Encontro Regional da Associação Brasileira de Etnomusicologia. (2002)
Resumo: O texto aponta dificuldades com
as quais professores/pesquisadores/intérpretes e instituições de ensino de
música se confrontam na pós-modernidade; currículo baseado em
valores do passado, existência concreta de uma infinidade de fazeres musicais
que a academia não está acostumada a tematizar como objeto de estudo e falta de
formação profissional para enfrentar as demandas de um mercado de trabalho cada
vez mais diversificado.
Palavras-chaves: formação
profissional, etnomusicologia, música popular.
Falar sobre cursos de música nas universidades brasileiras é reconhecer
que ainda se dedicam quase que exclusivamente à perpetuação da música do
passado, abrindo caminho para sua compreensão na mente dos alunos. Vindos de
diferentes contextos sociais de ensino tais como escolas, colégios, aulas
particulares, igrejas, clubes, bandas militares, ou mesmo autodidatismo, os
estudantes inserem-se num processo de profissionalização que começa com seu
nivelamento pelo vestibular. Currículos, conteúdos das disciplinas e grade
horária são apresentados aos mesmos desconhecendo as variadas vivências e
expectativas musicais que trazem quando entram para a academia. Expostos a uma
pluralidade de campos de conhecimento e propósitos educacionais tentam
articular por si mesmos os antagonismos que atravessam seu cotidiano, práticas
e educação. Para alguns, o impacto da imposição de códigos estéticos alheios ao
seu mundo é enorme e o que emerge quando descrevem sua relação com a música é
que seu aprendizado choca-se com a inadequação dos currículos e a ausência de
formação docente para atender a suas expectativas. Apesar dos esforços de alguns professores em atuar
com maior grau de pluralismo estético, lhes faltam ações concretas nos
processos educativos. Assim, as intervenções da aprendizagem permanecem
calcadas no reforço de hábitos perceptivos e pouco no enriquecimento,
melhoramento ou atualização deste sistema. O esgotamento do projeto da
modernidade na sociedade pós-industrial, trazendo a existência concreta de uma
infinidade de fazeres musicais instigam o pesquisador/professor/intérprete a
criar modelos de ensino/análise, visando dar conta de suas especificidades e a
academia não está estruturada para tematizar ou acompanhar esta multiplicidade
de fazeres como objeto de estudo. Pensa-se arte como rito consagrado pela
burguesia desde sua ascensão, como se determinadas manifestações culturais
fossem classificáveis como autênticas, cultas, subcultas ou folclóricas. As
práticas escolares são conservadoras, pressupondo a inferioridade e a
incapacidade do outro, favorecendo a cultura elitista dominante. Além disto,
prevalece a concepção de que trabalhar em arte e cultura limita-se à
performance no palco, à criação individual ou à sala de aula individual.
Observa-se ser pouco freqüente inserir material vernacular nas disciplinas dos
cursos e desestimular-se o convívio com outras manifestações musicais. Rápido
exame dos currículos de cursos de música no Brasil mostra que se prioriza a
cultura ocidental, dando-se pouco espaço às culturas populares.
Não se trata aqui de negar o notável e sofisticado repertório
de música ocidental, com sua imensa variedade de gêneros e estilos, mas da
necessidade de reavaliar, e atualizar as práticas educacionais da academia.
Quem ousa mapear a diversidade das músicas tradicionais ou populares? A
dimensão estética de seus gêneros revela níveis de complexidade e de uso de
meios sonoros que desafiam os que a demonizam
e advogam sua inferioridade. A reflexão sobre o ensino da música confronta-se
hoje com questões difíceis e contraditórias, visto que apreende a dimensão da
ruptura introduzida pelas músicas populares, pelas de cunho religioso e pelas
vanguardas contemporâneas vis a vis com a música do passado. Esta ruptura nos
conduz a uma questão específica pois interroga a necessária continuidade de
estratégias de processos educacionais e a exigência de estabelecer uma
articulação entre os valores do passado e os do presente. A formação do
profissional de música não pode ignorar as questões levantadas pela modernidade
musical mas ao mesmo tempo não podem instituir, favorecer uma autonomia
hipotética do sujeito sob a base de um mal conhecimento dos valores culturais
anteriores. Entender e experienciar fazeres musicais diferentes do nosso, exige
estratégias e atitudes pedagógicas específicas: rupturas com hábitos tonais,
com as técnicas tradicionais de interpretação vocal e instrumental, ruptura com
os processos de criação musical etc. Mas como elaborar e desenvolver essas
atitudes afim de que os processos de empréstimos pedagógicos possam conduzir a
verdadeiras apropriações criativas da cultura? Nas academias tem-se falado
muito em titulação. No entanto parece que precisamos muito mais de um
comprometimento docente com os cursos, de reformar os regimes de trabalho, e de
criar meios mais eficazes de medir a produção dos docentes. Precisamos muito
mais de instituições com um projeto pedagógico claro, onde professores se
engajem.
