domingo, 9 de dezembro de 2018

ABU HASSAN de Carl Maria von Weber (tradução e comentários)


Abu Hassan[1]
Opera Cômica ( Singspiel ) em um ato.
Música de Carl Maria Von Weber (1786- 1826)
Libreto de Franz Carl Riemer (1768-1822)

Mércia Pinto/UNB
Iniciado pelo pai nas peregrinações inerentes ao cotidiano de uma trupe ambulante, a vida de Carl Maria von Weber foi sempre marcada pelas preocupações materiais e os cuidados com a saúde. Nascido em Eutin/Ostholstein, herdou de sua infância doentia um permanente diminuição no osso da perna direita. Aos 24 anos enquanto pendulava trabalhando entre Darmstadt e Mannheim, compunha também seu Abu Hassan. A concepção musical deste “Singspiel” reflete a segurança e o crescimento que o compositor adquirira com a aquisição de amigos nestes dois novos ambientes de trabalho. Suas inúmeras cartas atestam esta fase na qual a despeito da miséria em que ele e seu pai sempre viveram, tenta com alegria organizar os músicos de todo o país em torno da ideia da modernização da música alemã.
O ambiente político da Europa não era dos mais tranquilos. Weber perdia postos em inúmeras cidades ao mesmo tempo sonhava com a ideia da identidade da música germânica. As guerras napoleônicas de anexação batiam a sua porta repercutindo no destino dos pequenos estados alemães e ele via-se também na inevitável confrontação de estar envolvido em muitas dívidas. Seu libretista Franz Karl Riemer (1768-1822) também não estava em melhor situação. Mesmo assim os dois esqueceram as dificuldades e se uniram para criar um reino oriental distante, onde personagens e ambientes idílicos exalavam perfume de Almíscar.
Da leitura de uma antiga edição alemã das “Mil e uma noites”, Reimer retira situações, momentos de estórias e nomes de personagens destes contos para dar identidade a pequena peça. Abu Hassan e sua esposa Fatime formam o casal de endividados contra os quais uma horda de agiotas torna-se poderosa. De início a peça recebeu o nome de “Burlesca dos Agiotas”. Surge então a dúvida de como classificar o trabalho. É uma ópera cômica? E porque não dizer “Buffa”?  Não! Na verdade ela é um “Singspiel”. Os diálogos alternados com canções, a deliciosa ironia sobre as lutas entre o bem e o mal e as lições morais guardam mais semelhança com estes apreciados dramas encenados na época.
 O Califa Harun al Rachid,  aparece como senhor sobre todos os mundos, vivendo no meio do esplendor, entre plumas e divindades, pajens e odaliscas[2]. Sua esposa Zobeide[3] também é personagem de inúmeras das estórias contadas por Shera(e)zade. O próprio Abu Hassan[4] em suas características assemelha-se em muito, a momentos do personagem do conto “O Adormecido desperto”[5], fundamental no desfecho do conflito da obra em questão.
Considerado “pai” do romantismo musical, é lembrado e homenageado como grande orquestrador e um dos primeiros regentes a conduzir a orquestra de pé com a batuta na mão. Weber foi também um dos maiores pianistas de sua época sendo colocado ao lado de Hummel, Moschelesk, Kalkbrenner e Czerny. Deixou também um testemunho autobiográfico “Tonkunstlers Leben”, escrito entre 1909 e 1829. São relatos, narrativas, sátiras, idéias, versos, numa escrita imaginativa sobre a vida do artista na época. Influenciado por E.T.A.Hoffmann e por Tieck, planejava também escrever uma “Musikalische Topographie Deutschland”, um mapeamento dos músicos viajantes na Alemanha de sua época. Morreu em Londres enquanto realizava um tournée, tentando garantir o sustento financeiro da esposa e dos dois filhos. Herdeiro da tradição clássica, concebe suas melodias em termos instrumentais alternando beleza, carinho, humor, delicadeza, elegância e contrastes entre seus personagens. A partitura de Abu Hassan é fértil em interessantes momentos musicais e em nada diminui seu valor pela comparação inevitável com o tema da ópera “O Rapto do Serralho”[6] de Mozart.
Enredo:
Numa atmosfera alegre, Abu Hassan e Fatime cantam um dueto “Liebes Weibchen, reiche Wein” (querida esposa, passe-me o vinho). De fato, no lugar de vinho, conservas ou massas folhadas, há somente uma parca refeição de pão e água. O casal gastara todos os seus tostões com coisas supérfluas. A situação é crítica. Nenhum credor os deixarão em Paz. O único que pode lhes ajudar é Omar, o grande agiota. Mas para resolver o problema, ele pede o amor da bela Fatime, que recusa suas propostas numa carta cheia de rancores. Desesperado, o casal discute e pensa em como resolver a questão sem que Fatime ceda a chantagem do velho asqueroso! A sugestão de Abu Hassan é brilhante! Wir sterben beide! Simularemos nossa morte, disse ele! Levava em conta o velho costume de sua terra, onde o Califa Harun al-Rachid e a sultana Zobeide costumavam doar uma quantidade de dinheiro para os custos dos funerais dos habitantes de seus domínios. Imediatamente o casal põe seu plano em ação: simulariam a morte um do outro e receberiam da Sultana e do Califa as duas quantias; o suficiente para pagar suas dívidas com os credores. Acordado o plano, Fatime apressa-se para chegar ao palácio da Sultana anunciando a morte do marido, enquanto Abu Hassan numa ária Was nun zu machen-Ich gebe Gastereien mit Liedern und Tänzen imagina-se festejando antecipadamente o sucesso de sua artimanha. Mas seu humor festivo é abruptamente interrompido pela chegada de Omar, seguido pelo grupo de credores. Geld, Geld, Geld! é o grito que ele ouve acompanhado da recusa do grupo em lhe fazer um novo empréstimo.  O pobre homem invoca a paciência de Omar e seus comparsas. Paciência! Me dê pelo menos mais um dia, implora! Diante da negativa do grupo, humilha-se ainda mais e pede para esperarem pelo menos até à noite. Finalmente Omar anuncia sua proposta: esperaria não por causa dele, mas por Fatime que estava sofrendo muito com aquela situação. Omar então convida os credores para irem a sua casa resolver a questão, mas avisando a Abu Hassan que voltaria em seguida.
Trazendo um saco cheio de moedas de ouro, entra em cena Fatime e conta para seu esposo como a Sultana recebeu a notícia de sua morte. Arrependido, Hassan canta a promessa de nunca mais manchar de lágrimas as faces de sua amada Tränen sollst du nicht vergiessen, enquanto  Fatime  o interrompe com a frase: “as lágrimas são o orvalho do amor” (Tränen sind der Tau der Liebe)!  Este pequeno jogo continua mas a nova fase do plano precisa ser concretizada e Abu Hassan precisa correr à casa do Califa para lamentar a morte de sua amada. 
Fatime tinha simplesmente terminado de cantar sua ária Wird Philomene trauern (Se Filomene[7] estará de luto) quando Omar aparece novamente, desta vez tentando envolver amorosamente a esposa do seu devedor. Explica que agora ele é o único credor do casal, pois comprou suas dívidas e lhe mostra o maço de papel das notas promissórias. Com certeza ela sabe qual o objetivo de Omar... e bajulando habilmente o velho lascivo, consegue com um leve beijo, Siehst du diese grosse Menge ( Estais vendo tudo isso aqui?), extrair as notas promissórias de seu bolso.
Quando Abu Hassan retorna, Fatime tem trancado o gorducho dentro do armário da sala e sussurra para o marido a ária Der Vogel ist Gefangen (O pássaro foi capturado). Tomado pelo ciúme Abu Hassan pergunta pela chave do armário e grita exigindo-a! Tremendo de medo e preso dentro do armário, Omar entende seu destino. O Weh! Nun wird er bald entdecken dass ich mich hier im Netze fing (O, Desgraça! Logo ele vai descobrir que caí na sua armadilha!).
Entretanto, a alegria do casal dura pouco. Para seu horror eles avistam Mesrur, o conselheiro do Califa que se aproxima. Rapidamente Hassan finge estar morto e Fatime mostra toda a sua tristeza com a canção Hier liegt, welch martervolles Los, das Liebste was ich habe. Que tortura! Aqui está o tesouro mais raro que eu tive na vida, lamenta.
Para comprovar se os dois estavam realmente mortos, Mesrur tinha sido enviado, pelo Califa pois ele e sua esposa tinham feito uma aposta pra saber qual dos dois tinham morrido primeiro: Fatime ou Abu Hassan. O emissário então corre para avisar ao patrão, enquanto Omar ainda preso dentro do armário, treme de medo. Trio e coro cantam Ängstlich klopft es mir im Herzen (meu coração bate de ansiedade).
Uma musica solene anuncia a vinda do Califa. Agora ambos, Fatime e Abu Hassan estão deitados no sofá, fingindo-se de mortos. O Califa e sua esposa se aproximam acompanhados de sua corte.  Bei  dem Grossen Propheten tausend Goldstück würde ich demjenigen geben, der sagen könnte, wer von beiden  zuerst  gestorben ist (Pelo grande profeta, 1.000 moedas de ouro para aquele  que me disser qual dos dois morreu primeiro). Abu Hassan levanta-se rapidamente e canta Beherrscher der Gläubigen, ich bitte um die tausend Goldstücke, ich bin zuerst gestorben (Meu senhor, eu  reclamo as 1.000 moedas de ouro! Fui eu que morri primeiro). Pelo comando de Zobeide, Fatime também retorna à vida. Abu Hassan e a esposa contam então sua precária situação e se queixam da tentativa de suborno feita por Omar. O Califa  ordena então seu castigo: que  ele fique por mais um tempo preso no armário. Uma alegre canção para o soberano, finaliza o espetáculo. Heil ist dem Haus, dem der Kalif sich naht (Feliz é o lar que é visitado pelo Califa).

