domingo, 10 de julho de 2016

Um pouco sobre meu pai.

Antonio Esmerino Pinto (7/03/1913- 23/06/2005), economista, contador e professor, nasceu na zona rural do município de Santa Cruz (hoje Reriutaba), no estado do Ceará. Seu pai, Esmerino Mesquita Pinto faleceu deixando a esposa Francisca Calixto Pinto, grávida de seu segundo filho. Com 20 anos de idade e sem condições de arcar com a sobrevivência da família, a viúva voltou com a filha Luzia (01/09/1911- 04/10/1983) a morar na casa dos pais. Ali o menino Antônio Esmerino nasceu. O avô que tomou a si a criação e formação das duas crianças era agricultor. Sabia ler, tocava viola e costumava reunir os habitantes das redondezas para alfabetiza-los. Tais atividades  foram de fundamental importância para a formação da personalidade do menino, que orfão de pai o tomava como sua principal figura masculina. Segundo suas próprias lembranças, o Lunário Perpétuo, as estórias escritas em verso que contavam as façanhas de Roberto do Diabo, a sabedoria da Imperatriz Porcina e as aventuras de João de Calais, eram leituras que o velho fazia para as pessoas que frequentavam sua casa. Nesta época, seus dois netos foram também alfabetizados.
Em 1922, tendo D. Francisca contraído novas núpcias (com o Sr. José Lopes), a família mudou-se para uma localidade conhecida como Açude do Mato nas cercanias de Reriutaba. Esmerino e Luzia já tinham estudado a “Carta do ABC” e já podiam soletrar. A mãe, querendo que os dois filhos continuassem os estudos, matriculou-os na Escola Pública da cidade. A nova situação familiar e a perda do contato diário com o avô a quem era muito afeiçoado foi um momento difícil na vida de Esmerino. Autoritário e rude, o padrasto não tinha a devida compreensão para com os dois enteados. No entanto apoiado por D. Francisca, ele e a irmã continuaram os estudos. Um pequeno saco contendo uma espécie de farofa feita de carne seca e farinha era o almoço das duas crianças, que acordavam cedo para percorrer uma grande distância até chegar à escola. À tarde, no trajeto de volta, matavam a fome comendo frutas silvestres e divertiam-se com os animais e pássaros que encontravam no caminho. A casa era humilde, a disciplina era rígida e o ensino da religião era rigoroso. Antes de dormir ainda seguiam a disciplina de, ajoelhados em frente a gravura de um santo pregada na parede da casa, rezarem o terço, atividade pouco apreciada pelas duas crianças.  É desta época o desejo de Esmerino aprimorar sua caligrafia. Contava que tudo começara quando seu padrasto olhando seus cadernos castigou-o por achar sua letra ilegível. Humilhado, o menino desenvolveu o firme propósito de ter a caligrafia mais bonita que pudesse, passando a treinar sua escrita com uma professora local. Aquele episódio já moldava de alguma forma seu caráter e sua força de vontade, levando-o a tornar-se mais tarde um excelente calígrafo, conhecido na cidade de Fortaleza pelo carinhoso nome de “escrivão da frota” ou “Pero Vaz Caminha”.

Um adolescente sociável e inteligente mas que não se contentava em ficar para sempre preso ao ambiente hostil de sua casa e nem tampouco ao meio social de sua cidade. Assim D. Francisca definiu seu filho. Ele também sonhava com a liberdade e as oportunidades que uma cidade grande poderiam lhe proporcionar, acrescentava. Naquela época, Sobral seria a opção mais viável. As dificuldades econômicas, a carência de contatos ou promessas de empregos não o impediram de um dia pegar carona num pequeno Trolley que inspecionava e consertava os trilhos da via férrea que ligava Ipú a Sobral e que passava por Reriutaba. A viagem arriscada e cansativa não lhe abateu.  Tinha um objetivo a alcançar. Arrumou um emprego num armazém de secos e molhados e como não tinha onde morar, conseguiu  permissão do dono do estabelecimento para dormir no local de trabalho. Dormiu muito tempo em cima dos sacos de mercadorias porque não tinha trazido sequer, uma rede na bagagem. Sua disposição para o trabalho logo mereceu a confiança do patrão e sua família, passando até a desfrutar da amizade de seus filhos. Em Sobral, além de trabalhar na conhecida firma Querino & Rodrigues, estudou e terminou o curso de contabilidade da Escola de Comércio e serviu no Tiro de Guerra do Exército Brasileiro. Deste período, guardava suas melhores lembranças. Contava sempre para os filhos como tinha sido sua juventude naquela cidade, do quanto tinha aprendido e dos amigos que fizera. Ali conheceu também sua futura esposa Maria de Lourdes Vasconcelos (08/04/1919- 27/12/1984), à época estudante do Colégio Sant’Anna.
Mas apesar do crescimento intelectual, econômico e social que tinha adquirido, Esmerino queria estudar e progredir ainda mais. A capital do estado seria o lugar onde ele iria concretizar seu novo projeto: continuar os estudos, conseguir um bom emprego, casar e ter uma família. Em conversa com os amigos foi começando a pensar nas possibilidades da nova mudança. Foi então que os filhos do patrão que estavam de partida para estudar em Fortaleza, lhe perguntaram se gostaria de se juntar a eles. Segundo suas próprias palavras, não pensou duas vezes e mudou-se para a cidade grande.

