Depois do primeiro contato, me levou para a saleta ao lado e
me fez sentar numa cadeira alta que aos poucos foi derreando o encosto até se
transformar numa cama estreita. Sentada num banco alto aproximou-se do meu
rosto e com uma lente, começou a examina-lo bem de perto. Falava
baixinho, como se estivesse pensando alto. Passava a mão levemente na minha
pele enquanto eu tentava em vão entender o que ela dizia. Só fui aceitando aquele
zumbido nos meus ouvidos quando percebi que num pequeno aparelho dentro do
bolso de sua bata branca, a Anamnese da consulta estava sendo gravada. Subitamente
fui acometida de uma dor intensa. Ela apertara fortemente no alto de minhas
bochechas, como se estivesse espremendo algo muito maior do que uma simples
espinha. Indignada, achei que deveria ter no mínimo me avisado sobre o
procedimento para que eu me preparasse.
Só não gritei por temer o ridículo de mostrar minhas emoções a uma quase desconhecida. Para mim, apertar as bochechas de alguém, além de doloroso é um
desrespeito. Olhando no pequeno espelho que
me entregara para que eu acompanhasse a consulta, vi meus olhos vermelhos e as
lágrimas descendo diante de sua total indiferença. Quase decidira desistir de tudo e sair dali rápidamente. Aquelas manchas
escuras no rosto e que com a idade tinham ficado mais visíveis não mereciam tamanha dor, pensei! Para esquecer um
pouco o incômodo, desviei a atenção observando os pequenos detalhes
do seu rosto. Por um instante, tive a sensação de que aqueles cílios se movendo,
aqueles arcos de sobrancelhas que me examinavam por trás da lente, eram de um
monstro ameaçador.
++
Lembro-me daquele dia especial de fim de ano. Eu terminava de
me arrumar, enquanto meus pais e irmãos já me esperavam na porta da casa.
Saindo não sei de onde ele apareceu e se postou na minha frente. Olhava-me atentamente
como se quisesse me impedir de sair. Tentando me equilibrar nos sapatos altos e
também para não amassar o vestido da festa, me abaixei um pouco e retive-o em meus
braços. Soltei alguns sons e palavras carinhosas que usava para me comunicar
com ele, fiz-lhe alguns afagos nas costas e cometi a loucura de puxar sua
cabeça para perto de mim e lhe dar um beijo. Ele soltou um grunhido alto e num
solavanco escapou bruscamente das minhas mãos e sumiu. Tudo aconteceu muito
rápido e só me dei conta do estrago quando passei a mão no rosto e vi que
estava ensanguentado. Corri para o banheiro com a intensão de ver o que realmente
acontecera. A cena deixou minha família chocada. Minha mãe veio imediatamente para junto de mim
lamentando as gotas de sangue que caiam no vestido. Olhava para meu rosto e
dizia: vamos logo passar Mercúrio Cromo, colocar um pouco de Anasseptil para
secar o corte. Transtornada, queria que antes fôssemos a um hospital para
aplicar uma injeção antitetânica. Quem sabe precisaria dar uns pontos no
ferimento, explicava. Meu pai, naturalmente nervoso, censurava minha atitude. Como
é que numa hora dessas você vai perder tempo com besteira! Que tomar injeção que nada, estamos em cima da
hora. Vamos chegar atrasados! Deixa isso pra depois, bradava. Daquele momento
em diante meu rosto deixava de ser o foco das atenções. Agora eram os rostos do
casal que começam a cuspir palavras. O
que é isso homem, a menina está toda arrumada e não pode ir deste jeito com a
roupa suja para uma cerimônia. E é preciso também estancar o sangue
do rosto dela. Ele não considerava nada a não ser seu nervosismo. Gastar uma fortuna
pra fazer um vestido que nem ao menos usou e já está todo "emporcalhado". Só pra
gastar dinheiro! No colégio é dinheiro pra alugar o clube para o baile, é
dinheiro pra imprimir uns pedaços de papel vagabundos e que chamam de "convites".
É dinheiro para tirar retrato com uma tal de "beca". Imagina, falava alto movimentando as mãos próximas ao meu rosto! Nestas alturas,
meu vestido róseo já tinha até perdido a cor e meus sapatos altos já estavam em
baixo relevo no solo. Eu tentava tranquiliza-lo dizendo que não tinha sido nada,
que não estava doendo e que o sangue iria estancar rápidamente. Ele culpava-me por estar
quebrando sua rotina e por ter lhe pedido dinheiro para pagar as despesas da
festa. Por minha vontade ele não teria chegado mais cedo em casa, nem trocado a
roupa para ir a esta cerimônia. Melhor é eu não ir ao baile, pensava. Vou ter
que aturar seu mal humor a noite inteira, ouvir mais dez vezes que os filhos
só lhe dão trabalho e prejuízo. Olhei para minha mãe e vi quando ela fechou os olhos e inspirou
fundo. Eu já sabia o que iria dizer com aquele timbre de voz de quem aceita aquilo não pode mudar.
