Canção do Pastor:
encontro entre a
tradição culta e a popular.[1]
A história da música ocidental tem presenciado ao longo dos
séculos, muitos encontros entre sua tradição culta e a popular. A trajetória de
gêneros como o vaudeville, inicialmente
canção satírica cantada por músicos de rua, sendo mais tarde incorporado à ópera,
transformando-se em gênero popular de teatro no sec. XX, dão-nos um exemplo de
como a música de um grupo social chega a ser aceita por outro segmento da
sociedade passando a ter novas funções e significados. Num caminho oposto, o repertório musical das
camadas mais cultas tem sido frequentemente incorporado à produção popular.
Árias de óperas, temas de sinfonias, cantatas e outros gêneros são simplificados
para serem dançados ou usados como trilhas sonoras de filmes. Outras melodias
são parodiadas para virarem jingles e
novos arranjos são feitos para serem dançados em discotecas, etc.[2]
No Brasil, a assimilação de uma arte sofisticada e racional
por uma audiência menos culta ou vice-versa, pode ser percebida em muitos
exemplos: melodias de óperas adaptadas para marchas militares, ou
reinterpretadas em hinos populares religiosos, gêneros dos salões europeus do sec.
XIX que ao se fundirem com ritmos locais se transformam em novos gêneros, e no
sentido inverso ritmos populares que invadem os salões burgueses, numa mútua
cooperação tornando mais tênues as linhas divisórias entre esses dois mundos.
Como e porque determinados gêneros, estilos musicais ou mesmo
momentos de uma composição são de alguma forma assimilados no repertório
musical de um grupo para o qual eles originalmente não foram destinados?
Evidente que esta questão está relacionada com a formação do gosto e da
tendência dos grupos sociais em difundir a popularidade deste ou daquele
estilo, bem como a função para a qual a música é conhecida ou reinterpretada.
Mas que tipo de repertório musical e que detalhes do mesmo têm sido mais usados
neste processo? Paolo Prato em seu estudo sobre as conexões do pop e do
clássico no kitsch musical (1985, p.
376), afirma que a maioria das melodias que se prestam a serem de alguma
maneira reinterpretadas pertence à época do domínio da tonalidade: ao período
entre o barroco e o romantismo. As obras instrumentais são preferidas, e
evidentemente nessa escolha a linha melódica é mais importante do que a
harmonia, e a característica do cantábile é outra opção frequentemente
escolhida.
Este artigo propõe-se a abordar numa canção alguns aspectos
dessas trocas, ou seja: como a música culta interage com a popular e
vice-versa; e como elementos musicais ou líricos de uma tradição musical são
reelaborados em novos padrões, ligados em novas combinações para adquirir novos
significados. Muito mais que uma análise musical descritiva, tentarei
identificar a coexistência dessas vertentes, aproximando o leitor do
significado da canção e oferecendo por meio de seus vários planos
interpretativos uma contribuição para o desenvolvimento dos métodos de
investigação e análise da música popular no Brasil. Trata-se da Canção do Pastor, e faz parte do Pastoril da Cigana, colhido em 1966 num
subúrbio de Fortaleza, Ceará.[3]
Os pastoris são pequenos autos natalinos que revivem a
jornada dos pastores para Belém.[4]
Constando de canções, loas e danças que eram usualmente encenadas em frente ao
presépio armado nas casas ou igrejas, eles aparecem no Brasil como resultado da
mútua influência de culturas que a colonização trouxe. Durante o século XIX, no
entanto, o fenômeno começa a ter mais e mais em comum com a cultura popular
urbana, período de crescimento e diversificação dos grupos sociais nas cidades
brasileiras.