Como trabalhadores intelectuais com obrigação de gerar
conhecimento, não nos apercebemos da necessidade de formar profissionais aptos
a ocupar lugar neste novo tipo de economia e para as carreiras da indústria do
entretenimento. O uso das tecnologias de produção e reprodução do som faz
surgirem novas profissões que se situam nas interfaces técnico e artista,
permitindo nascerem intelectuais, DJs, engenheiros de som, animadores. A
produção musical é hoje acessível a todos, ao mesmo tempo em que é algo
altamente tecnológico. Os jovens gostam e sabem disso. Computadores permitem
produzir músicas com programas de fácil manuseio, karaokês propiciam
divertimento inusitado, o cantar em grupo nas festas familiares. A indústria de
arte e cultura foi um setor dos que mais cresceram nas últimas décadas e requer
profissionais que preencham os mercados emergentes relacionados à área,
incluindo administração, empresariado, aplicação de técnicas, promoção e
marketing. Compreender que o estudo da música popular requer esforço
multidisciplinar, que reflete uma visão de mundo e pode ter influências
históricas e sociais num grupo evidencia que seu repertório pode ser fonte de
observação da sociedade. A música popular ser uma rede de estilos conectada a
etnicidade, ideologia, religião, sexualidade pode aumentar nossa compreensão do
mundo e abrir perspectivas para trabalhos culturais, exercício de
desenvolvimento de compromissos sociais. Cabe observar o número de escolas de
música em barracões de escolas de samba, projetos do Pelourinho, iniciativas de
grupos evangélicos, o movimento dos rappers,
para marcar o poder e a importância da música popular. Milhares de estúdios
se sustentam do aluguel de salas para ensaios, centenas de bandas de rock, grupos de pagode, hip-hop e rap
convivem nas cidades brasileiras. Com o crescente valor dado à música na
sociedade, qual a nossa filosofia, alvos e práticas? O que esperamos da
instrução musical nas escolas e universidades? Que legado estamos deixando para
os novos tempos? Como nossas instituições de treinamento estão adaptando seus
currículos para o ambiente de mudanças onde a relação professor/aluno está
sendo constantemente desafiada? Onde mecanismos de aprendizagem à distância,
por transmissão via satélite, CD rom e internet tem potencial de substituir os
tradicionais métodos de aprendizagem? Onde estas tecnologias ao mesmo tempo que
incrementam, diminuem distancias fazendo com que o professor possa estar longe
mas ao mesmo tempo una estudantes de diversas partes do mundo e trabalhem
juntos? Quão virtual pode se tornar o ensino da música no futuro? Como nós
professores de música estamos nos preparando para estas mudanças? A tecnologia
da informação pode ser uma das principais tarefas a serem enfrentadas pelas políticas
culturais neste milênio. O direito ao acesso universal dos avanços, a
importância de uso criativo de aplicativos, a disseminação de produtos e
serviços de mídia e a necessidade de cooperação com a indústria cultural por
parte de artistas e educadores está em discussão em congressos e projetos
educacionais do mundo todo. Onde músicos usufruem dos progressos da informação
questionam-se os conceitos tradicionais de composição, performance e técnica,
visto que a digitalização da música oferece mudança nas relações entre criador
e consumidor. Ou seja: o consumidor pode tornar-se criador, reordenando
infinitamente pedaços de outros trabalhos, para criar o seu. Neste caso, quais
as implicações para as patentes intelectuais? Como as ações de valores estéticos
são afetadas? Qual a relação entre trabalho e conteúdo, com a infinita paisagem
sonora e o aumento de qualidade que a tecnologia traz? Poderá a distinção entre
o bom e o mau trabalho permanecer relevante, se essa tecnologia continua a
democratizar o fazer musical?
