dentro, emprestava até  seu nome para o apelido de quem andava meio cambota. Cantava o dia todo.
ó preta ó preeta, lá do sertãââo, jogando as cartas, no meio do chão. O resto da canção Maria lhe ensinava cantando, mas ele nunca aprendia a ir até o fim. Vivia numa arandela de flandre pendurada lá em cima da parede da cozinha. Dali, sempre cambaleando, vislumbrava todo o movimento da casa. Se alguém aparecia, ele ia logo ironizando antecipadamente a atenção que lhe dariam:  "dê cá o pé, meu louro", falava. Pela manhã irritava a todos porque acordava cedo e ficava  repetindo as mesmas palavras: Maria, quero café, café, café!, enquanto Maria ainda fazia o fogo. Durante o dia, Nicolau tinha vários momentos de exaltação discursiva, mas os matutinos e vespertinos eram inevitáveis. Todo o repertório de palavras, canções e ruídos que aprendera na floresta eram repetidos ininterruptamente por horas a fio, até ele se acalmar.

Os netos de minha avó gostavam muito de Nicolau, que quando nos via passando pela cozinha ia logo dizendo: camone boy! Tinha aprendido a expressão conosco, que víamos os filmes de cowboys e aprendêramos a cumprimentar as pessoas com essas palavras, as únicas que entendíamos da película. Como casa de avó era para se fazer tudo que não se fazia na casa dos pais, já entrávamos correndo, passando por dentro dos quartos e salas, atravessando a cozinha, só parando no quintal.  Ali costumávamos reinterpretar as cenas dos filmes a que assistíamos. Nos dividíamos entre bandidos e mocinhos, cada um com um graveto de pau que funcionava como revólver. Nos escondíamos todos e, como faziam os mocinhos, repetíamos seus gestos de colocar só uma pequena parte da cabeça de fora do esconderijo para enxergar o inimigo, atirar e depois nos encolhermos novamente. Aí entrava toda sorte de sons que ouvíamos no cinema e que podiam reconstruir a atmosfera daquelas cenas no deserto do Arizona. Havia momentos de barulheira total dentro de casa, quando resolvíamos reinventar as batalhas entre índios e brancos, gritando como os índios e correndo como cavalos desde o quintal até a porta da rua. Hoje, quando me lembro, parece que minha avó e o resto da família tinham uma espécie de botão que desligavam para não ver nem ouvir tal algazarra na casa. Ninguém saía de suas funções, ninguém reclamava do barulho ou mesmo da sujeira que fazíamos por lá! Era como se cada grupo vivesse seus fantasmas sem que o outro interferisse. Mas um dia Nicolau pregou uma peça nos netos da velha, acabando assim com aquela invasão de bárbaros em seu território. Certa hora, quando estávamos mais absortos na nossa encenação de bandido e mocinho, ouvimos uma voz que  passou a nos denunciar seja lá onde estivéssemos: BUÁ TILLLL. Era Nicolau que tinha aprendido a, como nós, imitar o som das balas dos  mocinhos e bandidos, ricocheteando nas pedras do deserto. Assim, onde pudéssemos nos esconder ele estaria a falar BUÁ TILLL, entregando ao grupo inimigo nossos esconderijos.

Pobre Nicoláu!  Acabou seus dias de forma trágica!
Quando meu avô morreu, a comoção da família foi intensa. Um mês de cama e mais seis dias em coma e o velho por fim se foi. Só se ouviam os lamentos dos filhos: papai morreu, papai morreu, papai morreu! Luto absoluto por um ano, falavam pra costureira que faria os vestidos de toda a família. Só os netos usariam três meses de luto fechado e o resto do ano aliviado, decidindo nossos destinos baseados numa tradição que eu tomava conhecimento pela primeira vez. Em casa, parecia tudo vazio, A vida estava suspensa. Só funcionavam Maria, que apesar do seu luto cozinhava todas as roupas da família na tinta preta para que outras cores não entrassem naquele tempo, e as reuniões dos membros do clã para relembrar afetos e emoções do tempo em que o velho era vivo. Me lembro dessas intermináveis reuniões em torno da mesa, onde aos poucos a memória do velho ia sendo purificada e enriquecida. Na hora das refeições, todos comiam calados. Nem Nicolau perturbava. De repente um dos membros da família ficava parado. Se estivesse comendo, o talher parava onde estava, a respiração não se efetuava e a cabeça ficava baixa. O tempo se abria para se ouvir  o som do seu choro alto e convulsivo. Aquilo era para mim um ritual novo, que eu nunca tinha presenciado. Sabia que meu avô tinha morrido, mas não sabia que o luto seria sentido e até provocado através de rituais. Nem que o do meu avô levaria tanto tempo e de forma tão trágica e grave. A casa ficou triste feito um prato de macarrão na água e no sal. Feito vestido velho e desbotado. O peso da morte foi tão grande que até as brincadeiras não tinham como se realizarem. Olhávamos uns para os outros e nada engatava, tão impotentes que estávamos para manifestarmos qualquer forma de vitalidade. Só se ouviam os lamentos que ecoavam dentro de casa: papai morreu, papai morreu, papai morreu! Assim foi durante muitos dias; e as crianças, sem se darem conta, foram envolvidas no mesmo resguardo que o tempo exigiu. 
As emoções da família só começaram a reaparecer, voltando ao rebuliço habitual, no dia em que fui entrando na casa e percebi um grande alvoroço que entrava pela cozinha e saia pelo quintal. Era minha mãe, com um cabo de vassoura, que corria bravejando atrás de Nicolau, que tentava se defender gritando: Ai! Papai Morreu! UHHHHHHHHH! Papai Morreu!UHHHHHHHHH! Coitado do Nicolau! Não acredito que estivesse fazendo pouco dos exageros emocionais da família, como acreditou minha mãe. Para mim ele estava também de luto. Ou numa compreensão menos dramática, ele estava no  mínimo  feliz por ter acrescentado  mais algumas palavras ao seu repertório.

Nunca mais ouvimos falar de Nicolau!

Mércia Pinto/2009