segunda-feira, 15 de agosto de 2022

 


...era uma vez!

Quando soava a sirene da fábrica de cigarros Araken, ela deixava os afazeres da cozinha e me chamava: tá na hora de tomar seu banho! Me puxava pela mão, tirava minha roupa e me colocava debaixo do chuveiro. Ignorava meus protestos de que a água estava fria. Me revirava, me ensaboava, lembrando-me sempre para fechar os olhos e levantar os braços. Tinha também o momento “chrorô” quando enfiava o pente no meu cabelo molhado tentando penteá-lo. Por fim, o cheiro do talco que ela passava no meu corpo, vestia-me umas calcinhas, abotoava minha alpercata e dizia: agora vá brincar ali no oitão, esperando a hora do almoço.

Imagino que criança gosta de ritual; decorar palavras, executar e repetir a sequência de pequenos eventos. Se sente “sabida” quando já consegue se localizar dentro de casa e nomear os ambientes e rituais domésticos. Almoço, jantar etc.  O “oitão” por exemplo, era o espaço que formava uma espécie de bêco entre a parede lateral da construção da nossa casa e o muro da vizinha. Era onde eu sentava naquela “coisa” e com a força das pernas, tentava movimentar suas rodas enferrujadas ... até a hora do almoço.  

Às vezes ela me dava atenção, eu lembro. Me ensinou a conversar com os bichos: miar como os gatos, latir com os cachorros, cantar como os bem-te-vis, galinhas, patos, grilos e muitos outros animais.  Mas um dia quando o perú da vizinha apareceu no nosso quintal, do alto de minha “sapiência” eu gritei: glu-glu-glúu! O bicho correu atrás de mim até que dominada pelo medo, fui acolhida em seus braços. Me tremia toda, enquanto “a fera” eriçada, rodopiava na areia, bufando, arrastando as asas numa espécie de dança macabra!  Balançava a carúncula que mudava de cor. Fiquei realmente muito assustada e por mais que ela tentasse me consolar explicando de que ele só queria conversar comigo, me conhecer, eu chorava sem parar. Nesse dia, além de “espritada” por conseguir andar naquela geringonça de ferro velho que chamavam pelo comprido e esdrúxulo nome de “velocípede”, quando meu pai chegou para o almoço, ganhei mais um apelido: “mãe d’água”! Eh! Realmente ele nunca foi alguém paciente.

Aquele era um tempo diferenciado. Em parte marcado pela chegada da minha avó que viera do interior. A casa ressoava poucas palavras. As mulheres, com exceção da criada, se mantinham praticamente o dia todo naquele quarto. Eu não entendia, não me apercebia claramente dos eventos do cotidiano mas sentia que alguma coisa tinha mudado. Aqui acolá eu escutava sussurros, rumores, falas esparsas que eu não conseguia distinguir, muito menos compreender. Tudo indicava que algo acontecera e que eu não tinha sido chamada a participar. Meu pai também fazia parte do silêncio, pois saia, voltava para almoçar, saia novamente, sempre evitando barulho. Ouvia dizerem que ele estava dormindo no “Galpão”. Para mim ele também tinha sido isolado dos acontecimentos. Até a espreguiçadeira, que ele costumava armar debaixo do caramanchão nos dias em que ficava em casa, estava ali abandonada num canto. Eu não ganhava mais aqueles colares feitos de florezinhas, que ele engendrava umas nas outras e pendurava no meu pescoço, antes de começar a ler o jornal. E a comida? Ah, esta perdera parte do cheiro e do sabor! E aquelas pessoas que às vezes ocupavam a sala da frente da casa com risos, gritos e falas? Eu caminhando no meio delas, feito um pequeno fantasma, sem entender de que aquilo se tratava? Tornavam-se apenas leves lembranças.

Um dia de manhã cedo, eu estava ali na cozinha da casa quando ele entrou apressado com uma corda quebrada e um pedaço de madeira na mão. Tive que dormir em cima daquele monte de caibros! Não sei quem foi, mas cortaram a corda e eu caí da rede, falou para a criada que preparava o café. Imaginei o susto de alguém dormindo, e subitamente cair em cima de um monte de madeira sem saber como e por que! Eu não sabia o que era tristeza, mas lembro bem que pela primeira vez, senti pena dele!

Na sequência pálida dos acontecimentos, uma espécie de intimidade surda foi se instalando dentro de mim. Sozinha, me virei para o mundo. Fui me dando conta do nome dos lugares, das coisas, do tempo vazio e das palavras que se fixavam na minha mente: oitão, perú, caramanchão, e por último, galpão! Eu tinha um pouco mais de três anos quando descobri embevecida a chuva caindo. De onde vinha aquele imenso chuveiro, derramando água que caía da parte côncava das telhas, me perguntava. No princípio pingos esparsos e pouco a pouco ficando mais fortes, até alagar todo o quintal.

Num mundo de entrelaçadas impressões que se mostravam fora de mim, lembro das noites, do balanço suave da rede, do piscar das estrelas no céu. As luas eram o grande mistério! Umas maiores, alaranjadas, subindo lá detrás das árvores e casas, outras, visíveis até de dia; só o risquinho fino e prateado no alto do céu. Ali no silêncio, ouvia pedaços de um canto coletivo muito agradável que soava muito longe. Acreditava em mistérios, sim. Imaginava que vinham de seres encantados que aproveitavam as horas do começo da noite para cantar e dançar. Identifiquei depois, que vinham de uma quadra, a única não urbanizada do bairro e que ficava do outro lado da rua. Passei a observar de longe o local. A cerca que servia de limite para a terra, permitia que eu identificasse a vegetação e quando saia para andar a pé com meu pai, via a mata que crescia no meio daquele espaço urbano tão diferente do enfileirado de casas que caracterizava a rua onde eu morava. Descobri também um pequeno riacho onde eu parava para apreciar os nervosos peixinhos nadando, dourados pelos raios de sol. Mas minha grande curiosidade era aquela pequena casa, construída debaixo daquela imensa mangueira que sombreava uma parte do terreno, e que meus ouvidos sabiam que era de lá que vinham os sons que envolviam meu sono. Um dia, guiada pela mão da nossa criada, entrei naquele grande sítio “encantado”. O chão batido debaixo da mangueira era lugar de convivência, pois lembro de alguns tamboretes e cadeiras com tampo de couro, arrumados em círculo. Entrei na casinha como se estivesse entrando num palácio encantado. Observava os detalhes de cada ambiente. O chão de tijolos, as paredes caiadas, o telhado simples. Nem lembro de ter visto alguém ali pois fora seduzida pela simplicidade, pela sensação de acolhimento que cada detalhe me inspirava. Da extrema limpeza do lugar, lembro também dos seus pequenos cômodos; sala, quartos, cozinha e lá no fundo, uma latada coberta com palhas de coqueiros, todos marcados por pequenas passagens de onde pendiam branquíssimos panos bordados e já envelhecidos.

Em casa, fui aos poucos me acostumando com aquele tempo suspenso, onde a movimentação do mundo doméstico não me dizia muito respeito. Quando perdera o medo do quintal, onde aquela ave “medonha” me ameaçara com seu “gungunzado”, fui aos poucos caminhando sozinha pela areia, reconhecendo lugares, rastros, sons. Depois de uma chuva, quando o sol voltou a iluminar o terreiro, lancei o olhar mais além e me deparei com a imensa construção que fazia limite com a parte dos fundos da minha casa. Fui tomada pela vertigem da inatingível altura daquele paredão vazado pela pequena janela em forma de círculo e que passou a me lembrar para sempre, a lágrima represada que saíra sofrida lá de dentro de mim, quando senti pena do meu pai. Era o tal “galpão”! Atravessei a pequena porta que dava acesso ao seu interior. Procurava pelos tais “caibros”, onde ele tinha caído enquanto dormia. Só encontrei o vazio. No lugar, só gravetos, poeira no chão, insetos mortos e ressequidos. Mas enquanto observava o resto daquele imenso espaço; as vigas do telhado, as paredes altas, avistei um grupo de mulheres que trabalhava silenciosamente. Algumas sentadas no chão, movimentavam nervosamente as mãos, de onde saia uma espécie de teia colorida e comprida. Outras ajustavam uns cordões, pendurados num gancho enorme fixado numa tora grossa de madeira.