Desde o início da cristandade, as comemorações do nascimento
de Cristo sempre foram ocasiões em que conviveram lado a lado o sagrado e o
profano. Na Idade Média, mesmo considerando-se essa convivência como um
paradigma da vida social da época, as festas natalinas, com suas canções e
jogos teatrais eram considerados ocasiões em que, mediadas pela religião que
buscava novos adeptos, trocas culturais eram efetuadas entre os diferentes
segmentos sociais. Dessa forma, podemos dizer que o etos do evento é “poroso”,
abrigando não só a religiosidade oficial e a popular, mas o imaginário de
diferentes grupos sociais que conviviam abertamente na confraternização do
momento. Adrienne Block, em seu estudo sobre os Nöels franceses admite não só sua origem literária,[5]
mas também seu caráter híbrido. Enfatiza também seu caráter paródico, visto que
sua lírica e melódica são modelados em cima de clichês preexistentes, usando a
estrutura de verso de outro poema ou mesmo substituindo o texto numa música
vocal. Nesse sentido, seus parentes brasileiros, além desse caráter paródico,
são por excelência ocasiões apropriadas para observar essas trocas culturais.[6]
A canção do Pastor nos
mostra um repertório de associações musicais, verbais e visuais e liga
elementos estéticos religiosos e éticos, evidenciando como eles são articulados
no Natal. Ela representa praticamente o início do auto, visto que sua lírica fala
do cenário no qual vai se desenrolar toda a ação da peça: uma cena pastoril
noturna na qual um grupo de pastoras está adormecido na relva. É aí que entra
Jacó, o pastor, que lidera o grupo no caminho de Belém.
Eu sou um pobre pastor,
que ando pelas campinas.
Ando procurando flores,
que ando pelas campinas.
Ando procurando flores,
Para levar ao Deus Menino
Vejo um grupo de Pastoras,
Na verde relva deitadas.
Serão minhas companheiras,
que dormindo estão cansadas.
A noite está tão bonita,
o céu está todo estrelado.
Será para minha defesa,
este tão forte cajado.
Ela se caracteriza pelo andamento moderado e um caráter cantábile e suave, sugerindo uma atmosfera de quietude e paz. Sua lírica povoada de um repertório bucólico de imagens, clichês típicos que reproduzem o ambiente pastoril, reforça essa atmosfera. Logo num primeiro olhar, nota-se a alternância de dois elementos contrastantes em sua melodia; o arpejo ascendente (compassos 1 e 3) e os graus conjuntos (compassos 5 e 7). O contraste é intensificado pela performance quando o pastor, com os braços abertos e o olhar direcionado para o alto mostra a amplidão do espaço (primeira estrofe), as pastoras deitadas na relva (segunda estrofe) e o céu estrelado (terceira estrofe). O arpejo de Ré maior na segunda inversão leva a primeira parte da melodia para o campo da dominante do tom principal, depois de identificar o ego poético da canção – um pobre pastor. Em seguida a ação do mesmo (andar pelas campinas) e descrita com um amplo arpejo de décima primeira atingido por um intervalo de quinta, musicando exatamente a palavra “campinas”, algo mais grandioso e espiritualizado que o extasia. Esta coerência entre a lírica e a melodia aparece também na segunda estrofe, quando fala da “verde relva” que de certo modo participa do mesmo campo semântico de “campinas”. A descrição da noite estrelada (terceira estrofe) segue também esse mesmo esquema do uso de arpejos para expressar cenas bucólicas e idílicas, imagens idealizadas do ambiente rural. O desenho simples da linha melódica da canção pode nos fornecer um pouco da elevação das montanhas e da grandeza dessa natureza.

A segunda parte de seu
discurso musical é caracterizada por intervalos de tessituras menores,
expressando o passo a passo da ação de colher flores (primeira estrofe), o
cansaço das pastoras após o trabalho diário no campo (segunda estrofe) e a
constatação de que seu cajado é sua defesa (terceira estrofe). A aparente
simplicidade e coerência dessa canção e sua relação com o pequeno auto não é
natural e nem inventada. Ela é produto de um trabalho cultural. Seu estilo
musical é resultado de um agrupamento de elementos de variadas fontes, cada uma
com variadas conotações histórica. Mais ainda, esses agrupamentos, em algum
momento e em apropriadas circunstâncias, foram abertos e seus elementos
rearticulados em outro diferente contexto.
