terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Cover-Caminho para a criação e profissionalização de Músicos Populares.

ENCONTRO SULAMERICANO DA IASPM.

Paula Agrello Nunes Oliveira
Mércia Pinto.


Resumo
Considerado por muitos como inautêntico, o cover é marca registrada de muitos grupos musicais. Ele é entendido como a ação de executar ou gravar uma composição previamente gravada, tentando se aproximar fielmente do original ou fazendo um comentário sobre o trabalho ou estilo. O termo é atual mas a sua prática é bem mais  antiga, quando o acesso  à performances famosas não eram tão fáceis de adquirir. Instrumentistas e cantores que imitavam os ícones da música popular tinham seu público e salários garantidos. Ele está relacionado com o desenvolvimento dos mecanismos de reprodutibilidade da música mas também com a maneira como o intérprete imprime sua marca, as reações do público a inovações ou fidelidade ao original. Tendo como base as bandas “covers” do D.F, esta comunicação, que é parte de uma pesquisa de PIBIC (2003/04), considera a definição do termo como ponto de partida para a investigação.

Palavras chaves: bandas cover/ música popular urbana/ música em Brasília




Essa comunicação resulta de parte de uma pesquisa de PIBIC intitulada  Bandas cover no   Distrito Federal: sua força na música brasiliense[1], que tem por objetivo avaliar a atuação e a popularidade deste tipo de prática musical no cenário cultural da capital federal.
Começamos nosso estudo com a procura de uma definição para o termo “cover”.  que tentamos discutir aqui.
No  verbete do The Oxford Dictionary (1984) lê-se:
Manter segredo ou proteger algo, colocando alguma coisa sobre ou na frente desta. Fornecer a alguém algo que a cubra. Proteção, vestimenta; coberto
minunciosamente com; coisa que cobre; abrigo; identidade falsa; fingida[2].

Como músicos, o que nos chama a atenção na definição é a referência à vestimenta, cobertura e mais ainda a alusão a fingimento ou falsa identidade. Isso significa que quando uma banda é “cover” desse ou daquele grupo musical, ela se veste com a roupa (musical) do outro grupo, ela dá de algum modo cobertura no sentido de divulgar ou popularizar o grupo. Ela também pode então fingir que é este, se apresentando com uma falsa identidade. Evidente que para isso ela use o repertório, gestos, instrumental do grupo em questão.
A versão apresentada pelo The Oxford Companion to a Popular Music (1991), mais relacionada com nossa área de estudos, toca em aspectos que nos pareceram relevantes; a reprodução de sucessos musicais, o objetivo comercial e o surgimento do termo.
A versão “cover”  é a gravação de uma canção já produzida com sucesso por um artista popular, que pode ter sido provavelmente composta por alguém menos famoso, para freqüentemente prover um rótulo de gravadora menos conhecida ou por razões promocionais. Antigamente, na era da música com partitura em papel, o termo foi amplamente usado de forma livre para qualquer exploração generalizada de canções em um campo específico; mas nos dias atuais do Rhythm’n’ blues, a atividade tornou-se especialmente associada a um menor conhecimento. Na Grã-Bretanha geralmente, os artistas fazem versões de “hits” de artistas já conhecidos na América (antes dos Beatles reverterem esse processo); tem havido ocasiões onde a versão cover tem suplantado a versão original[3].

