sexta-feira, 24 de junho de 2016

Fica comigo esta noite

Era Dezembro de 1968 : fica comigo esta noite

Meu envolvimento com o movimento estudantil data dos fins de 1966. Antes disso eu era uma estudante de Serviço Social que lia as epístolas de São Paulo e a encíclica de João XXIII (Mater et Magistra-1961). Procurava entender as preocupações de Pe. Lebret com o desenvolvimento global e me fascinava com Teilhard Chardin no seu livro “O Fenômeno Humano”. As poesias de Thomas Merton alimentavam uma parte de minha sensibilidade de jovem artista-pianista. Trabalhava como estagiária no Arraial Moura Brasil e era professora do quadro permanente do Instituto de Educação do Ceará, órgão da Secretaria de Educação do Estado e do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno (CMAN). Ao lado desta vida de estudos, cinemas de arte e Pasquins, ouvia falar de prisões e presenciava em abril de 64, a invasão da Escola de Serviço Social por soldados armados com fuzis. Colocavam todos os alunos dentro de uma sala e com as armas em punho, destituíam seu Diretório Acadêmico e à  revelia era empossado outro grupo. Os estudantes eram obrigados a “engolir” uma presidente sem nenhuma liderança na escola ou nos meios estudantis da universidade. Na Rua Solon Pinheiro, o espaço aberto e democrático localizado nos altos do jornal “O Nordeste” onde diferentes grupos de jovens se reuniam, era frequentemente encontrado desarrumado, com cadeiras empilhadas e mesas reviradas.  Já sabíamos que a polícia estivera ali à procura de provas contra aqueles que eram considerados perigosos aos olhos do regime militar.
O surgimento de um imaginário crítico nos meios intelectuais da época nos levava a uma nova versão para a representação do país.  A identidade nacional estava na agenda de todas as discussões. Valorizava-se acima de tudo a vontade de transformação e construção de um novo homem. Enquanto isso, as lutas de ruas gritavam palavras de ordem exigindo mais vagas nas universidades. As passeatas contra o acordo MEC-USAID enchiam meus ouvidos com mensagens de protestos contra a ditadura. Nada disso me deixava imune às questões sociais e existenciais que se apresentavam à minha frente. Como posso pertencer e viver o meu tempo? Onde me encontro como professora e pianista? Como ser um profissional competente e criativo sem ser atingido por esse turbilhão de questionamentos? Qual o papel da arte numa sociedade comandada pela alienação social, pela ordem perversa da mercadoria e do economicamente mais forte?
Em 1967, prestei novo vestibular, desta vez para o recém-aberto curso de bacharelato e licenciatura em música que passou a funcionar na Avenida Visconde de Cauípe 2210, nas instalações do antigo Colégio Santa Maria que fora comprado pela UFC. Nas salas e corredores do prédio funcionariam também o Teatro Universitário e dois cursos de extensão: um de Canto Coral e outro de Arte Dramática.
Constituído na sua maioria de mulheres pertencentes às famílias de classe média e alta da cidade, o corpo docente da pequena instituição se viu convivendo lado a lado com um grupo de 20 estudantes que por mérito e não por origem social teriam direito à educação superior. Acomodadas em suas práticas seculares, as professoras se viram questionadas por pessoas com visões de mundo diferentes e que se interessavam pelo que acontecia no país como um todo. Foram obrigadas a aceitar um diretório estudantil que participaria das reuniões do colegiado do curso, a ceder espaço físico e um tempo na grade curricular para as reuniões dos alunos. Padres, sanfoneiros, antigas professoras de música que precisavam de um diploma para ter acesso à melhoria de salário e mais três alunas do CMAN. Mércia Pinto, Eunice Moura e Amelia Dutra ingressavam na nova etapa da vida. Em pouco tempo o Teatro Universitário virou  ponto de atração para os jovens universitários. Palestras e discussões acaloradas dos estudantes varavam a noite no local. Presenciando os ensaios do grupo CACTUS, encontrei Petrúcio Maia, amigo de adolescência e que se transformou em grande companheiro de conversas. Cláudio Pereira, amigo e namorado da minha irmã Godiva, era uma ativa liderança estudantil e presença constante nos eventos culturais da cidade. Afinidades eletivas.