Referencias:
As Mil e uma Noites (vols I e II). Apresentação de Malba Tahan. Versão de Antoine Galland. Edições de Ouro/2001.
The New Grove Dictionary of Music and Musicians (Vol. XX) Stanley Sadie Editores.
Massin, Jean e Brigitte. História da Música Ocidental. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro 1997.

Personagens:
Abu Hassan: favorito do Califa
Fatime: esposa de Abu Hassan
Harum al Rashid: Califa
Zobeide: esposa do Califa
Omar: o agiota
Zemrud: conselheira da esposa do Califa
Mesrur: conselheiro do Califa

Diálogos e canções
Zemrud:
Quero contar-lhes a estória de Abu Hassan e sua viva esposa Fatime.  Ela se passou há muitos anos na corte do Califa de Bagdá. Até hoje esta brincadeira é contada e começou da seguinte maneira: como de costume, o dinheiro do nosso amigo Abu Hassan tinha acabado e desta maneira durante muitos dias não havia para ele e sua fiel Fatime nada mais que pão e água.

Canto-Duet 1
Liebes Weibchen, reiche wein.

Abu: Querida esposa, dá-me uma taça de vinho.
Fatime: nem branco nem tinto.
Mahomet proíbe isso!
Abu: Certo, mas escondido, dá para colocar só um pouquinho!
Fatime: Ah! queres água?
Abu: Não! A água me adoece! Quero Lagosta, torta de cerejas!
Fatime: Comilão!
Abu: Algo com massa folhada!
Fatime: Aqui só temos pão!
Fatime e Abu: Pode alguém viver desta maneira?
                          ... é só isso que temos?
                           Pão e água, água e pão?


Fatime: agora vou cantar pra ti uma pequena canção .
“Com o primeiro raio de sol da aurora”.
Abu: Isso é desesperador! Tenha piedade!
Fatime: logo eu matarei tua fome!

Hassan:
Pão e água, que refeição maravilhosa! Mas é assim acontece com os homens cujas mulheres sabem cantar melhor do que cozinhar.
Fatime:
Tú és um brincalhão! Eu me calo por preservar o amor matrimonial!
Tú gastastes nossos poucos tostões.  Mereces também perder a última jóia preciosa que tens.
Hassan:
Como? Eu tenho uma jóia? Deixa-me então abraçar-te minha querida Fátime! E depois vai correndo até onde possas vende-la!
Fatime:
Impertinente! Me parece que és capaz de vender a própria mulher!
Hassan:
Como? A jóia seria tú? Então eu me alegrei em vão?
Fatime:
Tú es um grosseiro, um desrespeitoso! Saibas que aqui neste lugar tem gente que está disposta a se colocar a meus pés e me presentear com suas riquezas.
Hassan:
Excelente! Muito bem querida Fatime! Não poupe minhas emoções. Então me cite o nome de um só idiota que estaria tão generosamente disposto a remunerar sua infidelidade!
Fatime:
Pois vou dizer! É o rico Omar! O agiota confidente do nosso estimado Califa
Hassan:
Omar? Aquele pão duro avarento? (risos)
Fatime:
Pois crê e escuta-me ! Ele mandou-me secretamente essa carta.  (com uma folha de papel na mão ela lê)
“ Belíssima Fatime! Meu coração está em chamas por ti!”
Veja aqui (com a mão na carta ela continua lendo)
“Apaga a chama que me abrasa o coração, atende meus apelos e com isso serás a dona de minhas riquezas. Permite a esse teu escravo beijar até a poeira por onde teus pés pisam”.
 Hassan:
... e o que tú lhe respondestes ?
Fatime:
Respondi que eu o odeio! Que tenho nojo dele!
Hassan:
Bravo! Bem feito!
Mas sabe? Talvez deveríamos  nos aproveitar desta situação, já que temos muitas dívidas!
Fatime:
Oh! Alah nos ajude!!! Faça-nos encontrar um meio de nos libertar desta situação (miséria).
Zemrud:
Assim os dois ficaram sentados, refletindo por muito tempo em como se livrar das dívidas.
“Precisamos de dinheiro, falava Hassan. Ela gemia e queixava-se.
Subitamente lhe veio a idéia salvadora.
Hassan:
Escuta! Nós vamos morrer!
Fatime:
Tú es louco? Morrer?
Hassan:
Sim! Escuta! Tú corres para encontrar Zobeide e anuncia o meu falecimento. Como é costume nesta terra, ela vai te dar um saco de dinheiro a que temos direito para os custos do meu funeral. Depois vou fazer o mesmo papel junto ao Califa anunciando tua morte. Que tal? Espero que ele não seja menos generoso (risos).
Fatime:
Parabéns, essa idéia é excelente!
Hassan
Corra meu amor! E anuncie a minha morte. Exagere com gestos e palavras e soluços!
Fatime:
Adeus meu esposo morto. Adeus!
 Hassan:
Lá vai ela! A comédia começou!
Minha esposa querida! Se nosso plano vencer, toda nossa miséria chega ao fim.
Canção 2
Ich gebe Gastereien.
Abu: o que eu vou fazer com todo o dinheiro do mundo?
Vou fazer uma festa com cantos e danças.
No lugar de honra sentará minha doce mulhersinha e com  flores lhe farei uma coroa. Ela vai brilhar ao meu lado e será a rainha da festa.
Êi, escravos!
Tragam vinho!
Não percam uma só gota!
Encham a taça com um pouco mais!
Eu bebo por você minha querida,
porque você vive perto do meu coração!
Hoje devemos cantar, deixem vir logo, logo o Alaúde!
Cantando dançando e bebendo, deixa-se a dissonância da vida para traz!
Oh Fatime!
minha querida, que tão ternamente fala comigo,
acredita-me:
o som do Alaúde pintará meu amor que sempre,
sempre a ti se renderá.
 Quero viver e morrer somente para ti.

Zemrud:
A felicidade de Abu Hassan era muita, mas só até o momento em que abriu a porta de sua casa pois Omar, o agiota do Kalifa estava à sua frente. E junto com ele os credores de Hassan, todos ao mesmo tempo exigindo  energicamente seu dinheiro.

Canção 3
Coral dos credores (geld, geld, geld). Geld!, Geld!, Geld!
Côro: Dinheiro, dinheiro, dinheiro! Não podemos mais esperar! Senão no fim seremos tidos como uns bobos.  Dinheiro, dinheiro, dinheiro!
Abu: Tenham paciência, esperam somente um dia ou pelo menos até a noite!
Côro: Não, não, não! Seu prazo expirou e sua dívida tem que ser paga a cada um de nós!
Abu: ( recitativo). Meu senhor! Tenha misericórdia, estou numa maldita dificuldade. Deixe isto por menos!!
Omar: Não por você, mas por Fatime.
Abu: Ah! Fatime!
Omar: Tua imprudência leva esta pobre mulher a sentir-se muito infeliz!
Abu: Não resolva este assunto por pena!
Omar :(para o grupo de credores) Venham até minha casa! Lá conversaremos e as reclamações serão canceladas.
Estão satisfeitos?
Credores: sim, sim, sim. Nós estamos muito contentes!

Zemrud:
Conseguido finalmente se livrar dos credores, a felicidade de Hassam era perfeita, especialmente quando Fatime voltou do palácio do Califa trazendo um saco de moedas de ouro.
Fatime
Veja só, que maravilhosa recompensa nos trouxe a tua morte.
Hassan:
Realmente! Um saco cheio de moedas de ouro! Estamos salvos! Mas tu deves saber o que aconteceu nesse meio desse tempo. Omar apareceu!
Fatime:
 Oh Deus!
 Ele veio com toda a sua turma de credores! Exigindo de imediato seu dinheiro!
Fatime:
E você, o que fez?
 Hassan:
Eu paguei!
Fatime:
Como então? Sem dinheiro?
Hassan:
Sem dinheiro, sim! Eu disse a ele que tú o procurarias, disposta a aceitar sua corte!
 Fatime:
Meu Deus!
            Hassan:
(risos) O velho pecador caiu na armadilha, mordeu a isca! Levou toda a turma para sua casa e neste momento está pagando todas as minhas dívidas!
Fatime:
Pelo Profeta!
Hassan:
Mas agora vamos falar de ti! Como nossa querida patroa reagiu à minha morte?
Fatime:
Ah! Ela ficou fora de si. Sua dor é imensa. Faz pena ver seu sofrimento. Vi com meus olhos como ela chorava.
 Hassan
... e tu?
Fatime:
Ora, eu chorava junto com ela!
Hassan:
Querida Fatime, podes crer que estas devem ser as últimas lágrimas que perdes por mim!

Canção 4
Thränen solst du nicht vergiessen.
Abu Hassan: nunca mais lágrimas amargas rolarão ou mancharão tuas faces.  Te protegerei amada e verdadeiro coração que adoça a vida.
 Fatime: As lágrimas são o orvalho do amor,
Sob o qual ele floresce, protegendo a floração fresca e bela.
Abu Hassan:  Prove-me este amor!
Fatime: Já está provado.
Abu Hassan: Humor, raiva e falsidade!
Fatime: Quando não há falsidade por perto. Não existe preocupação.
Fatime e Abu Hassan :  quando não existe falsidade no coração o amor dura para sempre. Cercados de alegria e afeição nós passaremos nossos dias.
Hassan:
Agora vou correr para o Califa. Anunciar a tua morte antes que ele tome conhecimento do meu falecimento. Adeus Fatime!
Fatime adeus! ... ainda bem que isto é uma brincadeira!!!
Fatime:
Eu amo meu marido!... O que seria minha vida sem ele!!!

