Abu Hassan[1]
Opera Cômica ( Singspiel ) em um ato.
Música de Carl Maria Von Weber (1786-
1826)
Libreto de Franz Carl Riemer
(1768-1822)
Mércia Pinto/UNB
Iniciado pelo pai nas peregrinações inerentes ao cotidiano de
uma trupe ambulante, a vida de Carl Maria von Weber foi sempre marcada pelas
preocupações materiais e os cuidados com a saúde. Nascido em Eutin/Ostholstein,
herdou de sua infância doentia um permanente diminuição no osso da perna
direita. Aos 24 anos enquanto pendulava trabalhando entre Darmstadt e Mannheim,
compunha também seu Abu Hassan. A
concepção musical deste “Singspiel” reflete a segurança e o crescimento que o
compositor adquirira com a aquisição de amigos nestes dois novos ambientes de
trabalho. Suas inúmeras cartas atestam esta fase na qual a despeito da miséria
em que ele e seu pai sempre viveram, tenta com alegria organizar os músicos de todo
o país em torno da ideia da modernização da música alemã.
O ambiente político da Europa não era dos mais tranquilos. Weber
perdia postos em inúmeras cidades ao mesmo tempo sonhava com a ideia da
identidade da música germânica. As guerras napoleônicas de anexação batiam a
sua porta repercutindo no destino dos pequenos estados alemães e ele via-se
também na inevitável confrontação de estar envolvido em muitas dívidas. Seu
libretista Franz Karl Riemer
(1768-1822) também não estava em melhor situação. Mesmo assim os dois
esqueceram as dificuldades e se uniram para criar um reino oriental distante,
onde personagens e ambientes idílicos exalavam perfume de Almíscar.
Da leitura de uma antiga edição alemã das “Mil e uma noites”,
Reimer retira situações, momentos de estórias e nomes de personagens destes
contos para dar identidade a pequena peça. Abu
Hassan e sua esposa Fatime formam
o casal de endividados contra os quais uma horda de agiotas torna-se poderosa. De
início a peça recebeu o nome de “Burlesca dos Agiotas”. Surge então a dúvida de
como classificar o trabalho. É uma ópera cômica? E porque não dizer
“Buffa”? Não! Na verdade ela é um
“Singspiel”. Os diálogos alternados com canções, a deliciosa ironia sobre as
lutas entre o bem e o mal e as lições morais guardam mais semelhança com estes
apreciados dramas encenados na época.
O Califa Harun al Rachid, aparece como senhor sobre todos os mundos,
vivendo no meio do esplendor, entre plumas e divindades, pajens e odaliscas[2].
Sua esposa Zobeide[3]
também é personagem de inúmeras das estórias contadas por Shera(e)zade. O próprio Abu
Hassan[4]
em suas características assemelha-se em muito, a momentos do personagem do
conto “O Adormecido desperto”[5],
fundamental no desfecho do conflito da obra em questão.
Considerado “pai” do romantismo musical, é lembrado e
homenageado como grande orquestrador e um dos primeiros regentes a conduzir a
orquestra de pé com a batuta na mão. Weber foi também um dos maiores pianistas
de sua época sendo colocado ao lado de Hummel, Moschelesk, Kalkbrenner e
Czerny. Deixou também um testemunho autobiográfico “Tonkunstlers Leben”,
escrito entre 1909 e 1829. São relatos, narrativas, sátiras, idéias, versos,
numa escrita imaginativa sobre a vida do artista na época. Influenciado por
E.T.A.Hoffmann e por Tieck, planejava também escrever uma “Musikalische
Topographie Deutschland”, um mapeamento dos músicos viajantes na Alemanha de
sua época. Morreu em Londres enquanto realizava um tournée, tentando garantir o
sustento financeiro da esposa e dos dois filhos. Herdeiro da tradição clássica,
concebe suas melodias em termos instrumentais alternando beleza, carinho,
humor, delicadeza, elegância e contrastes entre seus personagens. A partitura de
Abu Hassan é fértil em interessantes
momentos musicais e em nada diminui seu valor pela comparação inevitável com o
tema da ópera “O Rapto do Serralho”[6]
de Mozart.