Espalhadas pelo chão, muitas crianças. Umas recém-nascidas, dormiam deitadas em pedaços de panos velhos numa espécie de cama arranjada ali mesmo. Outras engatinhavam livremente entre as mulheres e as maiores brincavam tranquilamente com caixas velhas, restos de fios e tecidos que eram descartados pelo trabalho daquelas mulheres. Recortando o silêncio, ouvia-se um som ritmado e preciso, como se fosse a batida em alguma peça de madeira. É que no centro das atividades, duas mulheres de pé, controlavam cada qual um artefato complicado com centenas de fios horizontais e verticais que trocavam de sentido, cada vez que elas acionavam duas tábuas com os pés. Aos poucos ia se formando uma trama, um curioso tecido colorido. Tira esse menino daqui senão ele vai se machucar no pedal do tear, ouvi de uma delas falando mais alto. Sentadas num canto, outras duas figuras sentadas, enrolavam com a ajuda dos dedos do pé, os novelos de fios de algodão.

Observar aquele ambiente, passou a exercer em mim uma espécie de fascínio. Eu gostava do silêncio, da forma coletiva de como aquelas mulheres trabalhavam e cuidavam dos filhos, sem divisão de espaços. Da calma nos cuidados com as crianças e  nas tarefas do trabalho. Um dia cheguei, e as atividades estavam paradas. Sentadas, com as pernas estiradas ou cruzadas, davam de mamar aos recém nascidos. Outras alimentavam os maioresinhos com uma papa de leite e farinha, servida na boca, com seus próprios dedos. Eu me entregava à cena, observando cada dobrinha daqueles corpos gordinhos, impregnados de uma oleosidade suave. Vi que outras amassavam a farinha com feijão, faziam um bolinho e botavam na boca das maiores. Tagarelavam baixinho, até sussurravam. Eu caminhava silente, descalça, no chão refrescante do cimento daquela pequena fábrica de redes. Me sentia como uma daquelas crianças; gordinhas, morenas, lustrosas. Mil anos tinham meus olhos e sentidos, nas palavras que eu mesma dizia baixinho: peito, leite e cheiro de algodão cru. A rede que me balança tem punhos fortes. Varandas são babados, como as “pelancas” dos braços da minha avó batendo bôlo, pensava! Tudo ecoa na memória e se mistura com o rangido melancólico das rodas de ferro daquele velho velocípede, que eu arrastava no cimento do oitão da minha casa. O dia de ontem passou como aquela estrela perdida, que nas minhas noites sozinha, eu não conseguia encontrar de volta de um dia para o outro, enquanto eu era cativada pela imensidão do céu. Eu nascera ali... Ali estavam a jangada, o mar e os coqueiros que eu distinguia nas filigranas bordadas das blusas brancas estendidas no varal do quintal daquela casinha. Como a corrente de água daquele riacho, levo comigo o cheiro das ervas e a imagem daquela imponente mangueira, vivendo no meio da paisagem urbana. Era a luz do sol que projetava na calçada do jardim da minha casa, a imagem do farfalhar das folhas da trepadeira que se espraiava no caramanchão, e que eu não conseguia identificar de onde vinham. Era o gosto adocicado do néctar das pequenas flores que meu pai me ensinou a sugar, antes de uni-las pelos pedúnculos e fazer o colar para pendura-lo no meu pescoço. Era o rastro dos pés do Perú deixados na areia do quintal e o vagido surdo que eu escutava quando passava perto daquele quarto escuro. Eu nascera ali! Aquela era minha vida ... e eu era somente uma alma atenta.

 

 

 

sábado, 9 de julho de 2022

 DISCURSO  NA CERIMÔNIA DE OUTORGA DE TÍTULO DE PROFESSORA EMÉRITA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA



Ilustríssima senhora Dra. Marcia Abraão, Magnífica Reitora da Universidade de Brasília.

Ilustríssima senhora Dra. Fátima Aparecida dos Santos. Diretora do Instituto de Artes da UNB.

Ilmo Sr. Dr. Carlos Eduardo Melo, Chefe em exercício, do Depto de Música da UNB.

Caro colega Dr. Ebnezer Maurilo. amigo leal, que junto com meu outro colega: Dr. Renato Vasconcelos se encarregaram de escrever o memorial da cerimônia.

Gostaria de agradecer a presença das colegas que compõem esta mesa. Elas foram escolhidas não só por suas qualificações profissionais, mas, sobretudo porque fazem parte da minha vida.

Eu era ainda adolescente quando fui aluna da Elba. Desde então nos tornamos amigas, irmãs, cumplices em lutas e também fuzarcas, a ponto de juntas largarmos nossos maridos e filhos, seguindo rumo à Inglaterra para a aventura de fazer um doutorado.

A Martha surgiu na minha vida fazem mais de 20 anos, aqui mesmo na UNB. Uma risadinha aqui, uma gargalhada ali! Um esclarecimento aqui, um livro pra ler ali. Uma conversa séria de vez em quando em algum congresso e nunca mais soltamos a mão uma da outra.

Alla Dadaian é fina pianista que abriu sua sensibilidade para executarmos peças do repertório a dois pianos aqui em Brasília. Desde então nos filiamos à famosa confraria das “gargalhantes ferinas” e somos duas mulheres grandes e amigas até hoje.

Cristina é colega querida, companheira de participações em eventos e longas conversas sobre educação. Não posso deixar de lembrar que teve a “ousadia” de me entregar suas duas filhas pequenas, para serem minhas “borboletinhas” num projeto de extensão que coordenei aqui na UNB.

Flávia foi minha chefe quando dei aulas pela UAB/UNB. É pessoa que tenho no mais alto grau de respeito e carinho por suas qualidades humanas e de docência.

Por último, mais uma mulher grande; minha amiga Irene Bentley, com quem trabalhei em diversos projetos. convivendo com seus adoráveis cantores.

Agradeço também à minha querida ex-aluna Norma Parrot que gentilmente cedeu um pouco de sua arte executando as peças que serão exibidas nesta cerimônia.

Agradeço a presença de meus familiares; irmãos, sobrinhos tios e primos.

Agradeço por último e não menos importantes, aos meus amigos e queridíssimos alunos e ex-alunos.

Do memorial lido nesta cerimônia, as experiências contrastantes parecem fazer parte do meu ser e da minha presença no mundo. Como boa andarilha que fui, decidi falar aqui, sobre uma das primeiras trilhas que percorri e que dei o nome proustiano de: “No caminho da aula de música”.

O ponto de partida é o pequeno bangalô que fora construído por meus pais no fim de uma via situada a alguns metros do “Cercado do Zé Padre”, uma das mais conhecidas favelas da cidade e da crônica policial. Vivíamos como uma típica família da classe média da época. Imaginem vocês que se meus pais trabalhavam, se tínhamos uma vida relativamente estável, os ecos da pobreza e da indigência passavam bem pertinho de nossos sentidos, pois fui menina que circulava livremente entre estes dois mundos; brincando na areia, pegando lombriga e bicho de pé, tomando banho no riacho que passava lá no meio dos casebres, colhendo flores silvestres para enfeitar a casa das minhas bonecas e conhecendo pelo nome, uma boa parte dos habitantes daquela comunidade.

