ENEA- Encontro Nacional de Estudantes de Arquitetura Brasília, julho de 2004.
Obrigado pelo convite.
O conceito de identidade cultural tem
sido uma das grandes preocupações das ciências sociais. No mundo moderno, o
sistema de representação que chamamos culturas nacionais se constituía em uma
das principais fontes de identidade cultural. O passado era venerado e os
símbolos conservados porque continham e perpetuavam a experiência de gerações.
A tradição lidava com o tempo e espaço inserindo qualquer atividade ou
experiência na continuidade com o passado, presente e futuro. O sujeito era
baseado na noção do indivíduo centrado, unificado, dotado de razão, de
consciência e de ação. Seu centro seria o núcleo interior que emergia quando
ele nascia. A crescente complexidade das sociedades fez emergir a consciência
de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo nem autossuficiente,
mas formado na relação com os outros, principalmente pessoas importantes para
ele que lhe mediavam valores e sentidos, símbolos dos mundos em que habitavam.
Mostrava que a identidade se constrói na interação entre o eu e a sociedade. As
duas concepções estabilizavam os sujeitos e os mundos culturais. Alinhavam
também seus sentimentos e imaginário. No sec. XIX, o nacionalismo político e
sua vertente romântico/folclorista, se uniram fazendo com que as tradições dos
agrupamentos étnicos e socioculturais se ordenassem em invólucros jurídicos e
territoriais a que chamam de nações. Estabeleceu-se que ter identidade
equivaleria a ser parte de uma nação. Baseados neste ideário, as políticas
culturais foram concebidas como espaço de conservação e administração do
patrimônio histórico acumulado em territórios definidos; nação/etnia/região ou
cidade. Através de programas de ensino e desenvolvimento cultural o estado definia
o que merecia ser preservado e ensinado.
Atualmente a preocupação dos
cientistas sociais é de que um tipo de mudança estrutural tem transformado as
sociedades do final do sec. XX, fragmentando as paisagens culturais de classe,
gênero, sexo, raça e nacionalidade, que no passado nos forneceram localizações
sólidas como indivíduos; ou seja, as velhas identidades que por tanto tempo
estabilizaram o mundo social estão em declínio, fazendo surgir novas
identidades, fragmentando o indivíduo. Os apoios estáveis baseados nas
tradições, nação, estado, indivíduo soberano, na ordem divina das coisas
atravessam as identidades nacionais por profundas divisões e diferenças
internas. A vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos,
lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia etc.
Discute-se também a perda de sentido de si, ou seja, o deslocamento ou descentramento
do sujeito em consequência dessas mudanças. Coloca-se a questão de como ele
vive sua identidade, como ela está sendo afetada pelo processo de globalização.
Ela está se desintegrando como resultado do crescimento da homogeneização
cultural? Estão sendo reforçadas pela resistência à globalização? Estão em
declínio enquanto novas identidades híbridas estão tomando seu lugar? São
perguntas que se fazem. Neste cenário, como são imaginadas as nações
pós-modernas? Que estratégias de representação contribuem para construir nosso
senso de pertencimento e identidade nacional? Como se dá a narrativa da
construção da nação quando se sabe hoje que a maioria delas consiste de
culturas separadas e que foram unificadas por um longo processo de conquista
violenta, ou seja; pela supressão das diferenças culturais? Como ficam as
nações que foram centro de impérios exercendo uma hegemonia cultural sobre as
culturas colonizadas? Sabemos que no século XX, a noção clássica de identidade
se dissolve e se reposiciona diante dos avanços dos meios de comunicação
fazendo com que essas políticas enfrentem hoje a perda de sua eficácia. Embora
grande parte da produção artística continue sendo feita como expressão de
tradições nacionais (música, artes plásticas, literatura) permanecendo como
fonte do imaginário nacional, existe um setor cada vez mais extenso de criação,
difusão e percepção das artes que se realiza de modo desterritorializado,
cosmopolita e virtual. Os cruzamentos culturais e a indústria de massa tem
feito com que qualquer ação educativa em relação às artes expanda seus objetos
de análises incorporando processos de significação em que se narra o social de
maneira diversa daquelas centradas na preservação de patrimônios monumentais e
folclóricos. Com a globalização, todos os campos tem sido redimensionados,
