quinta-feira, 14 de maio de 2015

Mílli



Depois do primeiro contato, me levou para a saleta ao lado e me fez sentar numa cadeira alta que aos poucos foi derreando o encosto até se transformar numa cama estreita. Sentada num banco alto aproximou-se do meu rosto e com uma lente, começou a examina-lo bem de perto. Falava baixinho, como se estivesse pensando alto. Passava a mão levemente na minha pele enquanto eu tentava em vão entender o que ela dizia. Só fui aceitando aquele zumbido nos meus ouvidos quando percebi que num pequeno aparelho dentro do bolso de sua bata branca, a Anamnese da consulta estava sendo gravada. Subitamente fui acometida de uma dor intensa. Ela apertara fortemente no alto de minhas bochechas, como se estivesse espremendo algo muito maior do que uma simples espinha. Indignada, achei que deveria ter no mínimo me avisado sobre o procedimento para que eu me preparasse.  Só não gritei por temer o ridículo de mostrar minhas emoções a uma quase desconhecida. Para mim, apertar as bochechas de alguém, além de doloroso é um desrespeito. Olhando no pequeno espelho que me entregara para que eu acompanhasse a consulta, vi meus olhos vermelhos e as lágrimas descendo diante de sua total indiferença. Quase decidira desistir de tudo e sair dali rápidamente. Aquelas manchas escuras no rosto e que com a idade tinham ficado mais visíveis não mereciam tamanha dor, pensei! Para esquecer um pouco o incômodo, desviei a atenção observando os pequenos detalhes do seu rosto. Por um instante, tive a sensação de que aqueles cílios se movendo, aqueles arcos de sobrancelhas que me examinavam por trás da lente, eram de um monstro ameaçador.
++
Lembro-me daquele dia especial de fim de ano. Eu terminava de me arrumar, enquanto meus pais e irmãos já me esperavam na porta da casa. Saindo não sei de onde ele apareceu e se postou na minha frente. Olhava-me atentamente como se quisesse me impedir de sair. Tentando me equilibrar nos sapatos altos e também para não amassar o vestido da festa, me abaixei um pouco e retive-o em meus braços. Soltei alguns sons e palavras carinhosas que usava para me comunicar com ele, fiz-lhe alguns afagos nas costas e cometi a loucura de puxar sua cabeça para perto de mim e lhe dar um beijo. Ele soltou um grunhido alto e num solavanco escapou bruscamente das minhas mãos e sumiu. Tudo aconteceu muito rápido e só me dei conta do estrago quando passei a mão no rosto e vi que estava ensanguentado. Corri para o banheiro com a intensão de ver o que realmente acontecera. A cena deixou minha família chocada. Minha mãe veio imediatamente para junto de mim lamentando as gotas de sangue que caiam no vestido. Olhava para meu rosto e dizia: vamos logo passar Mercúrio Cromo, colocar um pouco de Anasseptil para secar o corte. Transtornada, queria que antes fôssemos a um hospital para aplicar uma injeção antitetânica. Quem sabe precisaria dar uns pontos no ferimento, explicava. Meu pai, naturalmente nervoso, censurava minha atitude. Como é que numa hora dessas você vai perder tempo com besteira! Que tomar injeção que nada, estamos em cima da hora. Vamos chegar atrasados! Deixa isso pra depois, bradava. Daquele momento em diante meu rosto deixava de ser o foco das atenções. Agora eram os rostos do casal que começam a cuspir palavras.  O que é isso homem, a menina está toda arrumada e não pode ir deste jeito com a roupa suja para uma cerimônia. E é preciso também estancar o sangue do rosto dela. Ele não considerava nada a não ser seu nervosismo. Gastar uma fortuna pra fazer um vestido que nem ao menos usou e já está todo "emporcalhado". Só pra gastar dinheiro! No colégio é dinheiro pra alugar o clube para o baile, é dinheiro pra imprimir uns pedaços de papel vagabundos e que chamam de "convites". É dinheiro para tirar retrato com uma tal de "beca". Imagina, falava alto movimentando as mãos próximas ao meu rosto! Nestas alturas, meu vestido róseo já tinha até perdido a cor e meus sapatos altos já estavam em baixo relevo no solo. Eu tentava tranquiliza-lo dizendo que não tinha sido nada, que não estava doendo e que o sangue iria estancar rápidamente. Ele culpava-me por estar quebrando sua rotina e por ter lhe pedido dinheiro para pagar as despesas da festa. Por minha vontade ele não teria chegado mais cedo em casa, nem trocado a roupa para ir a esta cerimônia. Melhor é eu não ir ao baile, pensava. Vou ter que aturar seu mal humor a noite inteira, ouvir mais dez vezes que os filhos só lhe dão trabalho e prejuízo. Olhei para minha mãe e vi quando ela fechou os olhos e inspirou fundo. Eu já sabia o que iria dizer com aquele timbre de voz de quem aceita aquilo não pode mudar.
Minha filha, eu sempre lhe disse que você merecia coisa melhor! Olhe aí no que deu! Tentando ajuda-la, minha irmã já estava ali com um pouco de algodão e  o tal "Mercúrio Cromo" para limpar o ferimento. Minha mãe puxou meu braço rispidamente e falou: senta aqui e deixa-me ver isso! Não tendo como fugir de seus cuidados, crispei meu rosto e fechei bem os olhos como se aquele gesto fosse amenizar a dor que eu sentiria quando ela passasse o mercúrio cromo. Olha, deixou direitinha a marca dos dentes aqui, disse enquanto examinava o ferimento. Não sei se por causa do acidente, mas o calor do seu corpo assim tão perto de mim, me sufocava um pouco. A fragrância do “Embrujo de Sevillha” que usara, entrava pelas minhas narinas e me deixava mesmo "embrulhada", quase tonta. Abri os olhos e na tentativa de retomar a mim mesma, afastei rapidamente a cabeça para traz, quando ela falou firme: aquieta-te menina, me deixa limpar este corte! Ainda sob suas ordens, levantei a vista e realmente senti náuseas. Tive a impressão de que aqueles poros cheios de cremes e aquela boca vermelha que exalava pasta dental "Colipe", poderiam me engolir. O barulho do motor do carro e meu pai que gritava e buzinava na garagem da casa me fizeram avaliar melhor a dimensão das coisas. Vamos minha gente! Bota aí qualquer coisa na cara dessa menina senão ninguém chega!