Minha filha, eu sempre lhe disse que você merecia coisa
melhor! Olhe aí no que deu! Tentando ajuda-la, minha irmã já estava ali com um
pouco de algodão e o tal "Mercúrio Cromo" para limpar o ferimento. Minha mãe puxou meu
braço rispidamente e falou: senta aqui e deixa-me ver isso! Não tendo como
fugir de seus cuidados, crispei meu rosto e fechei bem os olhos como se aquele
gesto fosse amenizar a dor que eu sentiria quando ela passasse o mercúrio
cromo. Olha, deixou direitinha a marca dos dentes aqui, disse enquanto
examinava o ferimento. Não sei se por causa do acidente, mas o calor do seu
corpo assim tão perto de mim, me sufocava um pouco. A fragrância do “Embrujo de
Sevillha” que usara, entrava pelas minhas narinas e me deixava mesmo "embrulhada", quase tonta. Abri
os olhos e na tentativa de retomar a mim mesma, afastei rapidamente a cabeça
para traz, quando ela falou firme: aquieta-te menina, me deixa limpar este
corte! Ainda sob suas ordens, levantei a vista e realmente senti náuseas. Tive
a impressão de que aqueles poros cheios de cremes e aquela boca vermelha que exalava
pasta dental "Colipe", poderiam me engolir. O barulho do motor do
carro e meu pai que gritava e buzinava na garagem da casa me fizeram avaliar
melhor a dimensão das coisas. Vamos minha gente! Bota aí qualquer coisa na cara
dessa menina senão ninguém chega!
Seu mau humor me deixa sempre constrangida. Melhor era não ir
para esta cerimônia. Estou me sentindo ridícula neste vestido. Não me reconheço
nele. Não sei por que fico tão abatida quando ele expressa que os filhos dão
prejuízo e que são um estorvo na sua vida. Nunca tem uma palavra ou um gesto
que não seja coberto com nojo, grosseria.
Finalmente no meio de tira-manchas, curativos e, lá
fui eu receber o diploma com um esparadrapo em cruz esparramado no rosto, e as
alegrias do momento já quase sumindo. Ainda caminhávamos no pátio da escola quando
as últimas frases do Hino Nacional; nem teme
quem te adora à própria morte, reverberava no auditório. O grupo se recompôs
das contendas, se acomodou rapidamente nos seus lugares e eu tomei meu acento
nas primeiras filas reservadas aos formandos. Já sabia que por ordem alfabética, eu seria das últimas a receber os cumprimentos. Poderia me
refazer um pouco dos dissabores dos últimos acontecimentos. Autoridades, Professores
e homenageados que compunham a mesa principal me olharam curiosos quando subi no
palco para receber os cumprimentos. Parecia que ao invés de uma cruz de esparadrapo,
tinham todos uns pontos de interrogação pintados no rosto. No final, com a
audiência já dispersa, tive que explicar inúmeras vezes a razão daquele
curativo. Encabulada, olhava para minha mãe e me lembrava do que me dissera a
pouco. Mas ele é assim tão agressivo, falava uma colega. Você fala tão bem
dele, acrescentava a outra. O que terá acontecido, perguntavam. Mas como
explicar aqueles meus impulsos momentâneos e suas consequências? A fila dos cumprimentos não permitia muita conversa.
Ele aparecera pela
primeira vez, num dia sem importância quando eu voltava para o almoço. Costumava
caminhar direto do Conservatório para minha casa, seguindo a Rua Visconde de
Cauípe até a Praça da Bandeira e dobrando à esquerda na Rua Clarindo de Queiroz
ia até o fim, onde eu morava. Era uma caminhada longa, mas tranquila, a não ser
pela minha costumeira timidez. Não me sentia bem de ouvir os gracejos e
assovios de algum rapaz que também voltava da escola ou se agrupava em alguma
calçada da rua para conversar com os colegas. Neste dia atravessei a Praça São
Sebastião e notei que à uma certa distância alguém me seguia. Não me importei,
pois imaginei que se encaminhava também para a mesma parte do bairro onde eu
morava. Mais adiante entrei em casa e vi que ele continuava o caminho. Andar
acompanhada tornou-se mais legível, depois de vários dias quando identifiquei que
ele se juntava ao meu trajeto, bem em frente ao imenso terreno baldio que os
meninos da vizinhança faziam de campo de pelada. Durante algum tempo nada
mudou. Mas um dia, bem cedo da manhã quando abri a porta da rua, tomei um susto.
Tinha chuviscado de madrugada e o chão ainda estava cheio de pingos de água.
Todo encolhido, cabeça escondida debaixo do corpo, lá estava ele no pé da porta
de entrada da casa. Assustada pensei: que ingenuidade a minha! Então aquela
criatura ruiva que costumava me seguir, tinha ido mais longe do que eu imaginava!
Já usava a entrada da minha casa como dormitório e eu não sabia. Pelo visto, conhecia
muito mais a mim do que eu dela. Eu tinha perdido o jogo por ignorar suas
regras.