Enredo:
Numa atmosfera alegre, Abu Hassan e Fatime cantam um dueto “Liebes Weibchen, reiche Wein” (querida
esposa, passe-me o vinho). De fato, no lugar de vinho, conservas ou massas
folhadas, há somente uma parca refeição de pão e água. O casal gastara todos os
seus tostões com coisas supérfluas. A situação é crítica. Nenhum credor os
deixarão em Paz. O único que pode lhes ajudar é Omar, o grande agiota. Mas para
resolver o problema, ele pede o amor da bela Fatime, que recusa suas propostas
numa carta cheia de rancores. Desesperado, o casal discute e pensa em como
resolver a questão sem que Fatime ceda a chantagem do velho asqueroso! A sugestão
de Abu Hassan é brilhante! Wir sterben
beide! Simularemos nossa morte, disse ele! Levava em conta o velho costume
de sua terra, onde o Califa Harun al-Rachid e a sultana Zobeide costumavam doar
uma quantidade de dinheiro para os custos dos funerais dos habitantes de seus
domínios. Imediatamente o casal põe seu plano em ação: simulariam a morte um do
outro e receberiam da Sultana e do Califa as duas quantias; o suficiente para
pagar suas dívidas com os credores. Acordado o plano, Fatime apressa-se para
chegar ao palácio da Sultana anunciando a morte do marido, enquanto Abu Hassan
numa ária Was nun zu machen-Ich gebe
Gastereien mit Liedern und Tänzen imagina-se festejando antecipadamente o
sucesso de sua artimanha. Mas seu humor festivo é abruptamente interrompido
pela chegada de Omar, seguido pelo grupo de credores. Geld, Geld, Geld! é o grito que ele ouve acompanhado da recusa do
grupo em lhe fazer um novo empréstimo. O
pobre homem invoca a paciência de Omar e seus comparsas. Paciência! Me dê pelo
menos mais um dia, implora! Diante da negativa do grupo, humilha-se ainda mais
e pede para esperarem pelo menos até à noite. Finalmente Omar anuncia sua
proposta: esperaria não por causa dele, mas por Fatime que estava sofrendo
muito com aquela situação. Omar então convida os credores para irem a sua casa
resolver a questão, mas avisando a Abu Hassan que voltaria em seguida.
Trazendo um saco cheio de moedas de ouro, entra em cena
Fatime e conta para seu esposo como a Sultana recebeu a notícia de sua morte.
Arrependido, Hassan canta a promessa de nunca mais manchar de lágrimas as faces
de sua amada Tränen sollst du nicht
vergiessen, enquanto Fatime o interrompe com a frase: “as lágrimas são o
orvalho do amor” (Tränen sind der Tau der
Liebe)! Este pequeno jogo continua
mas a nova fase do plano precisa ser concretizada e Abu Hassan precisa correr à
casa do Califa para lamentar a morte de sua amada.
Fatime tinha simplesmente terminado de cantar sua ária Wird Philomene trauern (Se Filomene[7]
estará de luto) quando Omar aparece novamente, desta vez tentando envolver amorosamente
a esposa do seu devedor. Explica que agora ele é o único credor do casal, pois
comprou suas dívidas e lhe mostra o maço de papel das notas promissórias. Com
certeza ela sabe qual o objetivo de Omar... e bajulando habilmente o velho
lascivo, consegue com um leve beijo, Siehst
du diese grosse Menge ( Estais vendo tudo isso aqui?), extrair as notas
promissórias de seu bolso.
Quando Abu Hassan retorna, Fatime tem trancado o gorducho
dentro do armário da sala e sussurra para o marido a ária Der Vogel ist Gefangen (O pássaro foi capturado). Tomado pelo ciúme
Abu Hassan pergunta pela chave do armário e grita exigindo-a! Tremendo de medo
e preso dentro do armário, Omar entende seu destino. O Weh! Nun wird er bald entdecken dass ich mich hier im Netze fing (O,
Desgraça! Logo ele vai descobrir que caí na sua armadilha!).
Entretanto, a alegria do casal dura pouco. Para seu horror
eles avistam Mesrur, o conselheiro do Califa que se aproxima. Rapidamente
Hassan finge estar morto e Fatime mostra toda a sua tristeza com a canção Hier liegt, welch martervolles Los, das Liebste
was ich habe. Que tortura! Aqui está o tesouro mais raro que eu tive na
vida, lamenta.
Para comprovar se os dois estavam realmente mortos, Mesrur
tinha sido enviado, pelo Califa pois ele e sua esposa tinham feito uma aposta
pra saber qual dos dois tinham morrido primeiro: Fatime ou Abu Hassan. O
emissário então corre para avisar ao patrão, enquanto Omar ainda preso dentro
do armário, treme de medo. Trio e coro cantam Ängstlich klopft es mir im Herzen (meu coração bate de ansiedade).
