... DE LABIRINTOS E VÉUS
(romancinho)
Capítulo I
A representação do
grandioso e do desconhecido espalhada naquela imensa folha de papel pendurada
na parede deslumbrava as duas meninas. Pa-quis-tão, Ca-sa-quis-tão,
A-fe-ga-nis-tão, I-rão, Us-be-quis-tão, Tur-qui-me-nis-tão. – E por que não Brasão?
Assim tudo rimava, perguntava uma à outra.
Quatro mãozinhas
deslizavam naquela superfície lisa, tentando encontrar algum nexo nos nomes
daquelas manchas coloridas: Po-li-né-sia, Me-la-né-sia, Mi-cro-nésia, In-do-né-sia,
soletravam!
– E Sunévia? Vamos ver onde fica, disse uma delas! Seus olhos inquietos
pulavam aqui e ali à procura do lugar. A seguir, o desapontamento. – Por que
não está aqui?
E então vieram o silêncio
e o desencanto. – Afinal, onde estou? Que mundo é esse em que vivo e que não
existe?
Tentando superar a
tristeza, retomam as questões. E aquele mar que vejo à minha frente todos os
dias? Que mar é aquele? Tão grande, tão disponível e desapegado quando traz
conchas e búzios para brincarmos? Que é meu limite, meu-sim e meu-não? Será que
é o mar Morto aqui do mapa, perguntavam-se.
Esforçando-se para
minimizar a angústia, respondiam-se: não, não deve ser! Ele engole tudo o que
passa no horizonte. E perto da praia até brinca de me arrastar! Depois me joga
de volta... na areia! Lá longe faz deslizar a jangada do meu pai! Então não
deve estar morto! Em seguida, uma delas perguntava:
– Mar Ne-gro! Será que é
esse? Não, o mar lá de casa é verde e azul! Só é negro à noite, respondia a
outra. As mãos continuavam percorrendo o mapa, que fomentava a imaginação. A
viagem seguia mais rápida. Hi! Olha aqui! Mar Ver-me-lho! Como será esse mar?
Será feito de sangue (?) interceptava uma a viagem da outra. Caminhando para as
extremidades da superfície descobrem muitos reloginhos e números, ligados por
linhas curvas que atravessam o mapa recortando-o em quadradinhos. – Para que
servem os mapas, perguntaram instantaneamente à Dona Zula, que passava apressada para guardar uns cadernos no
armário. Ora! Para orientar nas viagens, respondeu a professora, quase
irritada. Já era hora de descanso, e ela não queria conversa.
A resposta ríspida
deixou-as meio “encolhidas”, como as sensitivas. Mas logo, logo a brincadeira
desabrochou novamente. Desta vez com uma pontinha de deboche! Olha aqui esse
lugar pequeno chamado Bruxelas! Será que é lá que vivem as bruxas (?),
interrogou uma, enquanto a outra, olhando lá embaixo no mapa, soletrava:
Mal-vi-nas!!!
Trocaram-se olhares de
cumplicidade, duplicaram-se em risadas e saíram da sala. Ainda restava um
tempinho do recreio. No pátio, pular cordas envolvia mãos e pés. Passear de
duas; uma vai e outra volta. No meio do percurso, o cumprimento do par com
palmas ritmadas. Em sua batida estável a corda açoitava o chão e completava a
volta no ar.
Capítulo II
A construção que abrigava
a única escola da região consistia de uma sala só. Além das três filas de
carteiras duplas, uma velha mesa amparava a professora e seus afazeres: a
chamada, a pilha de cadernos, as chaves na gaveta, o giz e o apagador.
A fila de alunos mais
adiantados fazia o exercício de aritmética, enquanto a outra, intermediária,
copiava do quadro-negro o dever de casa. No início da escolarização, os mais
novos melhoravam a motricidade desenhando repetidamente os “Ms” e os “Ns” num caderno
de caligrafia.
Ona
tentava mostrar a Ane a diferença
entre essas duas letras do alfabeto. O “M” tem duas barrigas e uma boca! E o
“N”, só uma barriga e uma boca. (A ajuda entre as duas continuava).
As letras mais fáceis de
fazer são o “I” e o “U”, mas você não pode levantar o lápis do papel. Tem que
desenhar, uma emendada na outra! No recreio, a escolha dos personagens da
brincadeira afastava da memória os esforços para desenvolver a escrita.
(cavaleiro)
Língua de lança, lei de lanceta.
(
Que quereis com la condessa,
Que por ela perguntais?
(cavaleiro)
Mandou dizer rei, meu senhor,
que das filhas que ela tem,
lhe mandasse a mais moça
pra com ela se casar.
No mobiliário da sala,
uma pequena estante guardava um dicionário, os livros de controle da matrícula
e do aprendizado dos alunos. De resto, exemplares envelhecidos da “National
Geographic Magazine”, com as folhas arrebitadas pelo uso, tinham sua utilidade;
inspiravam os mais adiantados quando precisavam escrever algum texto ou pintar
paisagens na hora da aula de desenho. Mesmo sem conseguir ler os textos, olhar as
revistas era para Ane e Ona uma atividade fascinante. Apesar de
ainda pequenas, brincavam com cada página que passava a seus olhos, imaginando
lugares, pessoas, desenvolvendo comparações, borbotando desejos e reflexões. O entusiasmo pelo que descobriam com
os estudos era muito. Combinar sílabas para formar palavras, invertê-las,
desenhar letras, identificar os números em cédulas e moedas. Na verdade, elas rapidamente
aprendiam o que era do seu nível e aproveitavam o tempo restante jogando olhos
e ouvidos nas outras filas de carteiras. Aquilo que D. Zula ensinava aos mais adiantados significava muito para elas: modelo
a ser seguido; e medo, caso não alcançassem um dia os mais velhos. Não sabiam o
significado de muita coisa que era ensinado, mas sobretudo gostavam de ouvir o
som das palavras, as explicações de como reconhecê-las pela acentuação. Você
escarra e logo depois assovia, dizia Ona
para Ane.
Vamos, tenta! Oxítona,
paroxítona e proparoxítona, encorajava a amiga. Dando seguimento às regras
sobre como pronunciar as palavras, Ane
enriquecia o diálogo: helicóptero, epitélio, átomo, árvore e útero são palavras
que a gente tem que fazer muita força para pronunciar. Desde a barriga até a
garganta! È tanto T que de noite
estou com a língua cansada!
Muitas vezes elas se
entreolhavam e comentavam: é; essas daí a gente só vai pronunciar quando
crescer, não é? A outra confirmava: É! Mesmo porque em Sunévia nós nunca vimos um helicóptero, um útero ou um átomo! E
epitélio deve ser a tinta que cobre a hélice do helicóptero, não? Vira pra lá!
Você quase me cospe com essas proparoxítonas! É mais fácil pronunciar caju,
vestido, rio, corrente, mar, jangada, peixe, urubu, café, coco, cocô! E
começavam a rir! E nos recreios, de algum modo ressoava nas brincadeiras o que
estavam aprendendo.
Lá vem o velho Félix,
com um fole velho nas costas.
Tanto fede o velho Félix,
como o fole do velho Félix fede.
Capítulo III
Fora das quatro paredes
da escola tinha-se a impressão de ter perdido o sentido do espaço e do tempo.
Tudo era imensidão, céu e mar. Em terra, os únicos limites eram as dunas e um
pequeno córrego, o “Corrente”. Deserto e desconhecido, não se tem notícia de
que alguma missão importante tenha estado no local. Nenhum viajante em suas
anotações ou desenhos documentou a região. Nenhum náufrago foi encontrado em
suas praias. Enfim, nada que justifique um mito para sua fundação. Mesmo assim
aquele seria um dia especial para os novos alunos da escola. A professora Zula ensaiara uma espécie de jogral,
com o objetivo de orientá-los sobre a localidade. Distribuiu pequenos textos
contendo informações históricas e geográficas sobre a região, que seriam
decoradas e declamadas em duplas.
Os primeiros a falar foram
os irmãos Rósevel e Roselma: Sunévia
localiza-se a algumas léguas à esquerda de um dos meridianos. A encenação
continuou nas vozes de Jussiê e Jessuí. De barco, a terra é avistada quando se atinge
o contravento norte. Embora ainda meio perdidas, as meninas escutavam com
atenção a explanação dos colegas.
Partindo daqui ou dali,
são 20 dias de caminhada, se pretendermos chegar a Sunévia pela trilha das dunas, explicaram Laurenir e Iraldo. Logo
depois Lucivaldo e Miraneide levantaram-se e orgulhosamente disseram seu
pequeno texto. A região compreende a cidade e a vila dos pescadores que fica
além das dunas, à beira da praia.
Ah! Então o que eu sinto
não é o nada! Esse lugar existe mesmo, pensou Ona! Parecia que em sua mente algo tinha se encaixado e ocupado um
vazio que ela sentia, mas que não sabia o que era. Continuando as informações,
Waldisney tinha motivos familiares para ser o escolhido a falar o próximo
texto. O nome é homenagem a Sunévi Tedia,
exemplo de mulher generosa, trabalhadora e dedicada a todos nós.
Aos poucos as amigas iam
calando as dúvidas, construindo uma idéia sobre o lugar onde viviam, entendendo
que apesar de sua casa não estar no mapa da escola, o lugar existia. Enquanto
isso, os gêmeos Assenauer e Adenauer interrompem suas divagações acrescentando
outros dados relevantes sobre o lugar. Nossa
escola localiza-se entre a vila e a cidade e abriga todas as crianças da
região. Ela leva o nome de Escola
Regional Félix de Satino, em homenagem ao esposo de Tedia. Ele é considerado o maior expoente regional de letras e
artes. Além disso conhecia profundamente várias técnicas, principalmente a da
construção de poços e chafarizes. Satino
é exemplo de dignidade e trabalho a ser seguido por todos os sunevianos.