Seu mau humor me deixa sempre constrangida. Melhor era não ir para esta cerimônia. Estou me sentindo ridícula neste vestido. Não me reconheço nele. Não sei por que fico tão abatida quando ele expressa que os filhos dão prejuízo e que são um estorvo na sua vida. Nunca tem uma palavra ou um gesto que não seja coberto com nojo, grosseria.
Finalmente no meio de tira-manchas, curativos e, lá fui eu receber o diploma com um esparadrapo em cruz esparramado no rosto, e as alegrias do momento já quase sumindo. Ainda caminhávamos no pátio da escola quando as últimas frases do Hino Nacional; nem teme quem te adora à própria morte, reverberava no auditório. O grupo se recompôs das contendas, se acomodou rapidamente nos seus lugares e eu tomei meu acento nas primeiras filas reservadas aos formandos. Já sabia que por ordem alfabética, eu seria das últimas a receber os cumprimentos. Poderia me refazer um pouco dos dissabores dos últimos acontecimentos. Autoridades, Professores e homenageados que compunham a mesa principal me olharam curiosos quando subi no palco para receber os cumprimentos. Parecia que ao invés de uma cruz de esparadrapo, tinham todos uns pontos de interrogação pintados no rosto. No final, com a audiência já dispersa, tive que explicar inúmeras vezes a razão daquele curativo. Encabulada, olhava para minha mãe e me lembrava do que me dissera a pouco. Mas ele é assim tão agressivo, falava uma colega. Você fala tão bem dele, acrescentava a outra. O que terá acontecido, perguntavam. Mas como explicar aqueles meus impulsos momentâneos e suas consequências? A fila dos cumprimentos não permitia muita conversa. 
Ele aparecera pela primeira vez, num dia sem importância quando eu voltava para o almoço. Costumava caminhar direto do Conservatório para minha casa, seguindo a Rua Visconde de Cauípe até a Praça da Bandeira e dobrando à esquerda na Rua Clarindo de Queiroz ia até o fim, onde eu morava. Era uma caminhada longa, mas tranquila, a não ser pela minha costumeira timidez. Não me sentia bem de ouvir os gracejos e assovios de algum rapaz que também voltava da escola ou se agrupava em alguma calçada da rua para conversar com os colegas. Neste dia atravessei a Praça São Sebastião e notei que à uma certa distância alguém me seguia. Não me importei, pois imaginei que se encaminhava também para a mesma parte do bairro onde eu morava. Mais adiante entrei em casa e vi que ele continuava o caminho. Andar acompanhada tornou-se mais legível, depois de vários dias quando identifiquei que ele se juntava ao meu trajeto, bem em frente ao imenso terreno baldio que os meninos da vizinhança faziam de campo de pelada. Durante algum tempo nada mudou.  Mas um dia, bem cedo da manhã quando abri a porta da rua, tomei um susto. Tinha chuviscado de madrugada e o chão ainda estava cheio de pingos de água. Todo encolhido, cabeça escondida debaixo do corpo, lá estava ele no pé da porta de entrada da casa. Assustada pensei: que ingenuidade a minha! Então aquela criatura ruiva que costumava me seguir, tinha ido mais longe do que eu imaginava! Já usava a entrada da minha casa como dormitório e eu não sabia. Pelo visto, conhecia muito mais a mim do que eu  dela. Eu tinha perdido o jogo por ignorar suas regras.
 Minha surpresa não durou mais do que minhas conclusões pois ele levantou-se rapidamente e mesmo sem ser convidado entrou casa adentro. Inquieto e nada discreto, cheirava tudo, olhava para todo o espaço conjunto das salas de visitas e de jantar. Móveis, quadros, tapetes, objetos de decoração iam todos passando pelos seus sentidos. Em seguida entrou pela pequena porta que dava para o banheiro e de pé, encostado na pia, cheirou escovas de dente, pentes, cremes de barbear.  Depois olhou dentro do vaso sanitário e jogou a cabeça de um lado para o outro. Soltou um grande espirro e saiu rapidamente do cubículo, como se aquilo tivesse lhe trazido alguma lembrança desagradável. Minha irmã que acabara de chegar à cena, tentava em vão barra-lo na sua curiosidade. Mas não sabia como atingi-lo, como sinaliza-lo de que seu comportamento era indesejável. Mais parecíamos pais inseguros que acompanhavam uma criança pequena que dava seus primeiros passos. Àquela hora as pessoas começavam a se movimentar dentro de casa e por certo ficariam assustadas com a presença de um intruso entrando e saindo daquela forma nos seus aposentos. O caos se instalou quando meu pai assustado com a algazarra abriu a porta do quarto. Ele não teve dúvidas; passou entre suas pernas e num instante já estava em frente à minha mãe que também não lhe impôs o mínimo respeito. Seus frascos de perfumes, sua maquiagem e suas roupas eram cheiradas e repelidas uma a uma como se fossem coisas repulsivas. Indiferente mesmo, ele só foi, ao imenso espelho da porta do guarda roupas que estava aberta e que ele passou em frente sem ao menos reconhecer-se. Meu medo era de que fizesse como nós quando éramos pequenos; pulasse em cima da cama do casal e a fizesse pula-pula. Mas afinal quem era aquela criatura abelhuda, invasiva que entrara em casa fotografando tudo com os sentidos, cheirando pés e entrepernas de todos? Nunca tinha visto tanta curiosidade, tanta falta de consideração e respeito pelo espaço e hábitos alheios. Era como se estivesse ali tomando posse de tudo o que não era seu.
A multiplicidade de sensações que ele parecia experimentar tornou-se ainda mais forte na cozinha. O cheiro do café, o ruído do liquidificador que batia uma vitamina para meu irmão, o movimento da vassoura que a diarista arrastava no chão retirando algum detrito, as verduras e a carne estendida em cima de uma tabua, tudo parecia excita-lo ainda mais.  
Ele está é com fome, falou minha irmã pegando na geladeira uma tigela com sopa que tinha sobrado do dia anterior e colocando ali no chão perto dele. Sua reação foi igualmente intensa. O barulho que fazia sorvendo a comida com a língua podia ser ouvido lá na entrada da casa.
Ouvindo no rádio as notícias do mundo pegando fogo, meu pai iniciava sua toalete pincelando creme de barbear no rosto. Ralhou com meu irmão para se arrumar e não chegar tarde ao colégio e acrescentou mais alguma coisa ao seu costumeiro discurso: não se chama um desconhecido para dentro de casa. Só servem para dar trabalho. Já basta o trabalho que vocês dão! Esticava a bochecha com a língua, raspava um pouco a barba e continuava: quem vai cuidar dele? Minha mãe toda pronta para trabalhar, antecipou sua aula. E sua pedagogia era forte! Parecia mais um dicionário de biologia. Quem vive de pés no chão pega vermes, transmite larva migra, sarna, pulgas, carrapatos e fica cheio de bicho de pé, avisava.  Hei! Você já viu os pés de quem está andando por aí? Já deve ser é um verdadeiro Pé de Bicho, ironizava ele enquanto passava brilhantina Coty nos seus cabelos ralos.