Uma musica solene anuncia a vinda do Califa. Agora ambos,
Fatime e Abu Hassan estão deitados no sofá, fingindo-se de mortos. O Califa e
sua esposa se aproximam acompanhados de sua corte. Bei dem Grossen Propheten tausend Goldstück würde
ich demjenigen geben, der sagen könnte, wer von beiden zuerst
gestorben ist (Pelo grande profeta, 1.000 moedas de ouro para
aquele que me disser qual dos dois
morreu primeiro). Abu Hassan levanta-se rapidamente e canta Beherrscher der Gläubigen, ich bitte um die
tausend Goldstücke, ich bin zuerst gestorben (Meu senhor, eu reclamo as 1.000 moedas de ouro! Fui eu que
morri primeiro). Pelo comando de Zobeide, Fatime também retorna à vida. Abu
Hassan e a esposa contam então sua precária situação e se queixam da tentativa
de suborno feita por Omar. O Califa
ordena então seu castigo: que ele
fique por mais um tempo preso no armário. Uma alegre canção para o soberano,
finaliza o espetáculo. Heil ist dem Haus,
dem der Kalif sich naht (Feliz é o lar que é visitado pelo Califa).
Referencias:
As Mil e uma Noites (vols I e II). Apresentação de Malba Tahan. Versão de
Antoine Galland. Edições de Ouro/2001.
The New Grove Dictionary of Music and Musicians (Vol. XX) Stanley Sadie Editores.
Massin, Jean e Brigitte. História
da Música Ocidental. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro 1997.
Personagens:
Abu
Hassan: favorito do
Califa
Fatime: esposa de Abu Hassan
Harum al
Rashid: Califa
Zobeide: esposa do Califa
Omar: o agiota
Zemrud: conselheira da esposa do Califa
Mesrur: conselheiro do Califa
Diálogos e canções
Zemrud:
Quero contar-lhes a estória de Abu Hassan e sua viva esposa
Fatime. Ela se passou há muitos anos na
corte do Califa de Bagdá. Até hoje esta brincadeira é contada e começou da
seguinte maneira: como de costume, o dinheiro do nosso amigo Abu Hassan tinha
acabado e desta maneira durante muitos dias não havia para ele e sua fiel
Fatime nada mais que pão e água.
Canto-Duet
1
Liebes
Weibchen, reiche wein.
Abu: Querida esposa, dá-me uma taça
de vinho.
Fatime: nem branco nem tinto.
Mahomet proíbe
isso!
Abu: Certo, mas escondido, dá para
colocar só um pouquinho!
Fatime: Ah! queres água?
Abu: Não! A água me adoece! Quero
Lagosta, torta de cerejas!
Fatime: Comilão!
Abu: Algo com massa folhada!
Fatime: Aqui só temos pão!
Fatime e Abu: Pode alguém viver
desta maneira?
... é só isso que
temos?
Pão e água, água e pão?
Fatime: agora vou cantar pra ti uma
pequena canção .
“Com o primeiro raio de sol da aurora”.
Abu: Isso é desesperador! Tenha
piedade!
Fatime: logo eu matarei tua fome!
Hassan:
Pão e água, que refeição maravilhosa! Mas é assim acontece com os homens
cujas mulheres sabem cantar melhor do que cozinhar.
Fatime:
Tú és um brincalhão! Eu me calo por preservar o amor matrimonial!
Tú gastastes nossos poucos tostões. Mereces também perder a última jóia preciosa
que tens.
Hassan:
Como? Eu tenho uma jóia? Deixa-me então abraçar-te minha
querida Fátime! E depois vai correndo até onde possas vende-la!
Fatime:
Impertinente! Me parece que és capaz de vender a própria
mulher!
Hassan:
Como? A jóia seria tú? Então eu me alegrei em vão?
Fatime:
Tú es um grosseiro, um desrespeitoso! Saibas que aqui neste
lugar tem gente que está disposta a se colocar a meus pés e me presentear com suas
riquezas.
Hassan:
Excelente! Muito bem querida Fatime! Não poupe minhas
emoções. Então me cite o nome de um só idiota que estaria tão generosamente disposto
a remunerar sua infidelidade!
Fatime:
Pois vou dizer! É o rico Omar! O agiota confidente do nosso
estimado Califa
Hassan:
Omar? Aquele pão duro avarento? (risos)
Fatime:
Pois crê e escuta-me ! Ele mandou-me secretamente essa carta.