Minha surpresa não
durou mais do que minhas conclusões pois ele levantou-se rapidamente e mesmo
sem ser convidado entrou casa adentro. Inquieto e nada discreto, cheirava tudo,
olhava para todo o espaço conjunto das salas de visitas e de jantar. Móveis, quadros,
tapetes, objetos de decoração iam todos passando pelos seus sentidos. Em
seguida entrou pela pequena porta que dava para o banheiro e de pé, encostado na
pia, cheirou escovas de dente, pentes, cremes de barbear. Depois olhou dentro do vaso sanitário e jogou
a cabeça de um lado para o outro. Soltou um grande espirro e saiu rapidamente
do cubículo, como se aquilo tivesse lhe trazido alguma lembrança desagradável. Minha
irmã que acabara de chegar à cena, tentava em vão barra-lo na sua curiosidade. Mas não sabia como atingi-lo, como sinaliza-lo de que seu comportamento era
indesejável. Mais parecíamos pais inseguros que acompanhavam uma criança pequena
que dava seus primeiros passos. Àquela hora as pessoas começavam a se
movimentar dentro de casa e por certo ficariam assustadas com a presença de um
intruso entrando e saindo daquela forma nos seus aposentos. O caos se instalou quando
meu pai assustado com a algazarra abriu a porta do quarto. Ele não teve
dúvidas; passou entre suas pernas e num instante já estava em frente à minha
mãe que também não lhe impôs o mínimo respeito. Seus frascos de perfumes, sua maquiagem e suas
roupas eram cheiradas e repelidas uma a uma como se fossem coisas repulsivas. Indiferente
mesmo, ele só foi, ao imenso espelho da porta do guarda roupas que estava aberta
e que ele passou em frente sem ao menos reconhecer-se. Meu medo era de que
fizesse como nós quando éramos pequenos; pulasse em cima da cama do casal e a
fizesse pula-pula. Mas afinal quem era aquela criatura abelhuda, invasiva que entrara
em casa fotografando tudo com os sentidos, cheirando pés e entrepernas de todos?
Nunca tinha visto tanta curiosidade, tanta falta de consideração e respeito pelo
espaço e hábitos alheios. Era como se estivesse ali tomando posse de tudo o que
não era seu.
A multiplicidade de sensações que ele parecia experimentar tornou-se
ainda mais forte na cozinha. O cheiro do café, o ruído do liquidificador que
batia uma vitamina para meu irmão, o movimento da vassoura que a diarista arrastava
no chão retirando algum detrito, as verduras e a carne estendida em cima de uma
tabua, tudo parecia excita-lo ainda mais.
Ele está é com fome, falou minha irmã pegando na geladeira
uma tigela com sopa que tinha sobrado do dia anterior e colocando ali no chão perto dele.
Sua reação foi igualmente intensa. O barulho que fazia sorvendo a comida com a
língua podia ser ouvido lá na entrada da casa.
Ouvindo no rádio as notícias do mundo pegando fogo, meu pai iniciava
sua toalete pincelando creme de barbear no rosto. Ralhou com meu irmão para se
arrumar e não chegar tarde ao colégio e acrescentou mais alguma coisa ao seu costumeiro
discurso: não se chama um desconhecido para dentro de casa. Só servem para dar
trabalho. Já basta o trabalho que vocês dão! Esticava a bochecha com a língua,
raspava um pouco a barba e continuava: quem vai cuidar dele? Minha mãe toda pronta
para trabalhar, antecipou sua aula. E sua pedagogia era forte! Parecia mais um
dicionário de biologia. Quem vive de pés no chão pega vermes, transmite larva
migra, sarna, pulgas, carrapatos e fica cheio de bicho de pé, avisava. Hei! Você já viu os pés de quem está andando por aí?
Já deve ser é um verdadeiro Pé de Bicho, ironizava ele enquanto passava
brilhantina Coty nos seus cabelos ralos.
Confirmando as admoestações dos dois adultos, a diarista
gritou: Vixe, ele tá é cheio de pulgas! Deixa-me acabar aqui de arrumar a mesa
para o café que dou um banho de Creolina nele e acabo com todas elas. Colocar filhotes
de gatos ou cachorros na porta das casas para que fossem adotados pelas
crianças era prática comum na época. Lembro-me que os coelhos do vizinho já
tinham dado crias no meio de nossas roupas sujas e um jabuti tinha também
aparecido certa vez no nosso quintal. Para nosso sofrimento, em todas as
ocasiões os donos apareciam e éramos obrigados a entregar os bichinhos. Lembro-me também que mesmo sob os protestos de
meus pais, tivemos em diferentes ocasiões um sagui, um casal de porquinhos do
mato, um papagaio e por fim até um aquário que minha mãe dera de presente ao
caçula da casa. A presença deles foi sempre motivo de brigas constantes, principalmente
da parte de meu pai. Isso nos deixava triste,
angustiados. Com relação àquele que me
seguira não seria diferente. Apesar da inclinação de seus filhos, ele não se
cansou de repetir que com certeza ele tinha um dono, e que não deveríamos
alimenta-lo. Que não podíamos querer aquilo que não era nosso. Eu mesma já era
crescida e não deveria sofrer tanto se seu dono aparecesse e o retirasse de
casa. Mas confesso que aquelas palavras doíam igualmente dentro de mim. Agarrava-me
a uma réstia de esperança para que ele não tocasse mais no assunto e que o
animal pudesse ficar ali conosco. Argumentávamos que não custava nada lhe dar
comida. Afinal, ele mesmo nos ensinara a prática da caridade quando pedia para
que déssemos comida a quem batia na porta de casa na hora das refeições e pedia
alguma coisa. Mesmo assim, quando viu minha irmã alimentando o hóspede, falou
que aquilo ali era só por causa da novidade, pois éramos todos preguiçosos e que
não cuidaríamos de um bicho com a responsabilidade exigida. Passaram-se alguns
dias e me lembro que as admoestações de
meu pai de nada serviram, pois nosso eleito apesar de não me seguir mais, toda manhã
já estava enroscado ali no pé da porta esperando para entrar. Ignorando o resto
da casa que parecia não ser mais de seu interesse, se encaminhava direto para a
cozinha a espera de comida. Naquela época não existia ração específica para
animais domésticos. Quando muito, seus donos ou compravam restos de peles e
ossos e faziam um cozido com arroz e verduras ou então guardavam as sobras de
comida da casa. Arrumavam duas latas de doce vazia, amassavam as arestas para
que ficassem com as bordas macias e ali colocavam alimento para seus bichos. No
entanto o novato parecia muito ciente de si, pois quando não encontrava comida
dentro das latas, ignorava o mau humor de meu pai e se postava ao seu lado na
hora da refeição. Respirando alto para ser notado, esperava que ele se
comovesse e jogasse uns pedacinhos de comida que ele abocanhava no ar. Sem
nenhum exagero, o vi diversas vezes entrar em casa e sentar-se ao seu lado
enquanto ele lia seu jornal sentado na espreguiçadeira. Nestas horas parecia
pertencer à família, participando dos hábitos das pessoas, fazendo pose com o dono da casa, nas
cenas domingueiras. Me perguntei muitas vezes se tinha
consciência de que não era nosso ou se simulava ser da casa para conquistar
espaço e obter o que queria. Calmo, não fazia barulho, não latia nem exigia
mimos ou marcas de privilégios. Ao mesmo tempo eu não podia esquecer de que um
cão doméstico exercia algumas funções; no mínimo guardava a casa e rosnava pras
visitas. E ele, na maioria das vezes apenas entrava em casa, comia e sumia por
dias.