Canção 5
Wird Philomela trauern.
Fatime
Será que Filomene estaria feliz se ela fosse libertada da sua gaiola
e saltasse dando voltas e voltas, sentindo o perfume das flores?
Olharia timidamente através da janela de uma casa abandonada e então expressaria sua alegria em canções de agradecimento.
Levantaria as pequenas asas e então voaria para o infinito éter.
Abrindo seu voo e cantando, iria para perto do trono eterno do céu,
regozijando-se sentindo-se livre.
Então, Abu Hassan meu querido esposo, eu vivo somente quando estou perto de ti.
Quando estiveres sozinho e não puderes mais me afagar, estarei ligada a ti pelas correntes do amor. E nesta doce servidão entendo que só o amor preenche a vida!
Quando as tristezas vierem com suas monótonas sombras!
Querido esposo Abu Hassan, o que será da vida sem você!


Zemrud:
Enquanto Abu Hassan anunciava a morte da sua querida esposa para receber a sacola com ouro, Omar entrava pela segunda vez na casa do casal.
Omar:
Perdoe-me bela Fatime! Estou procurando seu marido.
Fatime:
Ele esta na casa do Califa.
Omar:
Eu não quero lhe molestar porque afinal não tenho nada a esperar da sua boca senão ofensas... palavras que me ferem.
Fatime:
Tú não me conheces bem, Omar! Porque deveria eu te ofender?
Omar:
Tú sabes que eu te amo, que eu te adoro.
Fatime:
Ora veja! Que honra!
Omar:
Teu marido tem dívidas consideráveis!
Fatime:
Sim, eu sei! Eu também fico angustiada quando penso no exército (batalhão) dos nossos credores,
 Omar
Eu me permiti assumir todas as dívidas dos seus credores. Agora o único credor está a sua frente. Sou eu! Mas acredite-me, eu não venho com intensões hostis!

Canção. 6 
Siehst du diese grosse Menge (dueto)
Omar : Este grande lote de promissórias, somam uma grande quantia. Você não perderá sequer um. Todos eles agora me pertencem.
Fatime: Quem escapa da multidão! Será que nosso destino vai mudar? Nós estamos em suas mãos! Eu quero entender.
Omar: você me ama?
Fatime: eu não posso lhe odiar
Omar: fale-me sem rodeios! Vamos, coragem!
Fatime: as aparências muitas vezes enganam!
Omar: não esconda nada!
Fatime: Não, sim, não, sim, não...
Omar:  A bobinha foi capturada e caiu no meu plano inteligente.
Fatime: Ele pensa que eu fui capturada, e seu plano teve sucesso!
Omar: você me ama, você me ama querida!
Fatime: Eu amo, eu amo, eu amo? Não, não!
Omar: Oh! Encontre-me um quartinho! Basta um minúsculo lugarzinho!
Fatime: eu não sei! Agora estou um pouco inquieta!
Omar: Siga meu conselho! Um beijinho só, para fortalecer nosso amor. Isto significaria uma prova!!! Um beijo significa que você acredita em mim! Que aceitou minha proposta!

Canção  7
Dueto. Ich suche und suche in allen Ecke.
Fatime: Eu procuro e procuro em todo canto!
Onde estará esta maldita chave?
Abu Hassan: Antes de eu ir à casa do Califa, eu a vi pendurada no buraco da fechadura do armário.
Omar: O Deus! Ele já, já vai descobrir que estou aqui preso nesta armadilha!
Abu Hassan: apesar do meu sangue frio, acho que estou enciumado!
Fatime: Se alguma vez dei motivos, você deve ter suas dúvidas a meu respeito.
Fatime e Abu Hassan: Ele não sabe como entender o medo. E implora em vão aos céus. Nunca mais vai escapar!
Omar: Eu não entendo este medo. Oh, Maomé! Eu te imploro. Eu gostaria de estar fora disso tudo, mas eu te peço, não me abandones!
Abu Hassan: Provavelmente deve haver um amante seu escondido neste armário! Vou puni-lo imediatamente. Meus olhos raivosos o descobrirão!
Fatime: que presunção foi despertada tão cedo na sua alma!
Abu Hassan: você escondeu a chave do armário, aposto! Se você não encontrar eu vou explodir esta porta!
Abu Hassan: veja aqui! (pegando rapidamente a chave)
Omar: desgraçado de mim!
Fatime: Você está perdido! Ele prometeu lhe matar e nada o libertara. Ele está vindo!
Abu Hassan: Está aterrorizado com a morte. Eu prometi mata-lo e nada o libertará.
Omar: Eu estou perdido ele está vindo e prometeu me matar. Eu preciso gritar por socorro!

Zemrud:
Omar esperava ter uns momentinhos de amor com Fatime. Já tinha até devolvido para ela todos os certificados da dívida. Mas quando ele com gestos sedutores tentou se aproximar da sua desejada e bela Fatime,  ela gritou:
Fatime:
Meu Deus! Omar, qual é o problema? O que tens?
Em seguida ela sussurrou apressadamente:
Fatime:
Espera um pouco! Escuta! Estamos perdidos, meu marido está chegando. Olhá la!
Zemrud:
A confusão se instala na casa do casal.
Fatime:
O que vamos fazer. Me ajude, Alah, me salve!
Fatime:
É tarde demais para fugir! Entre neste armário!
Zemrude:
Assim Fatime decidiu esconder Omar dentro do armário que ficava na sala. Abu Hassam por sua vez, também estava feliz por ter recebido um bom dinheiro do Califa para o enterro da sua querida esposa. Entra em casa e dá a noticia a sua amada.
Hassan:
Veja só que rica a porção que eu consegui!
Fatime:
Pssit! Calma! Eu o prendi lá no armário.
Hassan:
Quem?
Fatime
 O pássaro sedutor! Esse vagabundo. ... e aqui estão todas as nossas promissórias compensadas!
Hassan:
Execelente!
Mas espera! Nós vamos faze-lo transpirar sangue de tanto medo!
Fatime:
Ótimo! O armário está trancado!
Hassan:
Mas porque?
Cadê a chave? Eu preciso da chave. Quero tê-la!
Zemrud:
Abu está com ciúmes. Um leve pensamento de suspeita de que Fatime, cedeu aos encantos de Omar. Está com medo do que possa acontecer com ele. Já perdi tudo que tinha e não posso agora perder uma mulher como Fatime: corajosa, afetuosa e trabalhadora, pensou! Mesmo assim eles ficam brincando e metendo medo no velho Omar que transpirava assustado.
Em seguida Fatime viu Mesrud, o conselheiro do Califa que aproximava-se de sua casa.
Fatime:
           
Pssit. Ele está chegando!
 Zemrud:
Ele entra e se depara com o suposto cadáver de Fatime.

Mesrur:
Pelas barbas do profeta! O califa ganhou a aposta!
Hassan:
O que dizes? Uma aposta?
Mesrur:
Imagina! O patrão dos fiéis falou com sua esposa, da morte da bela Fatime! Mas a esposa do Califa achava que era Abu Hassam  que teria falecido! De início eles discutiram. Mas finalmente concordaram em fazer uma aposta. E como estou vendo, meu patrão ganhou a aposta e é Fátime que realmente está morta.
 Hassan:
Pelo amor de Alah, ali está ela morta.
Mesrur:
Acalme-se pobre homem, eu venho para trazer uma mensagem alegre de meu patrão!
Zemrud:
Mesrur correu rapidamente para confirmar ao Califa de que realmente Fatime teria falecido. Afinal ele tinha visto com os próprios olhos! 
(Nisso entre em cena, Zobeide que se apresenta dizendo ter sido ela a mandar Zemrud, sua dama de companhia, para a casa de Abu Hassam.)
Zemrud:
Vocês agora já devem saber que sou a dama de companhia de Zobeide (risos). ... mas os nossos heróis devem ter me visto chegar.
 A verdade é que quando eu entrei na casa deles, encontrei Fatime desesperada na cama do falecido Abu Hassan.

Zemrud:
A impertinencia dos homens já e demais! Pobre Fatime! O Califa jura pelas barbas do profeta, que não teu marido, mas tú é que morrestes.
Fatime:
Eu queria estar deitada aqui ao invés dele.
Zemrud.
Nada disso querida Fatime! Melhor dez homens mortos que uma única mulher! Eu lhe peço que deixe-me vê-lo pessoalmente porque eu tenho que jurar que ele realmente está morto.
 Fátime:
Olhe! Aqui está ele deitado. Que pena! O meu melhor lado, que boa alma era era ele!
Zemrud:
Pobre Abu Hassan. Pobre Fatime!
Mas que estranho!
Ele nem parece como outras pessoas honestas quando falecem!
Fatime:
Ele era muito jovem! Eu mesmo nem posso acreditar.

Canção 8
Ária Hier liegt, welch’ martervolles Loos
Fatime:
aqui está meu amor!
Tão honesto, tão corajoso!
Jaz aqui, vai para debaixo da terra.
Por favor, leva-me também ao túmulo. 
Ah! Como eu ficaria feliz em morrer, para integrar-me a ti.
Mas depois do mandado do destino você morre e eu tenho ainda que viver!