Fui batizada, pertenci à cruzada infantil da mesma igreja onde fiz a primeira comunhão e onde me casei. No entanto, confesso que nunca consegui desenvolver o fervor religioso de minhas coleguinhas. Minha educação não por escolhas, mas por necessidade, foi também marcada por contrastes. Minha mãe, que era professora, nos matriculava nos colégios em que trabalhava porque tinha abatimento nas mensalidades. Fui alfabetizada com uma professora particular e saí dali direto para um grupo municipal, mudando depois para uma escola católica (Colégio Santa Lúcia). Terminei meu curso primário e fiz mais duas séries do ginásio, num Colégio Batista.

As duas últimas séries, cursei-as no Colégio Capistrano de Abreu onde o ensino seguia as mais modernas teorias de educação. Mas a saga não termina por aí, pois fiz meu segundo grau num colégio público para meninas. Além de estudar música no Conservatório, onde estudavam os filhos da camada mais rica da cidade, convivi também com freiras e padres durante os quatro anos do meu primeiro curso universitário. Ainda lembro de que as epístolas de São Paulo e as Encíclicas papais eram estudadas na disciplina de “Doutrina Social da Igreja”, e que eu entrava pelo jardim da instituição para não passar na frente da capela e não ser censurada pelas freiras, por não assistir à missa antes de começar a aula. Não menos importante foi o período em que já profissional, fui professora de Piano da Escola de Música do Estado do Maranhão e morei três anos e meio muito felizes, no convento Santo Antônio daquela cidade. Finalmente, vivi quase 40 anos com o filho de um Pastor Luterano e uma missionária. Frank brincava, se gabando de ter me tirado do convento.

Lembro minha iniciação musical.  Eu tinha sete anos. Minha mãe me levou somente uma vez, para que eu aprendesse o caminho da casa da professora. Da segunda vez ela me chamou, me entregou os livros devidamente encadernados, e uma velha sombrinha cuja parte metálica ela tinha adquirido não sei onde e mandara cobrir com um tecido de fustão branco com enormes flores vermelhas.

Mercinha, aqui estão seus livros de música, me disse. Tenha cuidado para não estraga-los. Use esta sombrinha o tempo todo, pois o sol é muito quente e você é muito pretinha, enfatizou.

Não posso omitir que boa parte da minha existência, da procura do meu lugar no mundo se deu na medida em que eu realizava diariamente aquele longo trajeto, para ter aulas de música. Antes disso eu era realmente pretinha de corpo, mas imaculada de alma. Não que eu fosse uma Maria concebida sem pecado original. Não, eu era simplesmente um anjo incolor, com um pouco de purpurina no olhar, que foi levando quedas aqui acolá, arranhões que rasgavam minhas vestes e muxicões que quebravam minhas asas. Assim, através do que fiz e porque fiz, o mundo foi se revelando para mim, me tornando em quem eu sou.

É que mal eu abria a porta e recebia as primeiras brisas da manhã, não raro me deparava com um bêbado e seu cachorro dormindo ali na entrada da casa. Isso quando não aparecia uma mulher descabelada entrando desesperada casa adentro, pedindo socorro para o filho doente, para alguém esfaqueado ou para ela mesma, já sofrendo as últimas dores do parto. Lá ia um de meus pais telefonar para a ambulância e a casa entrava em rebuliço. Tivemos inclusive uma cozinheira, a Neusa, que foi assassinada pelo namorado na calçada de nossa casa. Não me lembro de uma só refeição que não fosse interrompida por alguém que batia na porta e pedia algo para comer. Apesar da irritação, meus pais não negavam a ajuda.

Meu trajeto para a aula de piano foi sempre feito com a tal sombrinha que em nada me protegia do sol. Todo o seu trabalho era mesmo impulsionar-me com o auxílio do vento, e que eu me deliciava com aquele voo terrestre. Saía de casa já correndo pra não encontrar aquele velho tarado, sovina e mau patrão, que com uma dezena de jumentos carregando pequenas pipas com água, explorava os pobres, vendendo o precioso líquido para a favela. Ele me saudava assim que eu dava os primeiros passos na calçada. Tinha a mania de me oferecer uma moedinha tentando bulinar meus mamilos de criança. Eu preferia mesmo era ouvir o canto repetitivo da Araponga do seu Saraiva que fazia contraponto com o caos sonoro das brigas das mulheres filhas do Seu Zé Frota, o velho alfaiate que costurava calmamente seus ternos na parte da frente da casa.

Arrastada pela força do vento, passava também correndo por aquela velha síria obesa, que a família colocava para tomar sol no meio da calçada, e que quando eu passava, ela me chamava de “xaramuta” com sua voz grossa e raivosa. Depois de muitos anos fiquei sabendo que ela me chamava mesmo era de “prostituta” em árabe!

Disputando o espaço da rua, um grupo de adolescentes desocupados, usavam um pedaço de carvão para rabiscar no chão, suas fantasias eróticas. Qualquer figura feminina que passasse, recebia sempre um assovio ou uma piadinha.  Apesar de atingida pelo que ouvia, tinha que encontrar forças e seguir o caminho da aula de música.

A Praça São Sebastião, de praça não tinha nada! Era somente um grande quadrado de areia no meio do espaço urbano e só servia mesmo como palco pras brigas e cruzamentos dos cachorros, que eram incentivadas pelos meninos das redondezas. Não! Minto, era ocupada às vezes pelos acampamentos de grupos de ciganos itinerantes ou pelos circos que se fixavam ali por alguns meses. Menina sonhadora, eu gostava de observar o cotidiano livre daquelas pessoas. O cheiro das comidas preparadas e cozidas ao ar livre, o estalar do carvão no fogareiro, lançando faíscas no ar, enchiam meus sentidos de imagens. A roupa estampada e os penteados daquelas mulheres de olhos verdes e tranças, eram romantizadas na minha imaginação de criança. Do circo, além do urro noturno dos pobres animais enjaulados ou amarrados, nunca esqueci da imagem de uma mãe gritando desesperada no meio dos escombros daquelas tendas itinerantes, porque o trapezista tinha “roubado” sua filha. Nunca mais soube notícias de Vivi; moça loura, mais linda que a Vênus de Boticelli saindo das águas.

Mas a loucura e o desespero não eram privilégio das mulheres que eu encontrava no caminho da aula de música; tão limpa, tão sagrada e doce até demais! Seu Assis, o velho marinheiro alcóolatra, estava sempre com alguma parte do corpo engessada, em consequência de suas inúmeras quedas. Aposentado, tinha servido na segunda grande guerra. Além de louco por Hitler, odiava samba, e adorava Beethoven. Sabia que eu estudava música e quando encontrava aquela menina magrela carregando aqueles livros pesados, levantava a mão fazendo a célebre saudação nazista e entoava as duas notas iniciais da 5ª sinfonia de Beethoven.

 Tantantantan!

Já adolescente, quando eu perdera o medo da figura, invertia e antecipava o cumprimento cantando:

Quem não gosta de Samba,

bom sujeito não é!