As considerações
feitas até agora estão relacionadas com a interpretação pelo imaginário popular
de um idioma pastoral típico dos séculos XVII e XVIII quando compositores
absorveram e incorporaram uma larga gama de vocabulário instrumental e vocal
que passou a identificar para o ocidente a música campestre. Evidentemente, a
música com sabor “rural ou urbano” é anterior à época em que foi colhida esta
canção ou mesmo das atuais duplas sertanejas. O sentimento estético em relação
à paisagem, ou que trata a natureza como objeto distante, pode ser identificado
já em Homero, na Ilíada onde motivos
pastorais já eram apresentados com diferentes implicações. A apreciação
estática dos prazeres do campo (livro 8), o reconhecimento da vulnerabilidade
do pastor, face as grande forças da natureza, e a impossibilidade de proteger
todo o seu rebanho (livro 5) são alguns dos aspectos que vão mais tarde
caracterizar a literatura pastoral do ocidente. Em algumas passagens nas
meditações daquele homem simples e isolado, Homero o faz seu ouvinte (livro 4).
Usar motivos pastorais em obras literárias foi comum entre a privilegiada
minoria dos homens livres da Grécia dos anos 800-100 a.C. Theócrito com seu Idillys (século III A.C) que deu a
Virgílio a matriz para suas éclogas e bucólicas (século I a.C.) já pintava o
rural com sofisticação e fantasia, imaginando instrumentos que simbolizassem a
vida simples dos pastores. Mas certamente para que o ambiente rural fosse
descrito de forma idealizada pelos artistas da época, já devia existir um
ambiente pastoril e outro não, ou seja, já deveria haver grupos humanos que
levavam a vida longe daqueles que sobreviviam das atividades rurais.
Philip Tagg coloca bem
o surgimento dessa idealização do campo em arte como sendo paralelo ao
surgimento das cidades:
Torna-se óbvio que a vida no campo
não pode ser diferenciada da vida urbana a não ser que cidades (não campo)
existam. Parece também claro não existir nenhuma estética cultural distante da
natureza até que a divisão do trabalho resultando em tipos particulares de
divisão de classes tenha se desenvolvido até o ponto onde uma classe possa
viver do trabalho de outra.
It should be obvious that country
life cannot be distinguished from city life unless cities (no country) exist.
It seems also to be follow that there can be no cultural aesthetic in
particular types of classes division has developed to the point where one
class, thanks to the labour of another is severed both from its objective
proximity to nature and from the collective subjectivity inherent in patterns
of culture resulting from real proximity to nature (Tagg, 1982, p.4)[7]
Mas a tentativa de
descrição da atmosfera rural por meio de clichês musicais, bem como a presença
da figura do pastor nesse pequeno auto, vai além de uma mera idealização da
natureza feita por literatos que em seu ócio imaginavam reinos distantes e
paradisíacos. Além de o mundo pastoril ter sido sempre visto como poético,[8]
ele também tem raízes no uso da imagem do pastor pelo cristianismo, como elo de
ligação entre Deus e os homens. A característica migratória de suas atividades,
favorecendo a contemplação, foi sempre usada pela igreja Católica na construção
do seu imaginário. A oposição entre Abel e Caim, o pastor e o agricultor, o
homem de fé e o ávido de violência, é puramente sugestiva. O pastor aceita
grato o que recebe, enquanto o lavrador luta contra o homem e Deus tanto quanto
contra a natureza[9]. A
humildade e simplicidade do Pastor que é comparado com aquele que cuida das
almas como se fosse seu rebanho são conhecidas de todo cristão. O pastor
representado em situação paradisíaca tem também caráter de
desterritorialização, pois supera os limites estabelecidos entre as classes
sociais. Assim, a atmosfera dessa canção com sua ligação com o contexto
natalino articula não somente a idealização da natureza, mas valores
espirituais e de lirismo que tem permeado a história do ocidente. Não é
coincidência que no Pastoril da Cigana, ele
é o primeiro personagem a aparecer, como que predizendo o momento especial da
festa em que classes sociais e intrigas eram esquecidas diante da grandiosidade
do momento.