Zemrud:
Acalma-te. Tú és ainda muito jovem e bonita e Abu Hassan não é o único homem nesse mundo. Adeus!
Assim eu deixei Fatime para confirmar a minha patroa a morte de Abu Hassam.
Evidente que nossos dois heróis não se sentiam muito bem naquela situação. A coisa estava complicada! Tinham começado muito bem sua brincadeira, e não imaginavam como ela iria terminar?

N. 9 Terceto e coro.
1)     Aengstlich klopft  es mir im Herzen
Fatime e Omar: O! meu coração está  batendo doidamente! Até onde poderá o destino nos levar?  Só um milagre nos salvará!
Abu:Querida esposa!
Fatime: você ainda pode brincar?
Abu: Porque não?
Fatime: esta situação! O que podemos fazer?
Abu: pergunta tola! Nós podemos pensa-la mais tarde!
Fatime: Estou muito preocupada!
Abu: Preocupada? Eu estou é desesperado!
Fatime: você ouviu?
Abu: por Alah, alguém está vindo!
Fatime: é Zobeide!
Abu: ... e o Califa!
Fatime Abu e Omar: Por Alah! Eles estão vindo! Medo e tremores nos paralisam! Não sabemos o que pode acontecer!
Abu: (dirigindo-se a Fatime) Rápido, rápido, deita-te no divã! Com as pernas viradas para Meca, vamos!
Fatime: certo! Eu já estou mesmo quase morta!
Abu: você ficará morta um tempinho mas ressuscitará num mundo melhor!
Fatime: nós estamos num sério dilema!
Abu, Omar: Rápido! Calma! Calma! Agora, boa noite!
                             -----------
Côro: Abram-se todas as portas. Curvem-se até as poeiras do chão simples mortais!
Reverenciem o Califa que está chegando!

Califa:
O que eu estou vendo! Os dois mortos? Eu não entendo mais o mundo. Me foi reportado a morte da bela Fatime, mas a minha esposa recebeu a informação da morte de Hassan.
...A questão agora é: quem morreu primeiro?
Mesrur:
Quando eu entrei na casa encontrei Fatime morta.  Então o senhor ganhou a aposta.
Zemrud:
Mas eu achei Fatime ao lado da cama de Abu Hassan morto. Então o senhor perdeu a aposta.
Califa:
Eu juro pelo grande profeta, eu vou dar mil peças de ouro a quem morreu primeiro.
Abu Hassan (levantando-se apressadamente)
Senhor, fui eu! Eu morri primeiro. Solicito as mil peças de ouro.
Califa (Assustado)
Mas o que significa isso!
Abu Hassan:
A sua graça me ressuscitou!
Califa:
E Fatime, a tua esposa?
Fatime:
Eu vivo meu senhor! Perdoe-me, eu estou viva!
Abu Hassan:
Somente a miséria nos deu esta idéia. Veja aqui essas promissórias. Todas elas estão em aberto. Um de meus credores que persegue Fatime com o seu amor, declarou-as como prêmio se ela aceitasse seu amor.
Califa:
Quem é essa pessoa? Quero seu nome!
Abu Hassan:
 É Omar, o agiota. Ele agora está preso e suando ali naquele armário.
Califa:
Ele deve ser grato à minha misericórdia se eu não o puno muito duramente. Deixem ele ali mais um pouquinho suando. Eu vou dar ordem ao meu tesoureiro de lhes pagar as mil moedas de ouro prometidas.
Abu Hassan:
Agradecemos-lhe líder dos fiéis. Nós não tínhamos a intenção de permanecer mortos para sempre. Apenas morremos mal para depois poder viver melhor no futuro.

Canção 10 (coro final)
Heil ist dem Haus beschieden
Feliz da casa que é abençoada pelo Califa. E com Zobeide as preocupações desaparecem . O futuro é só paz e descanso. Viva! Viva!



[1] Comentários e Tradução do texto da ópera, apresentada pelos alunos do Departamento de Música da UNB sob a orientação da Prof. Irene Bentley em Junho de 2018 no Auditório da ADUNB/ UNB.
[2] Ver entre outras, “A favorita do Califa Harun al Hachid” in 1001 Noites p. 425. vol. II
[3] Ver entre outras, “História de Zobeide”. In 1001 Noites.p.. 189 vol.I
[4] Ver entre outras,“História de Abu Hassan” in 1001 Noites. p. 422 e 363. Vol. II
[5] Ver 1001 Noites, pg. 219. Vol II
[6] A obra de Mozart passa-se na Turquia .  Pedrillo embriaga Osmin e depois o Pachá o perdoa. Na ópera de Weber, o Califa perdoa o casal de devedores e o agiota. O casal simula estarem mortos mas Abu Hassan levanta-se prontamente e  Zobeide  ressuscita Fatime.
[7] Philomene ou Filomena. Significa “mulher que ama fortemente”. A Hagiologia menciona também Santa Filomena, que viveu no Sec III D.C. Foi uma jovem destinada a ser esposa do Imperador Diocleciano. Negando-se a casar com o tirano, foi torturada várias vezes e finalmente executada. Relevante lembrar que sua vida só ficou conhecida no fim do sec. XIX, portanto muito depois da composição de Weber. Mais interessante para compreender a canção N. 5, é a informação da mitologia. Philomene é filha de Pandeon, rei de Atenas. Foi violentada por seu cunhado Tereu, rei da Tracia. Para impedir que ela contasse à sua irmã Procne, ele corta-lhe a língua. Apesar disso, Philomene conseguiu contar, bordando o acontecido numa tela para a irmã. Ao saber do crime do marido, sua esposa mata o filho do casal, Itis, e serve sua carne ao conjuge que passou a persegui-las. Para escapar de Tereu as irmãs pediram ajuda aos Deuses que as transformaram em pássaros: Philomene num Rouxinol e Procne numa andorinha. Tereu depois foi transformado numa pulpa.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Le Devin du Village: Confissões musicais de J. J. Rousseau


Le Devin du Village:  Confissões musicais de J. J. Rousseau[1]

Mércia Pinto/UnB

Para o público em geral, Jean-Jacques Rousseau é mais conhecido como filósofo e escritor. Embora seus contemporâneos nem sempre estivessem convencidos disso, não se deve esquecer que foi músico antes mesmo de se tornar filósofo. Suas contribuições neste campo do conhecimento são relevantes, pois tiveram grande impacto na música do ocidente, sintetizando as tendências de sua época, projetando-as rumo ao romantismo. Como tal, inventou um novo sistema de notação musical baseado em figuras, conhecido como Notação Gallin[2]. Escreveu consideravelmente sobre o assunto, incluindo artigos para a Enciclopédia (1751), publicou o Dicionário de Música (1768) e foi personagem de destaque nos debates sobre a estética das luzes, como na violenta e controvertida Querelle des Bouffons, questão que até hoje interessa em igual medida tanto à história da música como à história das ideias. É de sua autoria a pequena ópera Le Devin du Village[3]. Concebida à maneira dos intermezzos italianos, onde os diálogos não são cantados, mas falados, contrastando com as óperas cômicas francesas da mesma época. É a primeira ópera onde texto e música foram concebidos pela mesma pessoa; enredo, árias, conjuntos vocais, diálogos e recitativos. Seus personagens; simples camponeses, diferenciam-se dos heróis mitológicos e cerimoniosos dos dramas encenados naquele tempo.

Le Devin du Village é obra da maturidade do autor e permanece no plano musical como a mais representativa demonstração  de sua sensibilidade e de seu período na França. Escrita por um pensador cujas ideias contribuíram para a transformação social e política do fim do século XVIII, tornou-se, paradoxalmente durante a restauração, símbolo emocional do velho regime. Removida do repertório regular das óperas, só foi recuperada em 1830, durante a conhecida “La Bataille d’Hernani” onde partidários do estilo clássico de representação e a nova geração de atores e escritores românticos se enfrentaram em incontáveis debates[4].

J. J. Rousseau (1712/1778) nasceu em Genebra e era autodidata em música. Estudou sozinho as regras de harmonia no tratado de Rameau.[5] Afirmava ter tido algum tempo para ler e decifrar a teoria musical. Depois de deixar sua terra natal aos 16 anos, foi acolhido por Madame Warrens primeiro em sua casa em Annecy e depois em Chambery. Sua benfeitora o educou durante vários anos, permitindo-lhe aperfeiçoar seus conhecimentos, inclusive sua relação com a música. Recém-chegado a Paris em 1742, tinha em mente um projeto para substituir a notação musical usada, facilitando assim o aprendizado da música. A partir daí a ambição de se tornar compositor e teórico da música vão aparecer evidenciadas em muitos momentos de sua vida e de sua obra. Embora frequentasse os meios intelectuais, apresentações de óperas e alguns salões, sua vida material era precária. A sobrevivência vinha do trabalho de secretário e de copista de partituras musicais. Apesar de seu treino em música ter sido pobre, nada disso o impediu de também dar aulas de composição e de canto para completar sua renda. Apresentado na Academia de Ciências de Paris (22/08/1742), seu projeto não teve a aceitação esperada, recebendo apreciação crítica, eliminando assim suas pretensões de entrar para o seleto grupo dos acadêmicos. O fato lhe causou imenso desgosto, mas logo depois ele publicou no jornal Le Mercure sua Dissertation sur la musique moderne (1743), onde expõe os pontos principais de seu projeto e refuta as críticas dos “eruditos” da academia[6].