É ruim da cabeça,

ou doente do pé!(1)

Levada pelo vento, eu avistava o mercado do Bairro. Uma belíssima e imponente construção de ferro importado da França, que tomava todo o outro lado da praça. Dele e de seus arredores, guardo boa parte dos sons e imagens da minha infância; desde os gritos dos mercadores que madrugada adentro apareciam como personagens dos meus pesadelos, até o som dos rádios que tocavam naqueles pequenos comércios e restaurantes que circundavam o grande mercado. Nunca consegui me acostumar com o cotidiano daqueles homens todo ensanguentados, que de dentro dos caminhões, carregavam nas costas aquelas metades de corpos de bois abatidos para serem recortados e vendidos nos açougues do mercado. O barulho dos facões e martelos cortando as partes dos animais, a visão daquelas cabeças de bois sangrando, com os olhos esbugalhados, me causava terror e ao mesmo tempo pena daquelas criaturas que para sobreviver se sujeitavam a tamanho sofrimento. Minha angústia aumentava quando me lembrava do meu pai que acordava cedo todos os dias para ir fazer as compras da casa; carnes, verduras etc. Sabia que a crônica policial noticiava sempre tumultos e tragédias que aconteciam por ali e me dava medo pensar a que perigo ele estava sujeito.

O que dissipava um pouco meus temores era mesmo o vento que levava a sombrinha e agarrada a ela, eu deslizava no espaço. Ali na rua, o esgoto esverdeado e fedorento circulava a céu aberto. Lembro-me de contar freneticamente meus passos, fazendo zigzag e até pular para o calçamento, evitando escorregar nas cascas de frutas que eram jogadas ali mesmo nas calçadas. Boa parte das construções que circundavam o mercado eram constituídas por um paredão com duas portas e eu nunca soube o que realmente funcionava ali. Do lado de fora, sempre um fogareiro de barro que apoiava uma panela escura e suja, fritando pedaços de tripas de algum animal. Em outra panela num caldo escuro e ralo, cozinhava o feijão. Com o tempo, o cheiro daquela comida que invadia minhas narinas foi até me dando náuseas. O que eu nunca deixei de apreciar foi o estalar do carvão em brasa e as faíscas que se espalhavam no ar!

Cá de fora eu aprendi muito bem o que era o nada lá dentro! As quatro paredes de tão sujas não tinham mais cor. Do centro, pendia um lustre de papel crepom que tornava a luz ainda mais mortiça no recinto. Lá no fundo eu distinguia uma cortina de chita estampada que pendia dos caibros do telhado com uma placa escrito: RESERVADO. Comparava aquele ambiente com minha casa. Lembrava da luz do sol das manhãs que iluminavam a cama onde eu dormia. Da janela de onde eu seguia o movimento lento das nuvens. À noite, eu me balançando na rede, observando a imensidão do céu, as estrelas e a lua branca. Me imaginar vivendo ali me dava pavor. Afinal quem eram aquelas mulheres que moravam naquelas casas sem janelas pra olhar o céu? Porque se vestiam com roupas floridas, justas ou rodadas? E os decotes profundos? Entravam e saiam cantarolando alguma canção vinda dos rádios, único luxo realmente visível ali dentro. 

Se você me encontrar pelas ruas,

Não precisa mudar de calçada.

Faz de conta que somos estranhos,

E que nunca entre nós houve nada!

Não precisa baixar a cabeça,

Pra não ver os meus olhos nos seus.

Passarei

sem rancor,

Sem lembrar que um dia

entre nós houve adeus. (2)

Com certeza, além do conteúdo emocional destes versos, estas canções funcionavam para mim, como ditados melódicos, pois eu ficava solfejando baixinho a melodia, batucando o ritmo com os dentes.

E a tal placa escrito “Reservado”? O que seria aquilo? Porque reservado? O que acontece ali dentro, me perguntava. Era reservado pra que e pra quem? Alguma ideia eu tinha, pois tivemos uma empregada, a Nelsa, que tinha um caso tumultuado com um borracheiro de nome Nelson. Era linda de cara e de corpo e dançava muito bem. De quando em vez ela parava de trabalhar, prostrada por causa de algum aborto que tinha feito. Apaixonada, ela sofria muito porque o cara era sustentado pela Adalgisa, a dona de uma daquelas casas. Lembro que Nelsa tinha uma voz de contralto e cantava suavemente enquanto trabalhava na cozinha.

Foi pensando em você,

 Que eu escrevi esta linda canção.

Foi pensando em você,

 que é meu tormento e a minha paixão.

Falava do amor profundo, e só faltava dizer o nome dele.

No final ela entoava tristemente:

Não quero que zombem de nós toda esta gente.

É por sua causa que eu estou tão diferente!

Bem juntinho de mim, eu sabia por que ela se sentia diferente. É que dali a alguns dias, mamãe tinha que dar um esbregue nela e deixa-la deitada. No balanço lânguido da rede, ela sussurrava:

E bem juntinho dele, eu estou, morrendo de amor. (3)

Um dia quando voltava da aula, vi que a tal cortina estava levantada. A cena me entristece até hoje. Ao redor de uma pequena mesa, alguns homens bebiam e disputavam jogos de cartas e dominó. Lá no fundo uma ou mais redes imundas e alguns deles ali deitados. Essas impressões do mundo da minha infância, nunca pararam de me afetar. O ócio, o desemprego, a exploração pelo trabalho, a humilhação dos mais frágeis, a falta de perspectiva, de um projeto de vida digna, sempre me fizeram pensar, me colocar no lugar daquele que sofria, de querer entender o porquê de tudo aquilo. A imagem de meus pais que eram extremamente trabalhadores, contrastava com aquela atmosfera mortiça onde homens desocupados bebiam e jogavam no meio daquelas mulheres. Isto colocava um peso imenso no meu existir. Sei que vivi sempre no fio da navalha; entre a música de Bach, Chopin, e Debussy, e a que eu escutava na rua e na cozinha da minha casa. Esta última, entrava em mim direto nas entranhas, enquanto que a outra invadia meus sentidos, em forma de oração, de suplica.

Seguindo o caminho, eu ouvia o canto das crianças do Grupo Municipal que em fila esperavam o momento de entrar na sala de aula.

Oh! Tupã, Deus do Brasil

Que o céu enche de Luz!

De estrelas de Luar,

e de esperança!

Oh! Tupã, tira de mim,

Esta saudade!

Anhangá me fez,

Sonhar com a terra, que perdi! (4)

Certa vez quando eu passava por uma das quadras onde os muros eram muito altos, fazendo um corredor com ventos que corriam mais fortes, caí literalmente na realidade. Nunca esqueci daquela mão imensa que repentinamente apertou meu entrepernas. Me espatifei no chão com livros, sombrinha e tudo. O susto foi maior porque eu estava mesmo era voando, me deliciando, feito os urubús que se entregam às correntes dos ventos e flutuam lá no céu. Depois disso minha vida mudou. Tudo que era meu desapareceu. Como se aquele fato tivesse sido um castigo pelo meu descuido, por eu ter me entregue a devaneios. Afinal! Voar é para os pássaros!

Passei muitos dias vazia. Até o pão que eu comia inchava na boca e eu não sentia seu gosto. O que estaria reservado para mim, se eu também era mulher, como aquela moça que tinha fugido com o trapezista? Como aquela desesperada porque o filho estava doente e o marido tinha sido esfaqueado, daquelas que entravam e saiam daquelas casas, e também daquela pobre velha síria que nem português tinha aprendido? Bom, mas eu tinha que ir em frente, andar, andar!

Entre Sirocos, Aracatis e umas poucas chuvas, continuei fazendo o mesmo percurso até completar 13 anos quando ganhei o piano. Assim, numa atmosfera não menos tumultuada, estudava em casa e só ia duas vezes por semana para as aulas de teoria e coral, e a de piano. Ali no estirão da rua, nada mudava. Só a música que as mulheres, contagiadas pela alegria do carnaval, cantarolavam dançando.

