quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Acalanto




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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Choro: a força do Gênero na Capital Federel

 Milena Tibúrcio de Oliveira Antunes.

Mércia de Vasconcelos Pinto



Sumário: Este trabalho busca entender como o gênero musical choro vem se tornando parte da paisagem sonora de Brasília, cidade cujas atividades relacionadas ao gênero já é referência nacional de qualidade. A pesquisa, trabalho de PIBIC 2002/2003, comprometeu-se a investigar o início das atividades dos chorões em Brasília, as fontes históricas sobre a criação, a estruturação e a consolidação do Clube do Choro de Brasília, o surgimento da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello, sua prática pedagógica e sua influência no cenário musical da cidade. Os dados foram coletados de fontes escritas (livros, documentos, reportagens), orais (entrevistas, depoimentos) e de observações (shows, encontros informais, aulas). Como resultado recuperou-se parte da memória da cidade, explicando a existência de grande quantidade e diversidade de instrumentistas locais interessados neste tipo de música, além de constatar a relevância cultural, social e pedagógica destas instituições para músicos, estudantes e público em geral.
Palavras Chaves: Choro, Música Popular, Educação Musical.

Abstract:
This text tries to understand how Choro is part of the sound landscape of Brasília, a city which activities related to this popular musical genre is already a national reference of performance quality. This is a PIBIC research (2002/2003) and it comprises the beginning of Choro in Brasília, the historical sources about its stablisment, the consolidation and structuration of Clube do Choro in this city, as well as the emergence of  Escola Brasileira de Choro Rafael Rabelo, its pedagolgical practice and its influence in the musical scenary of the city. The basic facts were collected from written sources, interviews, shows and informal teachings. As a result, it recuperates part of the memory of the city explaining the existence of a great amount of informations and diversity of performers interesteds in this kind of music, as well as the confirmation of the social and cultural relevance of this institution to musicians, students and audience as well.
Key Words: Choro, Popular Music, Musical Education.




Choro: a força de um gênero na Capital Federal
1) INTRODUÇÃO
Esta pesquisa1 se dá no encontro entre tradição (o início do choro em Brasília) e a modernidade (a Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello2), tendo como objetivo entender a força do gênero na cidade, a quantidade, a diversidade e a notável participação de instrumentistas locais interessados neste tipo de música. Estas questões nos remetem a investigação da história do choro na Capital Federal, da criação do Clube do Choro de Brasília3, da EBCRR. Conhecer as razões desse interesse, constatar a relevância cultural, social e pedagógica dessas instituições e suas ligações com a vida dos músicos, dos estudantes e do público em geral são importantes contribuições trabalho.
         A pesquisa foi iniciada com um levantamento bibliográfico sobre o choro; como surgiu, de que se constitui, em que se fundamenta. Depois, o trabalho foi direcionado para o conhecimento de sua história em Brasília. A escassez de fontes escritas nos levou a recorrer a diversos tipos de documentos; entrevistas com músicos, professores e alunos, recortes de jornais, fotos.
A etapa seguinte foi conhecer o CCB e a implantação da EBCRR. O contato com a documentação sobre a Escola, incluindo seu projeto, e a conversa com professores e alunos foram fontes usadas para aproximarmos-nos do objeto. As observações4 feitas na EBCRR,

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1-       Pesquisa pelo Programa Institucional de Iniciação Científica – PIBIC / Unb, de agosto de 2002 à julho de 2003.
2-       A expressão será substituída pela sigla EBCRR.
3-       A expressão será substituída pela sigla CCB.
4-       Além das observações realizadas durante a pesquisa, foi realizado um trabalho de observação na EBCRR para a disciplina Fundamentos da Educação Musical (professora Cristina Grossi).

