segunda-feira, 15 de agosto de 2022

 


...era uma vez!

Quando soava a sirene da fábrica de cigarros Araken, ela deixava os afazeres da cozinha e me chamava: tá na hora de tomar seu banho! Me puxava pela mão, tirava minha roupa e me colocava debaixo do chuveiro. Ignorava meus protestos de que a água estava fria. Me revirava, me ensaboava, lembrando-me sempre para fechar os olhos e levantar os braços. Tinha também o momento “chrorô” quando enfiava o pente no meu cabelo molhado tentando penteá-lo. Por fim, o cheiro do talco que ela passava no meu corpo, vestia-me umas calcinhas, abotoava minha alpercata e dizia: agora vá brincar ali no oitão, esperando a hora do almoço.

Imagino que criança gosta de ritual; decorar palavras, executar e repetir a sequência de pequenos eventos. Se sente “sabida” quando já consegue se localizar dentro de casa e nomear os ambientes e rituais domésticos. Almoço, jantar etc.  O “oitão” por exemplo, era o espaço que formava uma espécie de bêco entre a parede lateral da construção da nossa casa e o muro da vizinha. Era onde eu sentava naquela “coisa” e com a força das pernas, tentava movimentar suas rodas enferrujadas ... até a hora do almoço.  

Às vezes ela me dava atenção, eu lembro. Me ensinou a conversar com os bichos: miar como os gatos, latir com os cachorros, cantar como os bem-te-vis, galinhas, patos, grilos e muitos outros animais.  Mas um dia quando o perú da vizinha apareceu no nosso quintal, do alto de minha “sapiência” eu gritei: glu-glu-glúu! O bicho correu atrás de mim até que dominada pelo medo, fui acolhida em seus braços. Me tremia toda, enquanto “a fera” eriçada, rodopiava na areia, bufando, arrastando as asas numa espécie de dança macabra!  Balançava a carúncula que mudava de cor. Fiquei realmente muito assustada e por mais que ela tentasse me consolar explicando de que ele só queria conversar comigo, me conhecer, eu chorava sem parar. Nesse dia, além de “espritada” por conseguir andar naquela geringonça de ferro velho que chamavam pelo comprido e esdrúxulo nome de “velocípede”, quando meu pai chegou para o almoço, ganhei mais um apelido: “mãe d’água”! Eh! Realmente ele nunca foi alguém paciente.

Aquele era um tempo diferenciado. Em parte marcado pela chegada da minha avó que viera do interior. A casa ressoava poucas palavras. As mulheres, com exceção da criada, se mantinham praticamente o dia todo naquele quarto. Eu não entendia, não me apercebia claramente dos eventos do cotidiano mas sentia que alguma coisa tinha mudado. Aqui acolá eu escutava sussurros, rumores, falas esparsas que eu não conseguia distinguir, muito menos compreender. Tudo indicava que algo acontecera e que eu não tinha sido chamada a participar. Meu pai também fazia parte do silêncio, pois saia, voltava para almoçar, saia novamente, sempre evitando barulho. Ouvia dizerem que ele estava dormindo no “Galpão”. Para mim ele também tinha sido isolado dos acontecimentos. Até a espreguiçadeira, que ele costumava armar debaixo do caramanchão nos dias em que ficava em casa, estava ali abandonada num canto. Eu não ganhava mais aqueles colares feitos de florezinhas, que ele engendrava umas nas outras e pendurava no meu pescoço, antes de começar a ler o jornal. E a comida? Ah, esta perdera parte do cheiro e do sabor! E aquelas pessoas que às vezes ocupavam a sala da frente da casa com risos, gritos e falas? Eu caminhando no meio delas, feito um pequeno fantasma, sem entender de que aquilo se tratava? Tornavam-se apenas leves lembranças.

