quinta-feira, 21 de abril de 2022

 

 ...e então?

Então Ricardo: recebi suas mensagens. Uma explicando seu projeto, pedindo minha colaboração. Na segunda mensagem escreveu dispensando-me da tarefa. Na dúvida, andei fazendo anotações, lembranças, tentando me prevenir de uma possível terceira demanda de sua parte. Como tinha lhe dito, achei que as muitas pessoas que tinham escrito sobre o Augusto Pontes, já tinham dado o tom da sua publicação e que eu, mesmo tendo conhecido seu humor, inteligência, ironias, inquietudes, não queria ser “redundante” com mais um texto. Mostrar a figura, seria falar da minha experiência de ter trabalhado diretamente com ele nos dois festivais de música aí em Fortaleza em 1967 (GRUTA) e 1968 (Rádio Assunção). Seria falar da nossa convivência quando moramos em Brasília nos anos 70 e também tê-lo encontrado depois de muitas décadas aí em Fortaleza, constatando que ainda era o mesmo; continuava com insônia e novos grupos já tinham se juntado aos sessentões da minha geração para a experiência de voltar para casa de madrugada, se perguntando: não sei por que, mas o riso que ele provoca me deixa também numa espécie de desamparo existenciall! 

Nos fins do meu curso de Serviço Social, por volta dos anos 65/66, eu frequentava os debates do Clube de Cinema e as reuniões do CPC. Foi lá que avistei pela primeira vez aquela figura vivaz, nervosa, de cabelos pretos desalinhados, e roupas surradas. Fazia dupla com o Euzélio Oliveira que interferia fomentando o debate. Mas nossa aproximação se deu um pouco mais tarde, no contexto da mudança do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno do casarão da Praça do Liceu para a Avenida da Universidade 2210. Na nova sede funcionavam dois cursos de extensão; um de canto coral e outro de teatro. Orlando Leite e B de Paiva, os dois Diretores, eram figuras acolhedoras e mantinham a instituição sempre aberta aos estudantes, fazendo com que o local logo se transformasse num polo de encontros, debates e convivências. Ali eu passava boa parte do meu tempo, pois além de ser aluna do Curso de Licenciatura em Música, do Bacharelato em Piano, era também professora do curso fundamental da instituição.

As inscrições dos certames e a própria administração do referidos Festivais, se davam por conta do Diretório Estudantil da instituição. Eu fiquei com todo o encargo de receber as poesias, transcrever as canções,  grava-las, apresentando-as ao Serviço de Censura da Polícia Federal para que fossem liberadas para a apresentação em público. O trabalho era exaustivo, visto eu também ter que dar conta dos meus alunos e das aulas do curso. Augusto, apesar de não ser estudante, aparecia a todo momento com sua costumeira capacidade de manter as pessoas com todos os sentidos acordados. Preocupado em saber de tudo e de todos, de se localizar em qualquer situação que não lhe fosse familiar. Lembro dele, e do Aderbal Freire, exaustos, saindo comigo daquele auditório da Radio Assunção já de madrugada, depois de varar a noite fazendo a seleção das músicas para o segundo festival. ... e haja molecagem!  Muitas vezes eu fugia um pouco e ia descansar em casa e de repente a figura aparecia com as mesmas demandas de trabalho sem tréguas, de questionar tudo. Certo dia foi meu pai que o recebeu. Quando apareci, percebi que estava pouco à vontade ali na companhia do velho. Quando ele entrou, Augusto me confessou que tinha sido seu aluno no curso de Técnico em Contabilidade da Fênix Caixeiral. Muito desconfiado, me falou também ter sido colega de turma de uma de minhas tias. Assim deduzi que era bem mais velho do que eu.