inclusive as instituições e os espaços de exercício público. Modificam-se a
atuação dos órgãos locais em benefício de empresas transnacionais. Reformula-se
a malha urbana de assentamento e convivência (dos bairros ao condomínio) e das
interações próximas (lugar, trabalho, estudo, consumo, amizade e locomoção),
operando mudanças nas formas de exercer a cidadania e a identidade. Outros
modos de participação redefinem o senso de pertencimento cada vez menor,
organizado agora em torno de lealdades locais (gangues, clubes, narcóticos
anônimos, vigilantes do peso, etc.) ou desterritorializadas (compras,
conversas, debates, negócios e até namoro pela internet). Os traços da ilusão
das identidades ensimesmadas em sua história (muitas vezes inventadas) vão aos
poucos se apagando. Os constantes processos de hibridização e
transnacionalização diminuem ou anulam os antigos laços e criam necessidades
geradas pelos meios eletrônicos reposicionando as culturas consideradas
tradicionais. Deve-se entender que elas hoje são organizadas muito mais pelas
leis do mercado do que pela lógica dos estados. Como então podemos falar em
identidade cultural numa época em que a cultura e as identidades se
desterritorializam e os grupos sociais se reordenam formando sistemas
transnacionais de informação? Para o trabalho do arquiteto, qual o significado
de uma cultura imposta pela mídia, um setor cada vez mais amplo de criação,
difusão e recepção de idéias sobre espaço e que se realiza de modo virtual e
cosmopolita?
As necessidades culturais das grandes
cidades requerem hoje em dia, políticas culturais adaptadas a cada zona, extrato
econômico, grau de escolaridade e faixa etária. Não podemos nos esquecer de que
o principal acesso a bens culturais estão hoje ligados á eletrônica. A
quantidade de TVs nos lares, nos ônibus, nos consultórios médicos, nas
dependências das escolas chega a ser talvez maior do que o número de
alfabetizados. Isso sem contar com a crescente popularidade dos jogos
eletrônicos, da TV a cabo, internet e outros. Expressando códigos de elaboração
simbólica internacionais, esses meios reorganizam nossos hábitos culturais e
também nossa sensibilidade. É ali que está se formando nosso imaginário, nossa
educação sentimental, onde são desenvolvidas nossas noções de espaço, de como
ornamenta-lo etc. É através de vínculos eletrônicos, invisíveis que nos conectamos
de forma despersonalizada. E quem democratiza tudo isso, se a cultura de massa
encara esse equipamento/meio, como atividade rentável? Nestor Garcia Canclini, num estudo sobre a
cidade do México (1999) observa que o que mais chama a atenção em seus
habitantes não é a corrupção, a descrença nas instituições e nos políticos, mas
o baixo uso das instalações culturais públicas naquela cidade. A quase
totalidade das ofertas culturais (teatros, cinemas, bibliotecas, museus) estão
nos centros das cidades (lugar das decisões e onde moram os grupos de maior
poder aquisitivo), segregando outras partes, favorecendo assim as
desigualdades. Vejo nisso um espelho do que acontece no Brasil. Quem nas
periferias de nossas cidades vai ao cinema, ao teatro, aos concertos? No máximo
as pessoas frequentam as festas populares locais. O que elas fazem mesmo com
seu tempo livre é cuidar das tarefas domésticas e assistir a TV. A informação e
o lazer vem, portanto de um sistema desloca lizado de produção cultural
internacional e cada vez menos relacionado com seu território e com bens
singulares ali produzidos (festas de padroeiro, artesanato popular etc.). A
própria noção de cidade já não se constitui apenas em relação a movimentos
sociais, mas também a processos de comunicação de massa (feira de carros, de
importados etc.). No Brasil do século XXI porque identidade cultural? Qual
identidade? Com quais valores contaríamos para falar de identidade nacional? E
como as artes poderiam definir ou mostrar essa identidade? Como é possível
continuar falando em vida urbana como aspectos da identidade nacional com
agrupamentos humanos desse tipo?
Isso nos
leva não apenas a reexaminar os dilemas da nossa atuação como trabalhadores da
cultura, mas faz-se necessário que realizemos análises cuidadosas para a
remodelação de nossas práticas e dos dispositivos que nos garantem
reconhecimento e voz nas comunidades. Será que muito de nossos fracassos como
criadores, intérpretes e projetistas dos cenários da vida não são derivados
pela falta de flexibilidade de nossas práticas que não levam em conta o
consumo, a difusão cultural, os interesses dos grupos com quem estamos
trabalhando, sua produção, seu capital simbólico?