No período em que escreveu Le Devin du Village, Jean Jacques Rousseau tinha tido seu primeiro sucesso literário com seu Discours sur les sciences et les arts (1749). Com quase 40 anos, se concentrava em ganhar notoriedade como compositor e como copista de música. Datam da época a composição de alguns balés, motetos e a ópera balé Les Muses Galantes (1745), que teve pouco sucesso nos meios operísticos de Paris. Rameau, que estava presente na primeira apresentação do trabalho, acusou-o de tê-lo plagiado de “algum homem consumado em arte”[7]. Mais uma vez a decepção e a frustração lhe atingem[8]. A admiração que tinha pelo teórico das leis da harmonia transforma-se a partir dali num antagonismo acirrado, e o ressentimento vai encontrar campo não só ao tomar partido em favor da ópera italiana, numa das maiores disputas estéticas do século das luzes, mas principalmente atacando Rameau direta ou indiretamente em vários de seus escritos[9].
Relevante mencionar o início de suas preferências pelo melodismo da ópera italiana. Entre 1743-44, tinha estado em Veneza como secretário do embaixador Montaigu, tempo que lhe permitiu o contato com o estilo e a arte da ópera Italiana e os compositores que influenciaram a produção de Lully e seus seguidores, entendendo que eles não mais correspondiam aos ideais da música dramática que haviam escrito até então[10]. Em 1751 ele se curava numa estação de águas em Passy[11], não muito longe da montanha de Chaillot, quando encontrou um amigo suíço que havia conhecido durante o tempo em que trabalhara na Itália. Uma noite conversavam longamente sobre quão divertida tinha sido uma ópera buffa que tinham ouvido no outro lado dos Alpes. Naquela mesma noite pensou em fazer um espécime deste tipo de drama musical. Em suas Confissões, ele mesmo escreve: “Eu fiz rapidamente os versos e adaptei-os a algumas melodias que foram para mim como uma guerra, escrevendo-as. Rabisquei a coisa inteira e quando voltei ao salão na hora do chá pude mostrar a Mussard[12] e sua governanta. Nunca pude imaginar que o assunto era assim tão interessante. Os elogios evitaram que eu jogasse os manuscritos no fogo. Em poucos dias o libreto estava pronto e a música colocada nos diálogos. O gênero era completamente novo, explica. A parte que mais me agradava era o recitativo”.[13] Três semanas depois de seu retorno a Paris, com exceção da abertura e do divertimento, a obra estava apta a ser encenada.

No entanto, a experiência negativa com a encenação de Les Muses Galantes o fez temeroso de falhar mais uma vez, caso a peça aparecesse em seu nome. Graças à intervenção do amigo Duclos[14], a ópera foi a público sem que se soubesse o nome do autor. Mesmo os dois diretores da casa na época só foram informados da verdadeira identidade do autor depois do seu sucesso assegurado. No outro dia, toda Paris falava do assunto, e o mestre de divertimento do Rei ordenou sua encenação na Corte. Assim, em 18/10/1752, a ópera foi apresentada defronte a Sua Majestade, na sala da Antiga Comédie do Castelo de Fontainebleau.

No mesmo livro, Rousseau comenta sobre aquela noite memorável; a plateia, constituída das mais belas damas da Corte, e ele mal barbeado e despenteado foi colocado bem à vista do Rei e de Madame Pompadour[15]. Mais adiante ele fala do grande sucesso de sua peça e do Rei, que saiu encantado do espetáculo cantarolando a Ária de Colette. Acrescenta: “Le Devin du Village” acabou de me pôr em moda e em breve não havia homem em Paris mais requisitado do que eu”.[16] Como agradecimento o Rei concedeu-lhe uma pensão, que ele recusou por querer guardar sua independência e sua liberdade. A Ópera teve seu libreto traduzido para várias línguas e foi encenada em diversos países.[17]

Mas no momento em que Rousseau conhece os favores da Corte e do público parisiense amante da ópera, o mesmo público se via dividido entre dois grupos: os partidários da ópera italiana e os da ópera francesa. Estes se arrumavam no teatro em frente ao camarote do Rei, enquanto os apoiadores da ópera italiana, passando por mais modernos, mais leves e charmosos se agrupavam em frente ao da Rainha, donde o nome “Guerre des Coins”, depois difundido como “Querelle des Bouffons”. O elemento determinante para esta célebre divisão foi a apresentação, por uma troupe italiana, da ópera La Serva Patrona, de Pergolese.[18] A obra seduziu o público, transformando-se em algo quase mítico[19], e logo se formaram dois partidos. As paródias que criticavam as duas tendências se multiplicavam. Os panfletos que circulavam às centenas eram muitas vezes assinados por nomes ilustres como Diderot, Grimm[20] e Holbach[21]. Em nove meses apareceram nada menos de 30 escritos sobre o assunto[22]. Nesta “batalha de penas”, os intelectuais cerraram fileiras a favor da música mais ligeira, espontânea, com temas extraídos do cotidiano, opondo-se ao aparato mitológico da ópera francesa. O genebrino esteve fortemente engajado, dando todo o peso à polêmica, escrevendo os mais belos textos defendendo a nova estética[23]. Sua voz exaltada já tinha disparado fogo com sua célebre Carta sobre a Música Francesa (1753)[24], desqualificando-a, querendo provar sua pobreza. Depois de chamar a escrita fugada como “restos de barbárie”, acrescentou: “Eu creio ter feito ver que não é nem o ritmo nem a melodia da música francesa, mas porque a língua não é suscetível! O canto francês não passa de uns latidos contínuos insuportáveis a qualquer ouvido desprevenido. A harmonia é bruta, sem expressão, uma substância escolar que as árias e os recitativos franceses não chegariam a sê-los”. Em sua autobiografia comenta sobre a reação às suas palavras: “A carta sobre a música francesa colocou contra mim toda a nação, que se sentiu ofendida na sua música. Eles querem me matar. Só me querem como uma imagem. Até criaram a falácia de dizer que eu não era o autor do Le Devin du Village”.[25] Seus contemporâneos afirmam que ele indignou a Corte, escreveu um panfleto. Esse grande Rousseau deveria ser expulso da França, continuou. O alvoroço foi tão grande que certa vez o impediram de entrar no teatro para assistir a uma apresentação de sua ópera. No meio de tudo isso, Rameau, que era compositor da Câmara do Rei, universalmente aclamado, de repente se transforma num reacionário obscurantista simbolizando a resistência à Itália[26].  
Aos poucos as contradições de suas críticas vinham a público. Pareciam se resumir à ópera[27], visto que ignorava a literatura francesa para cravo e órgão e mesmo a produção de outros compositores reconhecidos. Por que então escrevera seu Le Devin du Village e outros trabalhos em francês? Não teria ele medo dos latidos dos intérpretes?

Nesse ambiente bélico é mais razoável dizer que as críticas de Rousseau à música francesa e especialmente a Rameau tenderam mais para conflitos entre duas estéticas, tensões vivas durante todo o século XVIII. A música  entra nos pensamentos de Rousseau como condição para a restauração da comunicação entre os homens. Herdeiro da tradição cartesiana e com pretensões a entrar para o mundo dos sábios da Academia, Rameau tornou-se figura emblemática do século das luzes. Abordava a música como ciência, sujeita a regras matemáticas. Afirmava que esta arte seria igual em todas as épocas, enquanto Rousseau a defendia como um fato histórico e cultural, um meio de comunicação potente entre os homens. O músico procurava os fundamentos eternos da arte dos sons nas leis da Harmonia[28], afirmando que esta expressava uma ordem universal, divina e portanto a própria natureza, enquanto o genebrino por sua vez não via relação entre a expressão dos sentimentos e as matemáticas de Rameau. Para ele, comunicar-se musicalmente seguindo regras estabelecidas e símbolos convencionais era perder a expontâneidade. Acrescentava que a sofisticação e a riqueza de artifícios das composições barrocas de Rameau poderiam ser tomadas como sinônimo de progresso mas para ele elas eram na verdade sinal de regressão. Tentava demonstrar que a melodia não era serva do texto e que fala e canto tinham surgido ao mesmo tempo e num passado remoto tinham sido um único meio de expressão. Enfatizava positivamente a diversidade musical dos povos e seu passado mítico onde os homens expressavam seus sentimentos de maneira mais completa. Para ele, a base de uma boa composição musical não era nem o ritmo nem a tonalidade, mas sim o canto. Além disso a melodia deveria estar ligada à entonação da língua com sua riqueza expressiva que ao imitar as inflexões da voz, exprimia os lamentos, os gritos de dor ou de alegria, as ameaças, os gemidos, enfim, todos os sinais vocais das paixões. A melodia não se limitava a imitar, ela fala e a sua linguagem inarticulada, embora viva e ardente possuia cem vezes mais energia do que a própria fala. Além disso, em sua obra filosófica pregava a superioridade do sentimento sobre a razão, apelando ao coração e à interioridade, ao voltar-se a si mesmo, o que mais tarde levou a Herder, Goethe e à teoria do drama em Wagner. Grande conhecedor do Tratado de Harmonia de Rameau, não tardou a encontrar “fissuras” no seu corpo teórico. Em resumo, o combate ideológico se fixa no que é precisamente fundamental dos séc. XVII e XVIII: a relação entre poesia e música, a arte como imitação da natureza. Rousseau condenava a ópera francesa por ser um gênero falso em que a natureza não se fazia lembrar. Ironizava a linguagem pomposa dos libretos e o abuso das mitologias nos enredos.[29] A ausência de ação dramática, o exagero das montagens cheias de aparatos. Os gorjeios vocais dos cantores e os inúmeros trinados sem relação com os afetos que o texto expressava.[30] A resposta às grosserias disparadas pelo músico encontraram expressão na sua verve filosófica, tornando-se seu tenaz opositor. A repercussão de seus escritos o obrigava a polemizar com os adversários de suas teses. As disputas incessantes, mantidas com os meios musicais, provocavam sentimentos negativos dos colegas[31] e compatriotas, trazendo à tona o questionamento de sua competência como músico[32] e mais ainda a validade de suas ideias estéticas; a defesa das melodias com acompanhamento que tentava impor como ideal e era rejeitado[33].