nas aulas, nas “rodas de choro”, nos workshop e nas apresentações finais também foram
incluídas no projeto. No decorrer do processo, uma das etapas foi dedicada ao estudo de formação de currículos, filosofia de educação formal e não formal.                                                                            
A existência do caráter informal da performance, a presença da improvisação na execução das músicas e a forma como estas características são lidadas na atualidade e na EBCRR são aspectos relevantes que se evidenciaram na medida em que avançou a investigação.
2) RECUPERANDO PARTE DA MEMÓRIA DA CIDADE
Em Brasília, o choro teve início semelhante ao seu surgimento no Rio de Janeiro; brotou nas rodas de amigos. Eram, em sua maioria, funcionários públicos transferidos para a nova capital e se reuniam nos finais de semana em casa de amigos para se divertirem. Durante um longo período o choro sobreviveu em Brasília nessas reuniões informais e em pequenas apresentações realizadas em escolas, hotéis e bares.
O músico Avena de Castro5, que chegou em Brasília nos anos 60, foi um dos grandes articuladores desses encontros. Reunia-se com outros músicos nos sábados à tarde, com muita freqüência na casa do jornalista Raimundo de Brito6. Com sua morte, em meados dos anos 70, as reuniões passaram a ter lugar no apartamento da professora e flautista Odete Ernest Dias, recém contratada pela Universidade de Brasília. Encantada com o choro, ela participou e divulgou de forma intensa essas reuniões na cidade. O movimento
5-       O músico tocava cítara. Veio à Brasília como contador de uma construtora. Foi sócio fundador e o primeiro presidente do Clube do Choro de Brasília; foi também presidente da Ordem dos Músicos de Brasília. Faleceu em 1981.
6-       Raimundo de Brito era redator dos anais da Câmara dos Deputados. Tocava piano clássico e cavaquinho. Morava em um apartamento na 105 Sul.
em sua residência cresceu tanto que foi necessário pensar na possibilidade de uma sede para
concretizar a agremiação que se chamaria Clube do Choro de Brasília.
A sede, no Centro de Convenções de Brasília, foi conseguida pelos músicos depois de o então governador Elmo Serejo7 ter conhecido e desfrutado alguns choros executados pelo grupo. O local foi todo equipado com o dinheiro e os esforços dos músicos. As atividades no CCB ocorriam nos finais de semana. Servia-se comida típica no almoço, a preço razoável, para atrair o público para a “roda de choro” que acontecia no lugar. Nesse período, as atividades do Clube eram reuniões harmônicas e familiares.
No início dos anos 80, na presidência de Francisco de Assis, o CCB já apresentava intensa programação musical de quarta-feira ao sábado. A contribuição dos associados (300), a renda do bar e o apoio do Departamento de Turismo de Brasília geravam receitas suficientes para pagar passagens e a hospedagens dos chorões de outras partes do país que vinham se apresentar a cada semana no local.
Mas as dificuldades começaram a surgir e o Clube teve sua programação reduzida. A falta de recursos para a melhoria do local e para pagamento dos artistas, a ausência de interesse de patrocinadores, sem contar com a dificuldade de promover um gênero brasileiro nos meios de comunicação de massa da época estão entre os fatores que contribuíram para isso.
Depois de ter sido furtado e inundado por um esgoto estourado, o CCB foi fechado
7-       Engenheiro, maranhense, nomeado diretamente pelo regime militar na presidência de Ernesto Geisel para governar Brasília de 02.04.1974 a 29.03.1979
em 1986. Nesse período, suas atividades se deram fora de sua sede, em diversas apresentações, tendo até gravado um álbum duplo de discos. Na tentativa de reativá-lo, foi apresentado ao governo os projetos de reaparelhamento e manutenção do Clube, do “Choro de Botequim” e da “Escola Nacional de Choro”. Este último foi inscrito no Programa Nacional de Apoio a Cultura no ano de 1993 e destinava-se a ensinar os instrumentos típicos do choro a menores carentes. Ele não foi aprovado.
         Em 1993, o músico Henrique Filho, o Reco do Bandolim, assumiu a presidência do CCB, interrompendo um processo de despejo que estava em andamento em unidade do Governo do DF, conseguindo, em 1995 a regularização da sede junto à Terracap8. Para reiniciar as atividades e atrair público, foi feito um show com o violonista Raphael Rabello e o bandolinista Armandinho Macedo, com a renda revestida para a reforma.
         Nessa sua nova fase, o CCB se firma em Brasília. Desde 1997 ele funciona com o suporte de patrocinadores e um projeto anual temático homenageando um músico brasileiro. Por meio dessa agenda, divulga e aprofunda os conhecimentos acerca da obra do homenageado. 
Os shows acontecem de quarta a sexta-feira. O projeto “Prata da Casa” também faz parte da agenda do CCB, acontece aos sábados e é reservado aos artistas da cidade. Aos domingos acontece uma feijoada com uma “roda de samba e choro”. Os shows são transmitidos para todo o país pelas TVs Senado, Câmara e TVE, que alcançam um público estimado em 12 milhões de telespectadores.     
 8- Companhia Imobiliária de Brasília – TERRACAP, que assumiu os direitos e as obrigações na execução das atividades imobiliárias de interesse do Distrito Federal.