Menina direitinha,

Que pensa no futuro,

Não chega tarde em casa,

Nem namora no escuro.

Não anda em garupa de Lambreta,

Sem ordem da mamãe ela não sai!

Ai, ai, ai, menina, cuidado pra você

Não dar desgosto pro papai. (5)

Não sabia que D. Branca estava doente. Só depois de muitos anos uma de suas sobrinhas me esclareceu que a família também não soubera de nada. Ela tinha sofrido sozinha e calada até a morte. Nunca se permitiu ir ao médico para mostrar seu corpo. Quando não aguentou mais as dores, já entrara em coma e nada poderia ter sido feito.

Figura austera, nunca a vi sorrindo, embora fosse acolhedora com os alunos e sobrinhos que moravam com ela. Quando falava, cobria a boca com sua mão branca como goma, e ficava tamborilando com os dedos como se estivesse exercitando alguma passagem musical. Muito religiosa, se vestia de forma muito discreta. Deixou em mim a grande lição da dedicação total a uma atividade como forma de santidade. Durante o tempo em que eu estudava no seu piano, chegava às sete horas, e lhe ajudava a descer as escadas do sobradão onde morava, para que fosse à missa. Ali eu ficava uma hora estudando até que ela voltasse e eu lhe ajudasse a subir os mesmos degraus. Observava cuidadosamente seus pés inchados dentro das meias compridas e dos sapatos de trancê de salto médio. Subia o olhar e já antevia a saia preta ou marrom de crepe que cobria seu corpo lento, quase gordo. Depois, tudo clareava, pois eu sabia de cor todas as cores de suas blusas de cambraia de linho bordadas e enfeitadas com nervuras. Observava cada detalhe; o livro de orações com capa de couro, enrolado na mantilha cinzenta e o terço pendurado no pulso. Meu ritual de reconhecimento terminava quando meus olhos me levavam até aquele broche que ela usava para fechar a gola do seu vestuário. Uma belíssima águia de ouro com olhos de pequeníssimas pedras vermelhas e um brilhante que faíscava, tremulando pendurado no bico da ave. Acho que é por isso que até hoje eu gosto de observar um caco de vidro brilhando, faiscando à luz do sol! Principalmente se ele estiver no meio de escombros, restos de construção, lixo! Me engano propositadamente para que eu imagine que aquilo ali é um brilhante, um talismã que me levará a uma outra dimensão da vida!

D. Branca tomava café e depois ia me dar aula no seu piano Dorney com candelabros de bronze e toalhas de crochet. Ela vinha de uma família tradicional da cidade e impunha a todos uma certa autoridade, até mesmo quando o Alberto se postava na janela da sala do sobradão e com a mão no ouvido e sua voz pausada, interrompia minha aula pedindo: “Toca aí a Polonaise de Chopin”. Ela se virava e com a firmeza de alguém que o conhecia e que lhe impunha respeito dizia: Alberto, sai daí, deixa a menina em Paz!

O rapaz, mais conhecido como “Alberto Doido” era filho de uma família abastada ali perto de onde ela morava. Muito bem cuidado, se vestia com um terno de ”riscado” e camisa de tricolina. Gostava muito de música e perambulava o dia inteiro pelas ruas do bairro. Eu morria de medo quando encontrava a figura no meu caminho, pois me olhava e dizia com sua voz pausada: “esta menina toca a Polonaise de Chopin!” Aquilo era como se ele estivesse me despindo, descobrindo meus segredos para o mundo.

A morte de Dona Branca me levou a uma trilha perpendicular. AH! Agora era o Conservatório!

Lembro dos muros altíssimos que acolhiam as oficinas dos ônibus dos transportes coletivos da cidade.  À noitinha quando eu voltava do ensaio do coral, as grades dos muros do Asilo de Mendicidade abrigavam entre suas imensas mangueiras, os casais de namorados. Muros altos também nos fundos do Colégio de freiras das meninas ricas. Mais adiante. mais muros altos do pátio do Liceu, colégio tradicional da cidade. Meu Deus do Céu! Pra que tanto muro alto!

A instituição funcionava num imenso casarão do início do século XX, rodeado de árvores, com uma escada e alpendres em ferro. De cima do telhado feito de lindas filigranas, me chamava a atenção o canto das aves que no cair da tarde, faziam uma algazarra, uma espécie de coral cacofônico, procurando um lugar para descansar à noite. Depois de alguns meses descobri que ali habitavam também, duas famílias de aves de rapina: de um lado, um ninho de urubús e do outro, um de carcarás! Que perigo para as pobres bichinhas voadoras!

A instituição, na figura de minha amadíssima professora, Maria Helena de Melo Barreto, foi o centro de minha vida até eu concluir meu curso. Sua paciência em ouvir meus devaneios, sua cultura musical e a dedicação de colocar seu conhecimento a serviço dos alunos, alimentava meus sonhos. Quando não estava no colégio, com certeza estava ali na casa, cantando no coral, fazendo aulas de teoria musical, percepção, apreciação musical e ainda “xeretava” da janela as reuniões das professoras que faziam aulas de análise com o diretor da casa, recém chegado de cursos no Rio de Janeiro e que inspirava  a todos, desenvolver a excelência como musicistas.

Orientada por Dona Maria Helena, comecei logo a dar aulas e isso me dava o direito de assistir como professora da casa, as aulas de História da Música e as de Integração cultural.

Minha admiração pela figura, me aproximou também do seu esposo, o artista plástico Zenon Barreto. Na casa do casal, se minha aula começava às três da tarde, eu chegava logo depois do almoço e ficava ali olhando os trabalhos e os livros de artes plásticas espalhados pela casa. Aos poucos ele foi me cativando e mesmo com seu jeito áspero, me explicava tudo. Se eu estava estudando uma peça barroca, ele me introduzia na arte da época, me emprestava livros, criticava obras, me chamava a atenção para relações com a música. Quando as outras alunas chegavam para a aula de piano, eu já estava repleta de cores, volumes e histórias.

Da arte primitiva ao impressionismo, das cavernas ao Sputnik, eu flutuei, naveguei e sonhei na casa do casal durante muitos anos, como se ali fosse meu “Palácio Encantado com um Jardim das Delícias” que eram os chásinhos que a Bié, criada da casa, fazia para mim, nas inúmeras vezes em que me via chorando aquele choro característico da passagem da idade. (6)

Mesmo assim eu seguia o caminho!

Achava que já tinha visto tudo e que já conhecia todos os pecados do mundo. Qual nada! Eu não sabia era de nada, pois no Conservatório, além do medo, tive que aprender sobre a inveja, o ódio, a traição e o preconceito. Mas aprendi também sobre a racionalidade da construção de uma fuga. A arte da fuga!!!. E que Fuga! A linguagem musical quando desvendada é algo maravilhoso, pensava.

Quando fiz o vestibular, descobri que tinha apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Quase errei o caminho! Me revoltei! Ninguém me dissera que havia muitas guerras, lia eu do nosso poeta maior. Apesar de me fascinar com o estudo patético de Skriabin, os Ponteios de Guarnieri e de quase furar o Long-play ouvindo os dois concertos para piano de Brahms, me revoltei! Aquele era só um caminho entre muitos. Meu coração era pequeno e o mundo era grande. Eu não era nada, não seria nada, dizia o poeta. Mas tinha em mim todos os sonhos do mundo.

 Passei a entoar os hinos do CPC da UNE.