Capítulo IV
As crianças da escola
descreviam a região como se seu centro histórico fosse o sobrado dos azulejos;
palácio imperial, casa da moeda e campo de cristais dourados, e aos poucos se entendia
a linguagem e os motivos de tanto ufanismo. O casal Satino/Tedia gozava de estranha dignidade. Tinha deixado de herança
para os filhos a única casa com frente de azulejo da cidade. O restante da
arquitetura de Sunévia era marcado
por construções tímidas e modestas, reinterpretações do famoso sobradão. A
grande maioria, pintada de branco, dava ao visitante a sensação de ser uma
região de extrema luminosidade. Ali tudo era claro, esbranquiçado. Até os gatos
e os cachorros nasciam com os pêlos clareados pela luz.
A igreja distinguia-se do
resto das construções por um detalhe: em cima das portas alguns frisos beges
não faziam grande diferença. Construída por interesse ao lado da casa de Tedia, facilitava as práticas
religiosas de sua família. Em frente ao templo, uma árvore centenária
contrastava com a palidez da paisagem e espalhava o verde, o cheiro e a cor
amarelada de seus frutos pelo chão. Na praça, bancos de ferro já não tinham
uso. A ferrugem os comera. Nos canteiros, só areia. No meio, um sinal de
modernidade; um anemômetro media os ventos e um pluviômetro media as chuvas que
nunca vinham, o ano inteiro, por séculos e séculos. Uma placa reforçava a
lembrança de Tedia. A tomar pelo
sobrado e pela igreja, Sunévia dava
a impressão de ter tido períodos de prosperidade. O barro que abundava no
mangue, vegetação comum num de seus limites, fez prosperar a manufatura de
cerâmica utilitária. Mas quando a indústria do plástico passou a fabricar
utensílios em grande escala, essa atividade
começou a desaparecer. Hoje, só se fabricam algumas peças para divertimento
das crianças. O plantio do algodão trouxe também um período de progresso. Dizem
os moradores que nessa época tinha até um coreto na praça. Mas com a indústria
de malhas e de tecidos sintéticos, as plantações foram praticamente
abandonadas. Hoje, a graça do lugar sumiu. Suas vozes estão perdidas. Ao
visitante, que pensar? Inacabada ou demolida? Abandonada? Apagada? (Não, só em
certas horas do dia!) Inerte seria o termo exato. Um dado concreto é que hoje a
maioria dos seus habitantes vive como atravessadores do artesanato e da pesca
dos habitantes da vila.
A fortuna de Tedia era homeopática. Herdara a
fórmula de seu pai, e com o tempo, o cansaço na mão e no braço. De tudo o que
acontecia na localidade, e isso ela sabia bem, ganhava uma gota. Mandara
pendurar no teto do cartório um cabo de aço com um aro na ponta. Ali ela
apoiava o braço para criar, assinar e assassinar documentos.
Muito mimada, ainda
criança surpreendeu a todos defecando vermelho. Toda a redondeza se deslocou à
cidade para ver a façanha. Nunca imaginaram que no meio de suas manias, ela havia
passado três dias se alimentando só de beterraba, tubérculo totalmente
desconhecido no lugar, que o pai trouxera de uma viagem que fizera à capital.
De outra vez, o cocô saiu verde. Aí sua fama correu mundo. Viam nela poderes
mágicos, porque defecava colorido. Nunca quiseram saber se ela tinha ou não
comido tinta de rodapé ou esmalte cintilante. Filas e filas de gente
aglomeravam-se todas as manhãs na porta de sua casa para ver a nova cor de suas
fezes. A conversa diária era “enfezada”. Formas e texturas alimentavam a
fantasia das pessoas, que criavam até cores que não existiam.
Assim começou a fama de Tedia, que cresceu como princesa e
tirana, respeitada e temida pelas pessoas que acreditavam em seus poderes
extraordinários. Às vezes ficava dias e dias calada, não saía de dentro do
quarto. Passava o tempo chupando o dedo. Cabeça baixa, olhar meio de banda,
elíptico. Atribuíam isso a uma fase de contato com seus talentos.
Se resolvia freqüentar a
escola, aprendia tudo com facilidade. Relatos afirmam que com 11 anos
arrebatava palmas e lágrimas, quando nas festas escolares recitava “Espumas
Flutuantes”, de Castro Alves. Depois de moça, um de seus passatempos era criar
sapos. Usava um cacimbão abandonado no quintal de casa como criatório de seus
“pets”. Uma vez por ano soltava-os nas ruas da cidade, que ficavam atopetadas
desses bichos, que apesar de enxotados, teimavam em entrar nas casas. Seus
habitantes toleravam a praga como sinal de algo sobrenatural. Porque Tedia sabia tudo, podia tudo.
Contam que certa vez toda
a população foi acometida de estranha doença: febre, enjôos, amarelidão. O mal
só foi esclarecido quando a insônia de alguém descobriu que à noite ela
visitava os quintais das casas e urinava nas cacimbas, infectando
(fertilizando) a água potável da cidade. Mas Tedia não era má, era apenas dotada de poderes e talentos. Estando
de veneta, sabe-se lá com que intento, espalhava os restos da comida de seu
prato nas portas das casas.
Mas se por um lado demonstrava
intenções nem sempre claras, ninguém resistia a seus encantos. Os sunevianos jamais
se esqueceram dos acenos de seus braços, que pareciam multiplicar-se só para
sentir o sorriso de alguém para ela.
A maturidade deixou-a
muito gorda, e como sentia muito calor andava quase despida, sem que ninguém a
censurasse. No máximo, se iam à sua casa, ela se apressava e dizia: – Espera
aí, que vou vestir uma roupa. Você me pegou desprevenida!
Sua morte repentina
comoveu a todos. Como a escassez de água não permitia aos sunevianos o cultivo
de flores naturais, eles passaram dias e noites fazendo coroas de papel para
enfeitar seu túmulo. Quando cumpriram o pesar de sua morte, eles dormiram. E
tiveram todos o mesmo sonho: o de que ela voltava. Nua, escondendo suas “partes”
com a mão que tanto a caracterizava. Vagava pelas ruas cavalgando um imenso
búzio. A partir daí os habitantes de Sunévia
esqueceram-se de si. Tentando recordar as faces de Tedia, esperavam que o sonho se repetisse.
Capítulo V
Uma rua só. Assim era a
vila dos pescadores. Numa ponta gravitavam os sentimentos e as virtudes
elevadas, e na outra as desprezíveis. Numa o curral, lugar onde moram as
quengas; na outra uma pequena igreja soterrada pela areia, motivo de tristeza e
desgosto dos moradores que rezavam e pediam aos santos para que os ventos
movessem a duna e desterrasse a casa de Deus. Exatamente no meio do estirão de
palhoças e casinhas simples, um aglomerado de coqueiros quase encobria uma
modesta construção de palha que dava um pouco de contraste à atmosfera deserta
do local. Na única parede de alvenaria, a pintura de uma praia de mares verdes
com um céu azul rodeava a figura de uma sereia “ancuda”, coberta por escamas
cintilantes. No chão, um balcão improvisado vendia, entre outros, ungüentos para
ativar as alegrias ou amenizar seus efeitos; cachaça, zinebra, “Conhaque de
Alcatrão de São João da Barra”, “Sal de Frutas ENO” e pílulas de “Benzetacil”.
Do lado de fora, uma “radiadora”, do alto de um tronco de coqueiro, anunciava
musicalmente o pecado, mediando pelos ouvidos as duas partes da rua:
Debo a la luna el encanto de mi fantasia,
Y a tu mirado el dolor y la melancolia.
Quiero decirte mi trivial canción.
Quiero cantarte señora tentación.
Era ali que Ane e One moravam. Suas vidas eram limpas e brancas como a cal que
pintava as frentes das casas de seus pais. Como as folhas de papel onde elas
aprendiam a escrever. A areia ardente, a vegetação seca e a intensidade da luz
que descoloria até suas roupas reforçavam essa sensação.
Não sabiam nem ouviam
falar de seus antepassados. Como invocá-los, se ninguém lhes falava deles, se
as conversas passavam sempre ao longo de seus ouvidos? Elas imaginavam que
todos tivessem morrido afogados, e seus corpos houvessem sido comidos pelos
habitantes dos mangues. Ao contrário de Sunévia,
ali ninguém tinha sonhos. Ora! Como sonhar, se não tinham memória? Mas Ane e Ona sonhavam. E seus sonhos eram povoados com palavras, sussurros,
restos de conversas que o vento trazia a seus ouvidos. As fisionomias é que não
se delineavam totalmente.
Ouviam histórias de
pescadores, sereias, peixes enormes, de manobras malfeitas no do mar que
resultaram
Ali, as pessoas corriam
todas as tardes à praia para ver a chegada das embarcações. E elas iam também. Conheciam-nas
pelo nome. Acompanhavam atentamente a contagem dos peixes. O olhar
intransigente do dono da jangada ficava marcado em suas memórias. Além disso,
sabia-se que ele ficava com a maioria deles. Seriam tratados, arrancadas-lhes
as guelras, e depois enviados para a cidade. De repente apareciam cachorros,
gaivotas e urubus que disputavam suas entranhas. O sangue escorria até o mar
como pequeno riacho róseo assemelhando-se a véus. Tudo cheirava a maresia e a
peixe. Para a população da vila, ficavam os menos nobres. A mãe fazia sempre
uma sopa de cangulo. Dizia que era bom para os ossos. Enquanto se alimentavam,
elas então pensavam nas letras e nas palavras. Tinham desenhado muitos “Ss” no
exercício de caligrafia e achavam a letra parecida com as ondas do mar. Ossos!
