...era uma vez!
Quando soava a sirene da fábrica de cigarros Araken, ela
deixava os afazeres da cozinha e me chamava: tá na hora de tomar seu banho! Me
puxava pela mão, tirava minha roupa e me colocava debaixo do chuveiro. Ignorava
meus protestos de que a água estava fria. Me revirava, me ensaboava, lembrando-me
sempre para fechar os olhos e levantar os braços. Tinha também o momento “chrorô”
quando enfiava o pente no meu cabelo molhado tentando penteá-lo. Por fim, o cheiro
do talco que ela passava no meu corpo, vestia-me umas calcinhas, abotoava minha
alpercata e dizia: agora vá brincar ali no oitão, esperando a hora do almoço.
Imagino que criança gosta de ritual; decorar palavras,
executar e repetir a sequência de pequenos eventos. Se sente “sabida” quando já
consegue se localizar dentro de casa e nomear os ambientes e rituais domésticos.
Almoço, jantar etc. O “oitão” por
exemplo, era o espaço que formava uma espécie de bêco entre a parede lateral da
construção da nossa casa e o muro da vizinha. Era onde eu sentava naquela
“coisa” e com a força das pernas, tentava movimentar suas rodas enferrujadas ...
até a hora do almoço.
Às vezes ela me dava atenção, eu lembro. Me ensinou a
conversar com os bichos: miar como os gatos, latir com os cachorros, cantar
como os bem-te-vis, galinhas, patos, grilos e muitos outros animais. Mas um dia quando o perú da vizinha apareceu
no nosso quintal, do alto de minha “sapiência” eu gritei: glu-glu-glúu! O bicho
correu atrás de mim até que dominada pelo medo, fui acolhida em seus braços. Me
tremia toda, enquanto “a fera” eriçada, rodopiava na areia, bufando, arrastando
as asas numa espécie de dança macabra! Balançava
a carúncula que mudava de cor. Fiquei realmente muito assustada e por mais que
ela tentasse me consolar explicando de que ele só queria conversar comigo, me
conhecer, eu chorava sem parar. Nesse dia, além de “espritada” por conseguir
andar naquela geringonça de ferro velho que chamavam pelo comprido e esdrúxulo nome
de “velocípede”, quando meu pai chegou para o almoço, ganhei mais um apelido: “mãe
d’água”! Eh! Realmente ele nunca foi alguém paciente.
Aquele era um tempo diferenciado. Em parte marcado pela
chegada da minha avó que viera do interior. A casa ressoava poucas palavras. As
mulheres, com exceção da criada, se mantinham praticamente o dia todo naquele
quarto. Eu não entendia, não me apercebia claramente dos eventos do cotidiano mas
sentia que alguma coisa tinha mudado. Aqui acolá eu escutava sussurros,
rumores, falas esparsas que eu não conseguia distinguir, muito menos
compreender. Tudo indicava que algo acontecera e que eu não tinha sido chamada
a participar. Meu pai também fazia parte do silêncio, pois saia, voltava para almoçar,
saia novamente, sempre evitando barulho. Ouvia dizerem que ele estava dormindo
no “Galpão”. Para mim ele também tinha sido isolado dos acontecimentos. Até a espreguiçadeira,
que ele costumava armar debaixo do caramanchão nos dias em que ficava em casa, estava
ali abandonada num canto. Eu não ganhava mais aqueles colares feitos de
florezinhas, que ele engendrava umas nas outras e pendurava no meu pescoço,
antes de começar a ler o jornal. E a comida? Ah, esta perdera parte do cheiro e
do sabor! E aquelas pessoas que às vezes ocupavam a sala da frente da casa com
risos, gritos e falas? Eu caminhando no meio delas, feito um pequeno fantasma,
sem entender de que aquilo se tratava? Tornavam-se apenas leves lembranças.
Um dia de manhã cedo, eu estava ali na cozinha da casa quando
ele entrou apressado com uma corda quebrada e um pedaço de madeira na mão. Tive
que dormir em cima daquele monte de caibros! Não sei quem foi, mas cortaram a
corda e eu caí da rede, falou para a criada que preparava o café. Imaginei o
susto de alguém dormindo, e subitamente cair em cima de um monte de madeira sem
saber como e por que! Eu não sabia o que era tristeza, mas lembro bem que pela
primeira vez, senti pena dele!