Confirmando as admoestações dos dois adultos, a diarista gritou: Vixe, ele tá é cheio de pulgas! Deixa-me acabar aqui de arrumar a mesa para o café que dou um banho de Creolina nele e acabo com todas elas. Colocar filhotes de gatos ou cachorros na porta das casas para que fossem adotados pelas crianças era prática comum na época. Lembro-me que os coelhos do vizinho já tinham dado crias no meio de nossas roupas sujas e um jabuti tinha também aparecido certa vez no nosso quintal. Para nosso sofrimento, em todas as ocasiões os donos apareciam e éramos obrigados a entregar os bichinhos. Lembro-me também que mesmo sob os protestos de meus pais, tivemos em diferentes ocasiões um sagui, um casal de porquinhos do mato, um papagaio e por fim até um aquário que minha mãe dera de presente ao caçula da casa. A presença deles foi sempre motivo de brigas constantes, principalmente da parte de meu pai. Isso  nos deixava triste, angustiados.  Com relação àquele que me seguira não seria diferente. Apesar da inclinação de seus filhos, ele não se cansou de repetir que com certeza ele tinha um dono, e que não deveríamos alimenta-lo. Que não podíamos querer aquilo que não era nosso. Eu mesma já era crescida e não deveria sofrer tanto se seu dono aparecesse e o retirasse de casa. Mas confesso que aquelas palavras doíam igualmente dentro de mim. Agarrava-me a uma réstia de esperança para que ele não tocasse mais no assunto e que o animal pudesse ficar ali conosco. Argumentávamos que não custava nada lhe dar comida. Afinal, ele mesmo nos ensinara a prática da caridade quando pedia para que déssemos comida a quem batia na porta de casa na hora das refeições e pedia alguma coisa. Mesmo assim, quando viu minha irmã alimentando o hóspede, falou que aquilo ali era só por causa da novidade, pois éramos todos preguiçosos e que não cuidaríamos de um bicho com a responsabilidade exigida. Passaram-se alguns dias e me lembro  que as admoestações de meu pai de nada serviram, pois nosso eleito apesar de não me seguir mais, toda manhã já estava enroscado ali no pé da porta esperando para entrar. Ignorando o resto da casa que parecia não ser mais de seu interesse, se encaminhava direto para a cozinha a espera de comida. Naquela época não existia ração específica para animais domésticos. Quando muito, seus donos ou compravam restos de peles e ossos e faziam um cozido com arroz e verduras ou então guardavam as sobras de comida da casa. Arrumavam duas latas de doce vazia, amassavam as arestas para que ficassem com as bordas macias e ali colocavam alimento para seus bichos. No entanto o novato parecia muito ciente de si, pois quando não encontrava comida dentro das latas, ignorava o mau humor de meu pai e se postava ao seu lado na hora da refeição. Respirando alto para ser notado, esperava que ele se comovesse e jogasse uns pedacinhos de comida que ele abocanhava no ar. Sem nenhum exagero, o vi diversas vezes entrar em casa e sentar-se ao seu lado enquanto ele lia seu jornal sentado na espreguiçadeira. Nestas horas parecia pertencer à família, participando dos hábitos das pessoas, fazendo pose com o dono da casa, nas cenas domingueiras.  Me perguntei muitas vezes se tinha consciência de que não era nosso ou se simulava ser da casa para conquistar espaço e obter o que queria. Calmo, não fazia barulho, não latia nem exigia mimos ou marcas de privilégios. Ao mesmo tempo eu não podia esquecer de que um cão doméstico exercia algumas funções; no mínimo guardava a casa e rosnava pras visitas. E ele, na maioria das vezes apenas entrava em casa, comia e sumia por dias.
Exagerada nas preocupações com doenças, minha mãe parecia exercitar suas aulas de biologia fazendo os filhos de alunos. Quando nos perguntávamos onde ele estaria ela respondia firme: quem sabe ele foi levado e está na Estação de Zoonose para ser vacinado. Ainda criança, meu irmão queria explicações sobre o que acabava de ouvir. O termo vem do Grego Zoo que significa animal e Noso significa doença, explicava como se estivesse dando aulas. Zoonose designa portanto as doenças infectocontagiosas transmitidas ao homem pelos animais. Parecendo deglutir cada palavra com sua boca vermelha de batom, ilustrava ainda mais sua aula, enumerando as doenças transmitidas pelos animais. Psitacose pelos pássaros, Toxicoplasmose pelos gatos. Leptospirose pelos ratos, Brucelose pelas vacas. Movimentava todos os músculos da boca e explicava que os cães também transmitiam doenças e que se não fossem vacinados e nos mordessem poderíamos morrer de tétano ou de hidrofobia. Ao ouvir todas aquelas explicações, já me imaginava em estado terminal, tendo contrações musculares mortais, sendo levada numa maca para o hospital de isolamento à espera da morte. Divididos entre o medo das doenças e a vontade de ter conosco aquele bicho que não nos pertencia, nos deixava inertes. No entanto aquelas preleções eram esquecidas e logo que ela saia para o trabalho nosso mundo voltava à luz. Também não tínhamos ideia do tipo de profissional que vacinava os animais domésticos. Os médicos veterinários ainda eram escassos na cidade e na sua maioria suas funções eram exercidas pelos agrônomos, que com sua prática profissional também tratavam dos bichos de estimação. A verdade é que as pessoas realmente não tinham muito a quem recorrer quando eles estavam doentes ou morriam. Quando muito calculavam a idade deles examinando seus dentes e suas partes traseiras. Aquela conversa tinha se passado durante uma refeição e muito do que acontecia em casa era discutido nestas horas quando estávamos todos à mesa. Meus pais brigavam entre si e com os filhos. Discutiam as notas do colégio, baixavam regras de comportamento deixavam tarefas a serem feitas e obrigavam-nos a comer o que não gostávamos. Estou colocando comida em casa é pra escapar da fome e não para cevar porco, dizia meu pai. Meu irmão que se negava sempre a comer verduras, tentou certa vez evitar sua admoestação desviando perguntando qual seria a raça daquele cão. Que pergunta mais anacrônica, menino!  