 O Brasil era um país subdesenvolvido, subdesenvolvido. (7)

Fui fazer meu estágio no Arraial Moura Brasil, um bairro localizado num morro atrás da Estação de trens, no centro de Fortaleza, e que abrigava também a zona do baixo meretrício da cidade. Lembro de uma só rua que descia o morro coberto de casebres e no meio um espaço vazio com uma Igreja na encosta. De início quis alfabetizar as mulheres. Tinha também que politiza-las. Fiz o curso de alfabetização pelo método de Paulo Freire (Louvado seja). Logo, logo ele foi proibido e não podíamos sequer falar no seu nome. Tínhamos que invoca-lo por um pseudônimo. Aquelas mulheres seriam então alfabetizadas pelo Método da Prefeitura de Fortaleza (P. F.). O contato com elas me deixou um presente! D. Elvira, a catequista, que com uma só perna, me passou os segredos de como louvar a Deus cantando e dançando. Eu escrevia suas pequenas poesias e diálogos. Ela cantava para mim as canções, descrevia as vestimentas e creiam, dançava; tenho certeza! Entendi que eram todas Pastorinhas. Vindas de todos os lugares, fugindo da miséria, da fome e dos maus tratos.

Reunimos companheiras,

que vem de todas nações,

adorar o Deus menino,

para os nossos corações. (8)

Nesta época, eu já encontrava outras gentes e levava a sério as discussões e a exigência do engajamento político do artista. E como estava sem minha sombrinha, meu voo foi livre! Como o de Ícaro! Com ele as perdas e as penas; empregos, família, amigos, namorados, noivos, maridos e outras penas.

Mas as Pastorinhas, não! Aqui acolá, nos encontramos em alguma trilha do grande caminho. Entro nos seus cortejos e lembro:

da estrada e da lua branca,

do galo de campina que quando canta muda de côr,

dos meus pés moiado no riacho,

do orvalho beijando as flô que colhi, oiando coisa a grané.

Coisa qui pra mode vê,

o cristão tem que andar a pé! (9)

Realmente vivi e trabalhei em diversos estados e países. Tive experiência com várias línguas e alunos diversos. Mas isso não me tornou alguém de talentos excepcionais, como acontece no mundo das artes.

Penso que esse meu destino de andarilha se deve muito mais àquele que veio antes de mim. Que já rondava minha vida antes mesmo de eu nascer. Quando abri os olhos pela primeira vez, ele estava ali ao lado do meu berço e me fitava ternamente, como se estivesse me chamando. Deu um leve sorriso e desapareceu. Eu cresci morena, magrela, ansiosa, incompleta, exigente e errante. Me decompondo e me recompondo, na esperança de reencontrar aquele olhar e aquele sorriso que poderiam apaziguar meus temores. Mal dava os primeiros passos já lhe procurava detrás das portas, no movimento das janelas que batiam com o vento, no eco das minhas desengonçadas carreiras e gritos dentro das catedrais vazias. No cheiro dos incensos e nas pequenas labaredas das velas que aqueciam os oratórios domésticos das minhas tias avós nos tempos da quaresma. Um dia quis ser poeta. Desisti. Teria que nomeá-lo. Como? Para minha desilusão a cena se repetia: ele estivera ali e eu chegara depois! Andei da Patagônia à Sibéria. Subi o Aconcágua e desci Kilimanjaro, naveguei pelo mar do norte, sempre na mesma procura; era um pequeno garrancho que queimava sob o sol do deserto, era um farrapo de pano pendurado em algum espinho de mandacaru, nas caatingas do nordeste. Apenas o sinal! Ele estivera sempre ali e eu chegara novamente atrasada para o encontro.

Assim tenho sobrevivido; bordando e tricotando, no tecido da vida. Lutando para ser merecedora de uma vida minimamente digna com  salário e moradia.

Agradeço à UNB, e especialmente ao Departamento de Musica que me acolheu entre seus professores, que me permitiu realizar sem censuras, boa parte dos meus sonhos. Que tolerou meu jeito de ser: debochada, irônica e bagunceira.

Peço permissão para dedicar este título aos que foram meus alunos. Não só os da UNB, mas os de todos os lugares em que dei aulas; Fortaleza, São Luiz, Berlim, Gotemburgo, Lund, Acre e Brasília. Foram eles que sempre me inspiraram, me cobraram, me desafiaram, me dando sinais de que  era aquela a direção a seguir e que a sala de aula seria o palco onde eu encontraria meu lugar no mundo. Foram eles que estiveram sempre comigo, desde o dia em que ainda na puberdade, assumi aquelas duas irmãs: Glaucia Virgínia e Gladys Verônica como alunas.

Eles sabem que eu não quero muito. Muito para mim é pouco! Eu quero é TUDO!

Hoje eu penso que TUDO valeu a pena... e estou feliz.

O vento, ainda é o mesmo de quando eu era criança. Que soprava invadindo meu corpo, fazendo tremelicar minha saia vermelha godê Ó, estampada com véus brancos. Hoje ele sopra de leve, fazendo tremelicar as delicadas pétalas das papoulas silvestres que nascem no meio dos trigais dourados. E eu? Ah! Eu sou um daqueles abelhões solitários, que aparecem no verão, que deitam e rolam, brincando com os pistilos destas pequenas flores, e depois, num verdadeiro êxtase, levantam voo, todo lambuzados de pólen!

Gostaria de terminar minha fala lembrando uma canção para aquele que foi meu companheiro, meu amigo por 40 anos. Trata-se de uma canção muito conhecida dos Pastoris do nordeste e sei que ele ficaria feliz de ouvi-la. É uma canção muito conhecida e acredito que muitos aqui possam cantar comigo.

 

Temos orgulho de ser do encarnado

Nosso cordão, amar é um dever

Nossa alegria é de que todos companheiros,

possam cantar com todo o prazer.(10)

 

Muito Obrigado

____________________________________________

Notas

1)      1)Canção de Dorival Caymi

2)      2)Conselho: canção de Augusto Ribeiro e Oswaldo Guilherme

3)      3)Quase: canção de Jorge Gonçalves

4)      4)Canto do Pagé: Canção de Villa Lobos

5)      5)Menina Direitinha: canção de Braguinha e Vicente Amar.

6)     *) Lembro do meu desapontamento quando lhe visitei, depois de muitos anos morando fora do Ceará. Na sua casa, soube que tinha ido à igreja e esperei sua volta. Me recebeu secamente e me perguntou quem eu era. Sabia que estava com algum tipo de demência, mas para mim ela nunca poderia me desconhecer... A acompanhante esclareceu : é a Mércia, sua aluna, não lembra? Com um olhar vago, ela respondeu que não me conhecia! Eu me refiz da decepção e entrei na sala de visita. Toquei pra ela um estudo de Chopin. Ela ouviu muito atenta e depois bateu palmas sêca e brevemente. A moça então mais uma vez lembrou a ela que eu tinha sido sua aluna. Depois de alguns segundos ela reagiu e disse sem confirmar nada. É, diziam que ela era talentosa, acrescentou. ...e nada mais!

Voltei a Brasília e fiz uma camisola bordada pra ela. Pelo meio das folhagens bordei de forma escondida, pra não perceberem, a letra da canção de Roberto Carlos “ Outra Vez”.

Você foi o maior dos meus casos, de todos os abraços, o que eu nunca esqueci. Você foi, dos amores que tive, o mais complicado e o mais simples para mim. Das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter. Só assim sinto você bem perto de mim outra vez.

Passou-se algum tempo e não sabia se ela tinha recebido a lembrança. Liguei para sua casa e me identifiquei para a cuidadora, querendo saber se tinham recebido a encomenda. Ela então sem dizer uma palavra cantou para mim a música...