Walter Benjamin em seu clássico artigo A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução (1983) discute e amplia nossa compreensão do termo quando enfatiza que o trabalho artístico é sempre suscetível de reprodução, seja com finalidade de extrair proveito material ou garantir sua difusão. Para ele, o que é feito por um, pode ser refeito por outros. A multiplicação de cópias é que o transforma em fenômeno de massas, proporcionando acesso de pessoas a esse trabalho, garantindo assim uma maior proximidade com o objeto[4].
O pensamento de Benjamin, mesmo sem fazer referência ao termo, nos remete à idéia da possibilidade de reprodução de trabalhos artísticos. Verifica-se que reproduzir uma melodia através de cópias, verter sua letra para outra língua, ou parodia-la, é atividade antiga.
Um momento interessante dessa prática foi a invenção da impressão com caracteres móveis em 1454[5]. Foi acontecimento de grandes conseqüências tornando a música escrita cada vez mais exata. Disseminou partituras, popularizou melodias, facilitou a performance e o ensino, permitindo que maior número de pessoas usufruíssem o prazer de cantar e tocar um instrumento[6].
Quatro séculos depois, o crescimento das cidades, a demanda de lazer por parte da burguesia ascendente, marcou o séc. XIX.  A transição do publico musical pequeno, culto e homogêneo para o público burguês, numeroso, diversificado e inculto já se iniciara no séc. XVIII juntamente com o crescente desaparecimento do mecenato, o crescimento das sociedades de concertos e dos festivais. Com o enriquecimento de alguns grupos, cresce também o interesse pelo aprendizado de instrumentos tendo como uma das conseqüências a demanda de impressão de músicas, de arranjos e de livros pedagógicos. A secularização crescente da sociedade muda o eixo da vida musical das igrejas para os teatros, casas de espetáculos, restaurantes, bailes, festas aumentando cada vez mais a necessidade da execução (reprodução) de músicas de sucesso.
No Brasil ocorre fenômeno semelhante. A chegada da côrte  portuguesa em 1808 desencadeia uma espécie de valorização e desenvolvimento da vida urbana. Os salões aristocratas, os bailes, os teatros e as serestas começaram a fazer parte das necessidades dos cidadãos e neste contexto a música era ingrediente indispensável, propiciando o aparecimento de cantores e instrumentistas. Ela também passa a ser essencial na educação sentimental dos jovens.
No outro lado da sociedade colonial, o que dizer dos “conjuntos de barbeiros” de que tanto falam os viajantes? Ganhavam a vida tocando de ouvido, reinventando, adaptando, arranjando e difundindo o repertório vigente na época. Junto com aqueles que animavam os salões, não seriam eles uma espécie de “covers”  do Brasil colônia?