Na Idade Média, o
prazer genuíno e vigoroso do mundo externo encontrou expressão na produção dos
menestréis, dando testemunho da simpatia sentida com relação à natureza. A
primavera com as flores, os campos e as matas verdejantes não passaram
despercebidos nem mesmo aos cruzados que reconhecem isso em seus poemas.[10]
Mas foi na Renascença quando, como afirma Burkhardt (1991), a natureza já
perdera suas cores de pecado e já haviam sido afastados todos os indícios dos
poderes demoníacos da mesma que o relacionamento de artistas com o rural tomou
novo impulso. Foram eles que primeiro
viram o mundo exterior como algo belo.
Basta um rápido olhar sobre a produção artística da época para nos
convencermos da graça e da ternura com que os literatos e pintores descrevem a
vida no campo. O efeito da natureza sobre o espírito também mostra provas em
Dante quando fala do ar da manhã, do tremelicar da luz do sol no oceano ou a
grandeza da floresta. Boccacio possivelmente estava tocado pela beleza da vida
no campo quando escreveu seus poemas. Petrarca, que foi geógrafo, fazendo o
primeiro mapa da Itália, também louva a vida campestre em sua obra (Burkhardt,
1991, p.178). Para nosso estudo, devemos dizer que foi também no século XVI que
os elementos estéticos que identificavam a vida no campo foram incorporados ao
repertório musical natalino. Um dos mais antigos documentos com a tentativa de descrever
o campo em música vem da Itália: Concerto
Pastoral ao Presépio opus 3 para seis vozes e contínuo da Francesco
Fiamengo, executado em 1637 em Veneza, numa cerimônia doméstica. Ali já dava
para o ocidente o protótipo das próximas composições em idioma pastoral.
Elementos estilísticos tais como efeitos de eco, orquestração baseada em terças
e sextas paralelas, frases simétricas, compassos 6/8, 9/8 ou 12/8 e longas
notas pedais no seu acompanhamento foram dali por diante incorporados como
imagens sonoras que identificavam para a burguesia da época a música das
comunidades agrárias e que com o advento do capitalismo passava cada vez mais a
ser estilizada e vista à distância. Evidentemente, a incorporação destes
exóticos ingredientes não foi destinada à população rural. Ao contrário, na
Europa eles espalharam-se nas salas de concertos dos séculos seguintes onde
como enfatiza Tagg (1982, p. 6) a burguesia relegava a natureza à posição de nostálgica
recreação, meditação ou outros estados emocionais. Esse idioma musical Pastoral
foi ainda mais popularizado por Corelli no seu Concerto de Natal opus 6 N. 8 (1714). Fux e Schmeltzer também
usaram este vocabulário musical e daí por diante, concertos grossos e cantatas
no mesmo estilo foram executados, inspirando seus sucessores.[11]
Na segunda metade do
século XIX, um novo dado foi adicionado nessa cadeia de ingredientes que
retratam a música do campo. Foi quando a noção de Estado-Nação passou a ser efetivamente
conectada com as cenas característica de suas paisagens. Os compositores
passaram então a desenvolver um estilo nacional usando o folclore de seus
países como ligação entre a hierarquia dos novos estados emergentes e as
qualidades de sua natureza. A identificação de fontes populares na produção
culta da época pode ser facilmente mapeada na produção dos compositores
nacionalistas. O desejo de demarcação
das fronteiras culturais das recém- criadas nações, e o orgulho de se verem
diferenciadas umas das outras, levaram compositores a criarem uma série de
imagens musicais que pudessem simbolizar rios, paisagens, estações do ano,
cenas de trabalho etc, em suas composições. Arranjado, digerido ou adaptado, o
repertório popular das comunidades agrárias foi reelaborado para criar o estilo
nacional em que a burguesia e o capitalismo cada vez mais poderosos pudessem
reforçar a noção romântica da ligação entre comunidade e estado.[12]
Dessa forma, mais significados à esfera da estética do gênero pastoral foram adicionados.