7)     6) Música de Carlinhos Lira para o Centro Popular de Cultura.

8)      7)Melodia do “Pastoril da Cigana”.  Colhido no Arraial  Moura Brasil (Fortaleza) em 1966.

9)     8) Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira.

109) Melodia de Pastoril (Recife-Pe)

 

quinta-feira, 21 de abril de 2022

 

 ...e então?

Então Ricardo: recebi suas mensagens. Uma explicando seu projeto, pedindo minha colaboração. Na segunda mensagem escreveu dispensando-me da tarefa. Na dúvida, andei fazendo anotações, lembranças, tentando me prevenir de uma possível terceira demanda de sua parte. Como tinha lhe dito, achei que as muitas pessoas que tinham escrito sobre o Augusto Pontes, já tinham dado o tom da sua publicação e que eu, mesmo tendo conhecido seu humor, inteligência, ironias, inquietudes, não queria ser “redundante” com mais um texto. Mostrar a figura, seria falar da minha experiência de ter trabalhado diretamente com ele nos dois festivais de música aí em Fortaleza em 1967 (GRUTA) e 1968 (Rádio Assunção). Seria falar da nossa convivência quando moramos em Brasília nos anos 70 e também tê-lo encontrado depois de muitas décadas aí em Fortaleza, constatando que ainda era o mesmo; continuava com insônia e novos grupos já tinham se juntado aos sessentões da minha geração para a experiência de voltar para casa de madrugada, se perguntando: não sei por que, mas o riso que ele provoca me deixa também numa espécie de desamparo existenciall! 

Nos fins do meu curso de Serviço Social, por volta dos anos 65/66, eu frequentava os debates do Clube de Cinema e as reuniões do CPC. Foi lá que avistei pela primeira vez aquela figura vivaz, nervosa, de cabelos pretos desalinhados, e roupas surradas. Fazia dupla com o Euzélio Oliveira que interferia fomentando o debate. Mas nossa aproximação se deu um pouco mais tarde, no contexto da mudança do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno do casarão da Praça do Liceu para a Avenida da Universidade 2210. Na nova sede funcionavam dois cursos de extensão; um de canto coral e outro de teatro. Orlando Leite e B de Paiva, os dois Diretores, eram figuras acolhedoras e mantinham a instituição sempre aberta aos estudantes, fazendo com que o local logo se transformasse num polo de encontros, debates e convivências. Ali eu passava boa parte do meu tempo, pois além de ser aluna do Curso de Licenciatura em Música, do Bacharelato em Piano, era também professora do curso fundamental da instituição.

As inscrições dos certames e a própria administração do referidos Festivais, se davam por conta do Diretório Estudantil da instituição. Eu fiquei com todo o encargo de receber as poesias, transcrever as canções,  grava-las, apresentando-as ao Serviço de Censura da Polícia Federal para que fossem liberadas para a apresentação em público. O trabalho era exaustivo, visto eu também ter que dar conta dos meus alunos e das aulas do curso. Augusto, apesar de não ser estudante, aparecia a todo momento com sua costumeira capacidade de manter as pessoas com todos os sentidos acordados. Preocupado em saber de tudo e de todos, de se localizar em qualquer situação que não lhe fosse familiar. Lembro dele, e do Aderbal Freire, exaustos, saindo comigo daquele auditório da Radio Assunção já de madrugada, depois de varar a noite fazendo a seleção das músicas para o segundo festival. ... e haja molecagem!  Muitas vezes eu fugia um pouco e ia descansar em casa e de repente a figura aparecia com as mesmas demandas de trabalho sem tréguas, de questionar tudo. Certo dia foi meu pai que o recebeu. Quando apareci, percebi que estava pouco à vontade ali na companhia do velho. Quando ele entrou, Augusto me confessou que tinha sido seu aluno no curso de Técnico em Contabilidade da Fênix Caixeiral. Muito desconfiado, me falou também ter sido colega de turma de uma de minhas tias. Assim deduzi que era bem mais velho do que eu.

Naquela época, lembro que eu e minha irmã, fomos certa vez busca-lo em sua casa que ficava perto de onde morávamos. Quem nos recebeu foi sua mãe e logo identificamos de quem ele puxava o humor. Ela foi logo nos fazendo rir, censurando-nos por sermos amigas do seu filho. Aproveitou e nos contou algumas de suas peripécias dentro de casa. Entre outras, de que ele não dormia e nem deixava ninguém dormir quando seus netos vinham lhe visitar. Ele ficava em um quarto e as crianças num outro, separados por uma “meia parede”. Os dois lados passavam a noite a jogar seus sapatos por cima da parede numa verdadeira batalha de arremesso, de um lado para o outro, e ninguém conseguia dormir. Identifiquei ali o porquê da sua incansável vida noturna, envolvendo a todos com sua irreverencia, sua maneira de fazer o outro pensar, enquanto a noite ia passando até que exausto, ele voltasse para casa. E quem não fazia parte do seu séquito ou não lhe dava a devida atenção, logo passava a ser motivo de suas ironias. Lembro com muito carinho, de três jovens que faziam parte daqueles que frequentavam as rodas ali pelos bares da praia. Roberto Aurélio, Sergio Pinheiro e Hipólito eram bem mais novos, e faziam o estilo largado, meio hippies. Falavam pouco e não levavam o “gurú” a sério; não o fazia de centro das atenções, coisa que lhe irritava bastante. Certa vez encontrei-o na rua com um livro debaixo do braço e perguntei que livro era aquele. Ele me mostrou a capa e respondeu: Mércia, isso aqui são poesias de Ezra Pound. É pra espantar hippies, acrescentou! À noite encontrei-o na Beira Mar, todo pronto, de paletó e gravata, ainda com o tal livro debaixo do braço. Como sempre, à espera de alguém que pudesse ouvir suas perguntas, piadas, até que chegasse a madrugada. Os três jovens se aproximaram na sua marcha lenta, fazendo cachinhos nos cabelos. Ele não teve dúvidas; puxou imediatamente o livro e empurrou-o bem no rosto dos três e gritou HÁAAA!!!! Viu, Mércia, falou! Os meninos pouco se moveram. Rodearam as mesas lentamente e se sentaram como se fossem os únicos no ambiente. Não conformado, enquanto outras pessoas iam tomando seus lugares, ele continuava a tentar tirar os meninos da indiferença! Hippie, cês nun diz que são livres? Então vamos ver quem é mais hippie. Eu ou vocês! Os meninos continuavam impassíveis, enquanto ele continuava a desafia-los. Então? Vamos ver quem é mais hippie! Duvido vocês irem ali no mar, tomar um banho e voltar pra cá! E o desafio continuou sob a indiferença dos jovens. Quando eu menos esperei, lá vinha a figura saindo da escuridão da noite, todo molhado e sujo da areia da praia! Mesmo assim, nada captava a atenção dos meninos e ele indócil, continuava a desafia-los. Se fazendo de bêbado (sim, ele usava muito esta artimanha para dizer as coisas e não ser questionado) falava: vocês são hippies? Então eu duvido vocês fazerem xixi aqui nas garrafas para todo mundo ver! Indiferentes, o mais que eles faziam era dizer: Augusto, deixa de ser chato! E ele não parava! Cês nun são hippies? De repente, aquela figura já toda desfigurada no seu terno molhado e sujo de areia, abriu a braguilha e fez xixi nas garrafas vazias que estavam em cima da mesa.

Assim eram as noites da nossa geração; nos bares ou reunidos na casa de alguém, sonhando com a “fama” como músico, poeta, seguindo o “faro” do Augusto, assim como ele tinha feito com a geração anterior, que descobrira o Teatro, o Cinema, e o Radio, e queria conhecer o país ali de debaixo das marquises do saudoso “Abrigo Central”.   

