Un Air Embaume
Sapatos novos, especialmente aqueles de verniz preto me colocam sempre em contato com minha infância. Eram guardados e só usados em ocasiões especiais; visitas a parentes, festas de aniversário ou Natal.
Já sabendo que aquele seria um dia diferenciado, acordávamos pensando nos preparativos. Recebíamos advertências sobre o evento. Como deveríamos nos comportar durante todo o dia. Sem brigas ou choros, especialmente na hora de se arrumar.
Lembro que o banho nos dava o direito de usar o sabonete e a colônia "Regina" que mamãe usava no dia a dia.
Envolvida no perfume de "rainha", eu adorava ouvir o farfalhar do tafetá "achamalotado" da combinação que colocava-se por baixo da vestimenta principal. Mas o maravilhoso perfume e o afago daquele tecido no corpo, não me poupava da tortura de ter que usar por cima, aquele vestido de "organza" com mangas bufantes e que espinhavam meus braços. Só aumentava o calor! Até hoje, a letra "Z" quando pronunciada em alguma palavra, ainda me dá a mesma sensação de arranhado no corpo. Ziguezague, zero, zumbido, zarabatana...
Se arrumando no quarto ao lado, mamãe vestia seu vestido de seda de agradável toque e se perfumava com "Un Air Embaume" de Rigaut.
A criada me ajudava a calçar as meias de crochet do tipo "grãos de arroz". Um modelo com umas bolinhas confeccionadas com a linha "mercê crochet", que apesar da delicadeza, só maltratavam meus pés!!!, Era hora de calçar os sapatos pretos "carinha de bebê" de bico chato, com uma tirinha e um pequeno botão para abotoar ao lado. Sabia que o modelo, facilitava meus rodeios, diabruras com as amiguinhas durante a festividade.
Para terminar o ritual, minha mãe vinha para dar seu toque final. Sentada, me colocava entre suas pernas. Repuxava pra lá e pra cá a saia do meu vestido. Menina esquelética, exclamava. Me virava e refazia o imenso laço da parte de traz da minha vestimenta. Encolhe esta barriga, exclamava. Em seguida vinha o pior; fazer o famoso penteado... Tomava uma maçaroca de fios dos meus cabelos de índio como "os chamava", enrolava até doer no meu couro cabeludo e amarrava-o com uma fita de gorgorão róseo para combinar com toda a indumentária.
Eu me liberava de suas pernas e saía cheia de adjetivos e dores, mas perfumada de coisa nova. Não sei se era o couro ou a cola da sola dos meus sapatos que rangiam quando eu andava, mas o som e o odor me envolvem, me afagam evocando até hoje a atmosfera de um dia festivo. Meu dia de Rainha.