Associados com o exotismo de algumas
regiões, (andinas, romenas ou mediterrâneas), numerosos concertos e depois
sinfonias incorporara motivos pastorais em seu estilo. Dessa forma o tipo de
harmonia tranquila e os efeitos de eco sugeridos na Canção do Pastor devem ser tomados não só como reflexo da calma
grandiosa da natureza na noite de Natal, mas como referência direta a uma certa
“folclorização” dos clichês pastorais comentados anteriormente, que numa
espécie de retorno aparecem num auto popular.[13]
A chegada ao Brasil
das representações natalinas com seus clichês musicais, e poéticos, data da
chegada da chegada das missões religiosas e dos imigrantes europeus. A crônica da
Companhia de Jesus no Brasil é farta de relatos dessas encenações feitas com
crianças índias e no próprio aconchego dos conventos e dos lares da
colônia. Mas foi no século XIX , com as
transformações ocorridas na sociedade brasileira, que as festividades natalinas
vieram a enriquecer-se. A vinda da corte
portuguesa em 1808 não só transformou economicamente a colônia, mas introduziu
novos hábitos e costumes na população. O
crescimento das cidades transformou-se em fator favorável a trocas culturais.
Nesse contexto, a sala de visitas das famílias abastadas era o palco de apresentação
dos talentos domésticos. Escritores, poetas e atores começavam a exercer seus dotes,
e o natal, com sua característica de abrigar generalidades, seria ocasião
apropriada para a exibição destes dotes e a ostentação do poder das famílias.[14]
A Canção do Pastor, apesar de ter
sido colhida em 1966, pode ser considerada uma canção pastoril dessa época, em
que jogos teatrais encenados por Sinhá-moças eram entrecortados por procissões
de populares que cantavam e dançavam na sala de visitas das casas. Sobrevivendo
na memória popular, esta simples melodia encapsula estes valores.[15]
A simetria de suas frases, e as terças e sextas paralelas sugeridas para sua
harmonização funcionam aqui como arquétipos. Ela articula a estética pastoral
num novo padrão, recolhendo uma gama de material musical, poético e de performance preexistente, mediados por
certas imagens de classe, gênero, nacionalidade e religião.
III
Mas se por um lado o
Natal assimilava traços dessa estética letrada, sofisticada e artificial, por
outro lado ele abrigava características ligadas à religiosidade popular,[16]
no caso os Villancicos. Gênero de
origem secular, que surge como a canção simples de um camponês que louva algum
santo católico, foi ganhando aos poucos interpretação mais sofisticada nas
composições de músicos e poetas e músicos das cortes ibéricas.[17]
Desde o século XVI, o Villancico foi
aceito no novo mundo por intermédio de músicos de igreja, que liderados pelos
missionários, disseminaram o gênero nas comunidades das Américas. No Brasil, o
trabalho religioso e a imigração foram os principais responsáveis pela difusão
do gênero que incorporado ao catolicismo popular passou a fazer parte das
canções religiosas devocionais, sendo mais identificado nas canções natalinas.
Predominância de tons maiores, frases musicais e versos periódicos, construção
da melodia baseada em tríades, ausência de cromatismo, terminação das frases
musicais no primeiro ou no terceiro graus da escala e mais raramente na quinta,
tessitura de sete ou outo notas, raramente dez. harmonização (quando existe) em
terças ou sextas paralelas, metro regular, forma musical simples, com ou sem
refrão, estrutura silábica e caráter vivo e extrovertido são características
apontadas por Maria Esther Grebe (1969, p.7), que estudou o Villancico na América Latina.