(com uma folha de papel na mão ela lê)
“ Belíssima Fatime! Meu coração está em chamas por ti!”
Veja aqui (com a mão na carta ela continua lendo)
“Apaga a chama que me abrasa o coração, atende meus apelos e
com isso serás a dona de minhas riquezas. Permite a esse teu escravo beijar até
a poeira por onde teus pés pisam”.
Hassan:
... e o que tú lhe respondestes ?
Fatime:
Respondi que eu o odeio! Que tenho nojo dele!
Hassan:
Bravo! Bem feito!
Mas sabe? Talvez deveríamos nos aproveitar desta situação, já que temos
muitas dívidas!
Fatime:
Oh! Alah nos ajude!!! Faça-nos encontrar um meio de nos
libertar desta situação (miséria).
Zemrud:
Assim os dois ficaram sentados, refletindo por muito tempo em
como se livrar das dívidas.
“Precisamos de dinheiro, falava Hassan. Ela gemia e
queixava-se.
Subitamente lhe veio a idéia salvadora.
Hassan:
Escuta! Nós vamos morrer!
Fatime:
Tú es louco? Morrer?
Hassan:
Sim! Escuta! Tú corres para encontrar Zobeide e anuncia o meu
falecimento. Como é costume nesta terra, ela vai te dar um saco de dinheiro a que temos direito para os custos do meu funeral.
Depois vou fazer o mesmo
papel junto ao Califa anunciando tua morte. Que tal? Espero que ele não
seja menos generoso (risos).
Fatime:
Parabéns, essa idéia é excelente!
Hassan
Corra meu amor! E anuncie a minha morte. Exagere com gestos e
palavras e soluços!
Fatime:
Adeus meu esposo morto. Adeus!
Hassan:
Lá vai ela! A comédia começou!
Minha esposa querida! Se nosso plano vencer, toda nossa
miséria chega ao fim.
Canção 2
Ich gebe Gastereien.
Abu: o que eu vou fazer com todo o
dinheiro do mundo?
Vou fazer uma festa com cantos e danças.
No lugar de honra sentará minha doce
mulhersinha e com flores lhe farei uma
coroa. Ela vai brilhar ao meu lado e será a rainha da festa.
Êi, escravos!
Tragam vinho!
Não percam uma só gota!
Encham a taça com um pouco mais!
Eu bebo por você minha querida,
porque você vive perto do meu coração!
Hoje devemos cantar, deixem vir logo, logo
o Alaúde!
Cantando dançando e bebendo, deixa-se a
dissonância da vida para traz!
Oh Fatime!
minha querida, que tão ternamente fala
comigo,
acredita-me:
o som do Alaúde pintará meu amor que
sempre,
sempre a ti se renderá.
Quero
viver e morrer somente para ti.
Zemrud:
Zemrud:
A felicidade de Abu Hassan era muita, mas só até o momento em
que abriu a porta de sua casa pois Omar, o agiota do Kalifa estava à sua
frente. E junto com ele os credores de Hassan, todos ao mesmo tempo exigindo energicamente seu dinheiro.
Canção 3
Coral dos credores (geld, geld, geld). Geld!, Geld!, Geld!
Côro: Dinheiro,
dinheiro, dinheiro! Não podemos mais esperar! Senão no fim seremos tidos como
uns bobos. Dinheiro, dinheiro, dinheiro!
Abu: Tenham paciência, esperam somente um
dia ou pelo menos até a noite!
Côro: Não, não, não! Seu prazo
expirou e sua dívida tem que ser paga a cada um de nós!
Abu: ( recitativo). Meu senhor!
Tenha misericórdia, estou numa maldita dificuldade. Deixe isto por menos!!
Omar: Não por você, mas por Fatime.
Abu: Ah! Fatime!
Omar: Tua imprudência leva esta
pobre mulher a sentir-se muito infeliz!
Abu: Não resolva este assunto por
pena!
Omar :(para o grupo de credores)
Venham até minha casa! Lá conversaremos e as reclamações serão canceladas.
Estão satisfeitos?
Credores: sim, sim, sim. Nós estamos
muito contentes!
Zemrud:
Conseguido finalmente se livrar dos credores, a felicidade de
Hassam era perfeita, especialmente quando Fatime voltou do palácio do Califa
trazendo um saco de moedas de ouro.
Fatime
Veja só, que maravilhosa recompensa nos trouxe a tua morte.