Tanto S e tanto O! Só duas letras! Assim como a água e o sal da sopa, pensavam.
Sua casa era sóbria, limpa, sem ranhuras. Tudo branco! Até os canecos de
alumínio eram areados até ficarem reluzentes como um espelho. Até apagar os
enfeites. Na sala, uma foto numa moldura oval, pouco lembrava seus pais. Tinha
sido encomendada a alguém que passava vendendo o serviço.
Suas raízes começavam
ali. A mãe, labirinteira, aprendera a confundir a vida com os labirintos; tudo
branco e trabalhado, mas geométrico. Tornaram-se como as folhas do mangue ou o
capim das dunas; ásperos, na medida, para não perecer! Mas apesar de sua pele
ressequida e tostada pela claridade do sol, deixava escapar resquícios de zonas
ardentes. Às vezes, desaparecia de casa. As meninas já conheciam o ritual e
acompanhavam-no até de olhos fechados. Sabiam que estava no banho pelo cheiro
do sabonete “Eucalol”. Sua cor esverdeada lembrava o caminho de árvores verdes
e compridas estampado no papel que o embrulhava. Depois, a partir do velho
espelho trincado, a casa rescindia ao cheiro enjoado do óleo “Glostora”, que lhe
dava brilho ao cabelo. O resto da saga era contada por odores de batom, rouge e
pó “Royal Briar”.
Elas soletravam o nome e
se perguntavam: “Bri-ar”. Por que não
“Brilhar”? Por último, a carteira amarela de cigarro “Astória” na bolsa...e
desaparecia. Só voltava no outro dia. Em seu lugar ficava uma tristeza sem
nome, uma dor que não sabiam definir. Preferiam que ela estivesse
Boneca cobiçada,
Das noites de sereno.
Teu corpo não tem dono,
Teus lábios têm veneno.
Esperavam-na. E eram
tantas luas que vinham e iam... branca, amarela, grande, saindo lá longe,
subindo até ficar pequena, deixando um rio de luminosidade no mar. Às vezes
escura, furtiva, se escondendo entre as nuvens.
O pai, quando não estava
no mar, juntava-se aos outros pescadores e ia consertar as redes de pesca furadas,
puídas. Frágeis como suas histórias que falava das recordações de Tedia ou de algum adultério na
madrugada! Em alguns casos também desaparecia na noite. Era seu costume, pois
era pescador. Parecia normal, apesar de as meninas não entenderem. No outro dia
ouviam a mãe comentar com as amigas que ele tinha chegado em casa “truviscado”.
Que é isso, interrogavam-se. Seriam aqueles olhos trêmulos? Como se houvesse
uma gelatina entre nós e ele? Aí se lembravam da música que tocava na “radiadora”
e que falava de alguém cruzando mares de
loucura. Em silêncio, pediam para o pai não
naufragar o viver.
Capítulo VI
Chegar à escola era uma
aventura. As crianças se orientavam pelo mar e pelo sol. Caminhando uma atrás
do outra, feito caravana no deserto. Na ida, o calor era amenizado quando elas
arrancavam as folhas dos pés de carrapateira e usavam-nas como sombrinhas. Os
arbustos tinham nascido ali por acaso e depois eram regados a pedido de Tedia, para que as pessoas da vila
pudessem usar as folhas como proteção. O restante da vegetação era quase nulo.
Só uns poucos pés de capim cujas folhas ressequidas pelo sol e pelos ventos
mais pareciam alfinetes. De ser vivo, os calangos e as tijubinas verdes se
movimentavam sorrateiramente, como se fossem espíritos dunáticos.
Aqui, acolá, um pequeno
oásis; uma touceira de salsa contrastava com o branco da areia. De manhã, suas
flores estavam bem abertas, e naquele dia Ane
e Ona pararam e arrancaram da areia
uma rama bem comprida. Retiraram todas as folhas, deixando só o talo. Era para
fazer uma corda e pular no recreio da escola. Tinham aprendido a pular “de
passeio” e estavam aprendendo o “de pimentão”. Morriam de inveja das meninas
maiores, que já sabiam como ficar de joelhos enquanto a corda levantava.
Caminharam um pouco e
avistaram a “selada” no meio das folhas de um outro ramo de salsa. Ona procurou na areia quente um graveto
de pau para espantar a cabra que vagava solitária, à procura de comida. Ane logo correu para juntar-se à brincadeira. Assustado, o animal saiu em
disparada, parando um pouco adiante. Balançou o rabo, esticou o pescoço, lançou
um olhar exclamativo assim meio de banda. Parecia dizer: Sossega, menina
malina, que ainda tenho muita história pra contar! Tendo atingido seu objetivo,
elas saíram rindo e conversando. Conheciam a fama da cabra que se acostara um
dia na vila e nunca se soube quem era seu dono. As labirinteiras contavam que
certa vez estavam com muita encomenda para entregar na cidade e tentaram
amarrar alguns pacotes no lombo do animal para ver se ela poderia levá-los e
assim amenizar o peso deles para as cara metade. A tentativa foi
Chegavam à escola quase
na hora da chamada, feita no início da aula. Curioso era as crianças serem
reconhecidas pelos nomes dos próprios pais: Liduína, Maria da Fátima, José,
Socorro, Maria das Dores, Iracema, João, Luzia e outros, moradores da vila.
Lucivaldo e Miraneide eram filhos de Lucineide e Valdomiro e moravam
Escolher o nome de seus
descendentes de forma assim tão peculiar parece ter sido incutido na cabeça dos
sunevianos pelo exemplo de Satino.
Ele ganhou “status” de grande inteligência, por ter afirmado certa vez que o
nome “Iracema”, do romance de José de
Alencar, não tinha origem indígena. Fora construído a partir da reorganização
das letras do substantivo “América”. Além disso, sabia de cor partes da “De
Bello Gallico”, de Júlio César. Apesar de não saber nada de latim, isso bastou
para afamá-lo. A lenda de seu casamento com Tedia tem momentos marcados pela comentada sensibilidade
intelectual desse homem. Dizem que se apaixonou não só pela beleza da jovem,
mas desde o dia em que a viu declamando num sarau doméstico.
É evidente que o casal
tinha muitos interesses
La donna è móbile
Qual piuma al vento,
Muta d’accento e di pensier.
Satino escolheu também o nome de seus três filhos; Ohnos, um menino que morreu logo ao nascer, e duas meninas
conhecidas como “as Eugnas” (Eugnira e Eugnara).
Se depois que Adão e Eva
foram expulsos do Paraíso, os homens tiveram que trabalhar para ganhar seu
sustento, Satino fugia à regra.
Nunca precisou disso! Envolvido em apostas de brigas de galos, passava o dia
inteiro jogando damas com amigos (o farmacêutico, o chefe da guarda policial e
outras autoridades) no oitão da igreja em frente à sua casa. Depois que a água
da cidade foi inutilizada pela urina da esposa, passou a defender a idéia de
que Sunévia estava localizada em
cima de um rio – o “Felb”– que nascia no quintal da casa de Tedia e era afluente direto do “Po”. Assim, o lugar onde encontrava os
amigos era estratégico, por ser o único caminho para o “Loniru”, chafariz que
construíra e presenteara à comunidade. Qualquer pessoa que passasse com água
por ali deixava um tributo em sua mão. Curioso é que logo após a morte de Tedia e Satino, o tal rio secou.
Capítulo VII
Levadas pela curiosidade,
Ane e Ona resolveram um dia desviar o caminho de volta para casa e
caminhar um pouco adiante, atingindo a rua da cidade. O material escolar, carta
de ABC, tabuada, caderno pautado, papel almaço para as provas, lápis com
borracha na ponta, caderno de caligrafia vertical, o de desenho e a caixa de
lápis de cor eram vendidos na loja de Dona Aula. Isso era o bastante para responder
à curiosidade das meninas, que faziam de tudo para se aproximar da figura de
olhar inquieto, conhecida tanto na vila como na cidade. Quando não estava por
trás do balcão atendendo apressadamente à clientela, costumava ser vista
correndo de um lado para o outro da rua, de pés descalços e usando um vestido
esvoaçante. Um enorme colar de pérolas falsas que ondulava com o movimento leve
de seu corpo completava a indumentária. Parecia uma bailarina. Mas de repente
desaparecia dentro de casa. Ia ouvir a novela “O direito de nascer” num rádio
de galena que, de transmissão tão rudimentar, só ela escutava o amor entre “Isabel
Cristina” e “Albertinho Limonta”. Saía
de dentro da caixa de charutos “Suerdieck”, passando pela metade do fone de um
antigo aparelho telefônico, indo até os ouvidos da moça. Em cima da caixa, um
pedaço de metal curvo tocava numa superfície escura, a pedra. O sussurro da transmissão parecia inundar de mais leveza sua
figura. Depois, se não tivesse clientes, saía novamente para seu giro cada vez
mais leve e distante.
Os vizinhos não se
surpreendiam com seu comportamento. Ao contrário, ela era perfeitamente aceita
e assimilada pelos sunevianos. Ali tudo corria dentro da normalidade, pois a
claridade excessiva retirava qualquer resquício de “drama” das coisas. Depois
das extravagâncias de Tedia, tudo o que
era estranho tornou-se habitual. Ser excêntrico era norma. Ela foi menina
quietinha e gostava de estudar. Os pais protegiam-na demais. Ficou assim “atubibada”
depois que extraiu o “dente queiro”, lá pelos quinze anos, diziam. Com o tempo
montaram essa loja para ela, acrescentavam outros.