3) A MULTIPLIAÇÃO DO CHORO EM BRASÍLIA
O sucesso do CCB possibilitou a realização de outro projeto; a Escola Brasileira de Choro Raphael Rabelo, inaugurada em 29 de abril de 1998 pelo presidente Reco do Bandolim. O projeto da Escola foi apresentado ao Ministério da Cultura e julgado desnecessário, por esse órgão acreditar que já existiam muitas escolas de músicas. Depois de aprovado na Câmara Distrital do D.F., o Ministério da Cultura reavaliou sua decisão e a Escola passou a contar com o incentivo da Lei do Mecenato. A Secretaria de Turismo do D.F. cedeu um espaço do Anexo do Centro de Convenções de Brasília, ao lado da sede do CCB, que é utilizado pela Escola, enquanto aguarda a construção de sua sede definitiva.
O principal objetivo da instituição é dar ao músico intimidade com a linguagem do choro, mantendo a característica da informalidade do gênero e ao mesmo tempo desenvolvendo no aluno capacidades necessárias a sua formação como músico.
O aluno tem ao todo três encontros por semana; aula de instrumento, aula de teoria e ensaio com seu grupo. Além disso, participam das “rodas de choro”, que acontecem no último sábado de cada mês e dos workshops oferecidos pelos músicos que vem se apresentar como parte da programação do CCB.
Cada curso está dividido em três níveis; iniciante, intermediário e avançado. O sistema de avaliação é feito na base da observação do desenvolvimento do aluno e no controle de presença. Os níveis dos cursos não têm duração específica; os alunos são remanejados de turma de acordo com suas necessidades.
Os alunos estudam as obras dos grandes mestres do choro. O processo de aprendizagem é coletivo; todos aprendem mais ou menos o mesmo repertório, independente do instrumento e da idade, para que a troca de experiência também ocorra no momento de prática em grupo (ensaios e “rodas de choro”). Por isso, o repertório tocado na aula depende do que o grupo de cada aluno está tocando. Ele é sugerido pelos professores e pelos próprios integrantes.
De modo geral, o intuito das aulas é possibilitar que os alunos tenham um bom desempenho em situações reais. Por isso, as aulas de instrumentos muitas vezes são focadas na resolução de problemas surgidos durante os ensaios com os grupos. Esses funcionam como um incentivo ao estudo do instrumento, pois “o domínio do repertório do grupo é um desafio sempre presente na prática musical” (SANTOS, 1994:p.20). E o domínio do repertório requer o estudo das músicas e o desenvolvimento de habilidades que possibilite essa prática. Isso faz com que a EBCRR funcione também como um espaço para encontro de músicos e formação de grupos e não apenas como um ambiente para seguir um programa ou currículo. 
Essas afirmações são garantidas a partir da comparação da EBCRR com a prática e a proposta pedagógica de uma escola de música profissionalizante. A observação foi feita na Escola de Música de Brasília – EMB que como unidade do governo do DF, segue o Regimento Escolar das Instituições de Ensino da Rede Pública da capital.
A EMB oferece 35 Cursos Básicos seqüenciais em áreas instrumentais, vocais e de novas tecnologias musicais, com cargas horárias distribuídas entre 1100 e 1800 horas. No Nível Técnico são ofertados 36 Cursos com cargas horárias entre 1278 e 1800 horas. Os Cursos Básicos possibilitam o ingresso nos Cursos Técnicos.Os Cursos são divididos em níveis, com os conteúdos organizados em cronogramas.
Já na EBCRR são oferecidos cursos de instrumentos típicos do choro (violão, violão sete cordas, cavaquinho, bandolim, pandeiro, flauta, saxofone e clarineta), não existe uma definição regida de carga horária e não há cronograma especificando o desenvolvimento dos cursos. Cada professor organiza suas aulas da maneira que desejar.
Ao contrário da EBCRR, as turmas da EMB são divididas em faixa etária. A avaliação é feita por meio de bancas, testes e presença às aulas. Além disso, prevalece o sistema de menções.
Percebe-se que a mistura das características formais e não formais da EBCRR assegura ao choro a permanência de suas características elementares. A Escola se estabelece como um importante espaço para a divulgação do gênero, promovendo o encontro de músicos e a formação de grupos que já atuam ou prometem atuar no cenário musical da cidade e do país. Destaca-se também como forma de aprendizado, a programação artística do CCB, que mostra modelos de performances a serem seguidos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ENTREVISTAS

Araújo, Sandro. Entrevista concedida em 02/12/02.
Bandolim, Reco do (Henrique Filho). Entrevista concedida em 16/11/02.
Caetano, Rogério. Entrevista concedida em 12/12/02.
Costa, Hamilton (José da Costa Pinto). Entrevista concedida em 19/10/02.
Dias, Odete Ernest. Entrevista concedida em 7/11/02.
Filipe, Bruno. Entrevista concedida em 10/12/02
Moraes, Sergio. Entrevista concedida em 31/05/03.
Pandeiro, Pernambuco do (Inácio Pinheiro Sobrinho). Entrevista concedida em 24/10/02.

Pinheiro, Everaldo. Entrevista concedida em 31/05/03.