Como representante do Curso de Música no DCE, fui envolvida por aquela atmosfera. Conheci Nelson Serra e Neves e Tarcísio Prata na Escola de Arquitetura e logo já planejamos fazer uma exposição de Arte Popular. A “bichinha” como chamávamos, ficou por cerca de um mês armada para visitação pública em plena Praça do Ferreira. Dali por diante nos tornamos amigos e militantes. Participávamos de passeatas, assistíamos a filmes, peças teatrais, shows e debates com artistas e intelectuais que vinham à cidade.
Na América Latina cresciam as identificações entre artistas e políticos. Os intelectuais eram também homens públicos. Em todas as atividades culturais existia um esforço significativo para compreender e explicar a realidade brasileira. A Música Popular estava em franca efervescência. Inspirada pelos novos tempos, a juventude ouvia música e se sentia incentivada a compor. Junto com as amigas Quitéria Torres, Eunice Moura e Amelia Dutra, fomos parte ativa na realização dos Festivais de Música promovidos pelos estudantes. Inscrições de poesias e músicas ficavam tudo por nossa conta. A censura exigia as partituras de todas elas para que pudessem ser analisadas antes de serem executadas em público. Para isso eu varava noites, passando para a pauta musical todas as canções inscritas no certame. Mesmo com o trabalho de professora, das lições do curso de música e da militância política, vivi esta época como se eu tivesse encontrado meus pares. Tinha certeza de que ali eu iria encontrar respostas para minhas inquietações e que finalmente tinha encontrado o tempo que eu queria viver. Acreditava que era meu dever mudar o ambiente e a mentalidade daqueles que trabalhavam com música, reavaliando e redimensionando a função do profissional de artes na sociedade.
Como representante dos alunos do curso de Música, fui presa em 1968 no XX Congresso da UNE. Quando voltei, a violência da repressão começou a mostrar suas garras. Depois de poucos dias fui afastada de minhas funções junto ao Instituto de Educação e devolvida à Secretaria de Educação. Além disso, fui informada do parentesco entre a diretora da referida instituição e a diretora do Conservatório e do curso de música. Primas entre si, a primeira tinha como esposo um professor reconhecidamente autoritário e conservador. A segunda era esposa de um professor da Faculdade de Odontologia, conhecido dentro da universidade como figura mesquinha e delator. Comprovei esta verdade tempos depois quando estive presa e o encontrei circulando dentro das masmorras da repressão. Cada dia era uma surpresa, chegando depois de algum tempo ao cúmulo de proibir minha entrada nas dependências do prédio onde funcionava o CMAN. As crianças para quem eu dava aulas foram sendo passadas para outros professores. Assim, foram se apagando meus rastros institucionais com o local onde eu estudara desde os sete anos de idade. A delação de colegas foi ficando cada vez mais frequente. Uma menina meio gordinha que tinha sido minha aluna e que tinha passado no vestibular portanto era minha colega de classe, não podia me ver que se aproximava de onde eu estava. Comecei a desconfiar de que ficava ouvindo o que eu conversava. Certa vez, depois de um encontro informal que tive na cantina com alguns colegas, flagrei a figura indo diretamente para a sala da diretora do curso que depois me chamou para me questionar sobre minhas opiniões. Numa de minhas prisões, reconheci por ocasião de um interrogatório, a caligrafia do secretário da instituição num pedaço de papel que continha informações sobre mim; endereços, cópias de trabalhos e que estavam nas mãos da polícia. Até a pessoa a quem eu costumava comprar papel pautado para música foi reconhecido por mim quando se mostrou ser um dos torturadores que me ameaçavam na prisão. Finalmente, numa sexta feira 13 de Dezembro do mesmo ano, uma noite negra caiu sobre todos nós. O governo militar baixava seu ato Institucional Nº 5 espalhando o terror por toda parte. Foi como um tiro de canhão na beira de um açude, exatamente quando as "avoantes" estão todas reunidas para beber água.