Para as duas meninas, ser
ou não ser “atubibada” não significava nada demais. O que elas apreciavam era o
balançar do seu colar de pérolas, o movimento da seda do seu vestido e a leveza
silenciosa de seu passeio na rua, como se fosse uma borboleta sobrevivente.
Ficavam ali no balcão, com olhares compridos, até ela mesma convidá-las para
entrarem e ouvirem um pouco a transmissão do rádio. Chegavam no intervalo da
novela e escutavam: “Segunda, terça, quarta. Sabonete Palmolive. Quinta, sexta,
sábado. E domingo, Palmolive”.Um coral feminino fazia “cosquinhas” passeando
pelos ouvidos das meninas.
– Agora sou eu, dizia One, tomando o pedaço de telefone de Ane!
Em 14 dias, mais beleza pra você, vocêêêê!
“Você” soava enfático. O
coral floreava dengosamente a palavra. Era o tempo de Ane reagir e pedir novamente a sucata. Deixa eu agora: “Com
Palmolive!” O “jingle” terminava com uma voz masculina aconselhando:
“Palmolive-se dos pés à cabeça!”.
Capítulo VIII
O sol estava mais frio, e
o caminho para casa mais ameno. Poderia ser feito entrando na vila pelo lado
oposto ao da igreja soterrada. O “Corrente”, aquele pequeno riacho que
desembocava no mar, transbordava pela manhã, impedindo sua passagem. Mas no fim
do dia podia ser atravessado com água no meio das pernas, encurtando a viagem e
sobrando tempo para brincadeiras na praia. Antes disso, porém, elas foram
seduzidas por um passatempo mudo. Àquela hora as mulheres da vila estavam todas
acocoradas em cima das pedras, lavando roupa. Enquanto tagarelavam, ensaboavam
e esfregavam as roupas, deixando na água fios cinzentos que saíam de cada pedra
rumo ao mar. Depois, torciam-nas para tirar a água e estender na cerca que
fazia limite com as terras de Tedia.
Cheias de vento, as roupas pareciam balões que balançavam nos arames da cerca.
Por aquela trilha, as
casas eram na maioria feitas de palha. A ambiência era calma, pelo menos na
hora em que as meninas passavam. Mulheres em pé ou sentadas às portas das casas,
como se não conhecessem o tempo, estimulavam a curiosidade das duas amigas.
Quem são essas mulheres, se perguntavam. E por que elas moram aqui? Mamãe falou
que elas rolam nas palhas e no mangue, não foi, Ona? É, mas elas nos espreitam, piscam os olhos e erguem as
sobrancelhas como todas as mulheres da vila, Ane! E mexem os quadris como mamãe, resumiu Ona, calando-se.
Crianças sem roupas,
circulando na areia, se escondiam quando viam estranhos. As barrigas crescidas
davam a seus corpos o desenho de um “S”. As meninas olhavam e imaginavam que
aquelas barrigas pareciam um globo terrestre. Instantaneamente as imagens do
dia em que brincavam com o mapa na parede da escola vinham à mente. Então, que
países seriam aqueles nas manchas de sujo daquelas barrigas? Quem sabe, ali
naquele mapa encontrariam Sunévia,
já que ela não se encontrava no mapa da escola? –Tinham visto nas revistas uma
reportagem sobre a Índia, onde se viam fotos de crianças indo à escola, todas
arrumadinhas. Vestidos limpinhos de dar inveja. Perguntavam-se por que as
crianças da vila não eram como aquelas da revista; olhos grandes e cabelos
negros. Penteadas com laços e tranças... Comparavam com suas próprias roupas e
seus próprios cabelos. Entreolhavam-se e sabe-se que bem que gostariam que não
fossem desgrenhados, secos, com as pontas esbranquiçadas como raízes de
Ipepacoanha. Imaginavam que as crianças da Índia também dormiam e sonhavam, mas
com barcos dourados. Com vestidos prateados como o daquela Iemanjá suntuosa
nascendo das águas que estava pendurada na parede da casa de uma daquelas
mulheres.
Depois de passarem pelo Córrego
e pela ponta da rua, iam para a beira da praia. O mar estava mesmo lá longe.
Mandava pequenas ondas rasteiras que se espalhavam em direções perpendiculares
pela areia, formando um cortinado terminando com bicos de espuma nas pontas.
Quando a onda voltava ao mar deixava a areia brilhante, quase um espelho. Numa
espécie de capricho ou compulsão, elas pisavam para vê-la ficar fosca. A areia
minava água como se dissesse: essa é minha dor, mesmo que esteja dura!
O barulho e as gotinhas
que iam parar em seus rostos se misturavam à brisasinha agradável e amenizavam
o calor. Aqui, acolá, elas davam com pequenos arrecifes que guardavam
maravilhas; as cacimbinhas com água morna. Aí esqueciam o tempo. Divertiam-se
observando os pequenos peixes nadando, os pequenos crustáceos que se escondiam
entre as pedras. Os siris que corriam abrindo buracos e se escondendo. A água a
balançar as algas verdes que cresciam como cabeleiras, agarradas às pedras. Aí
elas remetiam seu pensamento às sereias. Quem sabe seria a água que penteava
seus cabelos? Não precisavam de pente nem doía para pentear. Cada vez que a
onda vinha, era outro penteado. Nada a ver com as indianas e seus cabelos
educados, cuidados e vigiados. O desejo de ser sereia era momentâneo, não se
fixava. Os pássaros correndo na areia lhes chamavam mais a atenção. Uns
caminhavam alternando as pernas e outros, ao contrário, saíam pulando com as
duas ao mesmo tempo. Elas riam desse comportamento e continuavam observando-os.
Chegavam em casa com as
mãos e os pés brancos e engelhados de tanto permaneceram na água. Não achavam
nada demais! O mundo delas era mesmo brando e branco, pois a luz intensa
desbotava tudo. As coisas mais coloridas eram as toras de madeiras que
empurravam as jangadas e que elas ouviam ranger. As roupas escuras dos
pescadores, tinturadas com murici ou caju. As conchas róseas que colhiam para
brincar, fazer desenhos ou um imenso caminho cheio de curvas e caracóis.
Capítulo IX
As mulheres da vila
conversavam muito quando estavam sentadas no chão, trabalhando com suas telas
de madeira. Ali se sabia de tudo. Evidente que a figura de Tedia e sua família animava
sempre qualquer conversa. Cada uma
enfeitava mais os fatos sobre os personagens da cidade. Parecia que faziam
labirintos não só com as mãos, mas também com as palavras. As meninas faziam de
conta que estavam alheias às conversas, quando na verdade estavam atentas a
tudo. Sabiam que as Eugnas (Eugnara e
Eugnira), sobreviventes da
família de Tedia, eram as
atravessadoras dos trabalhos das labirinteiras. Recebiam os trabalhos,
pagavam-nas, entregavam outros panos (já cortados e desenhados) e instruções
para a nova entrega. Sabiam que elas eram solteironas. Não saíam de casa,
porque eram muito medrosas e escrupulosas com relação ao contato com as
pessoas.
(
Eu não dou as minhas filhas,
no estado em que elas estão.
Nem por ouro, nem por prata,
nem por sangue de Aragão.
(cavaleiro)
Tão alegres que viemos,
E tão tristes que voltemos..
Que a filha de
Nós daqui não a levemos.
O mundo das labirinteiras
ia aos poucos se fazendo conhecer para Ane
e Ona. Percebiam o que aquelas
mulheres esperavam delas. Aprender a paciência, pois suas vidas dependeriam dos
labirintos. Para isso, precisavam treinar primeiro a observação. Assim observavam
a lâmina finíssima da tesoura que cortava o fio do tecido, bem na confluência
do fio contrário. Teriam de aprender a retirar esses fios, desfazê-los e refazê-los.
Sabiam que aos poucos aquilo iria se transformar numa atividade sem mistérios.
Suas vidas seriam reinventadas através de furos, linhas, fios, cortes
suturados, desenhos misteriosos que só apareceriam depois de terminados. Seus
destinos seriam cobrir o nu, disfarçar o feio, contrastar o igual, recortar o
grande. Fazer quadradinhos maiores, furinhos com linha mais grossa. Tudo miúdo,
mas pesado, medido e contado. Tudo transformado em destino puro, concentrado,
conformado. Toalhas, colchas, lenços e blusas, que lavados e engomados secariam
ao sol e depois seriam passados como desde o início dos tempos que se perderam
na memória. Mas nada daquilo permanecia muito tempo preocupando-as. De repente,
tudo virava brincadeira. Elas se escondiam no meio daqueles panos estendidos
nos varais, se tocavam para saber quem eram. Colavam seus rostos para se esconderem
uma da outra e se lembravam do recreio na escola.
(cavaleiro)
Assentai-vos aí, menina,
a cozer e a bordar,
Que do céu te há de vir,
uma agulha e um dedal.
Quando eu for ao Maranhão,
Hei de trazer-te um bom cordão.
Se não for de ouro fino,
Há de ser de um bom latão.
Quando se cansavam, se
recolhiam em seu mundo particular e pensavam: Que cavaleiro é esse que promete
um cordão de latão? Que em vez de levar a filha de “
Capítulo X
Às vezes, Ane e Ona se queixavam da excessiva claridade da vila e da ausência de
árvores ou descanso. Sinto meu corpo cansado, as juntas grossas, os olhos
ardendo, dizia uma delas. Aqui tudo é imensidão, luminosidade ou escuridão. Não
tem meio termo. É ardor de sol o dia inteiro, completava a outra.
A claridade da região era tanta que
virava banalidade. Descansar debaixo da árvore da praça de Sunévia, principalmente quando estava no período de floração, fazia
parte das inúmeras aventuras das meninas. Na praia, gostavam de brincar com
suas sombras. Observavam quando elas se tornavam mais compridas, mais gordas.