Naquela época, lembro que eu e minha irmã, fomos certa vez busca-lo em sua casa que ficava perto de onde morávamos. Quem nos recebeu foi sua mãe e logo identificamos de quem ele puxava o humor. Ela foi logo nos fazendo rir, censurando-nos por sermos amigas do seu filho. Aproveitou e nos contou algumas de suas peripécias dentro de casa. Entre outras, de que ele não dormia e nem deixava ninguém dormir quando seus netos vinham lhe visitar. Ele ficava em um quarto e as crianças num outro, separados por uma “meia parede”. Os dois lados passavam a noite a jogar seus sapatos por cima da parede numa verdadeira batalha de arremesso, de um lado para o outro, e ninguém conseguia dormir. Identifiquei ali o porquê da sua incansável vida noturna, envolvendo a todos com sua irreverencia, sua maneira de fazer o outro pensar, enquanto a noite ia passando até que exausto, ele voltasse para casa. E quem não fazia parte do seu séquito ou não lhe dava a devida atenção, logo passava a ser motivo de suas ironias. Lembro com muito carinho, de três jovens que faziam parte daqueles que frequentavam as rodas ali pelos bares da praia. Roberto Aurélio, Sergio Pinheiro e Hipólito eram bem mais novos, e faziam o estilo largado, meio hippies. Falavam pouco e não levavam o “gurú” a sério; não o fazia de centro das atenções, coisa que lhe irritava bastante. Certa vez encontrei-o na rua com um livro debaixo do braço e perguntei que livro era aquele. Ele me mostrou a capa e respondeu: Mércia, isso aqui são poesias de Ezra Pound. É pra espantar hippies, acrescentou! À noite encontrei-o na Beira Mar, todo pronto, de paletó e gravata, ainda com o tal livro debaixo do braço. Como sempre, à espera de alguém que pudesse ouvir suas perguntas, piadas, até que chegasse a madrugada. Os três jovens se aproximaram na sua marcha lenta, fazendo cachinhos nos cabelos. Ele não teve dúvidas; puxou imediatamente o livro e empurrou-o bem no rosto dos três e gritou HÁAAA!!!! Viu, Mércia, falou! Os meninos pouco se moveram. Rodearam as mesas lentamente e se sentaram como se fossem os únicos no ambiente. Não conformado, enquanto outras pessoas iam tomando seus lugares, ele continuava a tentar tirar os meninos da indiferença! Hippie, cês nun diz que são livres? Então vamos ver quem é mais hippie. Eu ou vocês! Os meninos continuavam impassíveis, enquanto ele continuava a desafia-los. Então? Vamos ver quem é mais hippie! Duvido vocês irem ali no mar, tomar um banho e voltar pra cá! E o desafio continuou sob a indiferença dos jovens. Quando eu menos esperei, lá vinha a figura saindo da escuridão da noite, todo molhado e sujo da areia da praia! Mesmo assim, nada captava a atenção dos meninos e ele indócil, continuava a desafia-los. Se fazendo de bêbado (sim, ele usava muito esta artimanha para dizer as coisas e não ser questionado) falava: vocês são hippies? Então eu duvido vocês fazerem xixi aqui nas garrafas para todo mundo ver! Indiferentes, o mais que eles faziam era dizer: Augusto, deixa de ser chato! E ele não parava! Cês nun são hippies? De repente, aquela figura já toda desfigurada no seu terno molhado e sujo de areia, abriu a braguilha e fez xixi nas garrafas vazias que estavam em cima da mesa.

Assim eram as noites da nossa geração; nos bares ou reunidos na casa de alguém, sonhando com a “fama” como músico, poeta, seguindo o “faro” do Augusto, assim como ele tinha feito com a geração anterior, que descobrira o Teatro, o Cinema, e o Radio, e queria conhecer o país ali de debaixo das marquises do saudoso “Abrigo Central”.   

 Augusto apostou tudo na nova configuração das mentalidades dos jovens. Até jogou no Carneiro. Queria ir embora pro Rio de Janeiro, buscar as coisas de lá. Deu uma “paradinha” no caminho e foi tomar banho na mansidão do lago; metade dele, metade da lua! Era começo dos anos 70, e moramos aqui em Brasília. Ele e Ieda Estergilda com a família do Rodger no 5º andar do Ed. Flávia Ilka na 311 sul e eu no primeiro andar do mesmo prédio. Nada mudara! Dedé Evangelista, Rodger, Flávio Torres e outros, estavam todos trabalhando na UNB e a eles foram se juntando outros professores que nos fins de semana eram atraídos pela insônia inteligente e o humor sarcástico da figura. Não havia tempo parado. Os encontros começavam na sexta depois do expediente, quando se reuniam para jogar Totó num local lá no Lago Sul. A brincadeira varava a noite até à madrugada sonolenta. De volta, esperávamos o grito dele de dentro de um dos carros: pára, pára, pára! Em plena Avenida das Nações ele abria a porta e já saia gritando: Bicho Bruto!! Quem foi que te fez assim tão ignorante pra fazer uma casa feito o palácio dum outro bicho bruto lá não sei de onde!!! Ali a turma passava o fim da noite a rir de sua crítica à arquitetura duvidosa das casas dos ricos da cidade. Donde foi que tú tirou estas colunas, ignorante!!!

O resto dos fins de semana eram passados no apartamento do Dedé onde tinha um jogo de Totó nas dependências da casa. Nos fins das tardes de domingo, já Inutilmente bêbados, com o Augusto sentado, encostado na parede da sala com as pernas abertas feito um grande boneco de pano, a usar a concisão poética da lírica japonesa dos “haikais” para comentar, o que acontecia no país.

A declaração desencantada de Oscar Niemeyer, deixando o Brasil inculto que censurava suas obras, que perseguia seus cérebros. É como dizia o Oscar, vou pra nunca mais voltar. O desabafo de Lúcio Costa estampado nos jornais quando visitou a cidade desencaminhada do seu projeto urbanístico original. É como dizia Lúcio Costa, minha cidade está uma bosta! Em plena Ditadura Militar, uma desavençazinha entre os ministros. É como dizia o Ministro da Guerra: homi, eu quero é Paz! E o ministro da Aeronáutica que reclamava do exagerado número de funcionários do seu ministério: No meu ministério só tem funcionário paraquedista!