De início morou em diferentes pensões no centro de Fortaleza. Seu temperamento disciplinado e precavido, além de já ter uma profissão definida, o ajudaram bastante. Trabalhou sempre na equipe contábil de indústrias ligadas ao beneficiamento de óleos vegetais. Era a época entre as duas grandes guerras. A ampliação das estradas de ferro atingia os sertões do estado, transportando sua produção, anunciando o progresso. Os curtumes beneficiavam a produção pastoril da região e o algodão que brotava em abundancia nas terras áridas do estado tornava-se junto com a oiticica e a castanha de caju, riquezas propulsoras de sua industrialização. Os primeiros estabelecimentos da indústria têxtil vieram a seguir. O tempo era de otimismo para aquele rapaz alto e magro que parece ter intuído que seu momento era aquele e que era ali o seu lugar. Não restam dúvidas de que a época marcou-o de modo especial, definindo sua vida como profissional e educador. Sobretudo porque quando criança sobrevivera ao pânico da gripe espanhola que avançava no Brasil (1918), à miséria e à fome durante as duas grandes secas (1919 e 1932). Sabia que só o estudo e o trabalho poderiam melhorar as condições de vida dos menos favorecidos. Seu primeiro emprego foi na sessão de contabilidade da SANBRA- Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro.

Em 1941, depois de cinco anos de namoro, três dos quais vivenciados por intensa correspondência, Esmerino finalmente efetivou seu casamento. Maria de Lourdes já era normalista e tinha os mesmos ideais de seu noivo; queria continuar seus estudos, trabalhar e constituir uma família. Gostava também de escrever poesias. O casal foi morar numa pequena casa na Avenida Duque de Caxias, entre as ruas Padre Mororó e Agapito dos Santos. Muito trabalhador e responsável, Esmerino se impunha como bom profissional e logo melhorou de salário, passando por indicação de amigos a trabalhar no Cortez O’Grady & Cia., firma também ligada ao beneficiamento do óleo de sementes de algodão. Aos poucos se tornava conhecido e supervisionava a contabilidade de várias outras firmas na cidade, garantindo assim o sustento da família. Sua esposa, além dos afazeres domésticos, dava aulas no Curso de Preparação ao Ginásio do Professor Clodomir Girão e já pensava em fazer um curso superior. Os dois juntos, fizeram vestibular para a Faculdade de Ciências Econômicas, à época um dos poucos cursos de nível superior do Ceará. Conseguiram cada qual uma vaga, mas a gravidez do primeiro filho do casal que nasceu em 1943, impediu Maria de Lourdes de continuar o curso. Esmerino  tornou-se Economista, dividindo-se entre o trabalho e o estudo. Sua companheira, não desistindo do ideal, dava suas aulas e com vistas a um curso de línguas, recebia ensinamentos de Latim com o Padre Rolim que morava na Avenida do Imperador, nas cercanias da Igreja de São Benedito. Finalmente entrou para o recém-aberto curso de Línguas-neolatinas. Não esquecendo seus dotes de poetisa, era também membro ativo da Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno tendo publicado poesias e crônicas em jornais da cidade. Em 1953, terminou seu curso de letras tornando-se professora de Francês. Lecionou em vários estabelecimentos de ensino da capital e foi também diretora de vários colégios. Em 1966, formou-se também em Direito na UFC.