Mais para um lado, deformada, ou para o outro. Dependendo da hora do dia, quase
não existiam. Restava uma pequena e divertida sombra. Não conheciam uma mata,
uma floresta. Só o mangue e o mar. Mesmo assim, imaginavam uma sombra grande e
farta, diferente da sombra rala dos coqueiros no centro da vila. Diferente da
sombra das árvores do mangue, enterradas na lama, com raízes enormes e folhas
de verde sujo!
Tinham um projeto surdo que aos
poucos foi clareando em suas cabeças.
Talvez essa necessidade tivesse sido despertada quando olharam a revista da
escola que tinha uma reportagem sobre a Índia. Praias sombreadas, mares
tranqüilos e azuis. Quem sabe, tinha sido reforçada pelas estampas da caixa de
sabonete “Eucalol”. Duas filas de
árvores bem altas que pareciam se unir no infinito, formando um imenso túnel
verde.
Elas mesmas nem sabiam de
onde vinha essa necessidade. Até se questionavam: que falta é essa, que não tem
nome? Que desejo é esse que não se define, não se cala nem se satisfaz? Que
passa de sonho para brincadeira e para o sério em forma de armadilha? A falta
passou da alma para o corpo, e elas procuravam essa pequena sombra até debaixo
das folhas de carrapateira que retiravam para caminhar ao sol, quando iam pra
escola. No fim, tentavam encontrá-la até debaixo das folhas das salsas. Mas
nunca encontravam. E foram esquecendo o corpo e a alma. De tanto procurarem,
começaram a se achar um bicho minúsculo e esquecido, que podia descansar até na
sombra agulhada das minúsculas folhas dos capins que cresciam nas dunas. Mas
isso também não lhes deu descanso.
Um dia, imaginando como
seria uma floresta, elas resolveram construir uma a seu modo. E fizeram uma
miniatura. No princípio foi difícil concebê-la, até encontrarem no lixo uma
caixa de sapato vazia. Com a tesoura de lâmina fina dos labirintos da mãe
fizeram várias pranchas recortadas em pedaços de papel de seda. Imaginaram que,
com os recortes, elas imitariam árvores. Colaram as pranchas no sentido
vertical da caixa. No lado menor do retângulo fizeram um buraco redondo para
ter por onde olhar. Cobriram a parte
de cima da caixa com as penas dos pássaros que comiam as vísceras dos peixes na
praia. Entre as que eles soltavam, escolheram as que ficavam por baixo da
barriga, por serem mais crespinhas e macias. Finalmente, a caixa foi pintada de
verde por fora. Estava pronta a floresta. Olhavam pelo buraco e mal acreditavam
no que viam. Era verdade! Lá estava uma floresta acolhedora, úmida, onde a
claridade não era uma banalidade, mas jogo entre luz e sombra, nuances,
surpresas. Espaço para andar, escutar pulsações, sussurros e gemidos. Fugir do
cotidiano, reinventar a vida. Até riam uma para a outra querendo saber se
tinham realmente conseguido fazer aquilo tão lindo!
De tanto se imaginar ali
dentro, a floresta inventada muitas vezes crescia, saía de dentro da caixa,
ficava enorme, invadia o mundo e as envolvia! O melhor de tudo isso era o
segredo! Aquela coisa que fora feita por elas, era só delas e só elas entendiam
o porquê daquele lugar. Parecia um milagre! Por isso decidiram que ela deveria
estar escondida! Mas onde, se em casa tudo era às claras? Decidiram então que
esconderiam o invento no meio das redes de pescar do pai, amontoadas num canto
da cozinha. Ali ninguém descobriria. Mas quem disse que ficaram tranqüilas?
Nada disso! Saíam para a escola contando o tempo para voltar e olhar no
buraquinho! Iam brincar, mas interrompiam a brincadeira para ver a pequena
floresta. Mais pareciam uma galinha choca, pastorando o ovo até nascer.
Capítulo XI
O vento nada fazia para
descobrir a igrejinha da vila, e a população sentia que aos poucos sua fé desaparecia.
Para encontrá-la, o único caminho era andar até a cidade. Na igreja de Sunévia, a missa era sempre ambientada
por um enorme coral de miados. Por Anésia
e seus gatos. Com suas caudas levantadas, roçavam nas pernas das pessoas,
que simulavam não se incomodarem. Ane
e Ona, sorrindo uma para a outra, se
olhavam e se confidenciavam: o cuzinho dos gatos parece com as flores de salsa
quando estão murchas! E são tão limpinhos, acrescentavam. Engraçado é que fazem
cocô e não precisam se limpar! Feito a gente!
A velha prostituta que
errava pelas ruas de Sunévia
costumava sempre ir à missa em companhia dos felinos que abrigava. Sem moradia
fixa, andava sozinha pedindo comida para ela e seus gatos. Dormia em
construções inacabadas. Parecia querer impregnar e perpetuar, com seu
esquecimento, o futuro da cidade. Quando as construções terminavam, arrumava
outro pouso. Assim levava a vida. Apesar de sobrevivente da época áurea da localidade,
frustrava quem quer que quisesse saber do passado. Anésia e Sunévia já não
se reconheciam. Os olhares se cruzavam, mas num momento em que não se conseguia
detectar, se desviavam e não se fixavam. Aqui, acolá, ela era mencionada em
conversas masculinas como alguém “abirobada”. Teria tido um bordel no período fausto
da cidade, que só era freqüentado por pessoas importantes da capital.
A fé, no entanto, sobrevivia
também na figura de Tedia,
especialmente entre suas filhas. Mesmo sem sair de casa, não faltavam à missa.
Da janela do casarão assistiam a toda a celebração. Sabiam toda a liturgia.
Colocavam mangas compridas nos braços, cobrindo-os dos vestidos usuais, véus nas
cabeças e ajoelhavam-se na janela como se estivessem dentro da igreja. Nos
tempos
Capítulo XII
Naquele dia, as meninas
foram brincar na praia. Atravessaram as dunas. O sol batia forte, e o vento
levantava a areia formando uma nuvem, impedindo a visão da linha no horizonte.
Os grãos de areia batiam em seus corpos como pequenos alfinetes. Estavam loucas
para chegar na água e aliviar-se. Com suas pernas magras saltaram logo metade
dos arrecifes. A pedra arenosa e a superfície porosa e acidentada não as
amedrontavam. Tinham a segurança de quem tem olho para as distâncias entre uma
rocha e outra. Além disso, a sola dos pés agüentava qualquer temperatura ou
aspereza do sol. Pisavam na água com força, para ouvir o barulho e ver os
respingos no ar.
Na curva que levava ao
Corrente notaram um filete de água rosada que vinha escorrendo em direção ao
mar. Levantaram a vista até perto do mangue e deram com umas mulheres lavando
lençóis. Observaram que batiam nos tecidos com um bastão grande de madeira. Por
último, torciam os panos. O fato chamou-lhes a atenção porque conheciam bem
aquelas peças. Elas vinham de sua casa. Pertenciam à sua mãe. Lembraram-se
imediatamente da cena da volta das jangadas lá no outro lado da vila. Daquele
filete de sangue em direção ao mar. Pareciam véus de diferentes tonalidades de
vermelho, que saíam das entranhas dos peixes e se sobrepunham uns aos outros na
água. Uma sensação estranha tomou conta delas, quando se lembraram da disputa
dos bichos por suas guelras. Será que o sangue e a carne dos peixes eram da
mesma cor do sangue e da carne da mãe, perguntaram-se.
Chegando em casa encontraram
uma mulher que já tinham visto algum dia, na cidade. Sabiam que morava numa
casinha pequena e que na porta tinha uma cruz branca pintada. Aqui, acolá,
alguém a chamava de “cumade”. Naquele momento vestia uma criança. Entenderam
ali o porquê dos lençóis. Dias depois eles voltaram brancos como as nuvens, as
folhas de escrever na escola e os labirintos. Apesar de nada comentar com as
filhas, elas intuíam que sua mãe estava diferente; mais gorda e roliça. A
partir daquele dia, armaram suas redes na sala. Só às vezes iam no quarto,
observá-la cuidando da criança. Trocando sua roupa, limpando aquela massa
amarela fedorenta da bundinha dele e preparando o banho com a bacia de alumínio
areado. Espelhando! A mãe colocava a mão várias vezes na água, para avaliar a
temperatura. Devagar, ensaboava primeiro as mãos e depois passava na cabeça e
no corpo da criança, como se fosse uma coisa frágil. Tirava a espuma com mais
cuidado ainda. Levantava-o cuidadosamente da bacia e com um pano enxugava
dedinho por dedinho, dobrinha por dobrinha, rosto, costas. Depois era hora de,
com uma pluma, espalhar talco “Ross”. Finalmente colocava a outra fralda.
O tempo passava, mas nem
a mãe nem elas percebiam. Sentada na rede, abria o vestido, tirava o peito e
começava uma nova atividade. As meninas olhavam para o bico dos seus próprios
peitos e comparavam com o bico do peito da mãe. Achavam-no imenso. Parecia uma
bolacha queimada cheia de furinhos ao redor. O menino parecia atolar o rosto
naquela bola fofa. O pensamento delas era levado novamente para o Corrente, lá
onde o sangue brincava de véu com a água. Será que elas também iriam sangrar
como a mãe? Perguntavam-se se um dia seus sangues também iriam formar véus para
o Corrente e perderem-se no mar. Será que iriam sentir dores? Olhavam para seu
rosto e procuravam em sua expressão a memória dessa dor. Como será essa dor
nela, agora nesse momento? E varriam o medo para fora do foco das preocupações
porque ainda faltava muito tempo para que isso fosse acontecer... Queriam saber
por que o quarto se conservava escuro. O que a mãe ficava fazendo ali dentro o
dia inteiro. Saíra do seu cotidiano e entrara num tempo diferenciado, a que
elas não tinham acesso. Isolara-se. Estava a serviço de si e do menino.
