O Adivinho da Aldeia.
(Intermezzo).
Autor:Jean-Jacques Rousseau
Apresentado pela primeira vez em Fontainebleau em 18 de Outubro de 1752.
Personagens: Colin, Colette, o Advinho
e um grupo de jovens aldeões.
O cenário mostra árvores e uma fonte. De um lado a casa do advinho e ao
fundo, imagens do lugarejo.
Abertura.
Cena I
Colette aparece chorando,
enxugando as lágrimas no avental.
Canção 1(couplets).
Colette:
Eu perdi toda a minha felicidade.
Eu perdi o meu amor.
Colin me abandonou.
Ah! Ele me deixou.
Gostaria de parar de sonhar.
Eu sonho sem cessar.
Eu perdi o meu amor.
Eu perdi minha felicidade.
Colin me abandonou.
Ele me amava e foi minha felicidade.
Mas a quem ele preferiu em meu lugar?
Ela deve ser uma camponesa charmosa e imprudente (com ironia e desprezo).
Os males que sinto hoje,
não pensas a que ponto!
Colin me trocou.
Sua vez chegará.
De que me serve sonhar?
Ninguém consegue me curar!
e tudo aumenta minha tristeza.
Quero odia-lo… e o devo
Talvez ainda me ame!...(alegremente)
Então porque me evita tanto? (tristemente)
(Olha ao redor como se
estivesse procurando algo)
O advinho mora aqui neste lugar.
Ele sabe tudo. Saberá o destino de meu amor.
Vejo-o e quero esclarecer tudo.
Cena II
Enquanto a orquestra executa
um Prelúdio, o advinho se aproxima
gravemente, enquanto Colette conta nas mãos algumas. Em seguida coloca-as num
papel dobrado e lhe oferece, abordando-o timidamente.
Canção 2 (duo)
Colette.
Perderei Colin para sempre?
Dizei-me: é preciso que eu morra?
O Adivinho.
Leio em vosso coração e leio no dele.
Colette.
O´Deuses!
O Adivinho.
Acalmai-vos!
Colette.
E então?
O Advinho.
Ele vos é infiel.
Colette.
Estou morrendo
O Adivinho.
E no entando ele ainda vos ama.
Colette (vivamente)
Que dizeis?
O Adivinho.
Mais hábil e menos bela, a senhora do lugar.
Colette.
Ele me deixará por ela!
O Adivinho.
Já vos disse! Ele ainda vos ama.
Colette.
Ele está sempre me evitando.
O Adivinho.
Conte com minha ajuda.
Trarei de volta o volúvel, que cairá a seus pés.
Colin é volúvel, gosta de se vangloriar:
Sua vaidade vos fez um ultraje e seu amor deve ser reparado.
Colette:
Se dos sedutores da cidade eu tivesse escutado as conversas,
Ah! como
teria sido fácil cultivar outros amores!
Vestida como
moça rica, eu brilharia todos os dias,
com fitas e rendas, envolveria a todos que me cercavam.
Pelo amor do infiel, renunciei a minha felicidade.
(docemente)Eu preferiria ser menos bonita e conservar meu coração para
ele.
O Adivinho (com enfase)
Eu vos devolverei o amor dele; isso será tarefa minha;
Para conserva-lo melhor. aplicai todos os vossos esforços;
CENA III
Canção 3.(ária)
O Adivinho:
O amor crê quando se preocupa; e adormece quando está satisfeito.
A amante um pouco faceira deixa o amante mais constante.
Colette:
Me entrego às vossas sábias lições.
O Adivinho:
Com Colin adotei um outro tom.
Colette:
Eu fingirei imitar o exemplo que ele me dá.
O Adivinho:
Não o imiteis a sério, mas que ele não possa percebe-lo.
Minha arte me diz que ele vai aparecer.
Eu chamar-vos-ei quando a hora
chegar.
Cena III
Canção 4 (ária)
O Adivinho.
Eu sabia tudo de Colin e seus pobres filhos.
Ambos admiram a ciencia profunda
que me permite advinhar tudo que eles disseram.
O amor deles oportunamente neste dia me ajuda.
Para que sejam felizes, é preciso que eu desmascare
Da senhora do lugar, os modos e o desprezo.
Cene IV
Canção 5 (duo).
Colin:
O amor e vossas lições finalmente me tornaram sábio.
Prefiro Colette a bens supérfluos.
Logrei agrada-la em trajo de passeio.
Com uma veste dourada, que mais conseguirei?
O Advinho:
Colin, agora não adianta mais; Colette vai te esquecer.
Colin:
Ela me esqueceu, O’ Deus!
Colette foi capaz de mudar! Colette foi capaz de mudra?
O Advinho:
Ela é mulher, jovem e bonita. Deixaria ele de se vingar?
Colin:
Não, não, Colette não engana, de modo algum,
Ela me prometeu fidelidade.
Será que está apaixonada por alguém que não eu?
Não, não, não não!
O Advinho:
Não é um pastor que ela prefere a ti, absolutamente.