O segundo filho do casal nasceu em 1944 e eles então se mudaram para uma casa maior no mesmo quarteirão: Avenida Duque de Caxias 1715. O terceiro filho veio em 1947, quando Esmerino passou a trabalhar na CIDAO (Companhia Industrial de Algodão e Óleo) onde permaneceu ali até sua aposentadoria. Na época, já estavam construindo um pequeno bangalô na rua Clarindo de Queiroz 1860. Com casa própria, empregos promissores, três filhos saudáveis, o casal via a vida com bons olhos. Brindavam com os amigos a felicidade, o sucesso e a crença no futuro. Nos fins de semana a casa abrigava grupos que compartilhavam poesias, discutiam obras literárias ou rodopiavam dançando na pequena sala de visitas do casal. Os antigos companheiros da juventude em Sobral não faltavam ao jogo de Gamão e aos lanches da tarde.
Guiado por seu idealismo, Esmerino foi durante muitos anos professor e diretor do curso de Contabilidade da Associação Fênix Caixeiral. Fundada em 1891, a entidade marcou a cidade não só pelo seu prédio suntuoso na Praça José de Alencar, mas sobretudo porque desempenhava papel importante no desenvolvimento social e na profissionalização de muitos jovens vindos das classes trabalhadoras. Contava com um cinema, um clube literário, atividades esportivas, assistência médica e dentária, além de uma Escola de Comércio. Sua presença na instituição não se limita somente as lembranças do professor dedicado e diretor estimado da escola. Não é lembrada somente nas fotos dos quadros ou convites de formatura, mas no próprio documento de diplomação dos futuros contadores. Numa época em que ainda não existiam os modernos computadores com suas impressoras a laser, era ele quem preenchia com sua caligrafia impecável, todos os diplomas dos formandos não só da Fênix Caixeiral, como os da própria Universidade Federal do Ceará, onde também deu aulas. 
  
Muito trabalhador, sempre arrumava tempo para supervisionar a parte contábil de algumas firmas da cidade (Livraria Edésio, Casa Blanca), além de instituições como SESC (Serviço Social do Comercio) e Companhia Telefônica de Fortaleza. Membro ativo das associações de sua categoria profissional, costumava viajar para congressos, incentivando e participando da instalação de novos cursos de contabilidade em outras cidades do Ceará.  Não menos interessante em sua personalidade era o carinho que dedicava aos livros, encapando-os, arrumando-os meticulosamente nas prateleiras de suas estantes.  Ajudava a instituições de ensino comprando e doando coleções de livros para suas bibliotecas. Sustentava também a formação universitária de alguns jovens que não dispunham de recursos para comprar os livros exigidos pelo curso.

O quarto filho do casal nasceu em 1958, quando ele começou a pensar que era hora de deixar o ensino médio. Afastou-se da Fênix Caixeiral e fez concurso para o curso de Ciências Contábeis da Universidade Federal do Ceará, exercendo suas atividades docentes até completar 70 anos. Foi filiado à Associação dos Professores do Ensino Superior do Ceará (APESC) e voluntariamente fazia a contabilidade da referida associação, permanecendo ali até sua invalidez aos 84 anos.

Leitor compulsivo, dividia seu tempo livre também como Filatelista e Numismata conhecido na cidade. Gostava de viajar, de conhecer novas gentes e lugares. Vestia seu costumeiro terno, colocava um livro e uma revista de palavras cruzadas no bolso e se juntava a alguma excursão. Assim conheceu o Brasil e alguns países da América do Sul. Depois da morte de sua esposa (1984), aproveitou a filha mais nova morando em Portugal e com ela visitou a Península Ibérica. Com 83 anos, muita disposição e saúde, ainda viajou duas vezes para a Inglaterra. Ficava com sua filha mais velha que o levou a conhecer este país e mais a Grécia, Romênia, Bulgária e Turquia. Na volta, como todo bom nordestino, se reunia com os amigos para tomar uma cervejinha e contar sobre as maravilhas que tinha visto nas viagens.
Aos 86 anos, um AVC o privou do pleno exercício de suas capacidades: ficou com mobilidade e fala prejudicadas. Faleceu com quase 94 anos, de falência múltipla dos órgãos. 
Antonio Esmerino Pinto foi um homem que construiu sua trajetória de vida baseada em valores que considerava essenciais: o estudo e o trabalho. Honesto e idealista, conservava os amigos de maneira exemplar. Sua presença cativava a todos principalmente pelo seu espírito observador e irônico.  

Deixou 4 filhos.
Fernando de Vasconcelos Pinto (11/04/1943- 09/08/2002) Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores e Tradutor.
Mércia de Vasconcelos Pinto (28/05/1944) Assistente Social, Pianista e professora Emérita do Departamento de Música da Universidade de Brasília.
Godiva de Vasconcelos Pinto (20/06/1947). Administradora aposentada da Universidade de Brasília, atualmente prestando serviços no MEC.
José Carneiro de Vasconcelos Pinto (21/02/1958) Representante Comercial em Fortaleza-CE.

Nota: este texto foi escrito a pedido do atual prefeito de Reriutada, Dr. Galeno Taumaturgo. Seu objetivo é publica-lo num folheto que ficará à disposição das pessoas que frequentam a Biblioteca da cidade para que conheçam seu patrono; Antonio Esmerino Pinto, que ajudou a construir grande parte do acervo da instituição.