PANOS DE
PRATOS
Na
minha terra, as histórias de amor cumpriam várias etapas. O flerte, indefinida
prática que só era entendida e identificada pelos dois envolvidos, era a
primeira delas. Mas até a superação do medo do rapaz de se aproximar da garota e
propor namoro levava algum tempo. Depois do ritual inicial de aceitarem diferenciar
o olhar e o sorrir um para o outro, do olhar e do sorrir para os demais, apareciam
novas emoções, e com elas, tarefas a serem cumpridas. - Com que cara falar para
os amigos? Dizer que estavam namorando? Impossível falar sério quando tudo se
espalhava em forma de fofoca. As amigas mais tagarelas recebiam da eleita todos
os detalhes de como tinha sido a “declaração” do rapaz. Risadinhas à parte, no
fundo se sentiam um pouco órfãs, pois o namoro da amiga certamente tomaria
parte do tempo para as conversas diárias entre elas. Escondendo a inveja e o
ciúme, o grupo se refazia, atualizando “fuxicos”, mapeando as ex-namoradas do
rapaz, as brigas entre o casal, bem como eventuais maldades entre os dois: festas
e cinemas escondidos um do outro e pequenas infidelidades recíprocas. Se o frágil laço entre os dois resistisse a
tantos repuxos, depois de um mês já estavam voltando do colégio de mãos dadas. E haja inveja das amigas! Ah, como elas
desejavam um namorado que se mostrasse assim para todas, na saída das aulas?
Dizem,
o primeiro beijo acontecia logo depois. Não sei quais estratégias eram usadas
para se conseguir chegar incólume até esse dia. Tudo para mostrar que a moça
era de boa família e fora educada para manter sob controle os seus “demônios do
baixo-ventre”. Mas o tempo passava e aos poucos o rapaz ia sendo apresentado ao
círculo familiar da garota. Aos seis meses de namoro já freqüentava a casa dela
e não precisava pedir licença para entrar.
No clube dançavam no centro do salão, coladinhos, sem muito controle dos
pais. De quando em vez, davam umas fugidinhas para irem sozinhos ao cinema. Mesmo
vigilantes com relação a uma terceira força que pudesse desatar aquele laço, a
história evoluía. Um belo dia, o rapaz surpreendia a namorada com uma aliança
de compromisso. Um aro de ouro reforçava os laços entre os dois com pequenas pérolas
ou rubis. Dali em diante eles ganhavam o
adjetivo de “quase noivos”. Já se sabia que pensavam em casamento. Novo
golpe no coração das amigas. Passear de mãos dadas não acontecia mais. Em casa
ainda namoravam sob os olhares vigilantes dos pais, mas quando saíam era de
“mão no ombro”. Possivelmente, ela já conhecia a família do rapaz. O próximo evento era o pedido de casamento. Imprescindível!
Os pais teriam que saber se o “cabra” tinha mesmo coragem de enfrentar a
família, falando de seus sentimentos para com a garota e de suas pretensões de bancá-la
pro resto da vida. Mesmo porque o investimento na preparação do enxoval e na
compra dos equipamentos domésticos eram muito grandes. Não poderiam ser
efetivados assim de uma hora pra outra. Lembro-me da palidez daqueles domingos,
quando minhas amigas apareciam de manhã com uma aliança no dedo. Sabia-se que na
véspera havia sido selada a ausência de mais uma entre nós.
Entre
o noivado e o casamento, o enxoval preenchia todos os interesses da moça. Entretenimento
total para mãe e filha, que só pensavam nisso. E aquilo? Ora, aquilo era lá!
Ainda estava longe, em segundo plano. Comprar tecidos, ir às costureiras,
bordadeiras, marceneiros para fazer os móveis, e nos últimos meses a preparação
da festa. Trabalhavam dia e noite e até esqueciam do resto da vida. Era comum
as noivas também freqüentarem um curso na Escola Doméstica São Rafael, para aprenderam
o ofício de ser esposa e enfrentar o futuro desafio de ser dona-de-casa. Imagino
freiras ensinando a gerir uma empresa que elas, por conta dos votos de
castidade, nunca tinham conhecido. Ensinando a cozinhar, bordar, gerir as serviçais
e a economia doméstica. Dando conselhos sobre intimidades que nunca tinham
experienciado.
Poucos
dias antes do casório, a noiva abria sua casa para as amigas e oferecia um chá.
Não era despedida de solteira. Isso era ritual masculino, num bordel, exclusivo
para os amigos. Moças não precisavam disso.
E o chá de panelas, tão comum nos dias de hoje, humilharia a família e os
noivos. Nessa época, o objetivo do
encontro era a exposição do enxoval, que mantido em segredo até aquele dia
deixava os convidados ansiosos para saber como seria o cenário da nova vida.