Apesar de não estar ainda comprovada
a relação entre a estética pastoral e os Villancicos,
na Canção do Pastor nota-se
facilmente as coincidências entre as duas formas de expressão. Embora o Villancico em algum momento de sua história
tenha incorporado elementos da cultura culta, como os clichês pastorais e a
ópera, sua métrica em redondilha maior, ou verso de sete ou oito sílabas, é a
métrica mais usada na poesia popular ibérica e também brasileira. A canção em
questão dá-nos logo de início uma ideia de que ela descende também desta linha
cultural. Suas fontes tornam-se evidentes quando levamos em conta o nome do
pastor. Jacó é o nome de Tiago, o evangelista que cristianizou a Península
Ibérica. As lendas em torno de sua figura são conhecidas da cristandade e são
eternizadas na famosa romaria do “Caminho de Santiago”, percorrida por
católicos de todo o mundo, cujo alvo é serem abençoados na catedral de Santiago
de Compostela, no Centro da Galícia. É também relevante o fato de a Canção do Pastor ter sido colhida num
local, onde existia uma grande quantidade de imigrantes da Galícia exercendo a
profissão de comerciantes. O Pastoril da
Cigana, além da Canção do Pastor, conta
também entre seus personagens, com um casal de galegos que com sua linguagem característica
são incorporados ao grupo de pastoras que vão a Belém.
IV
Para se entender o
significado do pastoril no século XIX, é necessário olhar não só para a cultura
e a vida musical da época, mas também para suas fontes camponesas e o uso das
mesmas pela cultura burguesa emergente que se urbanizava e idealizava o campo.
Se para ela o mundo pastoril estava sujeito a menos conflitos do que o mundo socioeconômico
que surgia ali, ele significava a felicidade perdida. A Canção do Pastor comporta mais um nível interpretativo; é aquele
que coincide com alguns aspectos do romantismo, época de maior popularidade dos
pastoris no Brasil. É interessante entender como ela epitomiza a problemática
geral do século XIX. O sentimento da natureza, a apologia da vida campestre
como garantia e salvaguarda da liberdade e o recurso ao bom senso e ao
equilíbrio, tão presente na lírica dessa canção, evidencia sua inspiração
romântica. Especificamente no Brasil, o romantismo foi também o período em que
apareceram as primeiras preocupações com a identidade nacional. A consciência
das características do país, suas diversidades e fronteiras culturais estiveram
na pauta das discussões culturais da época, desde José de Alencar, que primeiro
discutiu em textos estas questões (Pinto 1997, p. 22). Neste sentido, os
pastoris, como festividades domésticas, significavam para aqueles que se
preocupavam com a preservação dos valores culturais, a ligação entre nação e
comunidade. Ao mesmo tempo, o devaneio místico do Pastor, sua angústia perante
o futuro, implícita na terceira estrofe (será para minha defesa este tão forte
cajado) enclausura não só valores de humildade mas o louvor das virtudes
patriarcais, tão típicos do sentimento romântico. Não podemos esquecer que foi
também nessa época que o contraste cidade/campo, corte/aldeia, mais se
evidenciou em arte. Não seria essa a ideia que permeia toda essa canção quando
é interpretada por pessoas que moram na cidade mas que vieram do campo? Não
seria o mito de uma felicidade imaginada, a saudade de um passado mais
tranquilo (mas nunca vivido) que a canção expressa quando coloca o mundo
pastoril como uma utopia?
A própria cena das
pastoras pode também ser entendida como a reinterpretação do balé romântico. A
coreografia das mesmas quando acordam, bailando em tempo de valsa lenta, lembra
muito as bailarinas românticas (braços em meio círculo como no famoso balé Les Sylphides) refletindo o ideal
trágico do amor inatingível numa combinação de exótico e sobrenatural, etéreos
seres que parecem dissipar-se na ilusão do voo.[18]
Na verdade, as canções lentas dos pastoris tendem a executar este mesmo padrão
coreográfico que mostra as pastoras como seres inanimados, cuja existência está
além da vida cotidiana. Não seria este ideal de qualidades sobrenaturais que a
cultura brasileira atribui à figura feminina? E não seriam por acaso essas
mulheres sem nome (as pastoras), que em procissão visitavam os presépios
armados nas casas e nas igrejas que iriam mais tarde se transformar em
verdadeiras musas, morenas, da cor de Madalena, ideal da mulher brasileira
comum, fonte de inspiração de dezenas de
canções na música popular?