Exagerada nas preocupações com doenças, minha mãe parecia
exercitar suas aulas de biologia fazendo os filhos de alunos. Quando nos
perguntávamos onde ele estaria ela respondia firme: quem sabe ele foi levado e
está na Estação de Zoonose para ser vacinado. Ainda criança, meu irmão queria
explicações sobre o que acabava de ouvir. O termo vem do Grego Zoo que significa animal e Noso significa doença, explicava como se
estivesse dando aulas. Zoonose designa portanto as doenças infectocontagiosas
transmitidas ao homem pelos animais. Parecendo deglutir cada palavra com sua
boca vermelha de batom, ilustrava ainda mais sua aula, enumerando as doenças
transmitidas pelos animais. Psitacose pelos pássaros, Toxicoplasmose pelos
gatos. Leptospirose pelos ratos, Brucelose pelas vacas. Movimentava todos os
músculos da boca e explicava que os cães também transmitiam doenças e que se
não fossem vacinados e nos mordessem poderíamos morrer de tétano ou de
hidrofobia. Ao ouvir todas aquelas explicações, já me imaginava em estado
terminal, tendo contrações musculares mortais, sendo levada numa maca para o
hospital de isolamento à espera da morte. Divididos entre o medo das doenças e
a vontade de ter conosco aquele bicho que não nos pertencia, nos deixava
inertes. No entanto aquelas preleções eram esquecidas e logo que ela saia para o
trabalho nosso mundo voltava à luz. Também não tínhamos ideia do tipo de
profissional que vacinava os animais domésticos. Os médicos veterinários ainda
eram escassos na cidade e na sua maioria suas funções eram exercidas pelos
agrônomos, que com sua prática profissional também tratavam dos bichos de
estimação. A verdade é que as pessoas realmente não tinham muito a quem
recorrer quando eles estavam doentes ou morriam. Quando muito calculavam a
idade deles examinando seus dentes e suas partes traseiras. Aquela conversa
tinha se passado durante uma refeição e muito do que acontecia em casa era
discutido nestas horas quando estávamos todos à mesa. Meus pais brigavam entre
si e com os filhos. Discutiam as notas do colégio, baixavam regras de
comportamento deixavam tarefas a serem feitas e obrigavam-nos a comer o que não
gostávamos. Estou colocando comida em casa é pra escapar da fome e não para
cevar porco, dizia meu pai. Meu irmão que se negava sempre a comer verduras,
tentou certa vez evitar sua admoestação desviando perguntando qual seria a raça
daquele cão. Que pergunta mais anacrônica, menino! O pedigree de um cão não surge assim do nada,
sem um Kennel Club na cidade, para designar suas virtudes, respondeu impaciente.
Mesmo tendo perdido a autoridade e a disputa sobre a imaginada adoção ou não do
bicho pelos filhos, ele não deixava de aparecer no meio destas questões para
lançar sua costumeira ponta de ironia, seu desprezo, como se aquela criança
tivesse obrigação de saber tudo. Parava de comer e debochava: se deixar o pelo
deste bicho crescer, é capaz de ele virar um Golden Retriver! Ora, eu nunca
tinha ouvido falar de raças de cães. Mal sabia que o Pastor Alemão era o
preferido de Hitler. Mamãe então falava da Lessie, o Collie do filme “A Força
do Coração” estrelado por Elizabeth Taylor e que ela assistira no fim dos anos
40 no cinema do Centro Artístico Cearense que ficava perto de nossa casa. A
película tinha lhe marcado tanto que ela tinha guardado durante muito tempo a
folha de um calendário com a foto da artista abraçada com o cão legendário. Ora,
esses cães do cinema ou estampados em calendários, vivem muito longe de nossa
realidade, atacava meu pai. São como aqueles santinhos de primeira comunhão que
mostram o paraíso com os anjinhos nos protegendo e para onde iremos se formos
bonzinhos. Era um recado claro, para seu filho que tinha recentemente feito a
primeira comunhão e distribuído os tais santinhos entre os convidados da
celebração.