Hassan:
Realmente! Um saco cheio de moedas de ouro! Estamos salvos!
Mas tu deves saber o que aconteceu nesse meio desse tempo. Omar apareceu!
Fatime:
Oh Deus!
Ele veio com toda a
sua turma de credores! Exigindo de imediato seu dinheiro!
Fatime:
E você, o que fez?
Hassan:
Eu paguei!
Fatime:
Como então? Sem dinheiro?
Hassan:
Sem dinheiro, sim! Eu disse a ele que tú o procurarias, disposta
a aceitar sua corte!
Fatime:
Meu Deus!
Hassan:
(risos) O velho pecador caiu na armadilha, mordeu a isca! Levou
toda a turma para sua casa e neste momento está pagando todas as minhas
dívidas!
Fatime:
Pelo Profeta!
Hassan:
Mas agora vamos falar de ti! Como nossa querida patroa reagiu
à minha morte?
Fatime:
Ah! Ela ficou fora de si. Sua dor é imensa. Faz pena ver seu
sofrimento. Vi com meus olhos como ela chorava.
Hassan
... e tu?
Fatime:
Ora, eu chorava junto com ela!
Hassan:
Querida Fatime, podes crer que estas devem ser as últimas lágrimas
que perdes por mim!
Canção 4
Thränen solst du nicht vergiessen.
Thränen solst du nicht vergiessen.
Abu Hassan: nunca mais lágrimas
amargas rolarão ou mancharão tuas faces.
Te protegerei amada e verdadeiro coração que adoça a vida.
Fatime: As lágrimas são o orvalho do amor,
Sob o qual ele floresce, protegendo a
floração fresca e bela.
Abu Hassan: Prove-me este amor!
Fatime: Já está provado.
Abu Hassan: Humor, raiva e
falsidade!
Fatime: Quando não há falsidade por
perto. Não existe preocupação.
Fatime e Abu Hassan : quando não existe falsidade no coração o amor
dura para sempre. Cercados de alegria e afeição nós passaremos nossos dias.
Hassan:
Agora vou correr para o Califa. Anunciar a tua morte antes
que ele tome conhecimento do meu falecimento. Adeus Fatime!
Fatime adeus! ... ainda bem que isto é uma brincadeira!!!
Fatime:
Eu amo meu marido!... O que seria minha vida sem ele!!!
Canção 5
Wird
Philomela trauern.
Fatime
Será que Filomene estaria feliz se ela
fosse libertada da sua gaiola
e saltasse dando voltas e voltas, sentindo
o perfume das flores?
Olharia timidamente através da janela de
uma casa abandonada e então expressaria sua alegria em canções de
agradecimento.
Levantaria as pequenas asas e então voaria
para o infinito éter.
Abrindo seu voo e cantando, iria para perto
do trono eterno do céu,
regozijando-se sentindo-se livre.
Então, Abu Hassan meu querido esposo, eu
vivo somente quando estou perto de ti.
Quando estiveres sozinho e não puderes mais
me afagar, estarei ligada a ti pelas correntes do amor. E nesta doce servidão
entendo que só o amor preenche a vida!
Quando as tristezas vierem com suas
monótonas sombras!
Querido esposo Abu Hassan, o que será da vida
sem você!
Zemrud:
Enquanto Abu Hassan anunciava a morte da sua querida esposa
para receber a sacola com ouro, Omar entrava pela segunda vez na casa do casal.
Omar:
Perdoe-me bela Fatime! Estou procurando seu marido.
Fatime:
Ele esta na casa do Califa.
Omar:
Eu não quero lhe molestar porque afinal não tenho nada a
esperar da sua boca senão ofensas... palavras que me ferem.
Fatime:
Tú não me conheces bem, Omar! Porque deveria eu te ofender?
Omar:
Tú sabes que eu te amo, que eu te adoro.
Fatime:
Ora veja! Que honra!
Omar:
Teu marido tem dívidas consideráveis!
Fatime:
Sim, eu sei! Eu também fico angustiada quando penso no
exército (batalhão) dos nossos credores,
Omar
Eu me permiti assumir todas as dívidas dos seus credores.
Agora o único credor está a sua frente. Sou eu! Mas acredite-me, eu não venho
com intensões hostis!
Canção. 6
Siehst
du diese grosse Menge (dueto)
Omar : Este grande lote de
promissórias, somam uma grande quantia. Você não perderá sequer um. Todos eles
agora me pertencem.