Até a chegada do radio em 1922[7], a atividade editorial de músicas no Brasil era incipiente[8]. A reprodutibilidade do repertório (árias de óperas, valsas, mazurcas, quadrilhas etc) era garantida por cópias manuais feitas por copistas ou pelos cadernos que moças e rapazes guardavam com letras das músicas que gostavam. Nos momentos de lazer, a performance e os arranjos eram garantidos a partir do talento dos instrumentistas.
Com a criação e popularização da imprensa, essa prática “artesanal” deu lugar à indústria de revistas. Os espaços culturais e de convivialidade dos salões e serestas localizam-se agora nos auditórios das rádios com os programas de músicas ao vivo, com prêmios para os melhores instrumentistas e intérpretes ou aqueles que melhor “fingissem” a maneira da cantar do seu  astro. Impressas com fotos dos cantores da época, essas publicações[9] passam depois a vir com cifras para facilitar seus arranjos e sua difusão. Nas décadas de 40 e 50 um novo meio contribui para a diversificação e difusão dos repertórios musicais. O cinema aparece tornando-se um bem de consumo. O Brasil é coberto por imagens e sons de outros mundos, misturando e criando novos gêneros. Mesmo sendo considerada ainda uma sociedade onde o consumo era insipiente (Ortiz, 2001: p113), centenas de conjuntos musicais se esmeravam tentando executar o mais fiel possível os sucessos da época.
            A aparição do disco de cera e depois o long play[10] na década de 60 representa outro momento interessante no crescimento da reprodução da música. O quadro cultural dessa época aponta para a crescente indústria cultural no Brasil, com a expansão dos mercados fonográficos (diversificação dos selos), editoriais (aparecem inúmeras revistas) e o incremento à publicidade (a criação de Jingles). Buscando expandir suas bases, esses mercados passam a diversificar cada vez mais seus produtos, objetivando atingir assim maior número de pessoas. Música para ouvir no carro, nas lojas, para dançar, para namorar, música de protesto[11].
Não podemos negar que abertura da sociedade para uma vida mais urbana, a secularização dos costumes contribuiu para o aumento do consumo de música. Imitando ídolos, ou tocando e popularizando o repertório de orquestras conhecidas, muitos instrumentistas e cantores adquiriram notoriedade inclusive por terem vozes parecidas com este ou outro cantor[12]. Com o barateamento dos aparelhos de reprodução do som; o toca discos e depois o toca-fitas, a indústria do disco começou a editar LPs com os maiores sucessos (as dez mais) do ano, garantindo mais venda para seus produtos. Arranjados para dançar ou num estilo mais romântico, esses “hits” como eram chamados muitas vezes faziam mais sucesso do que os originais. Despertavam tantos desejos quanto os LPs de trilhas sonoras dos melhores filmes do ano. É interessante constatar que na década anterior, os EEUU apresentavam o mesmo cenário. Shuker (1999) comenta que ali, as versões cover eram conhecidas nos anos 40 e 50 como standards , ou seja, canções que se tornaram “clássicas”, requisitadas, requisitadas nos bailes da juventude.
Não podemos esquecer que a Bossa Nova despertou enorme interesse na classe média intelectualizada. Na década de 60, imitar os trios de Bossa Nova era comum entre universitários. A improvisação característica do estilo fazia emergir talentos locais.
Entre os grupos mais jovens, os instrumentos eletrônicos e a popularidade dos Beatles fomentavam o aparecimento de milhares de bandas que se sustentavam tocando o repertório do famoso conjunto inglês. As versões em português de músicas de grupos reconhecidos na época viraram moda. Pode-se dizer que esses grupos musicais eram os “covers” do modernismo.
É visível que o que caracteriza a situação cultural dos anos 60 e 70 é o volume e a dimensão do mercado de bens culturais. Em Brasília executar o repertório de grandes intérpretes ou compositores, tem sido prática recorrente desde sua inauguração. Verifica-se que nos anos 60, além da Bossa Nova, o rock começava a despontar e a juventude brasiliense caracterizada pelo seu maior poder aquisitivo, incorporava também instrumentos eletrônicos às suas performances[13]. Ainda é Shuker (1999) que nos informa um pouco sobre a época.
Nos anos posteriores, a estética do Rock que valorizava a criatividade individual, passou a denominar as versões cover como não autênticas e menos criativas do que as versões originais. Só ocasionalmente elas foram consideradas pelos seus próprios méritos.

Admitimos que durante algum tempo esse tipo de trabalho foi desvalorizado. Mas à partir dos anos 80, a diversificação de bandas, o aumento de profissionais de música sem aprendizado formal, possibilitou a disseminação de covers. Isso coincide exatamente com o aparecimento do termo e de seu uso, que é atribuido a Hatch & Millward[14].
Hoje, são notáveis a quantidade, a diversidade, e a participação de bandas que se sustentam Um dos aspectos que chama a atenção quando nos aproximamos do fenômeno é que da performance de outros repertórios que não os seus[15]. Tocar o repertório de grupos musicais famosos é antes de tudo uma forma de aprendizado informal.  Neste sentido concordamos com Hatch & Millward, (1987) quando afirma que copiar canções permite que o principiante torne-se um membro competente de uma tradição musical. Continuando insiste que isso se aplica tanto aos músicos quanto ao público.
Imitar o som, a técnica, o timbre do ídolo, é também o caminho secularmente mais usado para se chegar a criações originais. É também uma das formas de profissionalização de afirmação pessoal e ascensão social para muitos músicos. É relevante afirmar que além de divulgar ao vivo músicas de sucesso, algumas versões covers até aumentam a popularidade da canções original. Para o público, ouvir uma banda “cover” é ocasião para se sentir mais perto de seu ídolo, para vivenciar momentos de nostalgia ou mesmo exercitar sua sensibilidade. Na discussão sobre autenticidade versus criatividade, Butler (2003), que estudou na Inglaterra as bandas covers dos “Petshop Boys”, afirma que improvisos e execuções diferentes são muitas vezes permitidas no momento da performance. Essa flexibilidade nas interpretações podem diferenciar bandas covers de um mesmo artistas, permitindo ao público fazer distinção entre uma banda e a outra.
Retomando o objetivo desse texto, vemos que fingir, se identificar, dar cobertura (no sentido de popularizar e facilitar o sucesso) fazendo ou não releitura de repertório, explícito nos verbetes dos dicionários, tem sempre acompanhado a criação musical. Reproduzir sucessos musicais com objetivo comercial está intimamente ligado à função do músico, seja ele profissional ou amador.  As versões cover são um produto já testado, que o público pode frequentemente identificar com facilidade, cantar e até participar do momento de sua performance.