Todas as peças estariam envoltas em papel celofane lacrado com fita, para que
pudessem ser apreciadas e invejadas por todos. Na sala de visitas estariam os
paninhos de cobrir móveis e outras miudezas. Na sala de jantar, as toalhas de
mesa, de chá, centro e caminhos de mesas espalhados pelos móveis. No quarto, o
êxtase de todas as mulheres! Colchas de Piquet bordado, toalhas de banho, rosto
e de visitas, sutiãs, calcinhas. O interesse maior eram as camisolas bordadas
com renda francesa, com casinha de abelha. Inspecionavam quantos “liseuses”,
quantos “peignoirs” a noiva tinha no enxoval e se as peças de lingerie, laquê,
cassa e cambraia eram suficientemente bordadas. A camisola do dia, item mais
importante da categoria “cama”, ficava no centro da mostra. Causava suspiros, arrepios
e ais em todas as mulheres. Depois a cozinha, lugar da última apreciação. A
última esperança de ver algo que vinha das mãos da noiva em si. É que por menos
talento doméstico que ela tivesse, cobrava-se que pelo menos uma coisa no
enxoval deveria ter sido feito por ela. Caso contrário, como atestariam sua
competência doméstica? Sim, porque durante o noivado ela certamente havia ganho
de presente da sogra (ou da avó) o livro da Dona Benta e por certo já tinha
feito algum prato especial para mostrar seus dotes culinários ao futuro marido.
Assim, eram os panos de pratos que salvariam a coitada dos adjetivos de
desleixada, de mal preparada para ser esposa e para cuidar da casa. Tesoura,
linha, agulha e simples pedaços de algodão cru compunham o material de
exercício do bordar, em que a noiva muitas vezes aprendia os pontos básicos do
ofício. Lembrança e testemunho da tentativa era para ser guardada, não? Agrupados
em semanas, eram peças obrigatórias para uma noiva bem “enxovalhada”. Levavam várias
“semanas de panos de pratos” para a nova vida. Lembro-me ainda daquela secreção
meio azeda que ficava presa em minha garganta, quando via uma amiga de cabeça
baixa, entregue aos bordados dos famosos paninhos. Sabia que em pouco tempo ela
desapareceria de vez.
Sete
dias, sete panos e sete diferentes figuras para bordar. E embaixo de cada uma,
o dia da semana correspondente. A unidade do conjunto era dada pelo tema.
Camponesas ou baianas com diferentes cestas de compras para cada dia. Holandesas
com chapéus enormes, tamancos de madeira carregando verduras, queijos, frutas;
e no domingo uma torta. Coisa inteiramente desconhecida no clima tropical,
bordavam-na em ponto cheio com linha branca, imitando a cobertura de chantilly
que caía pela bordas de um prato. Por cima, umas manchas vermelhas querendo ser
morangos ou cerejas. Talvez imaginassem que aquelas pequenas frutas vermelhas e
exóticas fossem símbolos da felicidade das mulheres dos outros mundos, e que em
cada ponto que bordassem construindo aquela imagem ser-lhes-ia conferida a
mesma felicidade.
Eu
também quis ter namorado e o tive! Ele não foi me buscar no colégio. Nunca foi
dançar comigo nas tertúlias. Só eu sabia dançar. Dizia que aquilo era a primeira
manifestação do ato sexual. Como as outras garotas, eu também quis ser noiva. E
o fui! Mas não tenho lembranças de como se deu a seqüência de todos aqueles
rituais de passagem; mãos dadas, primeiro beijo, mão no ombro etc. Incrível
como, lembrando-me de tanta coisa, tenho sempre a impressão de que comigo esses
passos vieram todos de uma vez, e por mais que eu tente não consigo organizá-los
cronologicamente. Ao cinema escondida, fui muitas vezes. Mas desde o início notei
que havia entre nós dois um conflito de interesses. Enquanto eu queria ouvir
aquele samba, trilha sonora do jogo de futebol no documentário do Canal 100, ele ficava se escondendo do lanterninha. Quando a deusa da Columbia Pictures aparecia
na tela com aquela tocha faiscante apontando para o alto, eu já estava
arrependida e de braços cansados. Tentava relaxar um pouco quando o condor da
tela abria as asas, e a audiência gritava bem alto: XÔ! Ele parecia se espantar
e voava. O filme estava começando e meus tormentos poderiam desaparecer em função
das emoções do enredo. Qual nada! O tempo me ensinou que certos fenômenos da
natureza não são facilmente controláveis. Acho que é por isso que, hoje, cinema para mim é só eu mesma e
pronto. Mesmo assim, lembro-me bem que fui compromissada, engajada, escolhida e
muito mais. Ele me levou a passear em ruas escuras e estreitas, até onde eu via
animais que sentindo o cheiro do sangue de seus semelhantes uivavam, sabendo
que iriam ser também sacrificados. Mas antes disso, fui obrigada a servir-lhe,
porque eu tinha sido escolhida! Comecei aprendendo a bordar bem miudinho o nome
dele em seus lenços. Como muitas moças de minha geração, tinha até num pedaço
de pano uma amostra dos diferentes tipos de letras e anagramas para escolher o
modelo.