V
Entra a parca
literatura existente sobre os pastoris, um dos trabalhos mais significativos é
o texto de Mário de Andrade no seu livro Danças
Dramáticas do Brasil (1959, vol.1, p. 339). O impulso religioso
inicial, a associação de música, dança e
texto na criação do enredo, a mistura de elementos cultos e populares como etos
do estilo, e o caráter rapsódico do evento, são aspectos mencionados em seu
texto e que permanecem até hoje como base para o estudo dos pastoris
brasileiros. Mas é Gramsci, em suas reflexões sobre o folclore, que nos
esclarece esse caráter fragmentário e contraditório das manifestações
populares.
... se é que não se deve mesmo falar
de um aglomerado indigesto de fragmentos de todas as concepções do mundo que se
sucederam na história, sendo que tão somente no folclore podem ser encontrados
os documentos incompletos e contaminados que sobreviveram da maior parte dessas
concepções (Gramsci 1968, p. 184).
A análise da Canção do Pastor revela-nos exatamente a
sobrevivência dessas diferentes concepções de vida, traços de variadas
tradições e diferentes tempos históricos. Ela faz parte de uma festividade cuja
existência se faz num campo fronteiriço entre o culto e o popular, entre o rural
e o urbano, com forças seculares convivendo com a religião oficial. Nesse
sentido, a metodologia para seu estudo inclui além de uma abordagem
antropológica, um enfoque histórico, olhando o passado remoto e recente,
tentando ressaltar seus momentos mais significativos e que lhe conferem
identidade.
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[1]
Texto publicado na Revista OPUS n. 5,
agosto de 1998. Originariamente, é parte de um capítulo da minha tese de
doutorado (ver bibliografia no final).
[2]
Exemplos interessantes nesse sentido são a popularidade e o número de arranjos
que alcançam certas melodias na atualidade. O Concerto de Aranjuez de J. Rodrigues, por exemplo, é o concerto
erudito mais tocado e arranjado neste século, superando mesmo o Concerto N. 2 de P. I. Tchaikovsky e o de Grieg opus 16 em Lá menor. Podemos
também citar a popularidade de melodias como Pour Élise, o primeiro movimento da sonata opus 27, n. 2 (ao Luar),
a Sinfonia Pastoral de Beethoven, o Estudo opus 10 n.3 (Tristesse) de Chopin
e inúmeras melodias de Bach e Haendel.
[3] O Arraial Moura Brasil localizava-se no
centro de Fortaleza e era considerado a zona do baixo meretrício da cidade. Sua
população era formada por pessoas vindas de todo o nordeste, que à procura de
dias melhores se fixavam nas dunas atrás da Estação Ferroviária (RVC- João
Felipe), e a Cadeia Pública, terreno onde se formou o bairro. Na década de
setenta, os novos planos urbanísticos removeram a população dessa área restando
hoje só a pequena igreja de Santa Terezinha, incrustada entre avenidas e
viadutos.
[4] A presença de pastores nas comemorações do
nascimento de Cristo tem origem na passagem bíblica encontrada no Evangelho de
S. Lucas 2:8-21.
[5]
Ela ressalta, que o fato de a maioria das canções ter a lírica mais extensa que
a parte melódica já indica sua origem literária (Block, 1983, p.5)
[6]
Embora não seja o assunto principal deste artigo, devo mencionar que não excluo
o fato de haver várias versões para a melodia e o poema da Canção do Pastor.
[7]
Todas as traduções são minhas, exceto quando especificado.
[8]
Iser (1996, p. 41) afirma que o mundo pastoril se tornou um canal privilegiado
pela história, no qual a ficção se torna perceptível porque tematiza a própria
artificialidade.