Quantos
jornais são divulgados nos bairros ou zonas periféricas das cidades do Brasil?
Em quantos deles existe espaço para que se divulgue ideias sobre a (as) cidade
(s), sobre a necessidade de melhor organizar o espaço doméstico? Quantas rádios
existem nesses locais e quantos programas tem participação de estudantes ou
profissionais da arquitetura? Quantas bibliotecas públicas existem nesses
locais e em quantas delas existe algum documento sobre a história local?
Quantas salas para concertos públicos existem? Onde se reúne a juventude desses
lugares? Relembro mais uma vez Canclini em sua análise sobre México City
dizendo que a falta de interesse dos setores populares em frequentar
exposições, concertos, teatros ou cinemas não se deve apenas ao fraco capital
simbólico que dispõem para apreciar essas mensagens, mas aos envolvimentos
afetivos com os grupos em que se inserem. O mesmo pode se dizer das cidades
brasileiras. São os contextos familiares, de bairro, de trabalho ou religião,
os que controlam a homogeneidade do consumo, os desvios nos gostos e nos
gastos. Deve-se reconhecer que hoje nas periferias das cidades, a maioria das
ações sociais, a responsabilidade de criar espaços para o exercício da
cidadania tem sido feita por grupos religiosos. É nos espaços das igrejas que
cursos, atividades esportivas e culturais para jovens, projetos de inclusão
social são levados a cabo. Elas hoje ocupam vários canais de TV; com programas
infantis, com programas de calouros, debates e até venda de produtos pela
internet, varando as madrugadas. O mercado de produtos religiosos tornou-se um
grande negócio. A Feira Nacional de produtos religiosos (Rio 2003) efetuou mais
vendas do que o Rio Fashion Week deste mesmo ano. As editoras de livros
religiosos proliferam e as gravadoras de CDs, ao contrário das de caráter
leigo, estão indo muito bem, obrigado. Isso sem contar com o número de escolas
e universidades de orientação nitidamente religiosa. O que significa isso para
nossa identidade cultural? Com quais matrizes simbólicas trabalham e quais as
ressonâncias das mesmas na história cultural brasileira? Quais estratégias de
representação empregam para se impor em nossa cultura? Antigamente as cidades
eram marcadas pela casa de Câmara e cadeia e pela igreja. Hoje elas iniciam seu
povoamento a partir de um Motel, uma igreja e um posto de gasolina.
Espero que até agora, minha fala
tenha levantado questões para estudantes de arquitetura que se reúnem para
discutir os problemas de sua profissão.
Para não dizer que não falei de
música, uso a última parte de minha fala para comentar sobre uma prática
musical da pós-modernidade. O RAP, fenômeno vertical das cidades
pós-industriais e que exemplifica bem o que comentei anteriormente.
Manifestação cultural expressiva, os signos, emblemas e tipos dessa cultura
urbana estão presentes como identificação transnacional com a juventude dos
anos 90. Articula-se se colocando em extensão com as culturas urbanas de suas
localidades e com a cultura urbana globalizada, daí surgindo identidades
alternativas para jovens em bairros onde antigas instituições locais de apoio
foram destruídas. Na periferia de centros urbanos, marginalizados e excluídos
de todo o privilégio que habita a vida de jovens de classe média, estes grupos
constroem uma identidade típica local que emana de uma experiência marcada pelo
apego ao status conquistado na comunidade. Como atividade lúdica o RAP é
alternativa á exclusão social em que se encontram os jovens das periferias dos
vários cantos do mundo. Apesar do descaso social, reconfiguram espaços públicos
em um lugar de lazer onde se torna possível a alegria, o divertimento, o
esporte, a arte, a dança, o exercício de fé, enfim, o reencantamento do mundo.