Interessante observar como as outras mulheres a protegiam. Que mistério pairava
no ar, como se elas tivessem sido excluídas da atmosfera da casa? Estavam
enciumadas. Sentiam também a ausência dos homens. Percebiam bem a solidariedade
das amigas, quando traziam comida para a mãe. Todo dia pirão de peixe.
Lembravam dela mesma dizendo: é bom para os ossos!
À noite ouviam um choro
muito delicado, quase imperceptível. Sabiam que a mãe o faria calar-se. Depois
de alguns dias, ela saiu pela primeira vez de casa. Pediu para Ane e Ona olharem a criança.
Cala a boca menininho,
Que tua mãe foi passear.
Quem tem filho não passeia,
Pro menino não chorar.
Capítulo XIII
Um dia, enquanto jogavam pedras, elas
tiveram uma discussão. Vamos, é você quem começa, falou uma delas. A de um, a
de dois, a de três, a de quatro, o troca, pensava e executava a seqüência.
“Peraí”, deixa eu arrumar as pedras e colocar os dedos na posição. Fazia força
para manter a mão feito um arco no chão, jogando as pedras para cima e depois
chutando dentro do arco. Arre! Consegui! Agora vamos ao chuveirão; esse é
fácil. É só fazer bem baixinho, perto do chão, para as pedras não caírem. A
amiga olhava atentamente para ver se não havia algum erro. Ao mesmo tempo
vislumbrava que pelo menos essa rodada estava perdida para ela. Agora só falta
a quarta última. Pronto, dei de “chupetão” em você. A outra demonstrou tristeza.
É, mas no palha você triscou uma pedra na outra! Não trisquei não, senhora,
retrucou, defendendo-se da acusação.
E se isso aconteceu, por que você não disse na hora?
Começou a discussão. Brigaram feio!
Tocaram-se os dedos. Pediram para outra amiga separá-las. Se maldisseram e não
queriam mais ser amigas. Saia daqui! Vá embora! Rasgue tudo o que tenho de mim
com você!(Ficaram de mal!).
Fatigadas da disputa,
adormeceram. E tiveram um sonho. Um só, ao mesmo tempo, para as duas.
Caminhavam por uma floresta e uma figura se aproximava e lhes dizia que elas
brigavam porque eram uma só. Que eram emendadas por um laço que estava dentro
delas. Isso significava que tudo o que uma sentia afetava a outra. Acordaram
apavoradas. O que significava aquilo? Quem seria aquela figura? A partir dali
passaram a observar cada mulher que encontravam em seu caminho. Percorriam, com
os olhos e as lembranças, as faces e a voz de cada uma. Até aquelas que moravam
no fim da rua. A primeira suspeita caía em Tedia.
Elas morriam de medo de se encontrarem algum dia com ela, pois sabiam que
aparecia nas noites, apavorando os sunevianos. Seria a professora Zula, que ensina tudo? As bordadeiras,
que refazem os panos, que enchem os olhos de branco? Talvez fosse a sereia do
bar, que chama os homens para o fundo do mar, a Iemanjá que tinham visto em
retrato nas casas de palha do fim da rua ou a mulher nua em cima da concha, que
está detrás do espelho da mamãe.
(cavaleiro)
Esta eu quero, esta eu não quero.
Esta come o pão da ceia,
Esta carne do espeto.
Esta o vinho da galheta.
Encolhidas, tomaram cada
uma um canto. Então somos emendadas? Onde, quando e por quê? E agora, o que
será de nós? Com o tempo – e até como defesa – elas passaram a duvidar do
sonho. Poderia ser uma armadilha. Aos poucos as brincadeiras apagavam o medo.
Além disso, não entendiam bem aquela história de “emendadas”, se continuavam
separadas, comentavam, após fazerem as pazes.
Capítulo. XIV
As meninas estavam
excitadíssimas. Iriam ajudar a levar os labirintos a Sunévia, sentirem-se parte do grupo das labirinteiras, ouvir-lhes
as conversas, partilhar do seu mundo por inteiro. Além disso, teriam a emoção
de conhecer o mundo de Tedia. A
expectativa era tamanha que durante a caminhada nem sequer se queixaram do sol,
do calor ou do cansaço. Perto do sobradão, a curiosidade estava estampada em
suas faces, fotografando com os olhos todos os detalhes do cenário. Enquanto a
mãe conversava sobre os labirintos, elas corriam o olhar em tudo, como se ali
fosse um palácio encantado. O ambiente limpo, as duas moças, a serviçal.
Escutavam e gravavam o som do assoalho do corredor que ecoava surdo, mas rangia
quando andavam Os móveis antigos, os retratos dos antepassados, os bibelôs em
cima de panos de crochê, as cadeiras de balanço estilo “Taunay”. As camas
cobertas com colchas bordadas. Ali era realmente a terra não só das coisas, mas
das palavras bonitas e com muitas sílabas; candelabros, parapeitos,
balaustradas, varandas, treliças, filigranas. Rapidamente, os termos foram
transbordando em suas mentes: pináculos, meteoritos e até solstícios e
equinócios e tudo mais que lembravam sem cessar. Até cheirava a “patchouli”,
mesmo que não soubessem o que era!
Das filhas de Tedia, Eugnara colecionava miniaturas de Coca-Cola, revistinhas e
figurinhas de Walt Disney, que pintava e colocava na cristaleira da casa. A
outra fazia bonecas sob encomenda. Curioso é que esta não tenha herdado de sua
mãe o medo desse brinquedo, pois se sabe que Tedia entrava em pânico quando via esse objeto. Suas filhas nunca
tiveram bonecas quando crianças. Só depois que a mãe morreu, Eugnara desenvolveu essa aptidão. Ane e Ona chegavam perto da caixa onde elas eram fabricadas, para ver os
pedaços do corpo e as roupas. Eugnira
ia combinando uns com os outros, costurando até formar o todo. Os rostos eram
feitos de dezenas de camadas de uma massa de papel que ela colocava em cima de
um molde, deixava secar ao sol e fazia a pintura dos rostos. Um dia, as bocas
eram reveladas. No outro apareciam ruborizadas e finalmente os olhos começavam
a enxergar. As duas meninas observavam fascinadas aquela fila de caras
encostadas na parede do quintal da casa. Depois de secarem, eram colocadas as
tranças, os laços e o vestido de fitas. No fim, ficavam bem comportadinhas,
sentadinhas em cima de uma cama esperando serem acomodadas numa caixa e
enviadas para a capital.
Para elas, apreciar
aqueles objetos pequenos guardados dentro da cristaleira – e desejar todas
aquelas bonecas – já valia a pena a visita. À tardinha, antes de voltarem à
vila, as moças davam um prato de suspiro a cada uma: branquinhos como a lua,
leves como as nuvens. E se desmanchavam na boca como as ondinhas que vinham da
praia e derretiam os desenhos e os castelos de areia que as duas faziam. Era
lua com gosto de nuvem, sabiam. Mas a aventura ainda continuava.
Eugnara também tocava sanfona. Elas gostavam de acompanhar seu ritual. Primeiro
trazia a caixa escura do quarto. Abria, retirava o instrumento e com aquelas
correias fortes pendurava-o nos braços. Depois, desabotoava as travas de
segurança. Ane e Ona ficavam de olhos fixos observando cada movimento dos dedos da
moça, impressionadas com a seqüência dos acontecimentos. O fole abria-se em
forma de leque, enquanto a mão escolhia somente dois no meio daquele tapete de
botõezinhos, que combinavam com o que ela iria tocar. Vinha o movimento de
retração do fole; a volta do leque de cabeça pra baixo. Fon,
fon-ón-fon/fon,fon,fon,fon. O som começava a sair lentamente dos dedos da outra
mão no teclado. A melodia se arrastava...meio sonâmbula. O ritmo parecia
diluído, sem precisão, sem identidade. Só Anuda,
lá na cozinha, dava vida à performance de Eugnara,
cantando enquanto amolava a faca para cortar o peixe para o jantar.
Se você me encontrar pela rua,
não precisa mudar de calçada.
Faz de conta que somos estranhos,
E que nunca entre nós houve nada.
Elas não tiravam os olhos
e os ouvidos do que estava acontecendo. A experiência era como se estivessem
ouvindo a música de um castelo de cristais e “musselines” douradas de verdade. Eugnara mudava os botões, e a música se
transformava, abrindo as portas de um novo ambiente do castelo.
Capítulo XV
Anuda dizia ter sido criada pela família, mas nunca falava no passado. Era
muito calada, muitas vezes até mal-humorada. Só abria a boca para cantar. Vivia
da cozinha para seu quarto, lá nos fundos do casarão. Só saía de casa duas ou
três vezes por ano, para ir à igreja. Nesse dia se transformava. Vestido limpo
e cheiroso e sapatos que pela falta de uso maltratavam seus pés. Na mão, um véu
preto, velho e puído, que lembrava a rede que os pescadores consertavam quando
estavam de folga; e uma sombrinha que guardava no baú como jóia. E lá ia ela
falar sua língua calada com Deus.