Mas que ópera é esta que marcou sua época com mais de 600 apresentações só em Paris? Que inspirou tantas Paródias[34], que mostrou caminhos para novos gêneros dramáticos? Que ópera é esta que encantou um monarca, depois um continente a despeito de seu desaparecimento em programas de concertos? Uma das razões é sem dúvida sua frescura, sua simplicidade, sua sentimentalidade um tanto infantil, emolduradas por uma natureza longínqua e idealizada, habitada por camponeses ainda distantes da ameaçadora decadência da vida nas cidades. Relevante lembrar a sugestão do próprio autor para o cenário rural da ópera: de um lado a casa do adivinho, do outro as árvores e no fundo uma fonte[35]. 

Estas características foram realmente comentadas positivamente pela maioria dos críticos da época.[36] Trata-se da gentil Colette, camponesa sentimental e infantil onde a esperteza psicológica do Adivinho (Devin) e suas magias resolve seus males. Ela se julga abandonada por seu camponês Colin, que parece preferir no momento uma dama da cidade que a ela, se prende por seus “avanços” e presentes. O Devin simula passes de mágica e lhe indica um meio forte e simples de reconquistá-lo: a coqueteria[37]. Depois de uma abertura em estilo Italiano em três movimentos: alegre-devagar-alegre, a cortina é levantada e vê-se a cena campestre com uma fonte e a casa do Adivinho ao lado e onde tudo vai acontecer. Entra Colette e enxuga as lágrimas em seu avental. Está aflita e canta a ária (J’ai perdu tout mon bonheur). Conta seu dinheiro numa expressiva pantomima antes de apresentar-se ao Adivinho. Oferece-lhe algumas moedas para que fale do seu destino, pois nutre algumas esperanças em Colin, seu grande amor, e canta (Si les galants de la ville). O adivinho fala-lhe de seu amado e lhe dá alguns conselhos úteis (l’amour croît, s’il s’inquiète). Mas Colin está para aparecer e é tempo de mandar a camponesa ir embora. Sozinho no palco, o Adivinho revela então para a audiência os segredos de sua “ciência”. Colin aparece e fala sobre a inconstância de Colette (Non, Colette n’est point trompeuse). Para fazer a vontade da camponesa, o Adivinho tenta pregar-lhe uma peça para ganhar de volta seu amor por Colette. Deixado sozinho, Colin jura seu amor e fidelidade à camponesa (Je vais revoir ma charmante maîtresse). Neste momento ela aparece. Eles se veem um ao outro mas não ousam se aproximar (Je l’aperçois). Colin pede seu perdão, enquanto Colette simula indiferença (Ta foi ne m’est point ravie) e o recitativo (Tant qu’a mon Colin), mas pouco a pouco permite a aproximação e acontece a famosa exclamação (Ah Colette!). Reconciliados, os dois amantes prometem se casar (Ah! Jamais Colin t’engage son coeur et sa foi) O Adivinho volta à cena para coletar da audiência os frutos de sua “ciência” (recitativo). Recolhendo o pagamento do seu trabalho, assegura-lhes que está suficientemente pago, pois está feliz. Entram em cena os jovens da vila para comemorar com danças e canções a alegria dos dois amantes. No curso do divertimento, um colega da vila oferece a Colette um bouquet, que o passa a Colin (Forlane para orquestra). Este canta uma Balada (Dans ma Cabane obscure). Em seguida entram em cena três dançarinos e fazem uma pequena pantomima. Uma moça da Vila dança enquanto se aproxima um elegante cavalheiro. Ela se permite cortejar, e ele lhe oferece uma bolsa com dinheiro. Ao som de um minueto lento ela recusa veementemente a oferta, e este lhe presenteia então um colar e o coloca em seu pescoço. Mostrando-se feliz ela admira-se na água da fonte. Então aparece outro rapaz que se manifesta enciumado e discute com o cavalheiro. A moça tenta acalmá-lo e os dois se jogam aos pés do cavalheiro, que os perdoa e se divertem juntos com os outros moradores do local (coral lento). Todos se divertem. É a vez do Adivinho cantar uma nova canção (L’art à l’ amour) na qual todos tomam parte. A dança recomeça e só é interrompida por uma ária cantada por Colette (Quand on sait bien aimer). Em seguida, é cantada a última canção e todos tomam parte (Allons danser sous les ormeaux).

Em primeiro lugar é evidente que Rousseau conhecia e sabia como tirar vantagens das qualidades da língua francesa exatamente naquilo que proclamou que era inapta a ser cantada[38]. Tanto que apesar dos personagens serem camponeses, a linguagem empregada é a linguagem da Corte. Curioso lembrar que na pequena ilustração para a apresentação da ópera, que se encontra em Paris (Biblioteca Nacional), Colette está nos trajes do modelo de Maria Antonieta e não como uma camponesa[39]. As árias da ópera são simples e melódicas, frequentemente com o aspecto de canções populares, sem muita virtuosidade vocal ou grandes exageros melódicos, portanto, como desejou o autor da peça; o reflexo do acento da natureza. Mas além do francês palaciano, ele empregou danças (minuetos, pastourelles, forlanes e alemandes) e ritmos ao gosto da nobreza, às vezes entrecortados de passagens instrumentais ou de recitativos. Aqui podemos afirmar que se o filósofo genebrino é visto como tendo trazido a vida rural para o mais alto ponto de combate através da disputa entre natureza e cultura, o enredo deste pequeno drama mostra exatamente esse combate. Ele consegue isso usando a linguagem da Corte para suas canções rústicas em ritmo de danças da nobreza, trazendo o gênero pastoral do seu distante e pitoresco ambiente social para o palco. A sugestão do cenário desta ópera (ver nota 33) é muito significativa. É sem dúvidas um retrato de suas vivências. Nos seus Devaneios de um viajante solitário e na sua autobiografia (Confissões) as alusões a cenários campestres são frequentes. Em muitos momentos ele descreve cenas festivas de camponeses, refeições simples do cotidiano das famílias rurais, uma bandeja velha com frutas da estação, um jarro rústico. Por outro lado mostra uma aversão à hipocrisia reinante nos salões de Paris do sec. XVIII. O mascaramento do ser pelo parecer, lhe choca profundamente quando chegou a esta cidade em 1742. 
Para que sejam felizes é preciso que eu desmascare
Da senhora do lugar os modos e o desprezo
.......................................
Não é um pastor que ela prefere a ti
É a um belo senhor da cidade [40]
(Cena III- O Adivinho tentando trazer Colin de volta a Colette) 
................
Embora um senhor jovem e amável me fale hoje de amor,
Colin ter-me-ia sido preferível a todo o brilho da corte.[41]
( Cena III- Colette aqui assume sua preferência por Colin)
..........................................
No vilarejo sabe-se amar melhor [42]
(cena VIII- o coro enfatiza a volta à vida simples do campo)

Rousseau admitiu, por ocasião de uma das performances de sua ópera, que recorria a Philidor[43] para certos trabalhos de preenchimentos (no caso, harmonizações e orquestração) na partitura de suas composições.[44] Representada pelas principais famílias de instrumentos da música para cena, seria exigir demais que no período das luzes abrissem espaço para instrumentos populares das áreas rurais. O que podemos dizer é que o papel da orquestra permanece do princípio ao fim dentro de um equilíbrio condizente com os princípios adotados para uma composição do gênero. Ela aparece na abertura, depois para acompanhar os dançarinos e as danças durante toda a pantomima. Também na introdução precedendo algumas árias e se intercalando em certos recitativos[45]. Comenta o jogo dos atores, como na cena muda da encantação do Adivinho, sublinhando as intenções dramáticas do enredo. A partitura porta as indicações precisas sobre o papel de cada instrumento: diálogos entre flautas ou oboés com as cordas, seguindo sempre por reprises do tutti ou dos solos. Indicações de nuanças também estão na partitura[46].

Vimos, portanto, que os comentários sobre a simplicidade desta ópera não são suficientes para entendê-la e apreciá-la, pois desta simplicidade emerge uma riqueza ética e estética que merece ser mencionada. Uma delas são as implicações envolvendo a composição dramática do arrependimento comentada por Green (2007) em seu exemplar texto sobre esta ópera. Ele observa que, do começo ao fim, o tema que prevalece no texto é realmente o arrependimento de Colin por ter se afastado de Colette.
           
O amor e vossas lições têm enfim me tornado sábio.
Eu prefiro Colette aos bens supérfluos.
Quis agradá-la em trajes de passeio.
Com uma veste dourada que não consegui.[47]

 Em outro momento Colin confirma ter-se afastado do mal:

                        Vou rever minha encantadora amante.
Adeus castelos, grandezas, riqueza.
Vosso brilho não me tentará jamais![48]

 Green nos lembra que Rousseau é o filósofo do arrependimento. Que nenhum autor antes dele, com exceção de Santo Agostinho, escreveu tanto sobre o arrependimento. Suas “Confissões” foram escritas com este propósito, assim como seus últimos “Diálogos”, nos quais se coloca como seu próprio juiz.

eu sou um escravo dos meus vícios e livre através do meu remorso.