O pedigree de um cão não surge assim do nada, sem um Kennel Club na cidade, para designar suas virtudes, respondeu impaciente. Mesmo tendo perdido a autoridade e a disputa sobre a imaginada adoção ou não do bicho pelos filhos, ele não deixava de aparecer no meio destas questões para lançar sua costumeira ponta de ironia, seu desprezo, como se aquela criança tivesse obrigação de saber tudo. Parava de comer e debochava: se deixar o pelo deste bicho crescer, é capaz de ele virar um Golden Retriver! Ora, eu nunca tinha ouvido falar de raças de cães. Mal sabia que o Pastor Alemão era o preferido de Hitler. Mamãe então falava da Lessie, o Collie do filme “A Força do Coração” estrelado por Elizabeth Taylor e que ela assistira no fim dos anos 40 no cinema do Centro Artístico Cearense que ficava perto de nossa casa. A película tinha lhe marcado tanto que ela tinha guardado durante muito tempo a folha de um calendário com a foto da artista abraçada com o cão legendário. Ora, esses cães do cinema ou estampados em calendários, vivem muito longe de nossa realidade, atacava meu pai. São como aqueles santinhos de primeira comunhão que mostram o paraíso com os anjinhos nos protegendo e para onde iremos se formos bonzinhos. Era um recado claro, para seu filho que tinha recentemente feito a primeira comunhão e distribuído os tais santinhos entre os convidados da celebração.
Todos nós sabíamos que nosso pretendente não era nenhum cão de alta reputação ou linhagem e com certeza não pertencia às famílias honradas, com sobrenomes notáveis da cidade. Nós morávamos no fim do mundo, lá onde a rua terminava o calçamento e o fio de pedra, exatamente no limite com a favela do cercado do Zé Padre e ali não só os gatos, mas os cães eram todos pardos de noite ou de dia.
Alheio a todos os comentários e discussões lá estava nosso afilhado esgalamido, comendo os restos de comida fazendo barulho com a língua. Eu olhava para ele e me perguntava qual era mesmo sua ligação com as pessoas daquela casa e se tinha ou não consciência de que não fazia parte daquela família. Eu pessoalmente o via mais como um dos inúmeros pedintes que apareciam na hora das refeições e que sem maiores envolvimentos lhe dávamos um prato de comida. Uma ação quase automática, só mesmo como forma de exercitar a caridade, de prestar contas à lei do meu pai.
No meio de uma garfada e outra, pausa de uma repreensão, meu irmão afirmou que aquele cão era mesmo muito inteligente. Pra que! Será que você não pensa? Como ser inteligente, se ele sequer é desafiado ou ensinado, respondeu. Mas o que seria então um cão inteligente? Por acaso é o que faz gracinhas, perguntou minha irmã tentando aliviar o desapontamento do menino. Ele então abandonou o garfo e a faca, e com a boca ainda cheia, respondeu com toda agressividade: Cão inteligente é aquele que conhece a hierarquia da casa, que não pula no sofá, não dorme nas cadeiras e nem suja a colcha de Chenille da cama da sua mãe. Não é como este aí que só sabe engolir moscas, acrescentou, tomando ou pouco de água. Lá vem o detentor das tábuas da lei, falei baixinho batendo na perna da minha irmã por debaixo da mesa. Como poderíamos saber se era ou não inteligente, se não sabíamos sequer o nome dele? Como ele pode demonstrar que pelo menos responde a um chamado como qualquer cão, se não o chamamos, se não lhe damos ordens? Eu via que mais uma vez voltávamos àquela velha discussão canina: ser ou não o dono do cão. Meu irmão insistia em dar-lhe um nome. Talvez pensasse que se atendesse por um nome que lhe déssemos, passaria a ser nossa propriedade. Meu pai é que não deixava por menos e reabria nossas feridas jogando a realidade nos nossos rostos. Ele já deve ter um nome dado pelo dono e que responde quando ele o chama. Sabe, eu acho que ele deve se chamar Rin-tin-tin, o cão mais inteligente do mundo, disse meu irmão. Assistia às séries da ABC americana, que na época já passavam na recém-chegada TV e decorava tudo sobre os personagens. Sabia que além do Cabo Rusty ele tem um batalhão pra cuidar dele? Minha irmã interferia achando que o nome de um animal deveria ser curto, uma só sílaba, para que ele entendesse rápido e reagisse aos comandos do dono. Ele entusiasmou-se e passou a citar todas as palavras curtas que conseguira captar do inglês que ouvia nos seriados da TV. Sugeriu “Dog”, que foi recusado por minha irmã que alegava ser nome de cão de rico.  Então “Boy”, que tal? “Mad” também é legal, não? As duas sugestões nos fizeram rir, despertando sua raiva. Já quase chorando disparou alto: então chama ele de “Bag, Cash, Chat, Kiss, Gay, Beat”. Meu pai que já tinha se levantado da mesa e lia num canto da sala, se encarregou de acalmar um pouco sua zanga ironizando: o nome desse bicho deve ser é nome de pobre! Lá em Sobral, o Chico, tio de vocês, teve uma cachorra que se chamava Veneza. Então porque vocês não colocam o nome dele de Icó, Ipú ou Codó? Mas como sempre, ali naquela casa era sempre o casal que fechava o evento, minha mãe entrou na discussão reclamando que meu pai era neurastênico e não perdia oportunidade de falar mal da família dela. Pois fiquem sabendo que a Veneza era muito inteligente! Andava com meu irmão pra toda parte e quando ele veio estudar na capital ela quase morre de tristeza.  Ele calou-se alguns segundos e reagiu: o problema é que vocês não se convencem de que este bicho não é de vocês! Qualquer hora dessas aparece alguém aqui na porta procurando por ele e aí vocês vão ver no que dá alimentar e cuidar de alguém que não é de vocês.
Ainda choromingando, meu irmão acabou com a conversa  sugerindo que cada um chamasse o cachorro pelo nome que bem entendesse. Mas assim também não! Assim estaremos dando nome é a nós mesmos, para que o cachorro reconheça quem o está chamando, falou minha irmã, rindo da criança zangada. Com pena da sua irritação, pedi calma e sugeri que ele fosse chamado de Feder. Diante da curiosidade dos dois, expliquei que era o diminutivo de “fedorento”. Lá vem você com seu deboche, falou minha irmã já se levantando da mesa. Não senhora! Lembram que ele fedia a sarjeta quando apareceu por aqui? Parecia mais que todo o Mercado São Sebastião tinha se mudado para dentro dessa casa? O silêncio. Tudo certo, perguntei. Tudo certo não, falou meu pai que passava na sala a caminho do trabalho. Só quero ver é como a Mílli vai pronunciar este nome! Nossa cozinheira era uma moça nova, risonha e meio gordinha. Quando se apresentou para trabalhar na nossa casa identificou-se com o nome de Mílli. Só depois de muito tempo soubemos que aquele nome era a abreviação de "Mil e Um", apelido dado na época, a quem faltava os dois dentes incisivos superiores. Muito ingênua, foi aos poucos se acostumando com as brincadeiras do caçula da casa quando pedia para ela dizer o nome dos legumes e hortaliças e ela respondia: fenoura, fufú, alfafe. Depois ele perguntava se ela queria tomar fá ou café! Nunca soubemos qual era seu verdadeiro nome.