Todos nós sabíamos que nosso pretendente não era nenhum cão de
alta reputação ou linhagem e com certeza não pertencia às famílias honradas,
com sobrenomes notáveis da cidade. Nós morávamos no fim do mundo, lá onde a rua
terminava o calçamento e o fio de pedra, exatamente no limite com a favela do
cercado do Zé Padre e ali não só os gatos, mas os cães eram todos pardos de
noite ou de dia.
Alheio a todos os comentários e discussões lá estava nosso
afilhado esgalamido, comendo os restos de comida fazendo barulho com a língua. Eu
olhava para ele e me perguntava qual era mesmo sua ligação com as pessoas
daquela casa e se tinha ou não consciência de que não fazia parte daquela
família. Eu pessoalmente o via mais como um dos inúmeros pedintes que apareciam
na hora das refeições e que sem maiores envolvimentos lhe dávamos um prato de
comida. Uma ação quase automática, só mesmo como forma de exercitar a caridade,
de prestar contas à lei do meu pai.
No meio de uma garfada e outra, pausa de uma repreensão, meu
irmão afirmou que aquele cão era mesmo muito inteligente. Pra que! Será que
você não pensa? Como ser inteligente, se ele sequer é desafiado ou ensinado,
respondeu. Mas o que seria então um cão inteligente? Por acaso é o que faz
gracinhas, perguntou minha irmã tentando aliviar o desapontamento do menino.
Ele então abandonou o garfo e a faca, e com a boca ainda cheia, respondeu com toda
agressividade: Cão inteligente é aquele que conhece a hierarquia da casa, que não
pula no sofá, não dorme nas cadeiras e nem suja a colcha de Chenille da cama da
sua mãe. Não é como este aí que só sabe engolir moscas, acrescentou, tomando ou
pouco de água. Lá vem o detentor das tábuas da lei, falei baixinho batendo na
perna da minha irmã por debaixo da mesa. Como poderíamos saber se era ou não
inteligente, se não sabíamos sequer o nome dele? Como ele pode demonstrar que
pelo menos responde a um chamado como qualquer cão, se não o chamamos, se não lhe
damos ordens? Eu via que mais uma vez voltávamos àquela velha discussão canina:
ser ou não o dono do cão. Meu irmão insistia em dar-lhe um nome. Talvez
pensasse que se atendesse por um nome que lhe déssemos, passaria a ser nossa
propriedade. Meu pai é que não deixava por menos e reabria nossas feridas jogando
a realidade nos nossos rostos. Ele já deve ter um nome dado pelo dono e que
responde quando ele o chama. Sabe, eu acho que ele deve se chamar Rin-tin-tin,
o cão mais inteligente do mundo, disse meu irmão. Assistia às séries da ABC americana, que na
época já passavam na recém-chegada TV e decorava tudo sobre os personagens.
Sabia que além do Cabo Rusty ele tem um batalhão pra cuidar dele? Minha irmã
interferia achando que o nome de um animal deveria ser curto, uma só sílaba,
para que ele entendesse rápido e reagisse aos comandos do dono. Ele
entusiasmou-se e passou a citar todas as palavras curtas que conseguira captar
do inglês que ouvia nos seriados da TV. Sugeriu “Dog”, que foi recusado por minha
irmã que alegava ser nome de cão de rico. Então “Boy”, que tal? “Mad” também é legal,
não? As duas sugestões nos fizeram rir, despertando sua raiva. Já quase
chorando disparou alto: então chama ele de “Bag, Cash, Chat, Kiss, Gay, Beat”. Meu
pai que já tinha se levantado da mesa e lia num canto da sala, se encarregou de
acalmar um pouco sua zanga ironizando: o nome desse bicho deve ser é nome de
pobre! Lá em Sobral, o Chico, tio de vocês, teve uma cachorra que se chamava
Veneza. Então porque vocês não colocam o nome dele de Icó, Ipú ou Codó? Mas como
sempre, ali naquela casa era sempre o casal que fechava o evento, minha mãe
entrou na discussão reclamando que meu pai era neurastênico e não perdia
oportunidade de falar mal da família dela. Pois fiquem sabendo que a Veneza era
muito inteligente! Andava com meu irmão pra toda parte e quando ele veio
estudar na capital ela quase morre de tristeza. Ele calou-se alguns segundos e reagiu: o problema
é que vocês não se convencem de que este bicho não é de vocês! Qualquer hora
dessas aparece alguém aqui na porta procurando por ele e aí vocês vão ver no
que dá alimentar e cuidar de alguém que não é de vocês.