As meninas adoravam o
cheiro de suas roupas e seu quarto arrumadinho e acolhedor, mas Anuda não queria muita conversa com
elas. Parecia que não tinha tempo a perder. Quando terminava o dia, tirava o
cachimbo e umas peles de fumo guardadas numa latinha redonda, picava-as,
arrumava-as e com os dedos empurrava-as cachimbo adentro. Sentada num batente
do quarto, ela o acendia e, olhando para o alto, dava baforadas. Abria seu baú
e começava a arrumá-lo. As duas olhavam de soslaio para a tampa e descobriam velhos
cartões-postais pregados com casais se olhando apaixonados. Quem sabe ela era
assim quando era moça, pensavam.
Entre as mulheres da
vila, corria a conversa de que Anuda
tinha sido moça formosa. Gostava de dançar. Tudo teria mudado depois do
nascimento de Waldisney. O nome fora
sugerido pelas Eugnas, que o mimavam
demais. Crescido sem rédeas, vivia solto na rua, enchendo o mundo de pernas.
Gordo, entediado e preguiçoso para estudar. Dava a impressão de total
indiferença com relação à mãe, que aceitava calada, como se tivesse perdido uma
batalha. Também! Quem agüenta fazer um menino à força, diziam as mulheres da
vila! E principalmente num dia da festa do santo, enquanto Tedia e as filhas assistiam à missa? Algumas aumentavam a história
comentando sobre o mistério da momentânea surdez das três mulheres, enquanto
toda a cidade ouvia a pobre criatura gritando por socorro. O pior é que ninguém
desconfiava que ela estava “buchuda”, comentava uma delas. É, mas ela escondeu
o tempo todo a gravidez com um prato de ágata amarrado na barriga, para que não
se soubesse de nada, acrescentava outra. As meninas, fazendo que não escutavam
as conversas das mulheres, cantavam baixinho a canção da hora do recreio na
escola.
(cavaleiro)
Volta aqui bom cavaleiro,
Para ser homem de bem.
Escolhei neste convento,
Aquela que vos convém.
Vós levais a minha filha,
veja o trato que lhe dão.
Do pão que o rei comer,
ela também comerá.
Do vinho que o rei beber,
ela também beberá.
No quintal, uma pequena
construção redonda lembrava um imenso peito. Elas chegavam perto da boca do
forno e quase entravam cabeça adentro, imaginando que era dali que saíam
aquelas “gotinhas” esbranquiçadas e gostosas! As festas da igreja estavam perto
e Anuda se preparava naquele dia
para fazer as “estrelas do norte”, biscoitos deliciosos que vendia para coletar
dinheiro para os santos. Com suas economias mirradas, comprava a farinha de
trigo, a manteiga e os ovos. As meninas inventariam qualquer coisa para estar
por perto e ver todo o processo. Encher o forno de lenha e tocar fogo. Quando
estivesse quente, juntar as brasas para um lado e para o outro, deixando o
caminho livre para a assadeira com os biscoitos.
Anuda quebrava
os ovos em duas partes, olhava se não estavam “goros” e colocava-os dentro de
uma cavidade feita no montinho da farinha transparente, com o centro
amarelinho. Sabiam do nojo que dava de ver a manteiga ser misturada à farinha e
aos ovos. Melavam as mãos. Aos poucos iam se desgrudando e dando liga na massa.
Exclamava olhando para elas: é preciso trabalhar a massa!
E
haja amasso!
Amassamassamassamassamassamassamassamassamassa!
Três letras, pensava Ane. Mais do que água e sal da sopa de
cangulo, imaginava. Viam Anuda jogar
um pouco de sal e perguntavam: Pra quê? Para quebrar o excesso de doce do
açúcar, respondia. A resposta colocava as meninas em contato com suas
inquietações. Que mundo é esse onde as coisas não podem ser saboreadas por
inteiro? Onde é preciso “quebrar” o doce com o sal? Onde a indefinição é a
norma? Onde tudo é velado, encoberto por um véu de incerteza?
Alheia ao mundo de pensamentos das
meninas, Anuda estendia e esticava
aquele tecido amarelado na mesa da cozinha, com o auxílio de uma garrafa.
Sempre cantarolando baixinho alguma coisa que as meninas não entendiam,
iniciava a próxima etapa, a mais excitante: o recorte da massa com uma carretilha.
Antes, vazia como as dunas, agora dava lugar à criação de peixes, bonecos,
estrelas, flores. As meninas observavam maravilhadas. Para elas, Anuda era realmente uma grande
desenhista.
Passavam a desejar e a imaginar
uma enorme carretilha para reproduzirem os desenhos de Anuda, quando brincavam na praia. Finalmente eram colocados em
assadeiras velhas, tão bem areadas que pareciam espelhos. Eram levados até o “peitão”
e deixados algum tempo. Só aí é que começavam a cheirar. Enquanto isso elas
gastavam sua ansiedade andando devagar pelo quintal da casa, dando conta dos
mínimos detalhes do ambiente.
Assamassassamassassamassassamassassamassa!
Os biscoitos estavam prontos! Eram retirados das assadeiras e colocados
cuidadosamente dentro de latas. As sobras que saíam quebradas ou mais tostadas
eram delas.
Capítulo XVI
Deitadas na areia da praia, elas
olhavam para o céu onde a luz do sol transformava as nuvens em capuchos de
algodão claros e brilhantes. Olha ali aquela nuvem, como parece com um velho, observava Ona. Ane olhava uma outra formação de nuvens
que se transformava muito devagar. Aquela lá parece um monte de carneirinhos,
não? Descansavam assim, vindas de outra brincadeira. Tinham colhido pedrinhas
no mar e separado-as em dois grupos: maiores e menores. Redondinhas e
lisas. O objetivo era fazer dois jogos
de cinco e brincar no chão de cimento da escola. Absortas em seu mundo de
fantasias, nem se davam conta do mundo.
De repente, um pequeno ruído assustou-as. Um desconhecido tremulava um
sorriso para elas, escondendo as mãos dentro da roupa. Assustadas,
identificaram sua fisionomia com o olhar de seu pai, quando estava “truviscado”
e parecia um desconhecido para elas. Num segundo reconheceram que o encontro
com aquele olhar era não só estranho, mas assustador. Tudo aconteceu muito rapidamente,
e antes que pudessem se levantar, ele desapareceu. Olharam-se apavoradas e não
conseguiam dizer nada à outra. Seria verdade? Naquele momento, que lhes pareceu
eterno, pensaram não ser só amigas, mas uma só. A sensação era de que a pancada
de uma onda forte lhes derrubara deixando impressa em seus corpos a sua força. Engoliam
tudo no seco! Pensavam o tempo todo
naquela cena, sentiam como se suas vidas, que eram brancas e limpas como as
nuvens e as dunas, a espuma do mar e as colchas de labirinto que a mãe fazia, e
as folhas de papel onde aprendiam a ler, tivessem sido manchadas. Na verdade,
se sentiam falta de cores, não era com aquela lembrança que queriam colorir
suas vidas.
Com
o tempo, passaram a experimentar um sentimento contraditório. Se por um lado
aquela visão as unia, parecia que também as separava. O medo as deixava estranhas
entre si. É que era algo tão aterrador que não tinham como conversar uma com a
outra. Não sabiam como começar, como dar nome às coisas, como dividir algo tão
terrível! Aqui, acolá, perguntavam-se solitariamente: quem seria aquele homem?
O que ele realmente queria com aquele sorriso parvo? Queriam afastar a lembrança
do encontro dos olhares, do tremor de suas mãos escondidas, mas não conseguiam;
a pergunta permanecia. Quem seria e onde ele estaria?
Disfarçadamente observavam
as figuras masculinas por toda a parte, mas o horror era tão grande que não
conseguiam ter certeza de nada. A visão do ocorrido não desaparecia de suas
vidas. Até quando tomavam o papel branco para escrever na escola, de repente
aparecia lá, misteriosamente, aquela mancha escura. Estava lá! Grande! Maior do
que o papel! Maior que Sunévia, maior
que o mapa, porque tirava parte da inteireza da vida. Como então estar por
inteiro aprendendo as palavras, os números? Como olhar para D. Zula, se seus olhos mostravam a
cena? Sentiam-se diferentes dos outros. Talvez menores.
Na praia, não se demoravam
mais apreciando a carreira dos pássaros no espelho da areia. A figura poderia
aparecer, imaginavam! Olhavam as cacimbinhas, e desaparecera o sabor de brincar
com os peixinhos e com os moluscos. Poderiam de repente refletir aquele olhar
por trás de sua imagem. Não olhavam mais o horizonte, porque para elas aquele
homem poderia aparecer de repente lá em cima de uma duna; enorme, aspecto
desleixado, barba por fazer, com aquele riso meio irônico, fazendo pouco delas.
Estavam sempre assustadas e um pouco solitárias. Era a estação das chuvas, e
uma nuvem sombria e triste estava sempre sob o céu, cobrindo o sol e os
caminhos. As marés eram fortes e arrastavam a areia da praia. O vento soprava
frio, contraindo seus músculos quando iam pra escola. Quando a chuva apareceu,
o céu ficou escuro. Veio o trovão e o aguaceiro. Estranho! Essa umidade é a areia
molhada de água que cai do céu e não que vem do mar, pensavam. Nunca tinham
imaginado que na praia poderia chover. E era deprimente! Como se as poucas
cores da vida tivessem perdido a definição. As conchinhas róseas, as pequenas
sombras, o roxo das flores de salsa e os frutos da árvore da praça de Sunévia. Os barcos desapareceram do
horizonte, que ficou vazio, infinito... Tudo era inexpressivo, sem gosto ou
cheiro. Era só presságio e aflição sobre a alma. Um nó na garganta sem ter quem
ajudasse a desatá-lo. No fim, elas se sentiam não só manchadas, mas também machucadas.
Um dia, no recreio da
escola, estavam sentadas conversando e repentinamente sentiram um forte arrepio.