Fatime: Quem escapa da multidão!
Será que nosso destino vai mudar? Nós estamos em suas mãos! Eu quero entender.
Omar: você me ama?
Fatime: eu não posso lhe odiar
Omar: fale-me sem rodeios! Vamos,
coragem!
Fatime: as aparências muitas vezes
enganam!
Omar: não esconda nada!
Fatime: Não, sim, não, sim, não...
Omar: A bobinha foi capturada e caiu no meu plano
inteligente.
Fatime: Ele pensa que eu fui
capturada, e seu plano teve sucesso!
Omar: você me ama, você me ama
querida!
Fatime: Eu amo, eu amo, eu amo? Não,
não!
Omar: Oh! Encontre-me um quartinho!
Basta um minúsculo lugarzinho!
Fatime: eu não sei! Agora estou um
pouco inquieta!
Omar: Siga meu conselho! Um beijinho
só, para fortalecer nosso amor. Isto significaria uma prova!!! Um beijo significa
que você acredita em mim! Que aceitou minha proposta!
Canção 7
Dueto. Ich suche und suche in allen Ecke.
Fatime: Eu procuro e procuro em todo
canto!
Onde estará esta maldita chave?
Abu Hassan: Antes de eu ir à casa do
Califa, eu a vi pendurada no buraco da fechadura do armário.
Omar: O Deus! Ele já, já vai
descobrir que estou aqui preso nesta armadilha!
Abu Hassan: apesar do meu sangue
frio, acho que estou enciumado!
Fatime: Se alguma vez dei motivos,
você deve ter suas dúvidas a meu respeito.
Fatime e Abu Hassan: Ele não sabe
como entender o medo. E implora em vão aos céus. Nunca mais vai escapar!
Omar: Eu não entendo este medo. Oh,
Maomé! Eu te imploro. Eu gostaria de estar fora disso tudo, mas eu te peço, não
me abandones!
Abu Hassan: Provavelmente deve haver
um amante seu escondido neste armário! Vou puni-lo imediatamente. Meus olhos
raivosos o descobrirão!
Fatime: que presunção foi despertada
tão cedo na sua alma!
Abu Hassan: você escondeu a chave do
armário, aposto! Se você não encontrar eu vou explodir esta porta!
Abu Hassan: veja aqui! (pegando
rapidamente a chave)
Omar: desgraçado de mim!
Fatime: Você está perdido! Ele
prometeu lhe matar e nada o libertara. Ele está vindo!
Abu Hassan: Está aterrorizado com a
morte. Eu prometi mata-lo e nada o libertará.
Omar: Eu estou perdido ele está vindo
e prometeu me matar. Eu preciso gritar por socorro!
Zemrud:
Omar esperava ter uns momentinhos de amor com Fatime. Já
tinha até devolvido para ela todos os certificados da dívida. Mas quando ele
com gestos sedutores tentou se aproximar da sua desejada e bela Fatime, ela gritou:
Fatime:
Meu Deus! Omar, qual é o problema? O que tens?
Em seguida ela sussurrou apressadamente:
Fatime:
Espera um pouco! Escuta! Estamos perdidos, meu marido está
chegando. Olhá la!
Zemrud:
A confusão se instala na casa do casal.
Fatime:
O que vamos fazer. Me ajude, Alah, me salve!
Fatime:
É tarde demais para fugir! Entre neste armário!
Zemrude:
Assim Fatime decidiu esconder Omar dentro do armário que
ficava na sala. Abu Hassam por sua vez, também estava feliz por ter recebido um
bom dinheiro do Califa para o enterro da sua querida esposa. Entra em casa e dá
a noticia a sua amada.
Hassan:
Veja só que rica a porção que eu consegui!
Fatime:
Pssit! Calma! Eu o prendi lá no armário.
Hassan:
Quem?
Fatime
O pássaro sedutor!
Esse vagabundo. ... e aqui estão todas as nossas promissórias compensadas!
Hassan:
Execelente!
Mas espera! Nós vamos faze-lo transpirar sangue de tanto
medo!
Fatime:
Ótimo! O armário está trancado!
Hassan:
Mas porque?
Cadê a chave? Eu preciso da chave. Quero tê-la!
Zemrud:
Abu está com ciúmes. Um leve pensamento de suspeita de que Fatime,
cedeu aos encantos de Omar. Está com medo do que possa acontecer com ele. Já
perdi tudo que tinha e não posso agora perder uma mulher como Fatime: corajosa,
afetuosa e trabalhadora, pensou! Mesmo
assim eles ficam brincando e metendo medo no velho Omar que transpirava
assustado.