Na sequência pálida dos acontecimentos, uma espécie de
intimidade surda foi se instalando dentro de mim. Sozinha, me virei para o mundo.
Fui me dando conta do nome dos lugares, das coisas, do tempo vazio e das
palavras que se fixavam na minha mente: oitão, perú, caramanchão, e por último,
galpão! Eu tinha um pouco mais de
três anos quando descobri embevecida a chuva caindo. De onde vinha aquele imenso
chuveiro, derramando água que caía da parte côncava das telhas, me perguntava.
No princípio pingos esparsos e pouco a pouco ficando mais fortes, até alagar
todo o quintal.
Num mundo de entrelaçadas impressões que se mostravam fora de
mim, lembro das noites, do balanço suave da rede, do piscar das estrelas no
céu. As luas eram o grande mistério! Umas maiores, alaranjadas, subindo lá
detrás das árvores e casas, outras, visíveis até de dia; só o risquinho fino e
prateado no alto do céu. Ali no silêncio, ouvia pedaços de um canto coletivo
muito agradável que soava muito longe. Acreditava em mistérios, sim. Imaginava que
vinham de seres encantados que aproveitavam as horas do começo da noite para
cantar e dançar. Identifiquei depois, que vinham de uma quadra, a única não
urbanizada do bairro e que ficava do outro lado da rua. Passei a observar de
longe o local. A cerca que servia de limite para a terra, permitia que eu
identificasse a vegetação e quando saia para andar a pé com meu pai, via a mata
que crescia no meio daquele espaço urbano tão diferente do enfileirado de casas
que caracterizava a rua onde eu morava. Descobri também um pequeno riacho onde
eu parava para apreciar os nervosos peixinhos nadando, dourados pelos raios de
sol. Mas minha grande curiosidade era aquela pequena casa, construída debaixo
daquela imensa mangueira que sombreava uma parte do terreno, e que meus ouvidos
sabiam que era de lá que vinham os sons que envolviam meu sono. Um dia, guiada
pela mão da nossa criada, entrei naquele grande sítio “encantado”. O chão
batido debaixo da mangueira era lugar de convivência, pois lembro de alguns
tamboretes e cadeiras com tampo de couro, arrumados em círculo. Entrei na
casinha como se estivesse entrando num palácio encantado. Observava os detalhes
de cada ambiente. O chão de tijolos, as paredes caiadas, o telhado simples. Nem
lembro de ter visto alguém ali pois fora seduzida pela simplicidade, pela
sensação de acolhimento que cada detalhe me inspirava. Da extrema limpeza do
lugar, lembro também dos seus pequenos cômodos; sala, quartos, cozinha e lá no
fundo, uma latada coberta com palhas de coqueiros, todos marcados por pequenas
passagens de onde pendiam branquíssimos panos bordados e já envelhecidos.
Em casa, fui aos poucos me
acostumando com aquele tempo suspenso, onde a movimentação do mundo doméstico
não me dizia muito respeito. Quando perdera o medo do quintal, onde aquela ave
“medonha” me ameaçara com seu “gungunzado”, fui aos poucos caminhando sozinha pela
areia, reconhecendo lugares, rastros, sons. Depois de uma chuva, quando o sol
voltou a iluminar o terreiro, lancei o olhar mais além e me deparei com a
imensa construção que fazia limite com a parte dos fundos da minha casa. Fui
tomada pela vertigem da inatingível altura daquele paredão vazado pela pequena
janela em forma de círculo e que passou a me lembrar para sempre, a lágrima
represada que saíra sofrida lá de dentro de mim, quando senti pena do meu pai. Era o tal “galpão”! Atravessei a
pequena porta que dava acesso ao seu interior. Procurava pelos tais “caibros”,
onde ele tinha caído enquanto dormia. Só encontrei o vazio. No lugar, só gravetos,
poeira no chão, insetos mortos e ressequidos. Mas enquanto observava o resto
daquele imenso espaço; as vigas do telhado, as paredes altas, avistei um grupo
de mulheres que trabalhava silenciosamente. Algumas sentadas no chão,
movimentavam nervosamente as mãos, de onde saia uma espécie de teia colorida e comprida.