[9]
Em outras passagens da Bíblia, imagens pastorais e a figura do pastor são
frequentes. “ O Senhor é meu Pastor”
(salmo 23:1) ensina que somos todos vulneráveis como qualquer animal. Em outra
passagem, Isaias fala que Deus alimentará seu rebanho como um pastor alimenta o
seu (40:II) Jeremias também vê o pastor como um exemplar divino de humildade
(23:IV).
[10]
Até mesmo São Francisco de Assis louva a natureza em sua obra. Além da lenda de que foi ele quem armou o
primeiro presépio da história, também passou seu amor pelos campos por meio de
seu Hino ao Sol onde agradece a Deus
por te-los criado.
[11] Além de Bach e Haendel, Manfredini,
Locatelli, Torelli, Fernandini, Geminiani, Valentini são alguns dos
compositores que usaram motivos pastorais em suas obras.
[12]
Rimsky Korsakov, por exemplo, utilizou uma série de melodias colhidas numa
antologia de José Inzenga (Ecos de España-coleción de cantos y bailes) para
compor seu Capricho Espanhol sem
jamais ter visitado a Espanha, por acreditar que o temperamento russo tinha
muita semelhança com o temperamento espanhol devido a influência moura e
orientalista. E no século XX, a tentativa de descrever a natureza com música
ganhou novo apelo dos compositores, associada com o movimento neoclássico. Ela
é refletida nos trabalhos de Casella (La Favola d’Orfeo-1932), Auric no balé (La
Pastorale-1926) e Stravinsky (Orpheus-1948).
Evidentemente, no processo de secularização da sociedade, essas obras já
estavam desconectadas das cerimônias natalinas, tendo tomado rumo independente.
[13]
Exemplos mais significativos desse tipo de harmonia podem ser ouvidos em
Haendel (Sinfonia Pastoral do Messias- 1741), Beethoven (Sinfonia Pastoral -1808), Borodin (Nas Estepes
da Ásia Central-1880), A. Copland (On the Open Prairies e o balé-suite Billy, the Kid-1941), Bruckner (Sinfonia N.4- In der Wald), Mahler (Lied von der Erde-1912).
[14]
É nessa época que incentivados também pela imprensa, recém chegada ao Brasil,
as coleções de pastoris escritas por poetas e escritores locais começam a
aparecer.
[15]
A Missa Pastoral para a noite de Natal do
Padre José Maurício, escrita em 1811, é composta no idioma musical que dominava
as composições natalinas, portanto, o estilo já era conhecido no Brasil.
[16]
Os pastoris eram também palco de apresentação de grupos populares que em
procissão visitavam residências e igrejas entoando hinos e loas, homenageando
os presentes e a Sagrada Família. Dessa forma, além da cultura religiosa
oficial, havia também a presença do catolicismo popular.
[17]
Ver ” Cantigas de Santa Maria” poemas
dedicados à Virgem Maria e escritos pelo rei Afonso, o Sábio, no século XIII.
[18]
Os estereótipos da dança romântica estão presentes nos ”bailados” apresentados
nos teatros escolares de classe média e alta, e foram aos poucos sendo
interpretados nos pastoris. Marie Taglioni (1804-1894) é considerada o
protótipo da bailarina romântica. Refletiu na sua dança o espírito
que inspirou a literatura de Scott e
Victor Hugo e a música de Chopin e Berlioz. Seu físico delicado foi foi moldado por seu pai, que como coreógrafo
desenvolveu um estilo caracterizado pela leveza, graça e modéstia. Foi ela que
lançou o costume de dançar com diáfanas saias compridas e sapatos de ponta,
aumentando o efeito artístico de sua figura que se elevava e aterrissava
delicadamente. Como os pastoris abrigavam
segmentos diferentes da sociedade, em suas performances, alguns
movimentos deste estilo de dança foram aos poucos sendo reinterpretados em
coreografias cada vez mais distantes do modelo original.