Ainda choromingando, meu irmão acabou com a conversa sugerindo que cada um chamasse o cachorro pelo
nome que bem entendesse. Mas assim também não! Assim estaremos dando nome é a
nós mesmos, para que o cachorro reconheça quem o está chamando, falou minha
irmã, rindo da criança zangada. Com pena da sua irritação, pedi calma e sugeri
que ele fosse chamado de Feder. Diante da curiosidade dos dois, expliquei que
era o diminutivo de “fedorento”. Lá vem você com seu deboche, falou minha irmã
já se levantando da mesa. Não senhora! Lembram que ele fedia a sarjeta quando
apareceu por aqui? Parecia mais que todo o Mercado São Sebastião tinha se
mudado para dentro dessa casa? O silêncio. Tudo certo, perguntei. Tudo certo
não, falou meu pai que passava na sala a caminho do trabalho. Só quero ver é
como a Mílli vai pronunciar este nome! Nossa cozinheira era uma moça nova, risonha
e meio gordinha. Quando se apresentou para trabalhar na nossa casa
identificou-se com o nome de Mílli. Só depois de muito tempo soubemos que
aquele nome era a abreviação de "Mil e Um", apelido dado na época, a quem faltava
os dois dentes incisivos superiores. Muito ingênua, foi aos poucos se acostumando
com as brincadeiras do caçula da casa quando pedia para ela dizer o nome dos
legumes e hortaliças e ela respondia: fenoura, fufú, alfafe. Depois ele perguntava
se ela queria tomar fá ou café! Nunca soubemos qual era seu verdadeiro nome.
A verdade é que ali ninguém se
preocupava em perder tempo e paciência ensinando nada a ninguém. Principalmente
com uma rotina de adestramento e cuidados com um cão. Tudo se resolvia na base
da briga, da imposição de uma regra sem nenhuma discussão ou divisão de
responsabilidades. Enquanto isso aquele pobre animal parecia tão alheio àquilo que
não fosse suas necessidades básicas que pensávamos até que era surdo. Mas isto só
até chegarem as festas Juninas. Muito animada, a vizinhança estava toda reunida
em torno de uma fogueira que tinham feito no meio da rua. Algumas crianças
corriam, outras ficavam paradas observando a magia das labaredas do fogo.
Atraídos pela possibilidade de receber alguma comida, muitos cães circulavam no
meio das pessoas sem serem molestados. Mas quando os meninos começaram a
queimar os fogos e a algazarra da folia ao redor da fogueira ficou mais animada
observei que Feder estava inquieto. Corria pra lá e pra cá, tentava se deitar
aqui e ali e parecia não encontrar lugar para ficar, até que desapareceu. Quando
a fogueira virou cinzas e todos se recolheram, fui encontra-lo em cima da minha
cama todo encolhido e tremendo muito. Depois das brincadeiras e danças eu
estava realmente muito cansada e só queria mesmo me estirar na cama e dormir. Coitada
de mim, pois ele tinha se deitado exatamente no meio do colchão. Não querendo
assusta-lo ainda mais, encontrei um jeito de colocar meu corpo em zigzag e me
deitei. Fui me acalmando e no cansaço da festa o calor do seu corpo me acolheu.
Pela primeira vez conheci-o calmamente e por inteiro. Observei que não era
grande nem pequeno. Sua barriga, mais clara que o resto do corpo mostrava
nitidamente o sangue circulando nas suas veias. Naquela posição, suas patas
punham as enormes unhas sujas à mostra. Ouvi perfeitamente o som que faziam na
calçada quando me seguiu pela primeira vez no quarteirão em frente à praça. Naquele
estado mal distinto entre dormindo e acordada, ouvi uma voz que me dizia:
sossegue, confie. Atônita, retomei o estado de acordada e não dei importância
ao que ouvira. O medo cria monstros... Olhei-o e pensei: ele mal tem pelos nas
orelhas, mas bem que podia ser um Cocker Spaniel com aquelas orelhas cacheadas,
marcas de um cão de linhagem nobre. É, mas um cão assim teria uma almofada ali
perto do piano para me fazer companhia enquanto eu estudava. Feder não! Ele é um
cão encardido e magro. Os ossos das suas pernas são finos como Canarana e as
articulações são visíveis como se não tivessem carne nem pelo suficiente para
cobri-las. Ora, ora! Só mesmo os delírios de minha mãe com seu refrão de achar
que eu merecia coisa melhor! Você poderia ter um São Bernardo minha filha. Um cão
enorme, treinado para carregar um barril de aguardente pendurado no pescoço
para ajudar a salvar as pessoas que se acidentam nas neves dos Alpes. Logo
depois veio o sono verdadeiro. Perfeito e tranquilo, não fosse a volta daquela
voz que me disse: vim ensinar-te o essencial sobre a tristeza. Acordei com a
certeza de que aquela era a voz de alguém chamado Radagázio Taborda e que era
dono de um cão chamado “Veludo”. O sono
também cria monstros, pensei. Minha única lembrança de um cão com este nome era
a da poesia “História de um cão”, que constava nas páginas da velha “Crestomatia”,
livro onde meus pais tinham estudado e que era guardada numa das estantes do
seu escritório. Olhei e vi que Feder já tinha desaparecido da minha cama. Sentei-me
e pensei: é claro que ele é magro e imundo, mas asqueroso não é não! Para falar
numa só palavra, não è também como o “Veludo” da poesia, o mais feio cão que
houve no mundo. Feder era apenas um cão pálido e pelo visto não era propriedade
de nenhum camarada. Era simplesmente um cão sem dono. E se assim se pode dizer,
um vira latas. Mesmo assim eu não podia esquecer de que ele não era nosso. Não
tinha sido adotado por nós pois nem sequer tinha coleira ou casinha para
dormir. A bem da verdade, ele era um cão verdadeiramente inútil. Não guardava a
casa, não latia pras visitas e nem sequer era motivo de atenção por sua beleza
ou tamanho. Eu não acreditava que naquela casa onde até os filhos eram tratados
com desdém, um cão de raça nobre sobrevivesse. Nem espaço teria. Quem lhe daria
banhos, pentearia, daria rações especializadas, sairia para passear com
ele? Feder talvez percebesse isto quando
ficava ali deitado ouvindo as vozes dos humanos sem se cobrar ser modelo de
inteligência. Apenas aproveitava os prazeres da sua idade; balançava o rabo, as
orelhas e engolia moscas como qualquer cão sem dono. Aparecia quando tinha
fome, cheirava tudo que lhe fosse desconhecido, comia e desaparecia em seguida.
