Início de semestre. Nas salas de aula era
intenso o burburinho dos primeiros contatos de alunos e professores. Eu tentava
minimizar minha ansiedade fazendo apresentações, entregando o programa da
disciplina, dando informações sobre o conteúdo. Na saída, a silhueta franzina
de uma menina de cabelos cacheados usando sapatos Moleca se aproximou de mim.
Com voz meiga e suave me disse que o texto de Gramsci a ser discutido na
próxima aula não se encontrava na pasta da xerox. Pensei um pouco e respondi que
colocaria outra cópia na pasta no dia seguinte, pois a que tinha ali comigo estava
em inglês. Ela me surpreendeu dizendo que não havia problema. Tiraria uma cópia
e me entregaria o livro num instante. A menina era você, Milena, que me fez entender
que naquele semestre eu teria uma aluna diferente, estimulante.
Nas aulas você parecia mais curiosa, como se minha
disciplina estivesse abrindo janelas na sua vida, arejando-lhe a mente, ensinando-lhe
a ver o mundo com outros olhos. Seguia-me depois da aula, entrava comigo na
sala, pedia-me explicações, olhava meus livros. Ao final sentava-se na espreguiçadeira
e lia ou assistia aos vídeos com que eu ilustrava algum assunto. Seus traços de figura ímpar foram se
desenhando dentro de mim. Apesar da diferença de idade entre nós e da separação
de papéis, em pouco tempo você pegava carona comigo, fazia refeições no mesmo restaurante,
frequentava minha casa, conhecia meu marido e se tornara presente aos encontros
do meu círculo de amigos. Ocupávamos
boa parte de nosso tempo em discutir, trocar livros, ir ao cinema e acima de
tudo rir de tudo e de todos. Às vezes eu até ficava com sentimentos de culpa
por expor minha vida e minha forma de pensar tão abertamente a alguém tão mais
jovem do que eu. Pensei muitas vezes: de onde saiu essa menina que vive perto
de mim, que me desafia, me provoca a estudar, ler e trocar experiências de
igual para igual? (Que assanhada! Parece comigo!) Mas eu não esqueci que quando
a conheci você usava sapatos Moleca.
Você aproveitou muito bem seu tempo na UnB,
sabe? Quando se desencantou do curso de violão, foi ampliar conhecimentos
aprendendo fotografia e cinema no curso de comunicação. Como tinha especial
talento para fazer contatos, observar e perceber pessoas, a cada dia fazia mais
amizades. Em contraponto era fechada, pouco se deixava conhecer. Só quando tive
contato com sua mãe vim a saber que havia sido menina precoce, entrado para o
curso de direito com 17 anos e fora taquígrafa da Câmara dos Deputados do Acre.
Nossas conversas me fizeram entender o quanto você era uma joia preciosa para
seus pais. Além do violão, tocava um pouco de violino e de flauta doce, o que
já lhe dava vantagens como aluna no curso. Nossa convivência tornou-se mais
freqüente quando você me surpreendeu alugando um pequeno apartamento num bloco atrás
do meu. Gostava muito de festas, baladas, paqueras, como qualquer moça de sua
idade, mas continuávamos a conversar até altas horas, caídas de sono. Peculiarmente,
você gostava de conhecer o mundo. Aparecia vindo da feira de Juazeiro ou de um
festival em Curitiba, ia pra feira do Guará só pra comer tapioca com café e
estava sempre disposta a uma nova programação. Nunca me esqueço de uma
comemoração de seu aniversário em que fui levada ao Caribenho e terminei
dançando forró e salsa com seus convidados. E ao jogo de sinuca nos sábados à
noite, a que você insistia que eu fosse? A temporada em Planaltina para
documentarmos a Festa do Divino? Convivendo ali com duas pesquisadoras, você mantinha
na mochila seu sapato Moleca.
Nunca a imaginei instrumentista, sabe? Seu senso
crítico e sua racionalidade não a deixariam à vontade no palco. Você estaria
melhor pensando a música do que a executando, e quando escolheu continuar os
estudos de composição pensei estar mais alinhado o seu caminho. No fim do curso,
um dia me disse que não estava disposta a ganhar salário de músico e faria
concurso para o MRE. Pouco tempo depois, ganhou um apartamento igualzinho ao
meu, num bloco mais perto de mim. E desapareceu! Perguntei-me onde estaria, se
não queria mais conversas que a distanciassem dos novos objetivos. Sua presença
em minha vida me fazia sentir sua falta, mas eu compreendia que você estava
procurando seu lugar no mundo, que já tinha mudado muitas vezes e que um dia encontraria
seu verdadeiro caminho. Depois apareceu contando que tinha arranjado um namorado
e rompido com ele. Na conversa, eu lhe falei que para manter um namoro era
preciso ser boazinha. Você pode não se lembrar do que me disse, “mas eu sou boazinha,
sim” foi o que me respondeu! Virei a cabeça, dei um muxoxo e vi que seus
sapatos continuavam os mesmos.
Apesar da mudança radical na rotina, seu
trabalho no MRE não nos afastou. Fiquei sabendo dos novos contatos, das viagens
a terras distantes, dos novos interesses, mas aqui, acolá, eu era surpreendida.
Recentemente você me pediu uma cópia do filme do Malick e outra do Von Trier.
Atravessaria o oceano e, quando chegasse, gostaria de assistir. Na hora,
pensei: que será que ainda quer essa menina? Virou mulher e continua por perto,
me instigando, me forçando a aprender, a sentir que faz parte de minha vida? Só
não me confidenciou Milena, que voltaria nas asas de um mosquito 171. Essa sua
aventura foi o que se pode chamar de autêntica molecagem, principalmente porque
só me restou a melancolia de ver os filmes feito uma grande árvore: sozinha!
Mércia Pinto.
Janeiro de 2012.
Milena
Oliveira era diplomata e morreu em Dezembro de 2011 em consequência de uma Malária contraída durante uma missão na África.