Em seguida Fatime viu Mesrud, o conselheiro do Califa que
aproximava-se de sua casa.
Fatime:
Pssit. Ele está chegando!
Zemrud:
Ele entra e se depara com o suposto cadáver de Fatime.
Mesrur:
Pelas barbas do profeta! O califa ganhou a aposta!
Hassan:
O que dizes? Uma aposta?
Mesrur:
Imagina! O patrão dos fiéis falou com sua esposa, da morte da
bela Fatime! Mas a esposa do Califa achava que era Abu Hassam que teria falecido! De início eles
discutiram. Mas finalmente concordaram em fazer uma aposta. E como estou vendo,
meu patrão ganhou a aposta e é Fátime que realmente está morta.
Hassan:
Pelo amor de Alah, ali está ela morta.
Mesrur:
Acalme-se pobre homem, eu venho para trazer uma mensagem
alegre de meu patrão!
Zemrud:
Mesrur correu rapidamente para confirmar ao Califa de que
realmente Fatime teria falecido. Afinal ele tinha visto com os próprios olhos!
(Nisso entre em cena, Zobeide que se apresenta dizendo ter
sido ela a mandar Zemrud, sua dama de companhia, para a casa de Abu Hassam.)
Zemrud:
Vocês agora já devem saber que sou a dama de companhia de
Zobeide (risos). ... mas os nossos heróis devem ter me visto chegar.
A verdade é que quando
eu entrei na casa deles, encontrei Fatime desesperada na cama do falecido Abu
Hassan.
Zemrud:
A impertinencia dos
homens já e demais! Pobre Fatime! O Califa jura pelas barbas do profeta, que
não teu marido, mas tú é que morrestes.
Fatime:
Eu queria estar deitada aqui ao invés dele.
Zemrud.
Nada disso querida Fatime! Melhor dez homens mortos que uma
única mulher! Eu lhe peço que deixe-me vê-lo pessoalmente porque eu tenho que
jurar que ele realmente está morto.
Fátime:
Olhe! Aqui está ele deitado. Que pena! O meu melhor lado, que
boa alma era era ele!
Zemrud:
Pobre Abu Hassan. Pobre Fatime!
Mas que estranho!
Ele nem parece como outras pessoas honestas quando falecem!
Fatime:
Ele era muito jovem! Eu mesmo nem posso acreditar.
Canção 8
Ária
Hier liegt, welch’ martervolles Loos
Fatime:
aqui está meu amor!
Tão honesto, tão corajoso!
Jaz aqui, vai para debaixo da terra.
Por favor, leva-me também ao túmulo.
Ah! Como eu ficaria feliz em morrer, para
integrar-me a ti.
Mas depois do mandado do destino você morre e
eu tenho ainda que viver!
Zemrud:
Acalma-te. Tú és ainda muito jovem e bonita e Abu Hassan não
é o único homem nesse mundo. Adeus!
Assim eu deixei Fatime para confirmar a minha patroa a morte
de Abu Hassam.
Evidente que nossos dois heróis não se sentiam muito bem
naquela situação. A coisa estava complicada! Tinham começado muito bem sua
brincadeira, e não imaginavam como ela iria terminar?
N. 9 Terceto e coro.
1) Aengstlich klopft es mir im Herzen
Fatime e Omar: O! meu coração
está batendo doidamente! Até onde poderá
o destino nos levar? Só um milagre nos
salvará!
Abu:Querida esposa!
Fatime: você ainda pode brincar?
Abu: Porque não?
Fatime: esta situação! O que podemos
fazer?
Abu: pergunta tola! Nós podemos
pensa-la mais tarde!
Fatime: Estou muito preocupada!
Abu: Preocupada? Eu estou é
desesperado!
Fatime: você ouviu?
Abu: por Alah, alguém está vindo!
Fatime: é Zobeide!
Abu: ... e o Califa!
Fatime Abu e Omar: Por Alah! Eles
estão vindo! Medo e tremores nos paralisam! Não sabemos o que pode acontecer!
Abu: (dirigindo-se a Fatime) Rápido,
rápido, deita-te no divã! Com as pernas viradas para Meca, vamos!
Fatime: certo! Eu já estou mesmo
quase morta!
Abu: você ficará morta um tempinho
mas ressuscitará num mundo melhor!
Fatime: nós estamos num sério
dilema!