A verdade é que ali ninguém se preocupava em perder tempo e paciência ensinando nada a ninguém. Principalmente com uma rotina de adestramento e cuidados com um cão. Tudo se resolvia na base da briga, da imposição de uma regra sem nenhuma discussão ou divisão de responsabilidades. Enquanto isso aquele pobre animal parecia tão alheio àquilo que não fosse suas necessidades básicas que pensávamos até que era surdo. Mas isto só até chegarem as festas Juninas. Muito animada, a vizinhança estava toda reunida em torno de uma fogueira que tinham feito no meio da rua. Algumas crianças corriam, outras ficavam paradas observando a magia das labaredas do fogo. Atraídos pela possibilidade de receber alguma comida, muitos cães circulavam no meio das pessoas sem serem molestados. Mas quando os meninos começaram a queimar os fogos e a algazarra da folia ao redor da fogueira ficou mais animada observei que Feder estava inquieto. Corria pra lá e pra cá, tentava se deitar aqui e ali e parecia não encontrar lugar para ficar, até que desapareceu. Quando a fogueira virou cinzas e todos se recolheram, fui encontra-lo em cima da minha cama todo encolhido e tremendo muito. Depois das brincadeiras e danças eu estava realmente muito cansada e só queria mesmo me estirar na cama e dormir. Coitada de mim, pois ele tinha se deitado exatamente no meio do colchão. Não querendo assusta-lo ainda mais, encontrei um jeito de colocar meu corpo em zigzag e me deitei. Fui me acalmando e no cansaço da festa o calor do seu corpo me acolheu. Pela primeira vez conheci-o calmamente e por inteiro. Observei que não era grande nem pequeno. Sua barriga, mais clara que o resto do corpo mostrava nitidamente o sangue circulando nas suas veias. Naquela posição, suas patas punham as enormes unhas sujas à mostra. Ouvi perfeitamente o som que faziam na calçada quando me seguiu pela primeira vez no quarteirão em frente à praça. Naquele estado mal distinto entre dormindo e acordada, ouvi uma voz que me dizia: sossegue, confie. Atônita, retomei o estado de acordada e não dei importância ao que ouvira. O medo cria monstros... Olhei-o e pensei: ele mal tem pelos nas orelhas, mas bem que podia ser um Cocker Spaniel com aquelas orelhas cacheadas, marcas de um cão de linhagem nobre. É, mas um cão assim teria uma almofada ali perto do piano para me fazer companhia enquanto eu estudava. Feder não! Ele é um cão encardido e magro. Os ossos das suas pernas são finos como Canarana e as articulações são visíveis como se não tivessem carne nem pelo suficiente para cobri-las. Ora, ora! Só mesmo os delírios de minha mãe com seu refrão de achar que eu merecia coisa melhor! Você poderia ter um São Bernardo minha filha. Um cão enorme, treinado para carregar um barril de aguardente pendurado no pescoço para ajudar a salvar as pessoas que se acidentam nas neves dos Alpes. Logo depois veio o sono verdadeiro. Perfeito e tranquilo, não fosse a volta daquela voz que me disse: vim ensinar-te o essencial sobre a tristeza. Acordei com a certeza de que aquela era a voz de alguém chamado Radagázio Taborda e que era dono de um cão chamado “Veludo”.  O sono também cria monstros, pensei. Minha única lembrança de um cão com este nome era a da poesia “História de um cão”, que constava nas páginas da velha “Crestomatia”, livro onde meus pais tinham estudado e que era guardada numa das estantes do seu escritório. Olhei e vi que Feder já tinha desaparecido da minha cama. Sentei-me e pensei: é claro que ele é magro e imundo, mas asqueroso não é não! Para falar numa só palavra, não è também como o “Veludo” da poesia, o mais feio cão que houve no mundo. Feder era apenas um cão pálido e pelo visto não era propriedade de nenhum camarada. Era simplesmente um cão sem dono. E se assim se pode dizer, um vira latas. Mesmo assim eu não podia esquecer de que ele não era nosso. Não tinha sido adotado por nós pois nem sequer tinha coleira ou casinha para dormir. A bem da verdade, ele era um cão verdadeiramente inútil. Não guardava a casa, não latia pras visitas e nem sequer era motivo de atenção por sua beleza ou tamanho. Eu não acreditava que naquela casa onde até os filhos eram tratados com desdém, um cão de raça nobre sobrevivesse. Nem espaço teria. Quem lhe daria banhos, pentearia, daria rações especializadas, sairia para passear com ele?  