Pensando bem, ele sempre se negou a assimilar qualquer código de comportamento
por mais simples que fosse. Era surdo a qualquer sinal de comando, assovios ou
palavras, e o nome Feder só servia mesmo para identifica-lo entre os de casa. Esperei
até que ele mostrasse um pouco de espírito de sacrifício quando meu irmão ficou
de cama vários dias por causa de uma infecção na garganta. Imaginei que como o
“Veludo” da poesia, ele certamente ficasse ali ao seu lado, lhe fazendo
companhia, esperando sua melhora. Senti o quanto doeu na sua alma, ficar ali
esperando pelo amigo, enquanto ele entrava em casa e feito um poeta
ensimesmado, deixava apenas que sons, cheiros e luzes entrassem no seu ser.
Depois da noite de São João, era
frequente eu acordar durante a noite e senti-lo ali perto de mim, me aquecendo
com o seu corpo. Nunca me preocupei se era sonho ou realidade mas o certo é que,
pela manhã ele não estava na cama. Entendia que como cães são sensíveis a
certos sons ele tinha se escondido do barulho dos fogos juninos ali na minha
cama porque tinha sido o lugar mais próximo que encontrara quando não aguentava
mais o barulho da festa. Sabendo que meu quarto era um lugar tranquilo, passou
a usa-lo para dormir. Quando descobriu que Feder costumava pular a janela para
dormir no meu quarto, ouvi pela primeira vez uma pilhéria saindo da boca de
minha mãe: Romeu também pulava a janela do quarto de Julieta para dormir com
ela. Meus irmãos também diziam que Feder tinha uma “queda” por mim. Nunca levei
muito a sério estas brincadeiras porque interpretava que era porque como filha
mais velha, queriam jogar seus cuidados para mim. Eu era apenas uma adolescente
cheia de sonhos e pouco sabia sobre cães, especialmente sobre “Vira Latas”. O
que eu realmente entendi sobre Feder veio quando um dia eu desci do ônibus circular
da Empresa Otoch, cuja parada ficava do lado da praça. Entendi que ele jamais
responderia a sinais de comando; assovios, palavras ou a qualquer nome que lhe
fosse dado. Era terça feira de carnaval e eu tinha ido ver o desfile dos blocos
na Avenida Duque de Caxias. Espalhados
pela praça, alguns representantes do “Cordão das Coca-Colas” já tinham se
apresentado e voltavam exibindo seus imensos chapéus de boneca e uma mamadeira
cheia de bebida. As pernas cabeludas, os sapatos e meias masculinas combinados
com a minúscula saia de babados de filó vermelho por cima da cueca, compunham o
resto da bizarra fantasia. Bastante embriagado, um deles passou por mim e
percebendo minha curiosidade tirou a mamadeira da boca e num tom de deboche me
perguntou: O que é querida, eu trabalho com serviços essenciais! Perto do muro que dava para o quarteirão vazio
onde ficava a casa da D. Maria Bevilácua, avistei Feder no meio de uma dezena de
cães. Cheiravam-se uns aos outros,
balançavam as caudas. Pareciam amigos. Comparei aquela cena com àquelas que
presenciara inúmeras vezes quando vinha da aula e encontrava os homens reunidos
nos bares, nas esquinas, só conversando, sem nenhum propósito. E quando alguma
garota passava, eles lhe devoravam com os sentidos que lhes eram permitidos.
Assoviavam, jogavam piadinhas. Comparava
também com aqueles homens que aproveitavam a permissividades do período de
carnaval para se travestir de mulher/boneca e viverem suas fantasias. Para
Feder, parecia que ali tudo lhe pulsava, que tudo lhe trazia à memória como se
aquele momento invocasse seu passado. Como se aquilo fosse seu chamado
selvagem. Decididamente ele não estava a fim de se privar dos prazeres do mundo,
pensei. Jamais assimilaria os princípios dos humanos com seus códigos de
conduta, treinamentos, experiências, lições ou aprendizados. Tentei perdoa-lo
por seus atavismos, por suas ausências em casa, pensando que aquilo que eu
presenciava era uma atitude inocente e que minha afeição por ele deveria ser
pura e sem cobranças. Ele estava apenas imitando os outros cães: como todos
sempre fizeram e ainda fazem, eu estou também fazendo...
Não levei tão a sério o solavanco que
me deu quando lhe dei aquele beijo. Não tem nada, mais tarde ele volta e vai se
meter novamente debaixo da minha cama, pensei. Se a porta do quarto ou a janela
estiverem fechadas ele vai ganir até alguém abrir e ele entrar. Qual nada!
Nunca mais voltou! E pra não passar por mentirosa, era o fim do mês de Março. O
Ceará inteiro estava aflito. Até o dia de São José as chuvas tinham sido
escassas. Mas de repente elas se intensificaram e foram ficando mais fortes.