Um dia de manhã cedo, eu estava ali na cozinha da casa quando ele entrou apressado com uma corda quebrada e um pedaço de madeira na mão. Tive que dormir em cima daquele monte de caibros! Não sei quem foi, mas cortaram a corda e eu caí da rede, falou para a criada que preparava o café. Imaginei o susto de alguém dormindo, e subitamente cair em cima de um monte de madeira sem saber como e por que! Eu não sabia o que era tristeza, mas lembro bem que pela primeira vez, senti pena dele!

Na sequência pálida dos acontecimentos, uma espécie de intimidade surda foi se instalando dentro de mim. Sozinha, me virei para o mundo. Fui me dando conta do nome dos lugares, das coisas, do tempo vazio e das palavras que se fixavam na minha mente: oitão, perú, caramanchão, e por último, galpão! Eu tinha um pouco mais de três anos quando descobri embevecida a chuva caindo. De onde vinha aquele imenso chuveiro, derramando água que caía da parte côncava das telhas, me perguntava. No princípio pingos esparsos e pouco a pouco ficando mais fortes, até alagar todo o quintal.

Num mundo de entrelaçadas impressões que se mostravam fora de mim, lembro das noites, do balanço suave da rede, do piscar das estrelas no céu. As luas eram o grande mistério! Umas maiores, alaranjadas, subindo lá detrás das árvores e casas, outras, visíveis até de dia; só o risquinho fino e prateado no alto do céu. Ali no silêncio, ouvia pedaços de um canto coletivo muito agradável que soava muito longe. Acreditava em mistérios, sim. Imaginava que vinham de seres encantados que aproveitavam as horas do começo da noite para cantar e dançar. Identifiquei depois, que vinham de uma quadra, a única não urbanizada do bairro e que ficava do outro lado da rua. Passei a observar de longe o local. A cerca que servia de limite para a terra, permitia que eu identificasse a vegetação e quando saia para andar a pé com meu pai, via a mata que crescia no meio daquele espaço urbano tão diferente do enfileirado de casas que caracterizava a rua onde eu morava. Descobri também um pequeno riacho onde eu parava para apreciar os nervosos peixinhos nadando, dourados pelos raios de sol. Mas minha grande curiosidade era aquela pequena casa, construída debaixo daquela imensa mangueira que sombreava uma parte do terreno, e que meus ouvidos sabiam que era de lá que vinham os sons que envolviam meu sono. Um dia, guiada pela mão da nossa criada, entrei naquele grande sítio “encantado”. O chão batido debaixo da mangueira era lugar de convivência, pois lembro de alguns tamboretes e cadeiras com tampo de couro, arrumados em círculo. Entrei na casinha como se estivesse entrando num palácio encantado. Observava os detalhes de cada ambiente. O chão de tijolos, as paredes caiadas, o telhado simples. Nem lembro de ter visto alguém ali pois fora seduzida pela simplicidade, pela sensação de acolhimento que cada detalhe me inspirava. Da extrema limpeza do lugar, lembro também dos seus pequenos cômodos; sala, quartos, cozinha e lá no fundo, uma latada coberta com palhas de coqueiros, todos marcados por pequenas passagens de onde pendiam branquíssimos panos bordados e já envelhecidos.

Em casa, fui aos poucos me acostumando com aquele tempo suspenso, onde a movimentação do mundo doméstico não me dizia muito respeito. Quando perdera o medo do quintal, onde aquela ave “medonha” me ameaçara com seu “gungunzado”, fui aos poucos caminhando sozinha pela areia, reconhecendo lugares, rastros, sons. Depois de uma chuva, quando o sol voltou a iluminar o terreiro, lancei o olhar mais além e me deparei com a imensa construção que fazia limite com a parte dos fundos da minha casa. Fui tomada pela vertigem da inatingível altura daquele paredão vazado pela pequena janela em forma de círculo e que passou a me lembrar para sempre, a lágrima represada que saíra sofrida lá de dentro de mim, quando senti pena do meu pai. Era o tal “galpão”! Atravessei a pequena porta que dava acesso ao seu interior. Procurava pelos tais “caibros”, onde ele tinha caído enquanto dormia. Só encontrei o vazio. No lugar, só gravetos, poeira no chão, insetos mortos e ressequidos. Mas enquanto observava o resto daquele imenso espaço; as vigas do telhado, as paredes altas, avistei um grupo de mulheres que trabalhava silenciosamente. Algumas sentadas no chão, movimentavam nervosamente as mãos, de onde saia uma espécie de teia colorida e comprida. Outras ajustavam uns cordões, pendurados num gancho enorme fixado numa tora grossa de madeira.