Feder talvez percebesse isto quando ficava ali deitado ouvindo as vozes dos humanos sem se cobrar ser modelo de inteligência. Apenas aproveitava os prazeres da sua idade; balançava o rabo, as orelhas e engolia moscas como qualquer cão sem dono. Aparecia quando tinha fome, cheirava tudo que lhe fosse desconhecido, comia e desaparecia em seguida. Pensando bem, ele sempre se negou a assimilar qualquer código de comportamento por mais simples que fosse. Era surdo a qualquer sinal de comando, assovios ou palavras, e o nome Feder só servia mesmo para identifica-lo entre os de casa. Esperei até que ele mostrasse um pouco de espírito de sacrifício quando meu irmão ficou de cama vários dias por causa de uma infecção na garganta. Imaginei que como o “Veludo” da poesia, ele certamente ficasse ali ao seu lado, lhe fazendo companhia, esperando sua melhora. Senti o quanto doeu na sua alma, ficar ali esperando pelo amigo, enquanto ele entrava em casa e feito um poeta ensimesmado, deixava apenas que sons, cheiros e luzes entrassem no seu ser.
Depois da noite de São João, era frequente eu acordar durante a noite e senti-lo ali perto de mim, me aquecendo com o seu corpo. Nunca me preocupei se era sonho ou realidade mas o certo é que, pela manhã ele não estava na cama. Entendia que como cães são sensíveis a certos sons ele tinha se escondido do barulho dos fogos juninos ali na minha cama porque tinha sido o lugar mais próximo que encontrara quando não aguentava mais o barulho da festa. Sabendo que meu quarto era um lugar tranquilo, passou a usa-lo para dormir. Quando descobriu que Feder costumava pular a janela para dormir no meu quarto, ouvi pela primeira vez uma pilhéria saindo da boca de minha mãe: Romeu também pulava a janela do quarto de Julieta para dormir com ela. Meus irmãos também diziam que Feder tinha uma “queda” por mim. Nunca levei muito a sério estas brincadeiras porque interpretava que era porque como filha mais velha, queriam jogar seus cuidados para mim. Eu era apenas uma adolescente cheia de sonhos e pouco sabia sobre cães, especialmente sobre “Vira Latas”. O que eu realmente entendi sobre Feder veio quando um dia eu desci do ônibus circular da Empresa Otoch, cuja parada ficava do lado da praça. Entendi que ele jamais responderia a sinais de comando; assovios, palavras ou a qualquer nome que lhe fosse dado. Era terça feira de carnaval e eu tinha ido ver o desfile dos blocos na Avenida Duque de Caxias.  Espalhados pela praça, alguns representantes do “Cordão das Coca-Colas” já tinham se apresentado e voltavam exibindo seus imensos chapéus de boneca e uma mamadeira cheia de bebida. As pernas cabeludas, os sapatos e meias masculinas combinados com a minúscula saia de babados de filó vermelho por cima da cueca, compunham o resto da bizarra fantasia. Bastante embriagado, um deles passou por mim e percebendo minha curiosidade tirou a mamadeira da boca e num tom de deboche me perguntou: O que é querida, eu trabalho com serviços essenciais!  Perto do muro que dava para o quarteirão vazio onde ficava a casa da D. Maria Bevilácua, avistei Feder no meio de uma dezena de cães.  Cheiravam-se uns aos outros, balançavam as caudas. Pareciam amigos. Comparei aquela cena com àquelas que presenciara inúmeras vezes quando vinha da aula e encontrava os homens reunidos nos bares, nas esquinas, só conversando, sem nenhum propósito. E quando alguma garota passava, eles lhe devoravam com os sentidos que lhes eram permitidos. Assoviavam, jogavam piadinhas.  Comparava também com aqueles homens que aproveitavam a permissividades do período de carnaval para se travestir de mulher/boneca e viverem suas fantasias. Para Feder, parecia que ali tudo lhe pulsava, que tudo lhe trazia à memória como se aquele momento invocasse seu passado. Como se aquilo fosse seu chamado selvagem. Decididamente ele não estava a fim de se privar dos prazeres do mundo, pensei. Jamais assimilaria os princípios dos humanos com seus códigos de conduta, treinamentos, experiências, lições ou aprendizados. Tentei perdoa-lo por seus atavismos, por suas ausências em casa, pensando que aquilo que eu presenciava era uma atitude inocente e que minha afeição por ele deveria ser pura e sem cobranças. Ele estava apenas imitando os outros cães: como todos sempre fizeram e ainda fazem, eu estou também fazendo...
                                     