É um belo senhor da cidade.
Colin:
Quem vo-lo disse?
O Advinho (com enfase).
Minha arte.
Colin:
Eu não poderia duvidar dela.
Ai de mim, como vai me custar caro ter sido tão condescendente...
Terei eu perdido Colette irremediávelmente?
O Advinho:
Quem serve ao mesmo tempo à fortuna e ao amor, serve mal.
Ás vezes custa caro ser um rapaz bonito.
Colin:
Por favor, ensine-me a evitar o terrível golpe que temo.
O advinho:
Deixe-me examinar por um momento apenas.
O advinho tira do bolso um livro
de magia e um peqeuno bastão de Jacó com os quais pratica um encantamento. Jovens
camponeses que estavam vindo para consulta-lo deixam cair seus presentes e
fogem espantados ao ver suas contorções.
O sortilégio está feito. Colette dirige-se para este lugar.
Devemos espera-la aqui.
Colin:
Conseguirei apazigua-la? Pobre de mim! Será que ela quer me ouvir?
O advinho:
Com um coração fiel e sensível tem-se o direito a obter tudo.
(à parte) Sobre o que ela deverá dizer, vamos sabe-lo de antemão.
Cena V.
Canção 6 (aria)
Colin:
Vou rever minha encantadora amante.
Adeus castelos, grandezas, riqueza.
Vosso brilho não me tentará mais.
Se meus prantos, minhas atenções assíduas
podem comover quem adoro.
Ver-vos-ei renascer mais uma vez
doces momentos que perdi.
Quando se sabe amar e agradar, há necessidade de outro bem?
Dá-me teu coração, minha pastora. Colin te entregou o seu.
Quantos senhores importantes desejariam ter tua felicidade.
Apezar de todo seu poder, eles tem menos sorte que eu.
Meu pífaro, meu cajado, sede minhas únicas grandezas.
Minha jóia é minha Colette.
Meus tesouros são seus carinhos.
Quando se sabe amar e agradarm tem-se precisão de outro bem?
Dá-me o teu coração minha pastora. Colin te entregou o seu.
Quantos senhores importantes desejariam muito ter sua felicidade.
Apesar de todo o seu poder, eles tem menos sorte que eu.
Quando se sabe amar e agradar, tem-se precisão de outro bem?
Dá-me ter coração, minha pastora. Colin te entregou o seu.
Cena VI
Canção 7(duo)
Colin:
Estou avistando-a
Tremo de expor-me à sua vista.
Fujamos! Perde-le-ei se fugir dela.
Colette:
Ele está me vendo.
Como estou emocionada!
Meu coração bate! Não sei onde estou!
Bem perto, sem me aperceber, me aproximei.
Colin:
Não posso recuar, tenho que falar-lhe.
(a Colette, num tom suave e um ar
meio risonho, meio embaraçado)
Minha Colette, estais zangada?
Sou Colin, por favor olhe para mim!
Colette:
Colin me amava, Colin era fiel.
Olho-vos e não vejo mais Colin.
Colin:
Meu coração não mudou nada.
Meu erro por demais cruel deveu-se a um malefício lançado por algum
espírito maligno.
O advinho destruiu-o e eu estou vivo, apesar dele,
O mesmo Colin, cada vez mais apaixonado.
Colette:
Eu por minha vez, sinto-me perseguida por um malefício;
O vidente nada pode fazer.
Colin:
Como sou infeliz!
Colette:
Com um amante mais constante...
Colin:
Ah! Vossa infelicidade resultará
na minha morte...
Vossas aflições são inúteis,
não Colin, não te amo mais.
Canção 8 (ária).
Colin:
Tua fidelidade não me seduz.
Não, analisa melhor teu coração.
Tu mesmo tirando-me a vida perderiss toda tua felicidade.
Colette:
Que pena!...
Vós me traistes. Vossas preocupações são inúteis.
Não Colin! Não te amo mais!
Colin:
Então está decidido?
Quereis que eu morra?
E vou me afastar para sempre deste lugarejo.
Colette ( tornando a chamar
Colin que se afasta lentamente):
Colin!
Colin:
O que é?
Estais fugindo de mim?
Colin:
È preciso que eu fique para na verdade vos ver com um novo amante?
Colette:
Enquanto ao meu Colin eu pude agradar, meu destino satisfazia meus desejos.
Colin:
Quando eu agradava a minha pastora eu vivia cheio de alegria.
Colette:
Desde que seu coração me desprezou, um outro conquistou o meu.
Colin:
Depois do doce laço que ela rompe existiria outro bem?
(num tom compenetrado)
Minha Colette me deixa.
Colin e Colette:
Tenho medo de um namorado volúvel.
Por minha vez eu me desobrigo, por minha vez.
Meu coração apaziguado esquecerá se for possível.
Que tu um dia me fostes caro, meu coração acalmado esquecerá se for
possível,
que tu um dia me fostes caro.
Colin:
Qualquer que fosse a felicidade que me prometiam,
Nos laços que me ofereciam,
eu deveria ter preferido Colette
A todos os bens do universo.