Espalhadas pelo chão, muitas crianças. Umas recém-nascidas, dormiam deitadas em pedaços de panos velhos numa espécie de cama arranjada ali mesmo. Outras engatinhavam livremente entre as mulheres e as maiores brincavam tranquilamente com caixas velhas, restos de fios e tecidos que eram descartados pelo trabalho daquelas mulheres. Recortando o silêncio, ouvia-se um som ritmado e preciso, como se fosse a batida em alguma peça de madeira. É que no centro das atividades, duas mulheres de pé, controlavam cada qual um artefato complicado com centenas de fios horizontais e verticais que trocavam de sentido, cada vez que elas acionavam duas tábuas com os pés. Aos poucos ia se formando uma trama, um curioso tecido colorido. Tira esse menino daqui senão ele vai se machucar no pedal do tear, ouvi de uma delas falando mais alto. Sentadas num canto, outras duas figuras sentadas, enrolavam com a ajuda dos dedos do pé, os novelos de fios de algodão.

Observar aquele ambiente, passou a exercer em mim uma espécie de fascínio. Eu gostava do silêncio, da forma coletiva de como aquelas mulheres trabalhavam e cuidavam dos filhos, sem divisão de espaços. Da calma nos cuidados com as crianças e  nas tarefas do trabalho. Um dia cheguei, e as atividades estavam paradas. Sentadas, com as pernas estiradas ou cruzadas, davam de mamar aos recém nascidos. Outras alimentavam os maioresinhos com uma papa de leite e farinha, servida na boca, com seus próprios dedos. Eu me entregava à cena, observando cada dobrinha daqueles corpos gordinhos, impregnados de uma oleosidade suave. Vi que outras amassavam a farinha com feijão, faziam um bolinho e botavam na boca das maiores. Tagarelavam baixinho, até sussurravam. Eu caminhava silente, descalça, no chão refrescante do cimento daquela pequena fábrica de redes. Me sentia como uma daquelas crianças; gordinhas, morenas, lustrosas. Mil anos tinham meus olhos e sentidos, nas palavras que eu mesma dizia baixinho: peito, leite e cheiro de algodão cru. A rede que me balança tem punhos fortes. Varandas são babados, como as “pelancas” dos braços da minha avó batendo bôlo, pensava! Tudo ecoa na memória e se mistura com o rangido melancólico das rodas de ferro daquele velho velocípede, que eu arrastava no cimento do oitão da minha casa. O dia de ontem passou como aquela estrela perdida, que nas minhas noites sozinha, eu não conseguia encontrar de volta de um dia para o outro, enquanto eu era cativada pela imensidão do céu. Eu nascera ali... Ali estavam a jangada, o mar e os coqueiros que eu distinguia nas filigranas bordadas das blusas brancas estendidas no varal do quintal daquela casinha. Como a corrente de água daquele riacho, levo comigo o cheiro das ervas e a imagem daquela imponente mangueira, vivendo no meio da paisagem urbana. Era a luz do sol que projetava na calçada do jardim da minha casa, a imagem do farfalhar das folhas da trepadeira que se espraiava no caramanchão, e que eu não conseguia identificar de onde vinham. Era o gosto adocicado do néctar das pequenas flores que meu pai me ensinou a sugar, antes de uni-las pelos pedúnculos e fazer o colar para pendura-lo no meu pescoço. Era o rastro dos pés do Perú deixados na areia do quintal e o vagido surdo que eu escutava quando passava perto daquele quarto escuro. Eu nascera ali! Aquela era minha vida ... e eu era somente uma alma atenta.