Tudo ficou escuro. Elas suavam e tremiam, a ponto de quase desfalecerem. A cena
do dia em que provaram algodão-doce na praça da igreja de Sunévia veio à tona. Tão intenso, leve como as nuvens, branco como
as folhas de papel. Mas agora parecia um bocado de sal, selvagem, que alimentava
a ferida e a dor. Como fluxo de consciência perguntavam-se que medo é esse, tão
grande que não sabemos definir? Ao chegarem em casa, o medo foi acrescido da solidão. A mãe estava de saída. Mas como contar, se tinha sido ela mesma que
comprara a guloseima para elas?
Na pequena prateleira em
que colocava o óleo, o batom e o rouge, viram que o espelho estava trincado e de
cabeça para baixo, deixando à mostra o desenho da mulher despida, de cabelos compridos
e avermelhados. Ah! Então era aquela figura que não deixava o espelho se
espatifar de vez.
Capítulo XVII
Era um momento de calma.
Nada planejado. Cada qual com um graveto desenhava peixes na areia. Quero um bochechudo,
com a boca pequena e bicuda, Ane!
Pois eu não: quero um com raiva. Olhos arregalados e dentes de fora, Ona!
As ondas vinham apenas
perto de seus desenhos. Mas uma delas acusou a outra de ter deixado seu graveto
cair e ser levado pela onda. Começou a chorar e viçou irritada. Novamente se maldisseram,
juraram-se jamais se falar. Discutiram, disseram-se grosserias, rasgaram as
roupas uma da outra, destruíram seus brinquedos. Se bateram e se feriram. E os
ferimentos foram tão graves que ficaram inflamados, cheios de pontinhos
purulentos amarelados. Doíam feito alfinetadas. À noite, quando se deitavam, eles
latejavam exatamente no ritmo das batidas do coração. Tinham medo dele sair por
ali. A situação piorava porque não podiam contar uma com a outra; ainda estavam
intrigadas. Com a inflamação veio a febre; depois, o delírio. Um emaranhado de
imagens que antes se definiam totalmente, transformavam-se
Por fim, os olhares
assustados foram se afastando e olhares mais tranqüilos se aproximaram. Os gritos
se transformaram em vozes rezando baixinho e tudo se acalmou. Apareceu um
jardim em frente a uma casa branca que lhes parecia familiar. Uma sombra
agradável como a que elas mesmas haviam construído com a caixa de sapatos.
Depois caminharam e entraram numa sala misteriosa, como as harmonias do samba-canção
que tinham ouvido no sobradão. Ali encontraram algumas mulheres. Caladas, trabalhavam
com as mãos. Uma delas se aproximou e falou: nós somos as expelidas, as
desovadas, as desembuchadas, as despejadas! Nossa! Que palavras enormes, falou Ane. São polissílabas, exclamou Ona.
Uma outra mulher se
aproximou e disse: fomos concebidas na lama do mangue. Uma outra falou,
chegando perto das meninas: também fomos crianças e sonhávamos. Também
queríamos brincar e ser felizes, nos preparar para crescer e nos tornarmos
gentis. Mas fomos vendidas, compradas, trocadas, capturadas, raptadas, não
sabemos por quem! Entre elas, estava a figura do sonho anterior. Ela se
aproximou, confirmando o que já havia dito: se elas queriam deixar de brigar,
teriam que se separar. Para isso teriam que andar muito. Fazer uma viagem, longa,
por terras e mares. No fim, desatar um laço que as ligava. E o laço que formava
uma letra. Uma letra e um laço, perguntou uma delas. Sim, respondeu a figura.
Mas como, perguntou a outra. Durante a viagem, respondeu. É claro que perderão
coisas, advertiu-as. Perturbadas, se olharam e se perguntaram se valeria a pena
o desafio. Enfim, o que perderiam? Mas as dores e as manchas roxas no corpo
eram tantas, e em tal profundidade, que mesmo não acreditando muito no que o
sonho dizia, preferiram fazer a tal viagem. A figura desapareceu, aconselhando-as
a saírem antes que a luz da vésper aparecesse. Ora, mas já está quase na hora,
falaram assustadas. Os galos já estão cantando! Não vai dar tempo nem de trocar
a roupa. Saíram com a roupa do corpo porque não deu tempo sequer para a
preparação.
Logo no início se
depararam com uma tempestade de areia que apagava mapas e direções a ponto de
perderem a memória. Tudo ficou coberto de branco, sem uma trilha ou rastro para
guiá-las. A luminosidade foi aumentando. Dias e dias de luz intensa. Não
enxergavam nada. Punham a mão na testa tentando fazer uma pequena sombra nos
olhos para ver se enxergavam algum sinal do caminho, e nada... Para completar,
tudo mudou: uma intensa escuridão. Subiram e desceram seis rios e três cadeias
de montanhas de areias negras, cheias de símbolos enigmáticos. Um lamaçal
fétido apareceu à frente de seus olhos. Para atravessá-lo precisavam caminhar naquela
gosma escura, com as pernas enterradas até o meio. Ai que nojo, exclamou uma
delas! E que árvores enormes, acrescentou a outra. É que tinham que passar por
baixo de suas raízes. Pareciam estar num labirinto sem saída.. Lá pelo meio,
viram pedaços de corpos humanos sendo comidos pelos caranguejos.
Enganchado numa das
inúmeras raízes submersas, viram dois braços e uma cabeça que com o movimento
das águas pareciam acenar alegremente para elas. Aproximaram-se, e como parte
do rosto já tinha sido comido pelos bichos, ele parecia realmente sorrir. O mais
aterrorizante é que seus dentes eram pontiagudos como os dos peixes. Que
horror!
Seus cabelos tinham
virado algas verdes. O ambiente era abominável! Cheio de odores, uivos,
blasfêmias, suspiros e gritos amedrontadores. Continuando a viagem, passaram
por precipícios escorregadios, pedras lodentas, desfiladeiros e abismos.
Encontraram outras bestas-feras de olhar cataléptico, que uivavam e salivavam
com o odor de suas carnes. Elas tremiam de medo! Aterrorizadas, perguntavam-se
se conseguiriam ir até o fim, se não era melhor desistirem... Mas a verdade é
que já estavam longe demais para voltar. Caminharam, caminharam e então
apareceu um mar de sangue imundo, obsceno, ignóbil. Que palavras difíceis de
pronunciar, dizia Ane. São
paroxítonas, esclarecia Ona.
Olhavam para si e
comentavam: meu vestido está num estado deplorável, falou Ane! E esses furos malignos, como vou conseguir chegar até o fim,
continuou. Que palavrões você usa! Onde aprendeu tudo isso, perguntou Ona. Lá no dicionário, aquele que fica lá na estante da D. Zula, esclareceu a amiga.
Sozinhas, se agarraram
uma a outra e choraram de medo, cansaço, solidão, desespero e desamparo, até
que mesmo navegando no sangue entraram num grande túnel. Lá mais pra perto do
final começaram a aparecer pequenos seres desconhecidos. São pequenos peixes, disse
uma delas. Não! Que despautério, respondeu a outra. Já meio desesperadas, Ane perguntou: eles têm tentáculos? Não!
São até acéfalos, respondeu Ona.
Parecem coágulos, acrescentou. Ora, coágulo é palavra proparoxítona, pensaram
instantaneamente as duas. Atordoadas por causa da fadiga da viagem e das dificuldades
enfrentadas, quase iam esquecendo das instruções do sonho; o laço, a letra...
Olha lá! São dois
coágulos emendados! Pega eles! Rápido!
Um gesto e o som de um
pequeno clique...
O susto despertou-as.
Capítulo XVIII
Vés-per-vés-per-vés-per-vés-per-vés-per-vés-per-vés-per-vés-ti-dos, sussurravam em seus ouvidos, tentando acordá-las.
O recreio tinha sido realmente muito movimentado. Todos os alunos tinham
aproveitado o tempo para enfeitar o pátio da escola para as festas de final do
semestre. Cansadas, Ane e Ona tinham cochilado sentadas nas
carteiras. Os colegas fizeram uma brincadeira. Aproveitaram e amarraram entre
si os laços da cintura de seus vestidos e depois nas próprias carteiras. Elas
abriram os olhos, olharam em sua volta e viram que toda a classe olhava pra
elas e ria. Tentaram disfarçar o desapontamento, espreguiçando-se. Olharam-se e
desataram também a rir. Sabiam o que cada uma tinha vivido e aprendido. Na
volta da escola notaram que o sol voltava a enfiar sua luz pelas frestas das nuvens.
Na areia da praia relembravam seus sonhos, desenhando-os. Primeiro um grande
laço em forma de “M”. Depois colocaram seus nomes de um lado e de outro do
laço.
Olha! disse Ona.
Ane- M- Ona! Aquela flor lá do meio das pedras
nas cacimbinhas. D. Zula falou que
ela é a primeira flor que nasceu no mar. Ela se encolhe quando é tocada,
acrescentou Ane. Fica como o cuzinho
dos gatos e como as flores de salsa quando murcham. Ha! Ha, Ha!
E continuaram a desenhar,
descobrindo e inventando palavras com “M”.
M de Mamãe, M de mulher, M de menina,
de malcriada, de maltratada, de mal-ouvida, malvada, enquanto a maré vinha e
apagava tudo. Lá na vila, a radiadora realizava o desejo de Tedia; a “Hora do Ângelus”.
O’ douleur, l’avenir nous separe!
Et d’effroi mon coeur est tremblant..
Un tourment trop cruel me devore à
jamais!
Est-ce que donc fait de mon bonheur.
Ah! comprends ce regard qui te
implore,
Qui voudrait flechir ta rigueur!
Le remords, tu le vois, me devore, à
jamais!
Ne peux-tu sauver mon bonheur.