Tendo perdido suas origens como
prática vernacular afro americana, emerge no meio dos anos 70 transformando e
apropriando-se dos sons do estilo disco. Seu discurso crítico, seu interesse
pela mixagem de sons, pela colagem de melodias tem sido visto como espelho do
nosso tempo. A palavra misturada aos sons sampleados, as fontes musicais
superpostas e os movimentos corporais do MC levam muitos a pensar em monotonia
e ausência de abstrações. Pode-se, no entanto dizer que essa poesia urbana
improvisada é evento que desafia as noções modernistas da autonomia estética,
pureza artística e o dogma da essência da arte como novidade radical. Minha
conexão e interesse pelo assunto são a de professora e pesquisadora da música
popular do DF, onde grupos de vizinhança, escolas, igrejas, projetos
governamentais ou mesmo organizações não governamentais empenhadas no
desenvolvimento da cidadania não só convivem como incrementam o florescimento
desse tipo de atividade. Interessante notar que se o gênero é empregado para
atrair jovens para o desenvolvimento e cultivo de valores, nos anos 90 ele foi
alvo principal da censura de grupos internacionais tanto da esquerda como de
conservadores, com acusações de fomentar violência. Além disso, questiona-se
seus méritos artísticos. É que muitas de suas canções são explicitamente
destinadas a desenvolver a consciência política e a honra dos grupos oprimidos.
Esses poetas marginais defendem a idéia de que o próprio saber está imerso em
questões políticas e de luta social. Musicalmente o gênero ameaça paradigmas
estabelecidos. Suas canções não são cantadas, mas faladas. Não empregam músicos
nem música original. As letras parecem simples, primárias, grosseiras, com
dicção corrompida, ritmo duro, repetitivas e muitas vezes libidinosas.
Faltam-lhe os artifícios da erudição. Seu enunciado direto e claro, sua pobreza
metafórica e seus repetidos clichês sugerem falta de significado. Mas uma
leitura mais atenta revela o uso de expressões espirituosas, sutilezas
linguísticas, intertextualidades, podendo-se sublinhar entre suas convenções
estilísticas a inversão semântica, o discurso indireto e a paródia, entre
outros.
Caracterizar o gênero exige muito
mais que o estudo das trilhas sonoras, da fluência do MC, dos tópicos abordados
pela lírica ou diferenciar formas mais comerciais, mais intelectualizadas ou
mais politizadas entre si. As questões culturais que envolvem essas práticas
são maiores e ignora-las como protesto estético seria ignorar também sua importância
para a arte e a cultura contemporâneas. O RAP é arte popular pós-moderna que
desafia não só as convenções estéticas do modernismo como estilo artístico e
como ideologia, mas também a doutrina filosófica da modernidade e a
diferenciação entre as esferas culturais.
Promovida por uma elite cultural, a
estética modernista tentou reformar as artes criando imagens para uma sociedade
melhor e mais humana que emergiria com o progresso das ciências e da tecnologia.
Para os artistas modernistas as pessoas deveriam ser educadas para apreciar a
contribuição dessa elite á sociedade. Neste sentido, só alguns objetos poderiam
ser chamados de obras de arte e apenas algumas pessoas com habilidades
específicas eram autorizadas a serem chamadas de artistas. Esse tipo de
orientação estética teve como resultado o isolamento das “belas artes” do resto
da sociedade transformando-a em um projeto elitista. No fim do sec. XIX a
corrosão dos dispositivos de explicação do conhecimento e as delimitações
clássicas dos campos científicos entram em crise, se desordenam e as ciências
sociais se propõem a expor os pressupostos objetivos que permitem falar de uma
transformação radical na maneira como o saber é produzido, distribuído e principalmente
legitimado. Provocado pelo impacto das transformações tecnológicas, a tese das
narrativas de progresso começa a se desgastar e hoje se admite que a orientação
modernista não teve sucesso em construir uma visão da realidade que tivesse
significado para um grande número de pessoas. A transição da visão modernista
para a pós-modernista inclui um estado de consciência menos confiante no futuro
e uma crítica às noções de que o progresso é consequência do desenvolvimento
tecnológico e das ciências. Mesmo admitindo resistências a uma definição clara
sobre o pós-modernismo, alguns traços são amplamente reconhecidos; mistura de
estilos, adesão entusiástica a novas tecnologias e á cultura de massa, desafio
às noções modernistas de autonomia e pureza artística e a ênfase colocada sobre
a localização espacial e temporal mais do que sobre o universal e eterno.