Não levei tão a sério o solavanco que me deu quando lhe dei aquele beijo. Não tem nada, mais tarde ele volta e vai se meter novamente debaixo da minha cama, pensei. Se a porta do quarto ou a janela estiverem fechadas ele vai ganir até alguém abrir e ele entrar. Qual nada! Nunca mais voltou! E pra não passar por mentirosa, era o fim do mês de Março. O Ceará inteiro estava aflito. Até o dia de São José as chuvas tinham sido escassas. Mas de repente elas se intensificaram e foram ficando mais fortes. Naquele domingo Mílli tinha feito para o almoço, um “Ífcondidinho”, nosso prato preferido. Juntou as carnes que tinham sobrado da véspera, refogou tudo, fez um pirão de macaxeira, arrumou tudo em camadas e colocou no forno com bastante queijo ralado. No início da tarde ficamos sabendo que em Orós, o açude tinha transbordado, suas paredes não tinham resistido à força da água e tinham arrebentado, levando consigo cidades e vilarejos do baixo e médio Jaguaribe. Foram mais de 300.000 desabrigados. À Fortaleza chegavam centenas de pessoas que corriam de casa em casa à procura de víveres. Foi um desassossego para todos. Chovia dia e noite e o aguaceiro era grande. Pela expressão do rosto dos meus pais percebi a seriedade da situação e a urgência em fazer alguma coisa. Estas nuvens e relâmpagos não podem mais nos prender em casa, falou um para o outro. De pés descalços, corriam dentro de casa, juntando roupas e mantimentos para ajudar aos “flagelados”. As rádios interrompiam sua programação e noticiavam o ocorrido e pediam ajuda. Igrejas, escolas e clubes se dispunham a receber donativos e abrigar as pessoas atingidas pela calamidade. Meus pais juntaram o que podiam, entregaram a cada um de nós um pacote e rumamos para a Igreja de Nossa Senhora das Dores. Nunca encontrei tanta gente molhada, tanta gente com os pés enjilhados de tanto caminhar descalço pelas ruas alagadas. Dentro da Igreja os bancos que as pessoas sentavam para assistir à missa, estavam amontoados perto do altar. À frente, os frades organizavam a fila para receber os donativos. Nas paredes as imagens dos santos ainda estavam cobertas com o pano roxo, resquício das celebrações da semana santa. O choro das crianças ecoava no imenso hall da nave central da igreja. Mulheres aflitas tremiam de frio, contavam com seus lábios roxos, como tinham sido salvas subindo as ribanceiras do rio que corria arrastando tudo que encontrava pelo caminho. Depois que entregou os pacotes, minha mãe se apressou em voltar, para que em casa tomássemos algo quente, evitando que pegássemos um resfriado.
Mílli que tinha chegado em casa um pouco antes, já fazia movimentos circulares com a boca e o nariz, tentando barrar um espirro. Quando me viu perguntou: vofê fiu o Fether ali na prafa na maior lufúria com a cafôrra da dona Fáfma? Fazendo de conta de que nada tinha visto perguntei: Quem?  A dona Fáfma, mulher do fêu Fimenes, lembra?  
Retornando da igreja, tínhamos nos deparado com a Rua 15 de Agosto interditada pela água e para chegar em casa tivemos que dar um volta pela praça. Ele estava ali no meio daqueles cães, literalmente atrelado a uma cadela. Olhou-me com um olhar tão triste de quem pede alguma coisa, que me deu pena! Era como se quisesse me dizer: olha aí, fui fazer como os outros faziam e vê aí como estou! Mas para mim, aquilo não era mais uma manifestação de inocência e nem a de um amor puro e simples, mas as pulsações de alguém sem vergonha ou remorso. Os meninos que jogavam pelada na areia molhada da praça tinham abandonado a bola e corriam ao redor do grupo de cães chutando areia especialmente no casal. O mais vergonhoso para mim foi ouvir aqueles gritos de incentivos.
Sozinhas ali na cozinha, Mílli foi me contando suas mil e uma estórias. O Fether é feifo borbolêfa, fiu? Fêra aqui, fêra acolá fem faver diferenfa qual das flores é mais fêrosa. Para ele fôdas as cafôrras fão iguais.
Aprendi algo mais sobre Mílli. Quando falava, ela projetava para fora da boca o mesmo tipo de língua bifurcada das serpentes quando farejam o ambiente à sua volta. E em terceira dimensão! Senti bem de perto seu hálito pesado quando acrescentou: e fem mais, ele fó corre pra fúa cama quando esfá com medo. Cada palavra que escapava por aquela falha na sua dentadura vinha carregada de Vibrio Colerae, Leptospira Interrogans, Clostridium Tettani, Treponema Pallidum, Gonococo Gonorrhoeae, e tudo em forma de diplococos, estreptococos, estafilococos, e Spiroquetes.  Acometida de espasmos letais e gotejando sangue, mal podia pensar de tanta dor. Eu era um verdadeiro Flagelo Bacteriano. Ainda consegui forças e murmurar: mas Feder, até com a cadela da vizinha!