Colette:
Embora um senhor jovem e amável me fale hoje de amor,
Colin ter-me-ia sido preferível a todo o brilho da corte.
Colin (com ternura):
Ah! Colette...
Colette (com um suspiro):
Ah! Pastor volúvel, devo amar-te, mesmo sem querer
Durante o Prelúdio que é
executado pela orquestra,
Colin se lança aos pés de
Colette. Ela nota uma fita muito rica que ele recebeu da senhora. Colin joga-a
com desdém. Colette lhe dá uma mais simples que a ornamentava e ele a recebe
com entusiasmo)
Colin e Colette:
Ah! Para sempre Colin, empenho meu coração e minha palavra.
Que um doce casamento me una a ti.
Amemos-nos sempre sem restrições, sendo o amor a nossa lei.
Cena VII
Canção XIX (trio)
O Advinho:
Eu vos livrei de um malefício.
Vós ainda amais apesar dos invejosos.
Colin:
Que dádiva poderia algum dia pagar um serviço como este?
(oferecem cada qual um
presente ao Advinho)
O Advinho.
Ficarei bastante bem pago se fores felizes.
Vinde jovens rapazes, trazei moçcas adoráveis,
reuni-vos, reuni-vos vinde imita-los.
Vinde, garbosos pastores, vinde, beldades amáveis, vinde,
Cantando a felicidade deles, aprender a saborea-la,
aprender a saborea-la.
Canção 10.
Coro:
Colin retorna a sua pastora.
Celebremos um regresso tão belo.
Que sua amizade sincera,
seja um encanto sempre novo.
Do vidente de nosso povoado cantemos,
Cantemos o poder deslumbrante.
Ele traz de volta um amante volúvel
E o torna feliz e constante.
(danças Pastorela e Forlana)
Canção 11 (Romance).
Colin:
Na minha choupana escura sempre inquietações novas,
vento, sol ou frios penosos, sempre esforços e
trabalhos.
Colette, minha pastora, se vieres habita-la,
Colin na sua choça nada terá a lamentar.
Dos campos, das pradarias voltando toda tarde,
A cada tarde mais querida,
virei rever-te.
O sol nas nossas planícies, precedendo o retorno,
aliviarei meus sofrimentos,
cantando nosso amor.
Canção 12 (Ária).
O Advinho:
É preciso nós todos, so desafio,
Descartarmos aqui se eu não posso passar assim de um assunto a outro.
De minha parte, cantarei uma nova canção. (ele tira uma canção do seu bolso).
(A orquestra toca uma peça).
A arte ao amor é favorável
E sem arte o amor sabe maravilhar,
no vilarejo sabe-se amar melhor.
Ah! normalmente o amor não sabe o que ele proíbe, o que ele permite.
É como uma criança, é uma criança.
Colin:
Ela tem outros versos. Eu a acho muito bonita.
Vamos, vamos. Cantaremos também. Cantaremos também.
Colette:
Aqui a natureza simples, o amor segue a ingenuidade;
Noutros lugares, o enfeite, ele busca o brilho artificial.
Ah! Normalmente o amor não sabe bem o que ele permite, o que ele proíbe.
É uma criança.
Colin:
Muitas vezes uma chama querida é
a de um coração ingênuo.
Muitas vezes pela faceirice um coração é cativado.
Ah! Normalmente o amor não sabe bem o que ele permite,
o que ele proibe, é uma criança, é uma criança.
Colette:
O amor conforme seus caprichos ordena e dispõe de nós.
Esse deus permite o ciúme esse deus pune os ciumentos.
Colin:
Ao voltear de beldade em beldade perde-se sempre os momentos felizes
Muitas vezes um pastor fiel demais
É menos amado que um inconstante.
Colette:
Ao seu capricho estamos expostos.
Ele quer os risos, ele quer os prantos,
pelos rigores o repelimos;
Debilitamo-lo pelos favores.
É criança, é criança.
(O coro repete este verso ao
fim de cada estrofe.)
Canção 13 (Aria).
Colin:
Com o objeto do meu querer, nada me aflige.
Tanto que ele me encanta sem cessar, ele ri sempre.
Eu canto sem parar, ele ri sempre.
É uma sucessão de dias felizes.
Incessantemente ele ri sempre, eu canto.
É uma sucessão de dias felizes.
Como no meio das flores
que brilham no seu curso, um suave regato corre e serpeia.
Quando se sabe amar bem, como a vida é fascinante.
(a orquestra toca doisMinuetos
e uma Allemande)
Canção 14 (Aria).
Colette:
Vamos dançar debaixo dos olmos,
Animai-vos jovens mocinhas.
Enamorados, tomai vosos pífaros.
Repitamos mil cançonetas e,
para termos o coração alegre, dançaremos.
como nossos namorados, mas nunca fiquemos aí sozinhas.
Tradução: Mércia Pinto
Apresentada no Auditório do
Departamento de Música.
14 de maio de 2001 na Abertura
da XXXI Semana de Filosofia da UNB.