Como quebrar resistências individuais e incentivar
professores a rever suas práticas, a aprender a manusear novas tecnologias e a
desenvolver disponibilidades para o trabalho em áreas conexas como sociologia,
antropologia, comunicação? Neste caso, qual seria o papel de uma entidade como
a recém criada ABET? Como esta associação poderia interferir nas políticas
educacionais? Estar presente, escutar a música do mundo pode ser um passo para
a revisão de nossas posições estéticas e nossas práticas educacionais mas é
também relevante o estar disponível para novos âmbitos de intervenção: espaços
educativos onde a música tem lugar visível, espaços informais orientados para a
formação de publico, espaços formais onde a música popular contemporânea ou do
passado permita desenvolver ações concretas de trabalhos pedagógicos e até
mesmo espaços universitários onde se dá ênfase à formação do músico
profissional. Ignorar estes aspectos é negar nosso papel e responsabilidade
social e artística. A academização do popular ou a popularização da academia
embora signifiquem um caminho para a universidade romper esquemas de
apropriação e construção do conhecimento de maneira alternativa à educação
musical convencional, enfrenta a problemática da pedagogia dentro das particularidades
das formas de produção, circulação e consumo das músicas. O reconhecimento de
outros textos e contextos musicais não são suficientes para nos permitir
trabalhar outras maneiras de ser, fazer e formar o instrumentista ou o
professor. Quando falamos de músicas vivas, em mudança e em permanente
interinfluência com músicas e linguagens de outros contextos, implica em
conhecer e incluir instrumentos de tradição oral em processos sistemáticos e
formais, com demandas de construção destes instrumentos com técnicas de luteria
qualificadas. Os materiais e pedagogias até hoje sistematizados na academia tem
sido através de partituras. Neste caso, aceitar-se o uso de sinais numa peça de
música popular pode ensinar o estudante a pensar diferentemente sobre música. E
também sugerir o uso e o desenvolvimento simultâneo de outras habilidades,
transformando o aprendizado de passivo em ativo.
Não podemos negar que existem tentativas de propostas
metodológicas entre nós. Muitas delas tem sugerido encontrar diversidades
musicais sob forma de escuta, jogos musicais, de encorajamento à criatividade
musical e desenvolvimento de gestos criadores em música, mas na maioria são
esforços isolados que não tem encontrado o impacto necessário nos lugares de
trabalho para fazer destas reflexões, ações contundentes.
Referencias:
CARVALHO, José Jorge de.
“Transformação da Sensibilidade Musical Contemporânea”. In Horizontes Antropológicos- Música e Sociedade. Ano 05 nº 11. P. 53.
PPGAS/UFRGS. 1999.
COOK, Derick. The Language of Music. Oxford University
Press.1989.
FRANCES, Robert. Les Sciences Humaines devant la Musique
Contemporaine. Les Moulineaux: Ed. EAP, 1992.
GROPPO, Luiz
Antonio. Juventude- ensaios sobre sociologia e
história das juventudes modernas. Rio
de Janeiro. DIFEL. 2000.
GARZÓN, Leonardo e outros. Conclusões do GT de Música Popular e Educação. IV Encontro
Sulamericano da IASPM. México 2002.
GREEN, Lucy. How Popular Musicians Learn-a way ahead for music
educators. Sydney: Ashgate Press. 2001.
HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. Ed. Perspectiva. S/P, 2000.
LUCAS, M. Elizabeth. “Música popular à porta ou aporta
na Academia”. In Em Pauta. Revista do
Curso de Pós-graduação (mestrado) em Música da UFRGS. Ano 04 nº. 06, 1992.
MAFFESOLI, Michel. A Contemplação do Mundo. Porto Alegre.
Artes e Ofícios. 1995.
______ O Tempo das Tribos- o declínio do
individualismo nas sociedades de massa. Rio de Janeiro. Forense Universitária. 2000
PERRENOUD, Philippe. Dez
Novas Competências para Ensinar. S.Paulo. Ed. Artmed. S.P.2000.
PINTO, Mércia. Ouvidos para o Mundo- aprendizado informal
de música em grupos da periferia de Brasília. Comunicação apresentada no
Encontro da IASPM. México 2002.
______. O Estudo da
Música Popular. Texto apresentado no GT de Música popular. In Anais de XIII
Encontro da ANPPOM. B.H./ M.G, 2001.
SLOBODA, John. The Musical Mind-
the cognitive psychology of music. Oxford. Clarendon Press.1997.
STALHAMMAR, Börje.
“The space of music and its foundation of values- music teaching and young people's own music experience”. In International Journal of Music Education.
pp 35-45, n 36.ISME. 2000.
SUNDIN,
Bertil. “Aesthetics and Education: an
ill-mached couple?” In International
Journal of Musical Education, pp
4-13, n 36, ISME. 2000.
TRAVASSOS,
Elizabeth. “Redesenhando as fronteiras do
gosto: estudantes música e diversidade” in Horizontes
Antropológicos. Ano 05, nº 11, p.119. PPGAS/UFRGS, 1999.
Mércia Pinto.
Professora do Depto. de
Música da UnB onde coordena um núcleo de estudos de músicas urbanas (NEMUR).
Formada em Piano, Serviço Social e Educação Musical pela Universidade Estadual
do Ceará. Estudou piano na Escola de Música de
Berlim-Alemanha, fez mestrado em Pedagogia dos Instrumentos de Teclado na Escola de
Música da Universidade de Lund na Suécia e doutorado em Musicologia na
Universidade de Liverpool na Inglaterra,
tendo Música Popular como área de concentração de sua tese.
Nenhum comentário:
Postar um comentário