Sentada na cadeira ela escrevia a receita e eu ouvia suas instruções; limpar o rosto e passar esta pomada antes de dormir. Tomar estas drágeas pela manhã durante um mês.  Não se esquecer de usar o protetor solar fator 60 nos braços, colo e por fim comprar umas luvas contra raios UV para usar quando dirigir. Levantou-se, colocou amigavelmente o braço nos meus ombros e me levou até a porta de saída. Fale com a atendente e marque seu retorno para daqui a dois meses. Vamos ver como sua pele vai reagir ao tratamento. Agora, é como eu lhe disse, até hoje não se sabe direito porque com a idade, algumas pessoas apresentam estes tipos de manchas no rosto, explicou. Apertou mais uma vez minha bochecha dizendo: é, mas esta aqui não sai não! De qualquer forma ela está aí como marca da saudade não é? Sorriu e fechou a porta do consultório.

Maio de 2015

domingo, 3 de maio de 2015

CIRANDA. Bloomsbury Encyclopedia of Popular Music of the World


Ciranda is a Brazilian song and folk dance characterized by the formation of a large circle of dancers. In the state of Pernambuco, Ciranda is danced and sung to the sound of the slow and repeated rhythm of percussion instruments. A large circle of people is formed with the emcee (called Mestre Cirandeiro) in the middle, who animates the circle and improvises verses, while the refrain is repeated by the dancers. The dance can last for several hours. Ciranda or Cirandinha (Little Ciranda) is also the designation of Brazilian children’s rounds (Villa Lobos: Cirandas, 1926 and Cirandinhas, 1925), which began losing its creative force and popularity as of the 1950s. The dance is Portuguese in origin. The term Ciranda comes from the Castilian word zaranda—a flour-sifting device—which itself is an evolution of the Arabic word çarand (Borba and Graça: 1962). In Brazil it has several variations, known as Serenhinha (in the state of São Paulo), Seraninha (state of Minas Gerais) or Sarande (state of Goiás). It is also quite popular in the state of Amazonas, and there is an annual festival dedicated to this dance in the town of Manacapuru (located on the banks of the Solimões River, 80 Km from the state capital, Manaus).  
The adults’ ciranda, danced on the beaches of Recife, was at first limited primarily to venues such as beach-side areas, bar terraces and street corners. However, it became widely known in the 1960s as a result of the Popular Culture Movement, or “MCP” (created in September, 1961), which united intellectuals with the objective of developing and systemizing the popular culture of Pernambuco. The 1961 performance by “Mestre Baracho,” unknown to the Recifenses (residents of Recife) at the time, who would sing cirandas in public squares, unleashed the effervescence of ciranda rounds throughout the city. (In 1967, Teca Calazans recorded the LP titled “Aquela RosaCirandas, released by the Mocambo/Rozemblit label). Following the Military Coup of 1964, the MCP was extinguished and many of its members were arrested. 
In the 1970s, the beach dance (dança praieira)—the main participants of which hailed from among the working class (fishermen, construction workers, and odd-jobbers) as well as the intellectual class, changed into a spectacle for tourists. The cirandeiro and the dancers left their circles to perform on stages, using microphones and sound systems, now with specific time limits for their dances. In the 1990s, the “Mangue Beat” movement, with its reference to folk entertainment, served as a catalyst for the formation of new groups, which found inspiration in the use of original rhythms. This moment was favorable for the appearance of new composers. Middle-class youths as well as old-time cirandeiros created new fields of activity (Ciranda da Saúde [“Health Ciranda”], Ciranda Mimosa [“Sweet Ciranda”], Ciranda do Acalanto [“Lullaby Ciranda”], Ciranda da Maria Farinha [“Maria Farinha Ciranda”]), with the re-creation of ciranda songs and dances. Groups of composers and even social projects flourished, involving ciranda as a factor of social integration (e.g.: the NGO called Cais do Porto). Nevertheless, the record industry has brought in several singers to record cirandas (Elba Ramalho in 2001, Ney Matogrosso in 1993). One of the most remarkable characteristics of the dance is its slow tempo in 4-beat measures, marked by the bass drum beat and accompanied by the tarol (a type of drum), ganzá (a cylindrical rattle) and maracá (maracas). The choreography is characterized by the formation of a circle of dancers who rotate sideways with two steps backward and forward, always marking the strong beat of the tempo with their left foot in front. The movements of hands and body are free. We can, however, highlight three of the most well-known steps: the onda [“wave”], the machucadinho [“little mash”] and the sacudidinho [“little shake”]. The emcees who command and lead the dance are called Mestre and Contramestre (as in most Brazilian folk manifestations of this type). They’re the ones who start the event, improvise and preside over the dance. Directed towards the center of the circle, the dancers all hold hands and move around clockwise and counter-clockwise. The lyrics of the cirandas can be improvised on the spot or can be from an already known song. Generally there is an instrumental introduction; then the solo and chorus alternate. The major/minor or modal/tonal binomial is strongly present, and the scope of melody reaches, at most, 10 notes. 

Bibliography
Borba, Tomáz e Graça, Fernando Lopes. 1962. Dicionário de Música Ilustrado (Illustrated Dictionary of Music). Lisboa. Cosmos Editores.

Cascudo, Luiz da Câmara. 1954. Dicionário do Folclore Brasileiro (Dictionary of Brazilian Folklore). Rio de Janeiro Edições de Ouro.

Colonelli, Cristina Argenton. 1979. Bibliografia do Folclore Brasileiro (Bibliography of Brazilian Folklore). São Paulo. Conselho Estadual de Arte e Culturas Humanas.

Maior, Souto. 1988. Antologia Pernambucana de Folclore (Pernambucana Anthology of Folklore). Recife. Editora Massangana.

Marcondes, Marcos Antônio (editor). 1977. Enciclopédia da Música Brasileira (Encyclopedia of Brazilian Music) (2 vol). São Paulo. Art Editora.

Discographical References:
Edu Lobo e Bethânia (Edu Lobo and Bethânia). LP. Elenco ME37. Polygram 512053-2. 1966. Brasil

Aquela Rosa/Cirandas (That Rose/Cirandas). Canta: Teca Calazans LP. 1967. Mocambo/Rozemblit. Brasil

Música Popular do Nordeste nº 2 (Northeast Popular Music). LP. Discos Marcus Pereira/ RCA. 1973. Brasil

A Ciranda de Dona Duda (Mrs. Duda’s Ciranda) LP-1975. Brasil

A Rainha da Ciranda- (The Queen of Ciranda) Lia de Itamaracá. LP. 1977. Brasil

Villa Lobos. Cirandas e Cirandinhas (Cirandas and Cirandinhas). Piano: Roberto Szidon. Kuarup.1979. Brasil

Eu sou Lia- CD (My Name is Lia). Ciranda Records- Sono Press-Rimo da Amazônia. 1985. Código de Barras 7898085 050323

As Aparências Enganam- (Appearances Deceive)Ney Matogrosso canta. Polygram 514688-2. 1993.

Recirandar- (To Recirandar)CD-1997. Secretaria de Cultura Turismo e Desportos de Recife. 1997.

Cirandeira- (Female Ciranda Dancer) Elba Ramalho canta. Sony BMG 7432842632. 2001.