O Rap exemplifica de maneira marcante
essas características colocando-as em evidência ao toma-las como temática. Sua
apropriação reciclada (sampling) constitui fonte histórica da música hip-hop,
cerne de sua técnica e traço característico de sua forma estética e mensagem.
Desenvolvidas pelos DJs, cortar e mixar um disco no outro igualando o tempo
para uma transição suave, toma elementos acústicos concretos e performances
pré-gravadas de padrões musicais. Assim, diferentemente do Jazz, essas
apropriações e transformações não requerem habilidade para compor ou tocar
instrumentos musicais, mas para manipular equipamentos de gravação. Eles nos
dão uma variedade de formas e empréstimos tão imaginativas quanto aquelas
usadas nas artes maiores. Lembrem–se, por exemplo, da Monalisa de bigode de
Duchamp ou das múltiplas duplicações da imagem de Marylin Monroe de Andy
Wahral. Assim os DJs desafiam o ideal tradicional da originalidade e
autenticidade que desde o romantismo escravizou a concepção de arte. Em seu
culto ao gênio, comparava o artista a um criador divino e defendia que suas
obras deveriam ser totalmente novas e exprimir sua personalidade singular. Mais
tarde, o modernismo em seu compromisso com o progresso artístico e com a
vanguarda, reforçou o dogma de que a essência da arte era a novidade. Uma
manifestação pós-moderna como o Rap, rompe com esse paradigma, quando emprega e
adota de forma criativa sua apropriação como temática, mostrando que empréstimos
e criação não são incompatíveis. Numa atitude quase pedagógica, sugere que a
obra de arte aparentemente original é em si, produto de empréstimo
desconhecidos e que o texto novo e único é sempre um tecido de ecos e
fragmentos de textos anteriores. Nas mãos dos Rappers, a originalidade perde assim seu status inicial e é
reconhecida para incluir a recuperação transfigurada do antigo.
A expressão artística pós-moderna não
enfatiza necessariamente a mais recente e a mais contemporânea. Ela enfatiza a
continuidade com os estilos do passado, mas sem reverencia-los. Explorando-os
através da sátira ou paródia, dando-lhe novas configurações. Até a linha
divisória entre as formas de arte cultas e populares desaparece, visto que
diferenças culturais não são só reconhecidas, mas vistas como recurso para
capacitar o indivíduo a completar seu potencial, admitindo que qualquer tipo de
criação se torna disponível para apreciação. A partir dessa visão, não há
originais intocáveis, definitivos, mas apenas apropriações e simulacros de
simulacros; permitindo que a energia criativa seja liberada sem medo de vê-la
desmentida porque não produz com total originalidade. As canções dos Rappers e as acrobacias dos DJs caminham
em comum acordo com esse ideário. Elas não só usam, mas celebram simultaneamente
sua qualidade e seu empréstimo. No sec. XIX, o romantismo na sua ideologia da
arte pela arte reforçou o hábito de tratar trabalhos artísticos como um fim em
si mesmo; transcendentes, sagrados, respeitados e invioláveis. A seleção
eclética e a montagem de trechos musicais pré-gravados que configuram o sampling no estilo do RAP também desafia
esse ideal de unidade e integridade. Ele rompe com o imaginário recorrente e
enfatiza o pluralismo pós-moderno. O culto devocional á obra de arte fixa e
intocável é desfigurado, oferecendo em troca os prazeres de arte de desmembrar
obras antigas para criar outras novas, transformando o pré-fabricado e o
familiar em algo diferente e estimulante. Sua estética sugere assim que a arte
é mais o processo, a experiência do que produto acabado. Para eles, as obras
admiradas não são mais concebidas como monumentos perenes preservados através
dos tempos pela tradição. Em oposição a esta idéia da eternidade de um poema, o
RAP evidencia sua temporalidade e sua provável efemeridade. Muitas de suas
letras são marcadas com prazo de uso ou fruição, questionando assim o dogma de
que a boa obra de arte deve ser capaz de agradar a todas as pessoas em todas as
idades e épocas. Finalizando, podemos dizer que se um dos requisitos essenciais
de uma atividade artística é sua diferenciação da experiência do cotidiano, o
RAP se distingue da mesma pela sua fala apaixonada, pela sua dança vigorosa,
pelo seu envolvimento participante, pela demanda de criatividade e exercício da
performance.
Muito Obrigado.
Mércia de Vasconcelos Pinto.