Abu, Omar: Rápido! Calma! Calma!
Agora, boa noite!
-----------
Côro: Abram-se todas as portas.
Curvem-se até as poeiras do chão simples mortais!
Reverenciem o Califa que está chegando!
Califa:
O que eu estou vendo! Os dois mortos? Eu não entendo mais o
mundo. Me foi reportado a morte da bela Fatime, mas a minha esposa recebeu a
informação da morte de Hassan.
...A questão agora é: quem morreu primeiro?
Mesrur:
Quando eu entrei na casa encontrei Fatime morta. Então o senhor ganhou a aposta.
Zemrud:
Mas eu achei Fatime ao lado da cama de Abu Hassan morto.
Então o senhor perdeu a aposta.
Califa:
Eu juro pelo grande profeta, eu vou dar mil peças de ouro a
quem morreu primeiro.
Abu Hassan (levantando-se apressadamente)
Senhor, fui eu! Eu morri primeiro. Solicito as mil peças de
ouro.
Califa (Assustado)
Mas o que significa isso!
Abu Hassan:
A sua graça me ressuscitou!
Califa:
E Fatime, a tua esposa?
Fatime:
Eu vivo meu senhor! Perdoe-me, eu estou viva!
Abu Hassan:
Somente a miséria nos deu esta idéia. Veja aqui essas
promissórias. Todas elas estão em aberto. Um de meus credores que persegue
Fatime com o seu amor, declarou-as como prêmio se ela aceitasse seu amor.
Califa:
Quem é essa pessoa? Quero seu nome!
Abu Hassan:
É Omar, o agiota. Ele
agora está preso e suando ali naquele armário.
Califa:
Ele deve ser grato à minha misericórdia se eu não o puno
muito duramente. Deixem ele ali mais um pouquinho suando. Eu vou dar ordem ao
meu tesoureiro de lhes pagar as mil moedas de ouro prometidas.
Abu Hassan:
Agradecemos-lhe líder dos fiéis. Nós não tínhamos a intenção
de permanecer mortos para sempre. Apenas morremos mal para depois poder viver
melhor no futuro.
Canção 10 (coro final)
Heil ist dem Haus beschieden
Feliz da casa que é abençoada pelo Califa. E com
Zobeide as preocupações desaparecem . O futuro é só paz e descanso. Viva! Viva!
[1]
Comentários e Tradução do texto da ópera, apresentada pelos alunos do
Departamento de Música da UNB sob a orientação da Prof. Irene Bentley em Junho
de 2018 no Auditório da ADUNB/ UNB.
[2]
Ver entre outras, “A favorita do Califa Harun al Hachid” in 1001 Noites p. 425.
vol. II
[3]
Ver entre outras, “História de Zobeide”. In 1001 Noites.p.. 189 vol.I
[4]
Ver entre outras,“História de Abu Hassan” in 1001 Noites. p. 422 e 363. Vol. II
[5]
Ver 1001 Noites, pg. 219. Vol II
[6] A
obra de Mozart passa-se na Turquia . Pedrillo
embriaga Osmin e depois o Pachá o perdoa. Na ópera de Weber, o Califa perdoa o
casal de devedores e o agiota. O casal simula estarem mortos mas Abu Hassan
levanta-se prontamente e Zobeide ressuscita Fatime.
[7]
Philomene ou Filomena. Significa “mulher que ama fortemente”. A Hagiologia
menciona também Santa Filomena, que viveu no Sec III D.C. Foi uma jovem
destinada a ser esposa do Imperador Diocleciano. Negando-se a casar com o
tirano, foi torturada várias vezes e finalmente executada. Relevante lembrar
que sua vida só ficou conhecida no fim do sec. XIX, portanto muito depois da
composição de Weber. Mais interessante para compreender a canção N. 5, é a
informação da mitologia. Philomene é filha de Pandeon, rei de Atenas. Foi
violentada por seu cunhado Tereu, rei da Tracia. Para impedir que ela contasse
à sua irmã Procne, ele corta-lhe a língua. Apesar disso, Philomene conseguiu
contar, bordando o acontecido numa tela para a irmã. Ao saber do crime do
marido, sua esposa mata o filho do casal, Itis, e serve sua carne ao conjuge
que passou a persegui-las. Para escapar de Tereu as irmãs pediram ajuda aos
Deuses que as transformaram em pássaros: Philomene num Rouxinol e Procne numa
andorinha. Tereu depois foi transformado numa pulpa.