No “Emílio” ele também faz uma apaixonada afirmação sobre a manifestação da natureza do homem:

“Consciência, consciência! Divino instinto, Imortal e celestial voz. Infalível juiz do bem e do mal que faz o homem chegar perto de Deus.
Sem você eu sinto nada em mim que possa me elevar além dos animais.[49]

Voltando às canções, vemos que surgem outras noções fundamentais como em Dans ma cabane obscure, quando ele emprega um elemento chave da alegria humana, causa de crescimento de si e do amor próprio: o apelo constante ao movimento de introspecção, bem vindo quando o arrependimento é verdadeiro e publicamente expresso.

Na minha choupana escura,
sempre novas inquietações
Vento, sol e frios penosos
Sempre esforços e trabalho
..................
Colette, minha pastora, se vieres habitá-la
Nada terei o que lamentar.
Aliviarei meu sofrimento,
cantando o nosso amor! (Colin)[50]

 ...o que dizer do personagem que mais se manifesta no enredo, quando fala a Colin sobre a honestidade?

Quem serve ao mesmo tempo à fortuna e ao amor, serve mal!
Às vezes custa caro ser um rapaz bonito.[51]

... quando o tema da canção é a sinceridade, o dar-se a conhecer, o da autoexpressão, enfim, o voltar-se para si mesmo?

Com um coração fiel e sensível tem-se o direito a obter tudo.[52]
E em outra cena:
Quando se sabe amar e agradar, há necessidade de outro bem?
.......................................
Dá-me teu coração, minha pastora. Colin te entregou o seu.[53] (Colin na Cena V)
..................................
 Particularmente importante é a cena final com a reconciliação, valorizando a amizade, olhar para o outro e a importância da simplicidade da vida. Um ato de associação, de pacto de convivência.

Coro
Vamos dançar debaixo dos Olmos,
Animai-vos jovens mocinhas,
Enamorados, tomai vossos pífaros.
Repitamos mil cançonetas e,
para termos um coração alegre,
dançaremos com nossos namorados
 mas nunca fiquemos sozinhos.[54]

Em todos os momentos aparecem traços característicos do seu pensamento, organizado em torno de fortes oposições. De um lado a natureza, do outro a sociedade, de um lado o homem e do outro a comunidade. A tentativa de reconciliar os opostos de simplicidade e complexidade. Uma música que proclama o valor da simplicidade, enquanto a letra celebra a vitória da vida rural sobre a urbana. O triunfo da rústica simplicidade e da virtude sobre a corrupção dos mais abastados. Muito da beleza de “Le Devin du Village” deve-se a todas estas tensões estéticas, filosóficas e sociais. A diversidade da produção de Rousseau justifica amplamente a multiplicidade de leituras e abordagens que podemos fazer do seu texto. Afinal, ali ele já começa construindo traços muito nítidos de seus personagens futuros: o tutor do Emílio, o legislador do Contrato Social, a Nova Heloísa que com suas cartas combina o discurso da paixão com o da moral. Que mostra o conflito entre o amor e o dever. Que recrimina as convenções sociais. Que propõe um homem novo que aspira a interioridade. Tudo isso só poderia ter sido criado por alguém que foi músico, filósofo, escritor de sucesso e que por fim lançou as bases para um gênero literário novo: a autobiografia. Entre o simples e o complexo, entre o erudito e o popular, a resposta a tão fortes inquietações pode estar no que ele mesmo escreveu no seu “Emílio”: “ Eu prefiro ser um homem de paradoxos a um homem de preconceitos”[55]


Referências.

BABBIT, Irving. 1919. Rousseau and the Romanticism. Cambridge Press. New York.

BADINTER, Elizabeth. 2007. As Paixões Intelectuais (3 vols.) Ed. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro.

FREITAS, Jacira. 2008. Linguagem Natural me Música em Rousseau: a busca da expressividade. in Trans/Form/Ação. São Paulo (31(1):53-72

FUBINI, Enrico. La Estética musical desde la Antigüedad hasta el siglo XX. Alianza Editorial. Madrid 2002

GREEN,Eduard: Reconsidering Rousseau’s “Le Devin du Village”. An Opera of Surprising and Valuable Paradox. In Ars Lyrica, Vol 16 (2007).

GROUT, Donald e PALISCA, Claude: História da Música Ocidental. Gradiva Editora. Lisboa. 1994.

MAILLARD,Francine. J. J. Rousseau et la Musique du “Le Devin du Village” 2014. /index.php/peroles-d-auteur.

MASSIN, Jean e Brigitte.  História da Música Ocidental. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1997.

The New Grove Dictionary of Music and Musicians. vol. II e XVI, Stanley Sadie. MacMillan-1980.

ROUSSEAU, J. J. Os Devaneios do Caminhante Solitário. L&PM Pocket. 2017.

ROUSSEAU, J.J. Confissões. Edições de Ouro. Rio de Janeiro. S/D
ROUSSEAU, J. J. Le Devin du Village. Gérard Billaudot Editeurs. Paris. 1552.

YASOSHIMA, Fabio. O dicionário de Jean-Jacques Rousseau: Introdução, tradução parcial e notas (tese de Mestrado/USP/Filosofia). 2012.

Formação das idéias musicais de Rousseau: in

 La modernité de la pensée musical de Rousseau: in
Guerre des Bouffons: in

Obras Musicais de J. J. Rousseau.

1)    Symphonie composta e executada em Lausanne em 1730

2)    Cantatas e canções compostas e executadas em Chambery de 1733 a 1737.

3)    Chanson mise en musique par M. Rousseau executada em Chambery em 1737.

4)    Iphis et Anaxaré- Ópera composta em Lyon em 1741.

5)    La Découverte du Nouveau Monde. Ópera composta em Lyon em 1741

6)    Les Muses Galantes. Ópera/Ballet em 3 atos composta em 1743-45

7)    Les Fêtes de Ramire composto em 1745. Princesa de Navarra, de Voltaire et Rameau representado em Versailles em 22/12/1745.

8)    Canzoni di Batello, Chanson Italiennes compostas em 1743 ou 1744.
9)    Symphonie à cors de chasse executada em Concerto Espiritual em 23 de maio de 1751

10)Salve Regina-Moteto para voz solo e orquestra executada em 17 de abril de 1752.

11) Le Devin Du Village. Intermezzo em um ato representado pela primeira vez em Fontainebleau em outubro de 1752 e em Paris em 1753
12) Ecce Sedes hic Tonantes. Moteto para voz solo e orquestra dedicado à capela do Castelo de Chevrette e executado em 15/setembro /1757

13) Quam dilecta Tabernacula. Moteto para duas vozes e baixo contínuo composto em Trye-le Château em 1767/68

14)Quomodo sedet sola civitas. Com um responsório para canto e baixo contínuo. 1772

15) Principes persecuti sunt. Moteto para voz solo em forma de rondó S/D

16)Pygmalion. Cena Lírica representada pela primeira vez em Lyon em 19/04/1770. Depois em Paris na Comédie Française em 30/10/1775 com abertura e música de cena de Horase Coignet e mais duas peças de composição de Rousseau.

17) Seis novas árias de “Le Devin du Village!” compostas em 1774 e cantadas na Ópera em 20/04/1779. 

18)Daphnis et Chloé- Ópera Inacabada. 

19)Les Consolations des Misères de ma Vie (1781)

20) Le Printemps de Vivaldi (arr. para flauta solo
21)Air de Cloches. Sonata para 2 violinos.


J. J. Rousseau:Textos sobre Música.

 1) Dissertation sur la Musique moderne (1743)

2) Lettre à M. Grimm au Sujet des Remarques ajoutées à Lettre sur Omphale  (1752)

3) Lettres d’um symphoniste de L’Académie Royale de Musique à ses camarades de l’orchestre (1752)

4) Lettre sur la Musique Française (1753)

5) Examen de deux principes avancés par M. Rameau dans la brochure intitulée (1755)”Erreurs sur la musique dans l’Encyclopédie” (1755)

6) Essai sur l’origine des langues où il est parlé de la mélodie et de l’imitation musicale (1760)

7) Lettre à M. Burney et Fragments d’observations sur l’Alceste de Gluck (1776 ou 1777)

8) Dictionaire de Musique (1771)

9) Lettre à Monsier l’Abbé Raynal au sujet d’un nouveau mode de musique inventé par M. Blainville (1734)

10) J. J Rousseau... à Mr. D’Alembert... sur son article “Genève dans l’Encyclopédie et particulièrement sur le projet d’établir un théâtre de comédie en cette ville (1758).

11) Lettre a M. Burney sur la musique, avec fragments d’observations sur l’Alceste italien de M. le Chevalier Gluck (1777)

12) Extrait d’une réponse du petit faiseur à son prête-nom, sur un morceau de l’Orphée de M. Le Chevalier Gluck (1774)

12) Lettres a Lesage Père (1734) Perdriau (1756), Ballière (1765) Lalande (1768).

11) Lettre à Monsier Le Nieps-Théâtre et poésies (1781).

Onde conhecer melhor a vida e a obra de J. J. Rousseau.
1 )     Rousseau Association. (escutar as obras de Rousseau)

2 )     Les Archives de l’Institut J. J Rousseau.

3 )     Les oeuvres de Rousseau. Pode-se baixar as obras de Rousseau.

4) Les Oeuvres du programme. Site de Joseph-Henri dedicado às “Confissões” de Rousseau.

5) L’argent, la Musique et l’ Ambition chez Rousseau. Site do Liceu Gradmont de Tour

6) Jean Jacques Rousseau: Voyage sur le web. Guia sobre “As Confissões”

7) Connaissez-vous Jean Jacques Rousseau? Este site é uma transposição da exposição de maio de 1998 no Liceu Louis Lachenal d’Argony et Berthollet d’Annecy.