Outras ajustavam uns cordões, pendurados num gancho enorme fixado numa tora
grossa de madeira.
Espalhadas pelo chão, muitas
crianças. Umas recém-nascidas, dormiam deitadas em pedaços de panos velhos numa
espécie de cama arranjada ali mesmo. Outras engatinhavam livremente
entre as mulheres e as maiores brincavam tranquilamente com caixas velhas,
restos de fios e tecidos que eram descartados pelo trabalho daquelas mulheres. Recortando
o silêncio, ouvia-se um som ritmado e preciso, como se fosse a batida em alguma peça de madeira. É que no centro das
atividades, duas mulheres de pé, controlavam cada qual um artefato complicado
com centenas de fios horizontais e verticais que trocavam de sentido, cada vez
que elas acionavam duas tábuas com os pés. Aos poucos ia se formando uma trama,
um curioso tecido colorido. Tira esse menino daqui senão ele vai se machucar no
pedal do tear, ouvi de uma delas falando mais alto. Sentadas num canto, outras
duas figuras sentadas, enrolavam com a ajuda dos dedos do pé, os novelos de
fios de algodão.
Observar aquele ambiente, passou a
exercer em mim uma espécie de fascínio. Eu gostava do silêncio, da forma coletiva
de como aquelas mulheres trabalhavam e cuidavam dos filhos, sem divisão de
espaços. Da calma nos cuidados com as crianças e nas tarefas do
trabalho. Um dia cheguei, e as atividades estavam paradas. Sentadas, com as
pernas estiradas ou cruzadas, davam de mamar aos recém nascidos. Outras
alimentavam os maioresinhos com uma papa de leite e farinha, servida na boca, com
seus próprios dedos. Eu me entregava à cena, observando cada dobrinha daqueles
corpos gordinhos, impregnados de uma oleosidade suave. Vi que outras amassavam a
farinha com feijão, faziam um bolinho e botavam na boca das maiores. Tagarelavam
baixinho, até sussurravam. Eu caminhava silente, descalça, no chão refrescante do cimento
daquela pequena fábrica de redes. Me sentia como uma daquelas crianças; gordinhas,
morenas, lustrosas. Mil anos tinham meus olhos e sentidos, nas palavras que eu
mesma dizia baixinho: peito, leite e cheiro de algodão cru. A rede que me
balança tem punhos fortes. Varandas são babados, como as “pelancas” dos braços da
minha avó batendo bôlo, pensava! Tudo ecoa na memória e se mistura com o
rangido melancólico das rodas de ferro daquele velho velocípede, que eu
arrastava no cimento do oitão da minha casa. O dia de ontem passou como aquela
estrela perdida, que nas minhas noites sozinha, eu não conseguia encontrar de
volta de um dia para o outro, enquanto eu era cativada pela imensidão do céu. Eu
nascera ali... Ali estavam a jangada, o mar e os coqueiros que eu distinguia
nas filigranas bordadas das blusas brancas estendidas no varal do quintal
daquela casinha. Como a corrente de água daquele riacho, levo comigo o cheiro das
ervas e a imagem daquela imponente mangueira, vivendo no meio da paisagem
urbana. Era a luz do sol que projetava na calçada do jardim da minha casa, a
imagem do farfalhar das folhas da trepadeira que se espraiava no caramanchão, e
que eu não conseguia identificar de onde vinham. Era o gosto adocicado do
néctar das pequenas flores que meu pai me ensinou a sugar, antes de uni-las
pelos pedúnculos e fazer o colar para pendura-lo no meu pescoço. Era o rastro
dos pés do Perú deixados na areia do quintal e o vagido surdo que eu escutava
quando passava perto daquele quarto escuro. Eu nascera ali! Aquela era minha
vida ... e eu era somente uma alma atenta.