REFERÊNCIAS
ADORNO, Theodor W. 1983. “O fetichismo na música e a regressão da audição” in: Os pensadores. São Paulo, Abril cultural.            
BENJAMIM, W. 1983. “A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução” in: Os pensadores. São Paulo, Abril cultural.
BUTLER, Mark. 2003. “Taking it seriously: intertextuality and authenticity in two covers by the Pet Shop Boys” en  Popular Music volume 22/1. Cambridge University Press.
GAMMOND, Peter. 1991. The Oxford Companion to popular music. New York, Oxford University.
GRAUT, D.J. e Palisca. 2001. História da música ocidental. Gradiva, Lisboa.
MADEIRA, Angélica. 1999. “Música, estilo e cultura urbana: juventude brasiliense dos anos 90” en: Anais do II congresso da IASPM. Santiago–Chile.
MARCHETTI, Paulo. 2001. O diário da turma 1976-1986: a história do rock de Brasília. São Paulo, Conrad Editora do Brasil.
ORTIZ, Renato. 2001. A moderna tradição brasileira. São Paulo, brasiliense.
SHUKER, Roy. 1999. Vocabulário de música pop. São Paulo, Hedra.

OUTROS:
  • The Oxford Dictionary
  • Entrevistas
      - Cleves Nunes da banda “Tributo a Eric Clapton”
      - Deise Agrello
      - Eduardo Sampaio da banda “Friends”
      - Professora Mércia Pinto
      - Rodrigo Karashima da banda “Let it Beatles”.

Paula Agrello Nunes Oliveira é aluna do 8º semestre de licenciatura do Departamento de Música da Universidade de Brasília. Estuda canto erudito e dá aulas de canto popular. É vocalista da banda cover “Tributo a Eric Clapton”.






[1] A pesquisa é orientada pela professora Dra Mércia Pinto, coordenadora do Núcleo de Estudos de Músicas Urbanas (NEMUR)
[2] “Conceal or protect (a thing) by placing something on or in front of it; provide (person) with something that covers; protect, clothe; strew thoroughly with; thing that covers; shelter, protection; pretended identity”.
[3] “Recording of a song already made into a hit by a popular artist, who today would probably also be its composer, by someone of lesser fame, often to provide a cheap label or for promotional reasons. Earlier, in the sheet music era, the term had been more loosely used of any general exploitation of songs in a specified field; but in the early rhythm ‘n’ blues years the activity became especially associated with lesser – known, often British, artist making versions of hit songs already made famous by top American Artists (until The Beatles reversed the process); and there have been occasions when the cover version has superseded the original”.
[4] 1983: p 4 - 28.
[5] Gutemberg- 1398 - 1468.
[6] Grout, D. e Palisca, C. 2001: p 276 - 278.
[7] O rádio chega ao Brasil em 1922 mas até 1935 ele não tinha caráter comercial. Existiam poucos aparelhos  e a programação era restrita a determinados horários. É só a partir de 1930, com o barateamento dos aparelhos que ele passa a se difundir. (Ortiz, 2001: p 39)
[8] A maioria vinha importada da Europa  sendo quase inacessível a todos.
[9] A mais conhecida era a “Revista do Rádio”
[10] Os primeiros long-plays surgem em 1948 mas só em 1960 torna-se elemento de consumo das classes populares.
[11] O rótulo Som Livre, da Globo, editava somente trilhas sonoras de novelas.
[12] Podemos citar os grupos que em duos vocais, dois violões e uma percussão, cantavam versões de boleros conhecidos.
[13] Marchetti, 2001.
[14] Shuker, 1999.
[15] Torna-se evidente essa relevância ao ler os cadernos de fim de semana dos jornais locais.