8) Jean-Jacques Rousseau à Montmorency. Site da Villa de Montmorency (França) onde viveu J. J Rousseau antes de seu exílio em Genebra. Apresenta também o Museu J. J. Rousseau.

    9) Le Musée Jacquemard-André à Chalis. Página da Galeria de Rousseau e o site do museu Jacquemard-André à Chalis. Apresenta também a nova notação cifrada de Rousseau.



[1] Versão ampliada do texto distribuído ao público na abertura da XXXI Semana de Filosofia da UNB/ FIL em 14/05/2001 cujo autor homenageado foi Jean Jacques Rousseau. Na ocasião foi encenada a ópera “ Le Devin du Village” pelos alunos do Departamento de Música da UNB.
[2] Antigo imitador de Rousseau.
[3] Sua única composição musical editada e divulgada em vida. In Maillard. 2014.

[4] No auge do romantismo, um ator brincalhão teve a ideia de durante uma performance do drama “Hernani” de Victor Hugo,  se apresentar no palco com uma velha peruca empoada para lembrar a moda antiga.
[5] J. Philipe Rameau. Traité d’harmonie réduire à ses principes naturels. (1722).
[6] In Yasoshima, Fábio. Pg 4 . 5
[7] Op. Cit. Pg 6.
[8] J. P. Rameau: filho de músico organista, conheceu o idioma musical antes das letras. Aos 17 anos já era organista profissional em Avignon, depois em Dijon, Clermont, Lyon e finalmente Paris.
[9] Nos verbetes da Enciclopédia, no Dicionário de Música, no Ensaio sobre a origem das desigualdades entre os Homens, na Nova Heloísa etc.
[10] É preciso reconhecer a importância adquirida pela ópera italiana na época  e sua distância da forma inicial das primeiras experiências do gênero. Com exceção da França, onde ainda prevalecia a “Tragédia Lírica” herdeira de Lully, a ópera apossava-se de toda a Europa. A ópera Buffa saía da Itália e se aproximava do continente. In Massin, 1997. p; 534.
[11] Passy fica nos arredores de Paris, onde Le Riche de la Pouplinière tinha um de seus Castelos. De nobre família e herdeiro de uma grande fortuna, reunia nos salões do seu Castelo nobres, intelectuais e músicos.  Conhecido pela avidez em promover carreiras artísticas obscuras, inclusive a de Rameau. In Grout e Palisca, pg 432.

[12] Joalheiro famoso.
[13] Op. Cit. Livro VIII. p. 302
[14] Charles Pinot Duclos (1704-1772) Intelectual, colaborador da Enciclopedia.  Autor do livro “Considérations sur les moeurs de ce siècle” (1751) onde propunha um projeto educacional visando a formação educacional e moral dos cidadãos franceses baseado nas ideias republicanas.
[15] Op. Cit. livro VIII p. 405.
[16] Op. Cit.p. 396.
[17] Em 1759, o jornal Le Mercure, da França, definiu o modelo de Le Devin du Village como um modelo de Pastoral Francês”. O sucesso perdurou durante 70 anos num total de 540 representações até sua desaparição em 1797.  Em 1753  houve uma reapresentação em Belle Vue, residência de campo de Madame Pompadour, que esteve no papel de Colette. Depois as representações se sucederam em diversos lugares. Em 1780 no Trianon com Maria Antonieta no papel de Colette. Em Bruxelas (1758)  Lyon (1754 e 1770), Stockholm (1771) Gotemburgo (1783), Varsóvia (1778) Hamburgo (1782), Amsterdam (1787), Nova York (1790) e S. Petersburgo (1797).  No séc XX ela retornou a ser apresentada: Nantes (1978),  Grenoble (1983), Avignon (1989) Fontainebleau (2000, 2004, 2012), Zurique (2001), Walbegg e Metz (2006), Possy (2007) e Gratz (2009). In Green, p. 132.
[18] Seis anos antes a ópera já tinha sido apresentada em Paris, no Teatro Italiano, dentro de uma indiferença geral. 
[19] Op. Cit. livro VIII p. 350. 351
[20] A opereta Le Petit Prophète, de Grimm, que criticava a ópera francesa, era das mais inflamadas.
[21] https://www.musicologie.org/publirem/guerre_des_bouffons.html
[22] Ao todo 2.400 páginas.
[23] Ver nota 19.
[24] Considerada a peça mais importante da polêmica.
[25] Op. Cit. Livro VIII p. 412.
[26] Altíssimo, magro e reservado, passava por avarento. Para ele, só a música importava. Em toda a sua vida não pensou em outra coisa. Estudou e meditou sua música por 30 anos antes de começar a coloca-la na pauta; só começou a compor aos 50 anos.
[27] Única grande e verdadeira música na época.
[28] Nem todas as suas teorias eram novas ou revolucionárias. O que ele fez foi organizar as diversas teorias herdadas de séculos anteriores e que circulavam na época. Segundo Massin, um homem do séc. XVIII precisava disso para se sentir à vontade no seu tempo. (p. 494)
27 As óperas de Rameau representam o apogeu do gênero na França, apelando para a ficção das mitologias. Alimentava seus contemporâneos imbuídos da cultura humanista. Foi exatamente aí que os “enciclopedistas” cerraram fileiras contra o músico.
[30] Massin. p.496.
[31] Diderot, seu amigo, já clamava contra os exageros das críticas, apelando para que se comparassem coisas iguais com coisas iguais e diferentes com diferentes, referindo-se à grande ópera francesa com a italiana, a ópera cômica italiana com a francesa etc.
[32] Rousseau dedicou realmente mais tempo escrevendo sobre filosofia e literatura. No entanto escreveu muito sobre música e foi um bom crítico musical.
[33] Tinha razão quando invocava a artificialidade da música, mas era injusto quando elegia Rameau como alvo.
[34] As paródias de óperas eram muito difundidas na França da época.
[35] A descrição da cena está na partitura da Ópera, antes da primeira canção.
[36] Christoph Willibald Gluck (1714-1787) escreveu no jornal “Mercure de France” que o acento da natureza seria uma das características mais marcantes do trabalho. Empregada por Rousseau, não tinha sido ainda usada por nenhum outro compositor de sua geração. Apesar de não haver nada além dos princípios básicos de composição, um estudante não o faria, principalmente em três meses. (Green p.. 132)
[37] Cena II (ária do Adivinho)
Para fazer-vos amar mais, fingi amar um pouco menos.
.......................................................
O amor crê quando se preocupa e adormece quando está satisfeito.
.......................................................................................
Não o imiteis a sério, mas de modo que ele não possa percebê-lo.

[38] Para ilustrar as incoerências dos ataques de Rousseau à língua francesa, são conhecidas suas irritações  com relação à pronúncia do francês, por ocasião da apresentação de Narcisse,  de sua autoria, executada por um grupo de atores italianos. In Confissões, Livro VIII, p. 415,416.
[39] Ilustração para Le Devin du Village de J. J. Rousseau, Gravura de P.A. Maritni. Après J.M. Moreau. 1779.  In https://www.musicologie.org/publierem/guerre_des_bouffons.html

[40] Cena III
En les rendant heureux, il faut que je confonde
de la dame du lieu les airs et les mépris.
..........
Ce n’est point  un Berger qu’elle préfère à toi,
C’est un beau monsieur de la ville.


[41] Cena VI (Colette)
Quoiqu’un seigneur jeune, aimable,
me parle oujourd’hui d’amour,
Colin m’eût semblé préférable
 à tout l’éclat de  la cour

[42] Cena VII
Au village on sait mieux aimer.

[43] F. Danican Philidor (1726-1795). Músico Francês, também reconhecido como o melhor jogador de xadrez de sua época e considerado um dos criadores da ópera cômica francesa. Sua obra mais conhecida é a ópera Le Jardinier et son Seigneur (1761)
[44] In Maillard (2014)
[45] Como advogado da simplicidade, resta a observação de que Rousseau reconcilia nesta ópera, o sentimento individual e o coletivo, ao contrário das árias que sempre foram a oportunidade de defesa  do sentimento individual.
[46] Infelizmente não obtivemos contato com as partes da orquestra. O que esboçamos aqui foi a partir de gravações e da partitura da redução para piano e canto, que é primorosa!
[47] Cena IV. L’amour et vos leçons m’ont enfin rendu sage.
  Je préfère Colette à des biens superflus.
Je sus lui plaire en habit de village sous un habit doré,
qu’obtiendrai-je de plus?
[48] Cena V. Je vais revoir ma charmante maîtresse.
                Adieux, château, grandeurs, richesse.
               Votre éclat ne me tente plus,
[49] Green pg. 132
[50] Cena VII (Colin)
Dans ma cabane obscure,
toujours soucis nouveaux,
vent, soleil ou froids durs,
toujours peine et travaux
Colette, ma bergère, si tu viens l’habiter,
Colin dan sa chaumière n’a rien à regretter.
[51] Cena IV
On sert mal à la fortune et l’amour:
 il en coûte quelquefois d’être beau garçon.

[52] Cena IV
Avec um coeurfidèle et tendre on a le droit de tout obtenir.
Sur ce qu’elle doit dire, allons la prévenir.

[53]  Cena V
Lorsque l’on sait aimer et plaire
 a-t-on besoin d’un autre bien ?
..............
Rends-moi ton coeur, ma bergère,
Colin t’a rendu le sien.

[54] Cena final
Allons danser sous les ormeaux,
Animes-vous, jeunes demoiselles,
Galants, prenez vos chalumeaux,
Répétons mille chansonnettes
et pour avoir le coeur joyeux, dansons
avec nos amoureux, mais ne restons jamais seulettes.
[55] Green: Arts Lyrica. pg 132.