 Augusto apostou tudo na nova configuração das mentalidades dos jovens. Até jogou no Carneiro. Queria ir embora pro Rio de Janeiro, buscar as coisas de lá. Deu uma “paradinha” no caminho e foi tomar banho na mansidão do lago; metade dele, metade da lua! Era começo dos anos 70, e moramos aqui em Brasília. Ele e Ieda Estergilda com a família do Rodger no 5º andar do Ed. Flávia Ilka na 311 sul e eu no primeiro andar do mesmo prédio. Nada mudara! Dedé Evangelista, Rodger, Flávio Torres e outros, estavam todos trabalhando na UNB e a eles foram se juntando outros professores que nos fins de semana eram atraídos pela insônia inteligente e o humor sarcástico da figura. Não havia tempo parado. Os encontros começavam na sexta depois do expediente, quando se reuniam para jogar Totó num local lá no Lago Sul. A brincadeira varava a noite até à madrugada sonolenta. De volta, esperávamos o grito dele de dentro de um dos carros: pára, pára, pára! Em plena Avenida das Nações ele abria a porta e já saia gritando: Bicho Bruto!! Quem foi que te fez assim tão ignorante pra fazer uma casa feito o palácio dum outro bicho bruto lá não sei de onde!!! Ali a turma passava o fim da noite a rir de sua crítica à arquitetura duvidosa das casas dos ricos da cidade. Donde foi que tú tirou estas colunas, ignorante!!!

O resto dos fins de semana eram passados no apartamento do Dedé onde tinha um jogo de Totó nas dependências da casa. Nos fins das tardes de domingo, já Inutilmente bêbados, com o Augusto sentado, encostado na parede da sala com as pernas abertas feito um grande boneco de pano, a usar a concisão poética da lírica japonesa dos “haikais” para comentar, o que acontecia no país.

A declaração desencantada de Oscar Niemeyer, deixando o Brasil inculto que censurava suas obras, que perseguia seus cérebros. É como dizia o Oscar, vou pra nunca mais voltar. O desabafo de Lúcio Costa estampado nos jornais quando visitou a cidade desencaminhada do seu projeto urbanístico original. É como dizia Lúcio Costa, minha cidade está uma bosta! Em plena Ditadura Militar, uma desavençazinha entre os ministros. É como dizia o Ministro da Guerra: homi, eu quero é Paz! E o ministro da Aeronáutica que reclamava do exagerado número de funcionários do seu ministério: No meu ministério só tem funcionário paraquedista!

Nosso amigo não conseguia conviver bem com as pessoas que se mantinham independentes daquele grupinho que se reunia nos bares ou na casa de alguém,  para ouvir e fazer música. Aderbal Freire, que tinha se mudado recentemente para o Rio de Janeiro e em plena ditadura tinha ganhado uns prêmios na área de Teatro, era alvo de seus ciúmes em haikais cantados em forma de “aboios”. Ô Aderbal! Tu que ganhou 14 estátuas de páu!

Seus deboches atingiam também o B. de Paiva que tinha deixado o Ceará e estava morando no Rio, dirigindo a atriz Glauce Rocha! Ô B de Paiva, pra que tanto trabalhar, um pé no chão outro no ar!

Ó Belchior, tú que deixou de ser doutor!!!, lembrava a fuga do estudante de medicina/cantor/compositor, para tentar a carreira de artista em São Paulo.

Há que se perguntar sobre o papel das mulheres no meio daquilo tudo! O que sempre fizeram: presenciar a brincadeira dos homens a soltar “bolinhas de sabão”, na cozinha fazendo “caldos” para os bêbados ou esperando a madrugada chegar e conduzirem seus maridos de volta para casa. Uma vez ou outra, a Tetty era chamada para “cantarolar” alguma  canção inventada ali mesmo na hora...

Da época, lembro de um encontro inusitado que tivemos eu e ele enquanto caminhávamos a pé até o restaurante Roma que ficava na W3, exatamente na altura do prédio onde morávamos. Estávamos a meio caminho quando de repente apareceu um cachorro e se postou na nossa frente, rosnando, mostrando os dentes, em posição de ataque.  Imediatamente Augusto levantou as mãos como se tivessem lhe dado voz de prisão. Ficou paralisado. Atrás do bicho vinha seu dono correndo, tentando nos acalmar. Calma, calma, fiquem tranquilos, ele não morde, dizia ele! Augusto então soltou esta frase!! “Meu amigo, eu estou calmo, quem não está calmo é seu cachorro!”

Em 73 voltei para o Ceará e só o via quando ele ia a Fortaleza em férias. A cidade tinha crescido bastante e encontrar os amigos já era difícil se não tínhamos transporte próprio. Mas sei que ele como criatura que atravessava gerações, ainda ditava o lugar e o eixo da vida noturna nos bares da Beira Mar. Mais raros, nossos encontros se davam de forma coloquial, sem a interferência da “claque” que conversava, bebia, e inventava músicas. Sei que estava fazendo o curso de comunicação na UNB, onde era mais conhecido como “Chico Pontes”, que tinha uma companheira, salvo engano, já com filhos. Nesta época eu também já tinha me desligado dos “artistas da praia”! Mesmo assim fazíamos sempre um joguinho rápido sobre os velhos amigos e as novas aquisições da noite. Eu citava o nome de alguém e ele qualificava entre “amigo bruto ou bruto amigo”. Neste sentido, nossas línguas se igualavam!

Voltei a encontra-lo em 89 quando fiz um recital de Músicas Nórdicas no Foyer do Teatro Jose de Alencar. Logo que entrei no palco, tive a grata surpresa de vê-lo sentado na primeira fila da sala! Me emocionei!

Em 95, quando precisei ir a Fortaleza para uma pesquisa, encontrei-o novamente. Eu precisava saber sobre os programas de auditório na década de 40/50 e sabia que ele quando jovem, tinha sido frequentador destes eventos. Foi muito generoso e me indicou nomes que poderiam me ajudar. O centro de suas inquietações naquele momento, era saber sobre algumas pessoas da área da cultura musical da cidade, com quem ele estava, por força das circunstancias do seu novo trabalho, tendo que interagir.

Nos vimos novamente quando toquei no prédio da Federação das Indústrias do Estado do Ceará em homenagem aos 60 anos do Cláudio Pereira. Como sempre, suas novas aquisições não eram poucas e aproveitei para me informar sobre o ambiente da recepção num espaço na beira da praia. Ficamos de pé um bom tempo e me diverti muito, me informando com ele sobre quem era quem, ali no novo zoológico festivo da noite.

Assim Ricardo, pensei bem e vi que seria melhor eu não participar de sua publicação. Mesmo porque não vou fazer falta. Tem tanta gente que já escreveu e eu iria destoar do todo da obra. Espero que me entenda e não me leve a mal. Desejo que o livro seja uma oportunidade de contribuir de forma positiva para evidenciar o personagem e seu engajamento em mostrar de forma “socrática” aos jovens de tantas gerações, de que antes de sonhar o Brasil poética e musicalmente, era preciso pensa-lo ... e bem “acordado”! Que as lembranças descritas no livro, se transformem não numa sopa, mas num banquete de saudades.

Mércia Pinto

Pianista.

Especialização em performance/Hochschule für Musik /Berlim/ Alemanha

Mestrado em Pedagogia dos Instrumentos de Teclado/ Musikhögskola. /Lunds Universitet Suécia

PHD em Musicologia/Liverpool University /Inglaterra

Professora Emérita/ UNB