Eu
também quis ter toalhinhas de crochê em cima dos móveis, toalhas de linho
bordadas em cima da mesa de jantar, camisolas, liseuses e peignoirs. Só não
sabia como iria adquirir o hábito do uso desses acessórios depois de casada. O calor
da região não permitia tanta roupa. Lembro-me de que, quando fui pedida em
casamento, ganhei da minha mãe uma camisola e um peignoir amarelinho de nylon completamente
transparente. O noivo esperou que ela saísse da sala e zangado me disse: no dia
em que você usar essa roupa de puta, eu a deixo. Além disso, quero lhe avisar
que não suporto agarrado na cama, e portanto vamos dormir em camas separadas. Eu
nunca pensara que isso fosse impedimento para nos casarmos. Afinal, tinha ficado noiva minutos antes.
Do
lado de minha mãe, acho que se preocupava um pouco mais com a roupa íntima das
noivas, pois no outro dia me levou a uma costureira famosa e encomendou dois
conjuntos de camisola e peignoir de cassa: um amarelo e outro vermelho. E só!
Parece que ali terminavam minhas necessidades! Mas lembro, eles eram lindos!.
Naquela época, não se compravam enxovais prontos. Como nos contos de fadas, tudo
era encomendado, esperado, desejado e recebido. Na minha história, porém, fui
vendo aos poucos que se eu queria me preparar para casar, teria eu mesma de
fazer ou comprar as peças. Lembro-me dos inúmeros paninhos de crochê que fiz,
dos quardanapos de labirinto que comprei para cobrir bandejas e impressionar
visitas. Ainda me restam algumas coisas desse tempo. Lençóis e fronhas de
percal róseo e verde que bordei. Cada vez que dou com eles no fundo do armário,
recordo-me da exigência do noivo: dois de cada, pois vamos dormir separados. Um
jogo de toalhas de banho verde-escuro, uma toalha de labirinto rósea e outra de
linho bege com flores bordadas em azul-marinho e barra de ponto “a jour”, cujo
modelo retirei da Enciclopédia Familiar Larousse. Mas as recordações mais vivas
dessa época são as “semanas de panos de prato”. Como todas as noivas, também me esqueci da vida, bordando-as. Meu
envolvimento foi tamanho que hoje imagino que inverti as coisas; a cozinha
tomava o lugar mais importante da casa. Às
vezes me pergunto quantos metros de ponto de corrente bordei para preencher a
cabeça das pobres camponesas e imitar seus cabelos.
Quantas
vezes acordei com preguiça de bordar aquela quantidade de pedras do caminho que
levava as holandesas ao mercado. E todas multiplicadas por sete. - Bordo-as em
ponto cheio ou ponto atrás? Retiro-as do caminho original ou cumpro a tarefa até
o fim? E as pequenas manchas verdes imitando o capim e que estavam no risco? Na
Holanda, isso não é capim, é “relva”, lembrava-me. Verde-esperança com algumas
pequenas manchas em amarelo para não desesperar, bordava eu. Como seriam as aplicações nos aventais das camponesas?
Bolinhas, florezinhas ou quadradinhos? Meu
entusiasmo só era interrompido pelo chamado da empregada que gritava da
cozinha:
– O
café já está na mesa!
Eu
abandonava o serviço, tomava rapidamente qualquer gole e voltava correndo ao
trabalho. No meio de um caminho de pontos de areia ouvia novamente seu grito:
– Vem comer teu pão!
A reação era
rápida: “Diabo, agora amassou!”
Irritada,
colocava o bordado em cima da cadeira e corria. Comia o resto do pão e voltava rapidamente. Ponto
cheio, e corrente. Arremates têm de ficar invisíveis. E nada de pontos de
alinhavo. Só ponto de areia, atrás e matiz. Em cada ponto ia dando um nó na
minha história. Depois de terminado, os fios de linha têm de ser cortados rentes
ao pano. Aplicações com diferentes tecidos, fixados com pontos de casa ou de
sombra para preencher todos os vazios do risco. Bordado bem feito e caprichado
é aquele em que não se nota a diferença entre o lado direito e o avesso. É que eles vão enxugar o cuspe de quem comeu
no prato.
Mércia Pinto – maio, 2008