Naquele domingo Mílli tinha feito para o almoço, um “Ífcondidinho”, nosso prato
preferido. Juntou as carnes que tinham sobrado da véspera, refogou tudo, fez um
pirão de macaxeira, arrumou tudo em camadas e colocou no forno com bastante
queijo ralado. No início da tarde ficamos sabendo que em Orós, o açude tinha
transbordado, suas paredes não tinham resistido à força da água e tinham arrebentado,
levando consigo cidades e vilarejos do baixo e médio Jaguaribe. Foram mais de
300.000 desabrigados. À Fortaleza chegavam centenas de pessoas que corriam de
casa em casa à procura de víveres. Foi um desassossego para todos. Chovia dia e
noite e o aguaceiro era grande. Pela expressão do rosto dos meus pais percebi a
seriedade da situação e a urgência em fazer alguma coisa. Estas nuvens e
relâmpagos não podem mais nos prender em casa, falou um para o outro. De pés
descalços, corriam dentro de casa, juntando roupas e mantimentos para ajudar
aos “flagelados”. As rádios interrompiam sua programação e noticiavam o ocorrido
e pediam ajuda. Igrejas, escolas e clubes se dispunham a receber donativos e
abrigar as pessoas atingidas pela calamidade. Meus pais juntaram o que podiam,
entregaram a cada um de nós um pacote e rumamos para a Igreja de Nossa Senhora
das Dores. Nunca encontrei tanta gente molhada, tanta gente com os pés
enjilhados de tanto caminhar descalço pelas ruas alagadas. Dentro da Igreja os
bancos que as pessoas sentavam para assistir à missa, estavam amontoados perto
do altar. À frente, os frades organizavam a fila para receber os donativos. Nas
paredes as imagens dos santos ainda estavam cobertas com o pano roxo, resquício
das celebrações da semana santa. O choro das crianças ecoava no imenso hall da
nave central da igreja. Mulheres aflitas tremiam de frio, contavam com seus
lábios roxos, como tinham sido salvas subindo as ribanceiras do rio que corria
arrastando tudo que encontrava pelo caminho. Depois que entregou os pacotes, minha
mãe se apressou em voltar, para que em casa tomássemos algo quente, evitando que
pegássemos um resfriado.
Mílli que tinha chegado em casa um
pouco antes, já fazia movimentos circulares com a boca e o nariz, tentando
barrar um espirro. Quando me viu perguntou: vofê fiu o Fether ali na prafa na maior lufúria com a cafôrra da dona Fáfma? Fazendo
de conta de que nada tinha visto perguntei: Quem? A dona Fáfma, mulher do fêu
Fimenes, lembra?
Retornando da igreja, tínhamos nos
deparado com a Rua 15 de Agosto interditada pela água e para chegar em casa tivemos
que dar um volta pela praça. Ele estava ali no meio daqueles cães, literalmente
atrelado a uma cadela. Olhou-me com um olhar tão triste de quem pede alguma
coisa, que me deu pena! Era como se quisesse me dizer: olha aí, fui fazer como
os outros faziam e vê aí como estou! Mas para mim, aquilo não era mais uma
manifestação de inocência e nem a de um amor puro e simples, mas as pulsações de
alguém sem vergonha ou remorso. Os meninos que jogavam pelada na areia molhada
da praça tinham abandonado a bola e corriam ao redor do grupo de cães chutando
areia especialmente no casal. O mais vergonhoso para mim foi ouvir aqueles
gritos de incentivos.
Sozinhas ali na cozinha, Mílli foi me
contando suas mil e uma estórias. O
Fether é feifo borbolêfa, fiu? Fêra aqui, fêra acolá fem faver diferenfa qual
das flores é mais fêrosa. Para ele fôdas as cafôrras fão iguais.
Aprendi algo mais sobre Mílli. Quando
falava, ela projetava para fora da boca o mesmo tipo de língua bifurcada das
serpentes quando farejam o ambiente à sua volta. E em terceira dimensão! Senti bem
de perto seu hálito pesado quando acrescentou: e fem mais, ele fó corre pra fúa cama quando esfá com medo. Cada palavra
que escapava por aquela falha na sua dentadura vinha carregada de Vibrio Colerae,
Leptospira Interrogans, Clostridium Tettani, Treponema Pallidum, Gonococo Gonorrhoeae,
e tudo em forma de diplococos, estreptococos, estafilococos, e Spiroquetes. Acometida de espasmos letais e gotejando
sangue, mal podia pensar de tanta dor. Eu era um verdadeiro Flagelo Bacteriano.
Ainda consegui forças e murmurar: mas Feder, até com a cadela da vizinha!
Sentada na cadeira ela escrevia a
receita e eu ouvia suas instruções; limpar o rosto e passar esta pomada antes
de dormir. Tomar estas drágeas pela manhã durante um mês. Não se esquecer de usar o protetor solar fator
60 nos braços, colo e por fim comprar umas luvas contra raios UV para usar
quando dirigir. Levantou-se, colocou amigavelmente o braço nos meus ombros e me
levou até a porta de saída. Fale com a atendente e marque seu retorno para daqui
a dois meses. Vamos ver como sua pele vai reagir ao tratamento. Agora, é como
eu lhe disse, até hoje não se sabe direito porque com a idade, algumas pessoas
apresentam estes tipos de manchas no rosto, explicou. Apertou mais uma vez
minha bochecha dizendo: é, mas esta aqui não sai não! De qualquer forma ela
está aí como marca da saudade não é? Sorriu e fechou a porta do consultório.