Noite e dia vagávamos sozinhos pela escuridão da vida, sem saber que direção tomar. A cada minuto ficávamos sabendo de prisões, delações, mortes. Perdidos, as informações eram passadas dissimuladamente por terceiros. O tempo ia passando e aos poucos elas iam desaparecendo. A universidade estava praticamente deserta. Os principais líderes ou tinham sido presos ou já estavam na clandestinidade. Outros com a prisão preventiva decretada. Só restavam mesmo alguns elementos do segundo escalão da militância, que apesar do medo tentavam manter o espírito combativo. Precisávamos nos encontrar para avaliar a situação. Nos fortalecer. Nem que fosse para depois desaparecer para sempre, pensávamos. A possibilidade de um encontro clandestino para que os procurados pudessem estar presentes foi sendo discutida e o dia 31 de Dezembro poderia ser a data ideal. Toda a cidade estaria em festa, a polícia baixaria a guarda para comemorar a entrada do ano novo. Por ser mais fácil de fugir caso houvesse alguma batida policial, valeu a proposta do encontro ser nas dunas. O local era deserto e a distância era grande. Começou então a luta para informar com segurança ao maior número de pessoas.
Nem sei como chegamos até o local combinado visto nenhum de nós possuir transporte próprio. Só sei que a partir de 22hs começaram a aparecer de todos os lados aqueles pequenos seres que aos poucos se aproximavam. Eram os companheiros da esquerda festivo-cultural do M.E. Num cenário belíssimo, a lua clareava ainda mais a brancura das dunas. O céu límpido. O silêncio só era quebrado pelo barulho longínquo das ondas da praia.  Sabíamos que aquele poderia ser nosso último encontro. De início tentávamos conter as tensões resultantes dos acontecimentos. Notícias, informações sobre rotas de fuga caso a polícia resolvesse aparecer eram sussurradas para cada um quando alguém anunciou a passagem do ano. Lá longe muito longe, a imagem da cidade chegava até nós com seu céu riscado por chuvas de prata, explosões luminosas. Discretos como o tic-tac de um relógio, ecos dos fogos de artifício pipocavam no ar. O silencio que pairava entre nós que observávamos o espetáculo foi quebrado quando pequenos ruídos começaram a soar. Não era a polícia. Eu mesma não consegui identificar. Aos poucos ele foi crescendo. Parecia que o local estava sendo invadido por uma alcateia de lobos famintos. Mas aquele barulho todo não eram lobos que uivavam senão nossos próprios gritos de desespero. Nunca vou esquecer o espetáculo de amor de ódio e de solidão que vivemos naquela noite. Parecia que não ia sobrar pedra sobre pedra dentro de cada uma daquelas pessoas. Nossas relações foram redefinidas ali de forma brutal. Ninguém ficou imune e nada ficou escondido; delações, mentiras e traições, todas eram alardeadas aos gritos. Ninguém saiu dali como entrou. Pessoas ausentes foram desmascaradas. Enquanto casais se diziam amar um ao outro para sempre, outros confessavam não amar o parceiro ali presente e sim um outro que não estava no local. Os que sabiam da falta do namorado (a) ou amigo (a) preso ou desaparecido gritavam mais alto ainda, confundindo nossas vozes num verdadeiro caos sonoro. Depois de alguns dias quando tudo voltou à realidade, soube também daqueles que para minha surpresa tinham ali mesmo posto de lado sua timidez e declarado os sentimentos contidos por alguém ali presente. Aquela noite só terminou quando nos abraçamos uns aos outros e rolamos desesperadamente duna abaixo até a exaustão.
... e não te arrependerás

 Junho de 2016