Nosso amigo não conseguia conviver bem com as pessoas que se mantinham independentes daquele grupinho que se reunia nos bares ou na casa de alguém,  para ouvir e fazer música. Aderbal Freire, que tinha se mudado recentemente para o Rio de Janeiro e em plena ditadura tinha ganhado uns prêmios na área de Teatro, era alvo de seus ciúmes em haikais cantados em forma de “aboios”. Ô Aderbal! Tu que ganhou 14 estátuas de páu!

Seus deboches atingiam também o B. de Paiva que tinha deixado o Ceará e estava morando no Rio, dirigindo a atriz Glauce Rocha! Ô B de Paiva, pra que tanto trabalhar, um pé no chão outro no ar!

Ó Belchior, tú que deixou de ser doutor!!!, lembrava a fuga do estudante de medicina/cantor/compositor, para tentar a carreira de artista em São Paulo.

Há que se perguntar sobre o papel das mulheres no meio daquilo tudo! O que sempre fizeram: presenciar a brincadeira dos homens a soltar “bolinhas de sabão”, na cozinha fazendo “caldos” para os bêbados ou esperando a madrugada chegar e conduzirem seus maridos de volta para casa. Uma vez ou outra, a Tetty era chamada para “cantarolar” alguma  canção inventada ali mesmo na hora...

Da época, lembro de um encontro inusitado que tivemos eu e ele enquanto caminhávamos a pé até o restaurante Roma que ficava na W3, exatamente na altura do prédio onde morávamos. Estávamos a meio caminho quando de repente apareceu um cachorro e se postou na nossa frente, rosnando, mostrando os dentes, em posição de ataque.  Imediatamente Augusto levantou as mãos como se tivessem lhe dado voz de prisão. Ficou paralisado. Atrás do bicho vinha seu dono correndo, tentando nos acalmar. Calma, calma, fiquem tranquilos, ele não morde, dizia ele! Augusto então soltou esta frase!! “Meu amigo, eu estou calmo, quem não está calmo é seu cachorro!”

Em 73 voltei para o Ceará e só o via quando ele ia a Fortaleza em férias. A cidade tinha crescido bastante e encontrar os amigos já era difícil se não tínhamos transporte próprio. Mas sei que ele como criatura que atravessava gerações, ainda ditava o lugar e o eixo da vida noturna nos bares da Beira Mar. Mais raros, nossos encontros se davam de forma coloquial, sem a interferência da “claque” que conversava, bebia, e inventava músicas. Sei que estava fazendo o curso de comunicação na UNB, onde era mais conhecido como “Chico Pontes”, que tinha uma companheira, salvo engano, já com filhos. Nesta época eu também já tinha me desligado dos “artistas da praia”! Mesmo assim fazíamos sempre um joguinho rápido sobre os velhos amigos e as novas aquisições da noite. Eu citava o nome de alguém e ele qualificava entre “amigo bruto ou bruto amigo”. Neste sentido, nossas línguas se igualavam!

Voltei a encontra-lo em 89 quando fiz um recital de Músicas Nórdicas no Foyer do Teatro Jose de Alencar. Logo que entrei no palco, tive a grata surpresa de vê-lo sentado na primeira fila da sala! Me emocionei!

Em 95, quando precisei ir a Fortaleza para uma pesquisa, encontrei-o novamente. Eu precisava saber sobre os programas de auditório na década de 40/50 e sabia que ele quando jovem, tinha sido frequentador destes eventos. Foi muito generoso e me indicou nomes que poderiam me ajudar. O centro de suas inquietações naquele momento, era saber sobre algumas pessoas da área da cultura musical da cidade, com quem ele estava, por força das circunstancias do seu novo trabalho, tendo que interagir.

Nos vimos novamente quando toquei no prédio da Federação das Indústrias do Estado do Ceará em homenagem aos 60 anos do Cláudio Pereira. Como sempre, suas novas aquisições não eram poucas e aproveitei para me informar sobre o ambiente da recepção num espaço na beira da praia. Ficamos de pé um bom tempo e me diverti muito, me informando com ele sobre quem era quem, ali no novo zoológico festivo da noite.

Assim Ricardo, pensei bem e vi que seria melhor eu não participar de sua publicação. Mesmo porque não vou fazer falta. Tem tanta gente que já escreveu e eu iria destoar do todo da obra. Espero que me entenda e não me leve a mal. Desejo que o livro seja uma oportunidade de contribuir de forma positiva para evidenciar o personagem e seu engajamento em mostrar de forma “socrática” aos jovens de tantas gerações, de que antes de sonhar o Brasil poética e musicalmente, era preciso pensa-lo ... e bem “acordado”! Que as lembranças descritas no livro, se transformem não numa sopa, mas num banquete de saudades.

Mércia Pinto

Pianista.

Especialização em performance/Hochschule für Musik /Berlim/ Alemanha

Mestrado em Pedagogia dos Instrumentos de Teclado/ Musikhögskola. /Lunds Universitet Suécia

PHD em Musicologia/Liverpool University /Inglaterra

Professora Emérita/ UNB